quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Googlius

Ut munimenta linguarum convellamus et scientiam mundi patentem utilemque faciamus, instrumenta convertendi multarum nationum linguas creavimus. Hodie nuntiamus primum instrumentum convertendi linguam qua nulli nativi nunc utuntur: Latinam. Cum pauci cotidie Latine loquantur, quotannis amplius centum milia discipuli Americani Domesticam Latinam Probationem suscipiunt. Praeterea plures ex omnibus mundi populis Latinae student.

Hoc instrumentum convertendi Latinam rare usurum ut convertat nuntios electronicos vel epigrammata effigierum YouTubis intellegamus. Multi autem vetusti libri de philosophia, de physicis et de mathematica lingua Latina scripti sunt. Libri enim vero multi milia in Libris Googlis sunt qui praeclaros locos Latinos habent.

Convertere instrumentis computatoriis ex Latina difficile est et intellegamus grammatica nostra non sine culpa esse. Autem Latina singularis est quia plurimi libri lingua Latina iampridem scripti erant et pauci novi posthac erunt. Multi in alias linguas conversi sunt et his conversis utamur ut nostra instrumenta convertendi edoceamus. Cum hoc instrumentum facile convertat libros similes his ex quibus edidicit, nostra virtus convertendi libros celebratos (ut Commentarios de Bello Gallico Caesaris) iam bona est.


Não perceberam? Tentem o Google Translate para Latim.

Homer Humor


retirados daqui.

lendo de Ovídio as metamorfoses

O meu corpo transforma-se em árvore
lendo de Ovídio as metamorfoses
e com o meu braço falo aos Arcontes
de seres que não sucederam,
e como Minniever Cheevy
I keep on drinking.

Leopoldo María Panero, Conversação, Pedro Serra (trad.), Moby Dick - Inimigo Rumor, 2003.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Teeteto: O Musical - II

— Vê então, se também é possível possuir assim o saber, sem o ter. É como se alguém tivesse caçado umas aves silvestres, pombas ou quaisquer outras, construísse em casa um pombal e tomasse conta delas; diríamos que de certo modo sempre as tem, porque sem dúvida as possui, não?
— Sim.
— E, contudo, noutro sentido, não tem nenhuma delas, mas tem poder sobre elas, pois guardou-as pelas suas mãos no seu pombal e cada vez que quiser agarrá-las e tê-las e de novo deixá-las ir, faz isso, pois caça-as sempre que quiser. E é capaz de o fazer quantas vezes lhe parecer.
— É assim.
— Então, tal como antes equipámos as nossas almas com não sei que dispositivo de cera, ponhamos agora um pombal, com todo o tipo de aves em cada alma, umas em grupos numerosos, separadas das demais, outras em grupos pequenos e outras sós, voando ao acaso entre todas.
— Façamos assim. E daí?
— Há que dizer que, enquanto crianças, este receptáculo está vazio e em lugar de aves há saberes. Quando tomamos posse do saber, encerramo-lo nesse recinto e dizemos que aprendemos ou descobrimos a coisa de que tratava esse saber. E isso é saber. [...] Quando te lanças à caça de um saber daqueles que estão a voar de um lado para o outro e agarras um em vez do outro, cometes um erro.

Platão, Teeteto 197c-d & 199b3
Gulbenkian, Lisboa: 2008. (trad.: Adriana Nogueira e Marcelo Boeri).

[Σωκράτης — ὅρα δὴ καὶ ἐπιστήμην εἰ δυνατὸν οὕτω κεκτημένον μὴ ἔχειν, ἀλλ᾽ ὥσπερ εἴ τις ὄρνιθας ἀγρίας, περιστερὰς ἤ τι ἄλλο, θηρεύσας οἴκοι κατασκευασάμενος περιστερεῶνα τρέφοι, τρόπον μὲν [γὰρ] ἄν πού τινα φαῖμεν αὐτὸν αὐτὰς ἀεὶ ἔχειν, ὅτι δὴ κέκτηται. ἦ γάρ;
Θεαίτητος — ναί.
Σωκράτης — τρόπον δέ γ᾽ ἄλλον οὐδεμίαν ἔχειν, ἀλλὰ δύναμιν μὲν αὐτῷ περὶ αὐτὰς παραγεγονέναι, ἐπειδὴ ἐν οἰκείῳ περιβόλῳ ὑποχειρίους ἐποιήσατο, λαβεῖν καὶ σχεῖν ἐπειδὰν[197δ] βούληται, θηρευσαμένῳ ἣν ἂν ἀεὶ ἐθέλῃ, καὶ πάλιν ἀφιέναι, καὶ τοῦτο ἐξεῖναι ποιεῖν ὁποσάκις ἂν δοκῇ αὐτῷ.
Θεαίτητος — ἔστι ταῦτα.
Σωκράτης — πάλιν δή, ὥσπερ ἐν τοῖς πρόσθεν κήρινόν τι ἐν ταῖς ψυχαῖς κατεσκευάζομεν οὐκ οἶδ᾽ ὅτι πλάσμα, νῦν αὖ ἐν ἑκάστῃ ψυχῇ ποιήσωμεν περιστερεῶνά τινα παντοδαπῶν ὀρνίθων, τὰς μὲν κατ᾽ ἀγέλας οὔσας χωρὶς τῶν ἄλλων, τὰς δὲ κατ᾽ ὀλίγας, ἐνίας δὲ μόνας διὰ πασῶν ὅπῃ ἂν τύχωσι πετομένας.[197ε]
Θεαίτητος — πεποιήσθω δή. ἀλλὰ τί τοὐντεῦθεν;
Σωκράτης — παιδίων μὲν ὄντων φάναι χρὴ εἶναι τοῦτο τὸ ἀγγεῖον κενόν, ἀντὶ δὲ τῶν ὀρνίθων ἐπιστήμας νοῆσαι: ἣν δ᾽ ἂν ἐπιστήμην κτησάμενος καθείρξῃ εἰς τὸν περίβολον, φάναι αὐτὸν μεμαθηκέναι ἢ ηὑρηκέναι τὸ πρᾶγμα οὗ ἦν αὕτη ἡ ἐπιστήμη, καὶ τὸ ἐπίστασθαι τοῦτ᾽ εἶναι.]

Algo Mais Épico Sem Dúvida

00.30 e eis-me aqui
fumando até matar-me
diante de uma tela negra
besuntada de manchas
verdes.

Aí fora, em alguma
parte, em todas,
ensaios de cadáver
arrastam-se até ser manhã
na esteira de outra
noite vazia.

Pergunto-me
o que teria dito
Homero.

Roger Wolfe in Días sin pan (antologia)

retirado, inclusive o título (seja-nos perdoada a cópia descarada), daqui.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Teeteto: O Musical - I

— E será que te apercebeste de outra coisa sobre elas [as parteiras], isto é, que são as mais hábeis casamenteiras, visto serem as que sabem tudo sobre o tipo de mulher necessário para aquele tipo de homem, a fim de dar à luz as crianças mais excelentes?
— Não sei absolutamente nada disso.
— Mas fica a saber que têm mais orgulho nisso do que em cortar o cordão umbilical. Reflecte, então. Pensas que a arte que cultiva e colhe os frutos da terra é a mesma que a que tem o conhecimento de qual é a terra boa para um determinado vegetal e qual a semente que se deve rejeitar, ou é outra arte?
— Não; penso que é a mesma.
— E, no caso das mulheres, meu caro, pensas ser esta arte diferente da da colheita?
— Não me parece que assim seja.

Platão, Teeteto 149d5-150
Gulbenkian, Lisboa: 2008. (trad.: Adriana Nogueira e Marcelo Boeri).

