segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

XIII

Promise of Spring, Lawrence Alma-Tadema


Ouves, amada, a alegre gritaria vinda da Via Flamínia?
São ceifeiros, regressam de novo a suas casas,
Longe daqui. Concluíram a colheita para o Romano,
Que não se baixa sequer para tecer uma coroa de flores para Ceres.
Já não se dedicam festas à grande Deusa
Que não dava bolotas como alimento, mas o trigo doirado.
Celebremos aqui em silêncio e alegria a nossa festa:
Dois seres que se amam muito, em vez do povo reunido.
Alguma vez ouviste falar daquela cerimónia mística
Que outrora acompanhava o vencedor de Elêusis até aqui?
Os Gregos criaram-na, e mesmo entre os muros de Roma
Só os Gregos chamavam sempre: «Venham à noite sagrada!»
E então fugia o profano, e à espera tremia o noviço
Que um hábito branco, símbolo de inocência, envolvia.
Assombrosos círculos de figuras estranhas
Confundiam o iniciado como se num sonho flutuasse, pois
No santuário serpenteavam cobras e moças passavam,
Coroadas de flores e espigas, trazendo nas mãos cofres fechados.
Com gestos ambíguos os sacerdotes sussuravam,
Impaciente e receoso o aprendiz ansiava por luz.
Só após muitas provas, voltando muitas vezes, ele soube
O que o círculo sagrado ocultava em estranhas imagens.
E qual era o segredo? Que também a grande Deméter
De bom grado se deitou um dia de costas
Quando cedeu ao nobre Iásion, o vigoroso rei dos Cretenses,
O doce segredo do seu corpo imortal.
Como se regozijou Creta, pois o leito nupcial da Deusa
Estava repleto de espigas e o campo pejado de trigo.
Mas o resto do mundo passava fome, pois no deleite
Do amor Ceres faltava ao seu belo ofício.
Cheio de espanto o iniciado ouviu a lenda,
Fez sinal à amada — Entendes tu agora, amor, o sinal?
Segue-me depressa até ao canavial no fundo da vinha,
O nosso prazer não traz perigo ao mundo.


Goethe, Erotica Romana
Cavalo de Ferro, Lisboa: 2005. (trad.: Manuel Malzbender)

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