[Σωκράτης — ἆρ᾽ οὖν ἔτι καὶ τόδε αὐτῶν ᾔσθησαι, ὅτι καὶ προμνήστριαί εἰσι δεινόταται, ὡς πάσσοφοι οὖσαι περὶ τοῦ γνῶναι ποίαν χρὴ ποίῳ ἀνδρὶ συνοῦσαν ὡς ἀρίστους παῖδας τίκτειν;
Θεαίτητος — οὐ πάνυ τοῦτο οἶδα.
Σωκράτης — ἀλλ᾽ ἴσθ᾽ ὅτι ἐπὶ τούτῳ μεῖζον φρονοῦσιν ἢ ἐπὶ [149ε] τῇ ὀμφαλητομίᾳ. ἐννόει γάρ: τῆς αὐτῆς ἢ ἄλλης οἴει τέχνης εἶναι θεραπείαν τε καὶ συγκομιδὴν τῶν ἐκ γῆς καρπῶν καὶ αὖ τὸ γιγνώσκειν εἰς ποίαν γῆν ποῖον φυτόν τε καὶ σπέρμα καταβλητέον;
Θεαίτητος — οὔκ, ἀλλὰ τῆς αὐτῆς.
Σωκράτης — εἰς γυναῖκα δέ, ὦ φίλε, ἄλλην μὲν οἴει τοῦ τοιούτου, ἄλλην δὲ συγκομιδῆς;
Θεαίτητος — οὔκουν εἰκός γε.]

"British Library digitises Greek manuscripts"



Quem lida com os problemas de transmissão dos textos gregos com alguma regularidade está já habituado a ouvir dizer que muitos deles chegaram despedaçados, gramaticamente instáveis, já para não falar de até por vezes francamente ilegíveis. Mas há ainda alguns exemplos —principalmente de textos sagrados cristãos— que tiveram a sorte de ser copiados não só com brio como também com arte em pleno sentido. Constantinopla, a capital do Império Romano do Oriente, foi o repositório principal de muitos desses manuscriptos.

Temos a agradecer à Elsa a passagem da novidade da disponibilização online por parte da British Library de várias centenas (e para aumentar) de codices, papiros, etc, tanto dos famosos fragmentos como de brilhantes iluminuras de textos gregos. A press release está aqui, e a base de dados aqui.

Fragmentos dum manuscripto da Ilíada

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Hábito Faz o Monge


O costume é para o homem um deus.*
ἦθος ἀνθρώπωι δαίμων.

Heraclito DK B119.
in Hélade, de Maria Helena Rocha Pereira
Asa, Porto: 2003.

Direi frontalmente: Stepan Trofímovitch sempre desempenhou entre nós um papel especial e, por assim dizer, cívico, gostando deste papel até à paixão — a tal ponto que, segundo me parece, não podia viver sem ele. Não significa que eu o compare a um actor teatral: Deus me livre de semelhante coisa, até porque o respeito muito. Neste caso, tratava-se por certo de um hábito, ou melhor, de uma propensão imutável e nobre, desde os anos da infância, para o deleitoso sonho da sua bela posição cívica. Por exemplo, agradava-lhe muitíssimo a sua situação de «perseguido» e, por assim dizer, «deportado». Existe em ambos os termos uma espécie de brilho clássico que o seduziu de uma vez por todas e que, elevando-o paulatinamente a seus próprios olhos, durante muitos anos, o içou a um pedestal bem alto e muito gratificante para o seu amor-próprio. Num romance satírico inglês do século passado, um tal Gulliver, no seu regresso do país dos liliputianos, onde as pessoas não tinham mais do que umas três polegadas de estatura, como se habituara tanto a considerar-se a si mesmo um gigante, andava pelas ruas de Londres gritando que se afastassem, que tivessem cuidado ou ele as pisaria, continuando a imaginar que era gigante e os outros todos pequeninos. Riam-se dele e insultavam-no, e os cocheiros mal-criados chegavam mesmo a dar-lhe com os chicotes; no entanto, seria isso justo? O que não faz o hábito? Pois bem, o hábito levou quase à mesma situação o nosso Stepan Trofímovitch, porém de uma forma mais inocente e inofensiva, se me é permitida a expressão, já que ele era uma excelentíssima pessoa.
[...]
— Vejo que o capitão não mudou nada nestes quatro anos e tal — disse Nikolai Vsevolodovitch, num tom um pouco mais carinhoso. — Afinal, é verdade que toda a segunda metade da vida humana se compõe tão-só de hábitos adquiridos durante a primeira metade.

Dostoiévski, Demónios
Presença, Lisboa: 2008. (trad.: os Guerra).

* Fique claro que eu discordo desta tradução. É um fragmento muito complicado de verter, mas esta não me parece, de facto, a melhor solução. Contudo, funcionava muito bem neste post, tanto mais que, aparentemente (pelo menos ao fim de todas as minhas investigações nada acho), Aristóteles nunca disse explicitamente (i.e., ipsis verbis), como eu julgava (e esperava citá-lo aqui), que o hábito é uma segunda natureza, mesmo se vários passos da sua Ética apontam nesse sentido. Coube pois a Heraclito representar, ainda que talvez indevidamente, essa posição, neste diálogo.

domingo, 26 de setembro de 2010

A Maldição de Babel

Depois da cidade ou da urbe, vem o orbe da Terra. Neste é que põem o terceiro degrau da sociedade humana. Começam pelo lar familiar, passam à urbe e acabam no orbe. Este, como o acervo das águas, quanto maior é, tanto mais cheio de perigos está. É principalmente neste que a diversidade das línguas torna o homem um estranho para o homem. De facto, se dois homens, nenhum dos quais conhece a língua do outro, caminharem ao encontro um do outro mas, por qualquer razão, em vez de se cruzarem têm de ficar no mesmo lugar — é mais fácil que dois animais mudos, mesmo de género diferente, convivam em sociedade, do que aqueles dois, apesar de ambos serem homens. Efectivamente, quando não podem comunicar um ao outro o que sentem apenas por causa da diversidade da língua, de nada serve para levar os homens ao convívio social a sua tão grande semelhança de natureza — e tanto é assim, que o homem tem mais prazer em estar com o seu cão do que com um estrangeiro.

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro XIX, Cap. VII
Gulbenkian, Lisboa: 1995. (trad.: J. Dias Pereira).

imagem: Torre de Babel, de Pieter Bruegel, O Velho
c. 1563, @ Kunsthistorisches Museum, Viena.

Bassae

Bassae (1964), de Jean-Daniel Pollet, curta poética em torno do Templo de Apolo, na cidade homónima. Um exercício de fascínio helénico sobre o poder do tempo.


Sim, isto já esteve na página da Origem há muito muito tempo atrás, quando ainda nem havia blog. Recuperandum'autem'st.

Fides tua te salvum fecit



Faz todo o sentido pensar que aquilo que todas as pessoas adoram é na verdade uma so coisa. Olhamos para as mesmas estrelas, o céu é pertença comum, e o universo envolve-nos a todos por igual; o que é que interessa os ritos com que cada um procura a Verdade? Não se pode chegar por um só caminho a um tão grande segredo.

Símaco, Terceira Relação, ou Epístula Sobre o Altar da Vitória

[Aequum est, quidquid omnes colunt, unum putari. Eadem spectamus astra, commune caelum est, idem nos mundus involvit. Quid interest, qua quisque prudentia verum requirat? Uno itinere non potest perveniri ad tam grande secretum.]

Ptolomeu contemplando os astros, auxiliado pela musa Astronomia

A tragédia está nas ruas!

After him came a man with the following story: On his walks through the streets—though it was even more exciting when one rode a trolley— he had for years been in the habit of counting the number of straight strokes in the big block letters of the ship signs (there were three strokes in an A, for instance, and four in an M) and dividing the sum total by the number of letters counted. His average so far had been consistently two and a half strokes to a letter, but this was obviously not invariable, since it could change with every new street. Now, deviations from the norm could be quite distressing, while there was great satisfaction every time the numbers came out right— an effect quite like the catharsis said to be achieved while watching classical tragedy on the stage.

Robert MusilO Homem Sem Qualidades. Tradução de Sophie Wilkins e Burton Pike. Picador. (1995)

Música Grega #2


"Hino à Musa", do compositor sortudo Mesómedes, cujos poemas nos chegaram com notação musical.

canta, minha querida Musa,
preside à minha melodia-
e com a brisa dos teus bosques
desperta-me a inspiração

sábia Calíope,
líder das deliciosas musas,
e tu também, sábio sacerdote dos mistérios,
filho de Leto, Péan de Delos,
sede-me ambos favoráveis

ἄειδε Μοῦσά μοι φίλη,
μολπῆς δ᾿ ἐμῆς κατάρχου·
αὔρη δὲ σῶν ἀπ᾿ ἀλσέων
ἐμὰς φρένας δονείτω.

Καλλιόπεια σοφά,
Μουσῶν προκαθαγέτι τερπνῶν,
καὶ σοφὲ μυστοδότα,
Λατοῦς γόνε, Δήλιε Παιάν,
εὐμενεῖς πάρεστέ μοι.

sábado, 25 de setembro de 2010

Monty Python — The Philosophers Song

Dez Grandes Estadistas Atenienses

Acaba de ser lançado nas livrarias o livro Dez Grandes Estadistas Atenienses, de José Ribeiro Ferreira e Delfim Leão, ambos professores de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra. Esta obra resulta da confluência da investigação desenvolvida pelos seus autores, ao longo de quase duas décadas, sobre matérias relacionadas com a história da Grécia antiga. O volume cobre, mais em particular, o período compreendido entre a segunda metade do séc. VII e o último quartel do séc. V a.C., facultando uma abordagem diacrónica da evolução político-constitucional de Atenas, através da análise da obra de dez grandes estadistas.

Além da discussão crítica da bibliografia especifica mais significativa, a análise privilegia o uso das fontes antigas como principal fio condutor da exposição, pois é dessas mesmas fontes literárias (frequentemente conjugadas com os dados fornecidos pela arqueologia, epigrafia e numismática) que resulta o conhecimento em primeira mão do que hoje se sabe sobre a antiguidade clássica. Ao elaborar esta análise de dois séculos e meio da história político-constitucional de Atenas, os autores guiaram-se pelo objectivo de encontrar o equilíbrio entre uma forma de exposição que possa ser simultaneamente útil a especialistas em antiguidade clássica, a estudantes de nível avançado e ainda ao público em geral.

(informação retirada daqui)

Platão sem qualidades



For some reason newspapers are not the laboratories and experimental stations of the mind that they could be, to the public's great benefit, but usually only its warehouses and stock exchanges. If he were alive today, Plato to take him as an example, because along with a dozen others he is regarded as the greatest thinker who ever lived would certainly be ecstatic about a news industry capable of creating, exchanging, refining a new idea every day; where information keeps pouring in from the ends of the earth with a speediness he never knew in his own lifetime, while a staff of demiurges is on hand to check it all out instantaneously for its content of reason and reality. He would have supposed a newspaper office to be that topos uranios, that heavenly realm of ideas, which he has described so impressively that to this day all the better class of people are still idealists when talking to their children or employees. And of course if Plato were to walk suddenly into a news editor's office today and prove himself to be indeed that great author who died over two thousand years ago, he would be a tremendous sensation and would instantly be showered with the most lucrative offers. If he were then capable of writing a volume of philosophical travel pieces in three weeks, and a few thousand of well-known short stories, perhaps even turn one or the other of his older works into a film, he could undoubtedly do very well for himself for a considerable period of time. The moment his return had ceased to be news, however, and Mr. Plato tried to put into practice one of his well-known ideas, which had never quite come into their own, the editor in chief would ask him to submit only a nice little column on the subject now and then for the Life and Leisure section (but in the easiest and most lively style possible, not heavy: remember the readers), and the features editor would add that he was sorry, but he could use such a contribution only once a month or so, because there were so many other good writers to be considered. And both of these gentlemen would end up feeling that they had done quite a lot for a man who might indeed be the Nestor of European publicists but still was a bit outdated.

Robert Musil, O Homem Sem Qualidades. Tradução de Sophie Wilkins e Burton Pike. Picador. (1995)

Música Grega #1


Na grande maioria das composições dentro da tradição de música ocidental, as melodias são compostas a partir de notas intervaladas em meios tons. Dó, Dó#, Ré, Ré#, Mi, Fá, etc, todos têm um intervalo de meio tom entre eles. A sequência desses tons dá origem a um número de escalas, das quais as mais usadas são sem dúvida a escala menor e a Maior, consoante o posicionamento dos intervalos maiores (1 tom) e menores (1/2 tom) em sequência. Não assim na teoria musical grega, assente no pressuposto pitagórico da simbiose da matemática e da música. Os gregos não se ficaram por intervalos de 1 tom ou de meio, mas continuaram a dividir a dividir, o meio tom em um quarto de tom, o quarto de tom num oitavo de tom, chegando até a escrever sobre escalas que utilizariam tons divididos em 16 segmentos (!), por vezes até com razões filosóficas, tais como construir uma escala que incluísse o número de ouro.

Como é natural se pensarmos que em duas notas entre as quais hoje há apenas um meio tom, um intervalo grega poderia ter 3 notas, 7, ou até mesmo, em casos extremos, 15, a escolha de escalas era bastante mais vasta do que as que temos à disposição corrente hoje, sendo que das 12 escalas de que temos informações, 7 eram utilizadas quotidianamente, cada uma associada a um determinado tipo de carácter e sensibilidade humana, da mesma maneira que hoje em dia as escalas maior e menor são emparelhadas, respectivamente, pela dicotomia positivo/negativo.


Friend and reader of Horace

Please don’t talk to me again about Horace
and learning to die.
No one learned that,
it just befell them,
a bit like being born.

Günter Eich, Angina Days: Selected Poems, Michael Hoffman (trad.), Princeton University Press, 2010.

A Odisseia em 15 Segundos

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Campo & A Cidade - Ciclo de Sessões

A APEC (Associação Portuguesa de Estudos Clássicos), em parceria com o Instituto de Estudos Clássicos da FLUC, volta este ano a organizar um ciclo de sessões de tema clássico (e não só) no Justiça & Paz, no coração da cidade universitária de Coimbra. Este ano, três dos oradores são inclusive membros da Origem da Comédia. As sessões, note-se, são abertas. Eis a informação que nos foi enviada sobre o evento:
O Campo e a Cidade têm de modo geral interesses diferentes — às vezes mesmo opostos — e apresentam também ofertas e atractivos diversos. Se, na pólis grega, esse antagonismo não era muito visível, com o decorrer dos tempos foi-se acentuando. Escolhemo-lo, por isso, para assunto do ciclo de sessões do primeiro semestre do curso Sociedade e Cultura, e vai ser abordado em dois aspectos: «Natureza e jardins: realidade e fantasia» e «Animais na religião, no mito, na arte, na literatura».

Aí encontraremos as belezas naturais e os animais dos frescos minóico-micénicos; as estranhas formas híbridas de Sereias, Centauros, Sátiros; a dedicação e sensibilidade do cão e do golfinho; as descrições e criações de escritores e poetas, as utopias dos pensadores, as construções do mito. Não se esgotará o assunto, é evidente, mas mesmo assim serão tratados muitos aspectos da Antiguidade aos nossos dias.

Natureza & Jardins: Realidade e Fantasia
(sempre às 11:00, salvo indicação em contrário)

22/09 — Apresentação do Curso
29/09 (às 16:00) — Reflexões Sobre a Natureza, com Anselmo Borges
06/10 — Paisagem e Natureza em Tera, com Maria Helena da Rocha Pereira
13/10 — A Natureza nos Poemas Homéricos e na Poesia Grega Arcaica, com Frederico Lourenço
20/10 — O Tema das Violetas entre os Gregos, com Carlos Jesus
27/10 — O Campo e a Cidade em Aristófanes, com Maria de Fátima Silva
03/11 — Os Romanos e a Vida no Campo: a Villa e o Otium Cum Dignitate, com Francisco Oliveira
10/11 — Natureza e Jardins na Domus Aurea, com José Luís Brandão
17/11 — Os Jardins da Babilónia: Mitos e Realidades, com Nuno Simões Rodrigues
24/11 — A Natureza e os Jardins nos Humanistas, com Nair de Castro Soares
15/12 — As Vilegiaturas, com Ana da Piedade Elias e Luís Fernandes
15/12 — Natureza e jardins na Bíblia, com José Augusto Ramos
05/01 — Jardins na Idade Média, com Paula Barata Dias
12/01 — Cenário Urbano no 'Satyricon' de Petrónio, com Delfim Leão
19/01 — Os Jardins na 'Divina Comédia', com Manuel Ferro
26/01 — As Duas Visões de Cidade em Sophia de Mello Breyner Andresen, com José Ribeiro Ferreira


Os Animais na Religião, no Mito, na Arte, na Literatura
(sempre às 14:30, salvo indicação em contrário)

22/09 — Os Seres Híbridos: Centauros, Sátiros, Sereias, Esfinges e Outros, com José Ribeiro Ferreira
29/09 — Os Animais no Egipto, com Luís Miguel Araújo
06/10 — Pólis, Deuses e Animais, com [conferencista a indicar]
13/10 — Os Animais na Literatura: Três ou Quatro Exemplos, com [conferencista a indicar]
20/10 — Os Animais na Arte Greco-Romana, com José Ribeiro Ferreira
27/10 — A Simbologia dos Animais no 'Apocalipse', com Isaías Hipólito
03/11 — Os Animais nos Espectáculos Romanos, com [conferencista a indicar]
10/11 — Os Ternos e Sensíveis Animais de Virgílio, com [conferencista a indicar]
17/11 — Os Animais na Fábula, com Nélson Henrique Ferreira
24/11 — A Lenda de Aríon Salvo por um Golfinho, com Luísa de Nazaré Ferreira
15/12 (às 11:00) — Crianças e Animais na Arte Grega, com Luísa de Nazaré Ferreira
05/01 — As Plantas e os Animais na Alimentação, com Paula Barata Dias
12/01 — O Culto a Pã, às Ninfas e aos Rios, com Ana Seiça
19/01 — As Aves em Camões, com José Augusto Bernardes
26/01 — Animais na Poesia Contemporânea, com Maria Helena da Rocha Pereira

imagens: os Jardins Suspensos da Babilónia, segundo Martin Heemskerck.
Quimera. Vaso de figuras vermelhas da Apúlia (c. 350-340 a.C.) @ Louvre, Paris.

Pré-Socráticos #3: Heraclito

Terceira sessão do ciclo Tertúlias Pré-Socráticas, promovido pela associação Origem da Comédia. Alexandre Sá fala-nos do famoso Heraclito, dito O Obscuro, de quem nos chegaram pouco mais que uma centena de fragmentos. Esses bastaram, porém, para que conquistasse a admiração de Hegel, Nietzsche ou Heidegger, entre tantos. Nele encontramos, a título de curiosidade, o primeiro registo da palavra «filósofo». A sua doutrina do fluxo eterno e da unidade dos opostos, bem como o seu estilo muito próprio, quase oracular, a tempos, continuam a fascinar quem se confronta com o que dele nos chegou. Sessão decorrida no dia 17 de Março de 2010, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra.

Evviva a Internet - Discovery Project

Certas coisas nunca nos deveriam deixar de espantar, por mais habituados que estejamos à imensidão da internet. Já há algum tempo aqui colocámos um website, de que muito nos temos valido, com a edição completa da famosa edição dos filósofos pré-socráticos de Diels-Kranz, acessível aqui. Mas muito nos haveríamos ainda de espantar quando descobrimos que o mesmo site que disponibiliza essa edição faz o mesmo para uma série de outras áreas de estudo.  De especial interesse para o público deste blog encontramos ainda as Vidas dos Filósofos de Diógenes Laércio, a colecção de todos os Testemunhos sobre Sócrates. Mas o site em si contém ainda um depositório de Filosofia Moderna, assim como as obras completas de Nietzsche (desde as obras publicadas aos manuscriptos e cadernos, ou seja, as obras completas, a chamada Gesamtausgabe), assim como os Nachlass de Wittgenstein [fragmentos incategorizáveis]. Um verdadeiro tesouro, um El Dorado para qualquer philosophos.

Todas as bases de dados do Discovery Project neste link.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Long Live Camp!

Em 1958 estreou Le Fatiche di Ercole [Os Feitos de Hércules], de Pietro Francisci, um filme italiano com o culturista Steve Reeves no papel principal. Hoje todos estes nomes caíram no esquecimento, mas eles estão ligados a uma parte menor da história do cinema na passagem dos anos 50 para a década de 60. O filme de Francisci, ainda que isso hoje nos custe a acreditar, foi um verdadeiro sucesso para a época, fazendo do actor principal, no auge da sua fama, o mais bem pago da Europa, e despoletando uma série de filmes afins, a começar por uma sequela, em 1959: Ercole e la regina di Lidia [Hércules e a Rainha da Lídia]. Estes filmes, que se baseavam muito vagamente em mitos clássicos, constituem, por si só, um sub-género dentro dos pepla, sendo quase exclusivamente de origem italiana e tendo sido produzidos na ordem das dezenas. São, sem sombra de dúvida, maus filmes, mas o camp tem o seu fascínio (fala um devoto da Xena, sobre a qual ainda hei-de escrever aqui um dia, ou vários). O Tarantino cresceu a ver filmes destes no videoclube (no caso dele, eram fundamentalmente filmes série B, mas a nível de 'qualidade' não é muito diferente). O vídeo acima é o início do filme Ulisses Contra O Filho de Hércules (digam lá que o título não promete!), de 1962, de Mario Caiano. Enjoy.

Nativos

Na página oficial do produto: «You will hear Latin all of the time and, using the recording games, you can start speaking straight away, then compare your voice to a native speaker». Bem, uma pessoa devia logo ter desconfiado que havia algo de errado quando na capa aparece um romano a falar ao telemóvel.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Fortuna Imperatrix Mundi

A Fortuna, que corrompe a vida toda,
cuja natureza não conhece a moderação,
que mistura e depois serve de novo,
agora é ela própria taberneira, não deusa,
tem um ofício digno do seu carácter.

Páladas de Alexandria, Antologia Palatina 9.180
in Do Mundo Grego Outro Sol, Asa, Porto: 2001. (trad.: Albano Martins).

Páladas é um dos mais interessantes poetas antologiados na famosa Antologia Palatina. Gramático de profissão, residente em Alexandria, pagão, assistiu ao período conturbado do patriarcado de Teófilo, na passagem do século IV para o V, em que o cristianismo triunfou simbolicamente sobre o paganismo, com a destruição do templo de Serápis (o acontecimento com que culmina a primeira metade do Ágora, de Amenábar). Há, talvez por isso, um tom de desencanto que atravessa os seus poemas mais sérios, a consciência de que uma época chega ao seu fim e a consequente sensação de ser um exemplar anacrónico que restou de outros tempos, com a solidão que acompanha esse sentimento (ele tem, aliás, um belíssimo epigrama sobre isso). Poder-se-ia ler o poema acima nesta chave: uma reflexão mordaz sobre as voltas da roda da fortuna. Ainda assim, creio não estar em erro ao arriscar que muitos leitores estarão ainda a pensar no que possa significar aquele dístico final: que quer Páladas dizer com aquela imagem da Fortuna taberneira? Pois bem,
The cults of other traditional gods were discontinued at this time [depois da destruição do Serapeum], including that of Tyche [Fortuna], the former protectress of the city's abundance and good fortune. Palladas has left to us three enchanting epigrams depicting the transformation of the Tychaion into a wineshop. In these poems, Palladas plays upon the current misfortune of Fortune and he notes with some irony that "Thou who hadst once a temple, keepest a tavern in thy old age,/ and we see thee now serving hot drinks to mortals". The statues in the Tychaion, however, escaped destruction and existed at least until the Persian conquest in 619.
Christopher Haas, Alexandria in Late Antiquity - Topography and Social Conflict.
Johns Hopkins University Press, Baltimore & Londres: 1997.

Dominatrix

Aristóteles aconselhava Alexandre a conter-se e a não ir ter tantas vezes com a sua mulher, que era particularmente bonita, para que o seu espírito não descurasse o bem comum. Alexandre aquiesceu, mas a rainha, apercebendo-se disso, desgostosa, começou a seduzir Aristóteles, percorrendo os paços de pés descalços e cabelos soltos, tudo para o aliciar. Conquistado, por fim, o filósofo começou a solicitá-la carnalmente, mas ela disse: «De modo algum o farei, sem ter visto provas do teu amor, não se dê o caso de me estares a tentar. Vem primeiro até ao meu quarto, de gatas, para eu te montar como a um cavalo. Então saberei que não me estás a enganar». Depois de o filósofo concordar com esta condição, a rainha avisou Alexandre do facto. Este, que estava à espereita, apanhou-o a levar a rainha. A Alexandre, que o queria matar, disse então Aristóteles, em jeito de desculpa: «Se uma coisa destas acontece a um velho tão sábio, ao ponto de conseguir ser enganado por uma mulher, podes ver-ificar o quão bem te ensinei, pois pode acontecer-te o mesmo a ti, que és jovem». Ao ouvir isto, o rei perdoou-lhe, e continuou a progredir no seu magistério.

Esta é uma lenda que surgiu na Idade Média, atestada pelo menos desde o século XIII. Foi bem acolhida, pelo seu evidente valor didático, em que os valores da época se encontram plasmados de uma forma engraçada mas clara, tendo-se o tema de Fílis e Aristóteles convertido num motivo artístico algo corrente, até. O texto acima é uma tradução do original latino, de autor anónimo (retirado daqui).

[Aristotles cum doceret Alexandrum ut se contineret ab accessu frequenti uxoris suae, quae erat pulcra valde, ne animum suum a communi providentia impediret, et Alexander ei acquiesceret, hoc advertens regina et dolens, coepit Aristotelem trahere ad amorem suum, quia multociens sola transibat cum pedibus nudis et dissoluto crine, ut eum alliceret. Tandem allectus coepit eam sollicitare carnaliter, quae ait, "Hoc omnino non faciam, nisi videro signa amoris, ne me tentes: ergo veni ad meam cameram, reptando manibus et pedibus, sicut equus me portando, tunc scio quod non illudes mihi." Cui conditioni cum consensisset, illa intimavit hoc Alexandro; qui expectans apprehendit eum reginam portantem. Quem cum vellet occidere, ait Aristotles sic se excusando, "Si sic accidit seni sapientissimo, ut a muliere deciperar, potes videre quod bene docueram te, quid accidere potest tibi juveni." Quod audiens rex, ei perpercit, et in doctrina eius profecit.]

imagem: Aristóteles e Fílis, do Mestre de Housebook
c. 1485, @ Rijksmuseum, Amesterdão.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

e Homero cego se é que Homero existiu de facto

…aquelas mãos fantasmagóricas, aquele eu separável, o perigoso demónio de Homero dotado de vida e energia próprias sobre o qual não temos qualquer poder e que nos obriga a fazer coisas que doutro modo não faríamos, tudo aquilo que Platão pretende banir, raspar todas as ficções até chegar à verdade nua, ao animal humano bani-los sim, banir o modo lídio e o modo iónico e a flauta mais do que tudo a flauta é pior do que todos os instrumentos de corda juntos inventada unicamente para dar prazer e Homero, banir Homero e todos os poetas e pintores e escultores cujos poemas e Vénus nuas celebram as mulheres como instrumentos de prazer pense-se no primeiro andamento da Sonata Kreutzer, no presto dizes tu, será legítimo permitir que seja tocada num salão cheio de mulheres com vestidos decotados? Valha-me Deus Pozdnichev e voltamos ao ponto onde começámos, com aquilo de o prazer ser mau em qualquer circunstância, de estarmos aqui para ser punidos e da necessidade de o sermos de maneira que mataste a tua mulher enquanto o galã hotentote com gostos musicais se escapa por debaixo do piano, não sei se tudo isto não é um acesso daquelas paixões e emoções de que Platão nos queria salvar através da censura ou mesmo da proibição de todas as artes, a arte nasce de uma mistura de doença e fraqueza, loucura e suicídio, Keats tubercoloso e Beethoven surdo, Dostoiévski epiléptico, Byron coxo e Homero cego se é que Homero existiu de facto, Baudelaire e Schiller e loucura e suicídio em quantidade suficiente para agradar ao próprio Deus, Schumann e Kleist suicidas, Hölderlin louco e o mais infeliz deles todos sim, ali sentado de olhar vazio e bata branca exposto diante das visitas pela sua odiosa irmã, não é o facto de ela ter traído o homem, o artista, o ter vendido não isso era previsível, o homem é supérfluo, um mero veículo ou invólucro da obra mas esta sim foi o que a irmã traiu, nesta reside a imortalidade de um autor e foi isso que ela corrempeu, o que é pior do que o homicídio Pozdnichev, pior do que o homicídio senão pergunta ao teu mestre Tolstói, Pozdnichev, e que isso te sirva de consolo, sim e entre todos os artistas entre todos os suicidas falhados Levotchka dar-te-ia razão.

in:

Quand je dis beau, je ne parle pas de la beauté gréque

Ainda que a beleza das raparigas italianas, como paradigma do tipo mediterrânico, ou das suecas, como a coroa do género nórdico, seja proverbial, a verdade é que raramente ouvimos a expressão «a beleza sueca» ou «a beleza italiana». Já «a beleza grega» é uma locução com que, volta e meia, nos deparamos e que, no Ocidente, suscita uma série de associações, sendo o corpus (releve-se a carnalidade do termo, aqui) da escultura grega como que o corpo místico da Ideia platónica do Belo, para a nossa imaginação europeia. O Belo encarnou, para a nossa sensibilidade (αἴσθησις, donde estética) moderna, nos modelos e formas gregos, com a sua sabedoria da medida (o μέτρον, conceito-chave da ética helénica, que Protágoras uniu, no seu célebre dito, com o outro pilar da mundivisão grega: o Homem). A Vénus de Milo, mesmo se tão bela quanto o binómio de Newton, mantém o seu lugar cativo na cultura popular enquanto protótipo da mulher, e o seu equivalente masculino, o David, de Miguel Ângelo, esculpido pela observação atenta dos antigos, podia bem ter adornado, não fora talvez pelo seu tamanho que desagradaria aos gregos, a ágora de uma qualquer pólis.

Não obstante as nossas preferências pessoais, o certo é que «a beleza grega» continua um conceito operacional, um ideal válido (o que, insisto, nada tem que ver com os gostos de cada um: a minha mulher de sonho segue o padrão élfico, excepto no ser morena, e, todavia, nunca me apaixonei por nenhuma rapariga assim e as que conheço mais próximas desse ideal até me desagradam, honestamente falando). O ideal existe para não ser atingido, talvez até para nem ser sequer perseguido (como quem, mesmo não gostando de futebol, tem ainda assim um qualquer clube, herdado de família, e, se lhe perguntam, responde que sim, que é do sporting, mesmo se não sabe sequer quem é o actual treinador): só isso o pode preservar de toda a corrupção, e mantê-lo como a Ideia, a Forma, pura, transcendente e, todavia, no presente caso, observável, como a Forma não esperasse que subíssemos pela escada do Banquete (que se deita fora depois de usada, como explicava o Wittgenstein, mas falando da Filosofia toda), mas descesse ao mundo, para se dar a conhecer (o movimento da graça, como lhe chamaria Simone Weil, ainda que com outras implicações — foi porventura o não ter nunca pensado este movimento que condenou o platonismo, quando o cristianismo emergiu); observável, sim, mas irrecuperável: sussurro congelado dos deuses antigos, que nos chegou, quebrado, mas, como seria próprio dos deuses, ainda capaz de nos deslumbrar (lembrar a cena do Viagem a Itália, do Rosselini), pedra que petrifica (a medusa encrustada na égide de Atena é disso a metáfora — não esquecer que da Medusa nasce Pégaso, de cujo casco brota o Hipocrene: pensar a écfrase enquanto exercício de geneologia por parte da poesia: não por acaso o demiurgo de Platão, ao contrário do deus abraâmico, não cria ex nihilo, nem fala: esculpe — e assim começa o mundo).

Dito isto, Rohmer é um génio e La Collectionneuse mais uma jóia da série dos Seis Contos Morais. Qual daqueles três prólogos o melhor. (a frase do título está aos seis minutos - notem como a personagem assimila a beleza grega à beauté absolute).

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Navegar É Preciso, Mas Não Ao Sábado

The maritime activities of Alexandrian Jews are also revealed in a vastly different source, a letter written circa 400 by Synesius, the urbane bishop of Ptolemais. In this letter addressed to his brother, Euoptius, Synesius chronicles the disasters he encountered on a voyage he took from Alexandria to Cyrenaica. Synesius booked passage in Alexandria with a Jewish navicularius named Amarantus, whom he describes as "a teacher of the [Mosaic] law". Not only was the ship's captain Jewish but nearly half of the crew as well. Synesius reports how the ship almost suffered shipwreck owing to the religious practices of the captain — who refused to steer the vessel in the midst of a storm because the Sabbath had begun! [...] Another aspect of Jewish economic life within Alexandria concerns the question of debt, which seems to have been a large problem for some sectors of the community. Synesius' navicularius, Amarantus, "courted death owing to his bankrupt condition". In fact, his crew was unable to replace a torn sail during the storm since the spare one had been pledged as security for a loan.

Christopher Haas, Alexandria in Late Antiquity - Topography and Social Conflict.
Johns Hopkins University Press, Baltimore & Londres: 1997.

imagem: o Farol de Alexandria, segundo Martin Heemskerck.

Benjamin Button 'avant la lettre'

A idade de cada ser vivo, antes de mais, estacionou no ponto em que se encontrava e tudo o que era mortal deixou de continuar a envelhecer no seu aspecto; ao invés, invertendo o sentido, foi-se tornando mais jovem e mimoso. As cabeleiras brancas dos mais velhos escureceram; as faces barbadas dos homens, readquirida a maciez inicial, reconduziram cada um deles de novo à juventude passada; os corpos robustos dos jovens, tornando-se de dia para dia mais pequenos, regressaram ao estádio de recém-nascidos, assemelhando-se-lhes tanto do ponto de vista psíquico como físico. E, daí em diante, já totalmente enfraquecidos, vêem-se reduzidos a nada.

Platão, O Político 270d6-270e9
Temas & Debates, Lisboa: 2008. (trad.: Carmen Soares).

[ἣν ἡλικίαν ἕκαστον εἶχε τῶν ζῴων, αὕτη πρῶτον μὲν ἔστη πάντων, καὶ ἐπαύσατο πᾶν ὅσον ἦν θνητὸν ἐπὶ τὸ γεραίτερον ἰδεῖν πορευόμενον, μεταβάλλον δὲ πάλιν ἐπὶ τοὐναντίον οἷον νεώτερον καὶ ἁπαλώτερον ἐφύετο: καὶ τῶν μὲν πρεσβυτέρων αἱ λευκαὶ τρίχες ἐμελαίνοντο, τῶν δ᾽ αὖ γενειώντων αἱ παρειαὶ λεαινόμεναι πάλιν ἐπὶ τὴν παρελθοῦσαν ὥραν ἕκαστον καθίστασαν, τῶν δὲ ἡβώντων τὰ σώματα λεαινόμενα καὶ σμικρότερα καθ᾽ ἡμέραν καὶ νύκτα ἑκάστην γιγνόμενα πάλιν εἰς τὴν τοῦ νεογενοῦς παιδὸς φύσιν ἀπῄει, κατά τε τὴν ψυχὴν καὶ κατὰ τὸ σῶμα ἀφομοιούμενα: τὸ δ᾽ ἐντεῦθεν ἤδη μαραινόμενα κομιδῇ τὸ πάμπαν ἐξηφανίζετο.]

imagem: fotograma de The Curious Case of Benjamin Button (2008), de David Fincher.

Oedipus Rex segundo Tom Lehrer

domingo, 19 de setembro de 2010

'Origen: Spirit & Fire', de Hans Urs von Balthasar [Crítica]

Hans Urs von Balthasar, Origen: Spirit & Fire.
Catholic University of America Press, Washington D.C.: 1984. (trad.: Robert Daly, s.j.).

Não sei como funciona o curso em Lisboa, mas, em Coimbra, pelo menos, o período a que damos o nome de Antiguidade Greco-Romana parece terminar com a morte de Augusto, em 14 d.C. De facto, é raro avançar-se mais no tempo e, na minha turma, só no ano passado, numa cadeira de mestrado, nos aventurámos para lá desse muro de berlim temporal, estudando a correspondência de Plínio e Trajano. Não fora por Marcial (e, eventualmente, Juvenal ou, com muita sorte, Suetónio), também todo o período do Império seria ignorado nas aulas de Literatura e Língua. É vergonhoso, mas a verdade é que concluímos o curso sem sermos capazes de listar, de cor, os grandes imperadores ou ordenar cronologicamente os seus nomes, se eles nos forem dados.

Entre as muitas consequências desta escolha curricular está o desprezo a que é votado o estudo da Igreja primitiva, área de investigação virtualmente inexistente em Portugal (sobre o que, mau grado tudo, se vai fazendo, ler aqui). O cristianismo é um fenómeno do mundo greco-romano e deve ser analisado no contexto do seu ambiente, sendo por isso coerente que seja estudado no âmbito das Clássicas (aliás, estou convencidíssimo que, à medida que a sociedade se vai descristianizando, a cadeira de Mitologia, por muito que me custe conceber tal situação, vai passar a incluir também algumas noções base de cristianismo, para que os alunos possam perceber os textos clássicos tardios). Pelo contrário, continua-se a alimentar a ideia do cristianismo como uma coisa fundamentalmente outra, estranha à cultura clássica, postulando-se uma ruptura que, se existiu (não vamos ser teimosos como Weil), e sendo profunda, contém também muitos elementos em que não se observa solução de continuidade e ignora o diálogo fecundo que se estabeleceu, para usar a expressão de Steiner, entre Atenas e Jerusalém.

A culpa, porém, não é apenas dos classicistas nacionais, mas também da própria Igreja, que há muito deixou de formar convenientemente os crentes, preferindo a transmissão de uma versão light da sua própria fé aos domingos na catequese. A verdade é que a maioria dos fiéis, hoje, seria incapaz de perceber várias das controvérsias teológicas daqueles primeiros séculos, coisas que, na altura, pelo relato, creio, de um dos Gregórios (ou o de Nissa ou o Nazianzeno), eram discutidas na ágora, enquanto se comprava pão. Aparecem depois filmes como o último de Amenábar — a quem devo a minha descoberta deste período — e subitamente apercebemo-nos de como não sabemos nada daquele período, mas que, afinal, até aconteceram coisas bastante importantes durante aqueles quase cinco séculos (!) que o império do Ocidente ainda durou. Um último incentivo ao estudo do cristianismo primitivo: aquilo é uma novela com todos os ingredientes do sucesso (veja-se Gibbon): mortes (cada uma melhor que a outra), mulheres nos bastidores a manipularem a cena, imperadores heréticos e apóstatas, exílios, monges malucos, eremitas, trapaceiros, chicos-espertos, rivalidades eclesiásticas e rendas de bilros.

No meio disto tudo, há grandes nomes, que, porém, o tempo e a ignorância fizeram esquecer. Um desses é Orígenes (c. 185-254), sem dúvida o maior teólogo antes de Santo Agostinho; aliás, é mesmo possível defender que só com Orígenes podemos falar de uma teologia sistemática e, assim, ele seria o primeiro teólogo cristão. É impossível minimizar a importância do discípulo de Clemente de Alexandria e um dos primeiros casos de anxiety of influence bem documentados tem que ver precisamente com a influência opressiva da sua figura sobre São Jerónimo, que acabou por renegar o mestre, mesmo se nunca deixou de o copiar. Orígenes não é santo, nem mesmo doutor da Igreja, bem pelo contrário: foi anatemizado em 553, no Concílio de Constantinopla, como um precursor do arianismo e defensor de doutrinas, como a pré-existência das almas ou a salvação universal (até para os demónios), entretanto rejeitadas pela ortodoxia. Só no século XX, com o ressourcement — isto é, a recuperação dos padres da Igreja e o regresso às fontes — promovido por Henri de Lubac e outros (entre eles o discípulo de Lubac, von Balthasar, que é responsável por esta antologia), é que Orígenes foi recuperado para a Igreja, sendo reabilitado como um teólogo maior da tradição cristã, ao ponto de o próprio papa actual ter já feito um discurso sobre o pensamento do alexandrino, na sua catequese semanal.

A presente antologia, que inclui mais de mil excertos retirados do corpus de Orígenes, é uma excelente introdução ao homem. Balthasar, talvez o maior teólogo católico do século XX (existem dois livros dele editados na série Teofanias, da Assírio), teve um trabalho imenso ao organizar tematicamente as várias passagens das homílias, comentários e tratados de Orígenes, tendo o cuidado de expor o pensamento do alexandrino de forma orgânica e, sobretudo, racional: é possível perceber a lógica do seu sistema, que vai sendo desenrolado ante os nossos olhos. Não estamos, portanto, perante uma mera recolha de textos que os organiza sob grandes temas (e.g.: a ressureição, a alma, a encarnação), mas que submete esses mesmos cabeçalhos a uma organização pensada, que permita ao leitor seguir a construção do edifício teológico de Orígenes, tarefa em que somos acompanhados pelas pequenas introduções barra resumos de Balthasar, que antecedem cada grupo de textos, fornecendo-nos um fio de Ariadne que nos conduza ao longo do que, de outra forma, se arriscaria a ser, nos seus piores momentos, um conjunto desconexo de citações. Tal, porém, nunca chega a suceder, e, pelo contrário, como digo, a antologia tem o mérito de funcionar como um livro de exposição da doutrina per se, um quase tratado, uma obra praticamente independente, não fora pela ligação fragmentária entre vários parágrafos, retirados de textos diferentes, e que a denuncia como colagem.

A edição inglesa tem três grandes vantagens: (1) todas as passagens bíblicas a que Orígenes alude foram identificadas — trabalho colossal que muito temos de agradecer; (2) a tradução dos textos foi feita a partir do original grego e latino, salvo pouco mais que trinta fragmentos, a que o tradutor não conseguiu ter acesso senão na tradução alemã de Balthasar; (3) no final, encontra-se um pequeno texto que dá uma visão panorâmica dos estudos de Orígenes à data de publicação da edição inglesa, indicando os principais estudos do século XX, fornecendo uma série de pistas para quem queira explorar mais a teologia e a pessoa de Orígenes. O livro tem ainda um novo prefácio pelo tradutor, mesmo se o ensaio em jeito de prólogo escrito por Balthasar para a edição original se mantém.

A quem, portanto, se dirige este livro? Não vou ser hipócrita e recomendá-lo indiscriminadamente, por muito que o tenha apreciado (e posso confessar que foi das melhores coisas que li este ano: as probabilidades de entrar para o meu top 10, lá para Dezembro, são até elevadas). O seu público é, apesar de tudo, restrito. É um livro eminentemente teológico, mais do que, por exemplo, filosófico (uma abordagem que poderia interessar a mais pessoas). Orígenes não é também um poeta da palavra (o que não quer dizer que o seu estilo seja enxuto: longe disso), pelo que, também desse ponto de vista, não há muitos atractivos na sua obra. Quem, de facto, não estiver disposto a empreender uma viagem teológica pura e dura, mais vale não pegar nisto. A esses, arrisco-me a aconselhar, com base noutro livro da série que tenho agora em mãos, e que muito me está a agradar, esta outra introdução: Origen, de Joseph Trigg, da série The Early Church Fathers, da Routledge. Aqueles, porém, que ousarem, com coragem, mas também espírito de abertura (e curiosidade), embarcar na viagem mais directa a Orígenes, com Balthasar, tenho a certeza de que colherão muitas flores: afinal, não é isso uma anto-logia: um bouquet?

Fluir Perene

It was no dream; or say a dream it was,
Real are the dreams of Gods.
Keats, Lamia 1.126-7

Com tanta coisa boa que há para ler, e tão pouco o tempo, é normal que, quando verificamos que o livro a que nos dedicámos nas últimas horas ou dias é, de facto, um produto menor, que não compensou o nosso esforço, fiquemos um tanto ao quanto, se não aborrecidos, pelo menos com pena: afinal, a vida é breve, e nunca se ouviu falar de bibliotecas no paraíso (salvo com Borges). E, todavia, é impressionante a fecundidade, isto é, a capacidade de gerar novas obras, destas obras menores, chamemos-lhes assim, capazes de rivalizarem, nesse aspecto, com alguns dos mais importantes títulos da literatura mundial. Não pude deixar de confirmar quanto os caminhos da inspiração são insondáveis ao ler agora a Lamia de Keats.

Este Verão, nas minhas explorações da história da Igreja dos primeiros séculos, tropecei na Vida de Apolónio, de Filóstrato, sofista que viveu na passagem do segundo para o terceiro século depois de Cristo. Trata-se da biografia de um filósofo do século I, homem muito reputado no seu tempo, com fama de homem santo. Alguns escritores pagãos quiseram equipará-lo a Cristo e daí eu, interessado nas polémicas anti-cristãs e nos escritos apologéticos, me ter atirado aos três volumes da série da Loeb sobre Apolónio. Trata-se de uma narrativa interessante, mas desigual: o segundo volume é bem mais cativante que o primeiro. No cômputo geral, porém, é um livro que só interessará hoje a um público muito específico, apesar de ter algumas passagens que, tivera o texto sempre aquela qualidade, seria, sem dúvida, mais lido, ou do retrato curioso, porque até inesperado, que pinta das relações entre filosofia, religião e política naquele tempo (e para os que se interessam por isto, não direi que é essencial, mas será sem dúvida valioso).

O «milagre» mais conhecido de Apolónio, narrado por Filóstrato, é a salvação de um jovem de Corinto, boa pessoa, de tendências filosóficas (acabará por seguir o mestre), que, enfeitiçado por uma lâmia, uma criatura demoníaca do folclore grego, por vezes associada aos modernos vampiros, se ia casar com ela. Apolónio denunciou em plena boda a verdadeira natureza da bela mulher que o rapaz se preparava para desposar e expulsou-a da casa, salvando-o da morte (as lâmias bebiam o sangue daqueles que escolhiam). Keats não leu a obra de Filóstrato, mas soube da história através daquele que terá dito um dia ser o seu livro favorito: The Anatomy of Melancholy, de Richard Burton. Inspirado pela lenda, compôs um dos poemas mais conhecidos da sua maturidade, entre finais de Junho e inícios de Setembro de 1819: Lamia. E, assim, uma passagem importante, mas nem sequer a melhor, de uma obra pouco lida floresceu num poema em que o génio de um dos nomes maiores do Romantismo inglês se manifesta no alto da sua criatividade e talento. A Musa progride por caminhos esquivos.

imagem: Lamia (1909), de Herbert James Draper

sábado, 18 de setembro de 2010

Olhó Cometa!

A celestial event seen by the ancient Greeks may be the earliest sighting of Halley's comet, new evidence suggests. According to ancient writers, a large meteorite smacked into northern Greece between 466BC and 467BC. The writers also described a comet in the sky at the time the meteorite fell to Earth, but this detail has received little attention, say the researchers.

Comet Halley would have been visible for about 80 days in 466BC, researchers write in the Journal of Cosmology. New Scientist magazine reports that, until now, the earliest probable sighting of the comet was an orbit in 240BC, an event recorded by Chinese astronomers. If the new findings are confirmed, the researchers will have pushed back the date of the first observation of Comet Halley by 226 years.

The latest idea is based on accounts by ancient authors and concerns a meteorite that is said to have landed in the Hellespont region of northern Greece in 466-467BC. The space rock fell during daylight hours and was about the size of "a wagon load", according to ancient sources. The object, described as having a "burnt colour", became a tourist attraction for more than 500 years.

In his work Meteorology [a sair em 2012 em português pelo INCM], Aristotle wrote about the event about a century after it occurred. He said that around the same time the meteorite fell, "a comet was visible in the west". [...] They [os astrónomos] calculated that Halley's comet could have been visible for about 80 days between early June and late August in 466BC - depending on atmospheric conditions and the darkness of the sky.

ler a notícia completa aqui.

Os irlandeses

Os irlandeses foram suficientemente audaciosos para declarar que Homero era uma tradução da sua língua.

Lichtenberg, Aforismos, João da Fonseca Amaral (trad.), Livro B, Editorial Estampa, 2010 (2ªed.)


Memórias do Prado §10, ou The End

Cena em Pompeia ou A Sesta, de Alma Tadema
1868, óleo sobre tela, 130 x 360.

Nascido e formado na Holanda, Alma Tadema foi um dos pintores mais famosos da Inglaterra vitoriana. O medievalismo das suas primeiras obras, próximas dos pré-rafaelistas, deu lugar a cenas do Egipto Antigo depois de conhecer as colecções de arqueologia londrinas. Depois de uma viagem a Itália (1863) optou por uma temática que chegaria a ser obsessiva e lhe daria fama interncional: a Grécia e Roma. Tal como sucede nesta obra, a pintura de Alma Tadema mostra um extremo verismo no tratamento técnico e na reconstituição arqueológica de cenários e objectos. A mesa do primeiro plano oferece uma espécie de natureza-morta arqueológica composta por dois ritões de ouro, uma Vénus de prata e uma vasilha de figuras vermelhas. A tocadora de flauta dupla inspira-se nas figuras dos frisos de Fídias pelo perfil, pelo toucado e pela indumentária. Todo o conjunto é definido com um desenho preciso, uma cor rica e elegante e acabamentos polidos, como esmaltados, que permitiram evocar o estilo da cerâmica das pinturas vermelhas.

Diego Blanca, "A Colecção de Pintura Inglesa" in AA.VV., O Guia do Prado.
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Não É O Melhor Exemplar da Beleza Grega, Mas

Greek scientists and archaeologists have given an ancient Athenian girl from the 5th century BC a face by using her skeleton, found in an ancient grave. ‘Myrtis’ has been brought back to life through facial reconstruction from her intact skull and teeth. The 11-year-old Athenian girl died of typhoid fever in 430 BC during a plague, and her bones were found in a mass grave near the ancient Athenian cemetery of Keramikos when the Athens subway was being dug up in 1995. The mass grave was full of 150 men, women and children.

ler mais aqui.

Pré-Socráticos #2: Os Iónicos - Tales, Anaximandro & Anaxímenes

Segunda sessão do ciclo Tertúlias Pré-Socráticas, promovido pela associação Origem da Comédia. Depois da primeira sessão contextualizadora, David Santos inicia a abordagem aos filósofos propriamente ditos. Tales, tido como o primeiro filósofo e o primeiro cientista, abre as portas a uma tradição de questionamento empírico, que se tornará num dos pilares da escola de Mileto, donde sairão mais tarde Anaximandro e Anaxímenes. Mas, afinal, que podemos afirmar com certeza acerca do pensamento destas três figuras? Sessão decorrida no dia 10 de Março de 2010, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Lúcio Cornélio Boco, Escritor Lusitano - O Colóquio

(informação retirada do panfleto)
A Academia Portuguesa da História e a Real Academia de la Historia, de Espanha, decidiram organizar um Colóquio Internacional sobre Lúcio Cornélio Boco, escritor lusitano da Idade de Prata da Literatura Latina. O Colóquio pretende valorizar a vida e a obra desse escritor natural da Lusitânia, para actualizar os escassos conhecimentos existentes sobre este autor quase desconhecido.

Lúcio Cornélio Boco era originário de Salacia (Alcácer do Sal) e foi um poderoso personagem da época Júlio-cláudia, como indicam as inscrições achadas em Alcácer do Sal, Lisboa e Mérida. Estas epígrafes indicam que deverá corresponder ao escritor hispano-latino citado por Plínio e Solino, cuja obra terá transmitido ao mundo clássico a cultura literária de Tartessos, a mais antiga da Península Ibérica. A identificação nestes últimos anos de novas e importantes epígrafes sobre os Cornelli Bochi em Portugal e Espanha e a proposta de reconhecer partes da sua obra em diversos autores latinos justifica a realização desta reunião.

Esta terá lugar nos próximos dias 6, 7, 8 e 9 de Outubro de 2010 em Tróia (Setúbal). A ficha de inscrição e o programa podem ser descarregados aqui. As inscrições estão abertas até dia 30 de Setembro.

Leitores Atentos §8

ἐπάμεροι: τί δέ τις; τί δ᾽ οὔ τις; σκιᾶς ὄναρ
ἄνθρωπος.

Efémeros! Que somos nós? Que não somos?
Sombra de um sonho é o Homem!
Píndaro, Píticas 8.95-96
in Sete Odes de Píndaro, Porto Editora, Porto: 2003. (trad.: MHRP).

OU

Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser
Alguém? O que é não ser Ninguém? O Humano é o sonho de
uma sombra.
Píndaro, Píticas 8.95-96
Quetzal, Lisboa: 2010 (trad.: António Caeiro)


FIRST KNIGHT. Grievously are we tantalized, one and all;
Swayed here and there, commanded to and fro,
As though we were the shadows of a dream
And linked to a sleeping fancy. What do we here?

Keats, Otho the Great V.5

imagem: Pindar and Ictinus, de Jean-Auguste-Dominique Ingres
c. 1830-67, @ The National Gallery, Londres

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Memórias do Prado §9

O Parnaso, de Nicolas Poussin
1631-1633, óleo sobre tela, 145 x 197

Para gregos e romanos, o monte Parnaso era o lugar onde vivia Apolo, o deus das artes e das letras. Junto dele viviam as nove musas, as divindades protectoras das ciências, do teatro e da literatura. Poussin imaginou este local idílico no momento em que nove poetas chegam a esta corte ideal. Da fonte Castália, personificada por uma ninfa, brotava a água que proporcionava a inspiração a quem a bebesse. Esta é oferecida por cupidos, que fazem parte do cortejo do deus. Apolo surge a presidir à reunião em que um dos sábios recebe uma coroa de louros. As folhas deste arbusto eram o seu símbolo e colocá-las na cabeça era reservado a artistas excelentes. Tem-se especulado acerca da identidade do premiado, que poderia ser o escritor Torquato Tasso (1544-1595), autor do poema épico Jerusalém Libertada. O pintor não só se serviu da escultura antiga como modelo, como também se inspirou num conhecido fresco de Rafael sobre o mesmo tema. O colorido suave e a composição equilibrada são uma homenagem a este artista do Renascimento.

Ángel Aterrido, "Pintura Francesa" in AA.VV., O Guia do Prado.
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008.

Há pouco isto fez-me rir

O seu tinteiro era um autêntico templo de Jano; quando fechado, a paz reinava no mundo inteiro.

Lichtenberg, Aforismos, João da Fonseca Amaral (trad.), Livro B, Editorial Estampa, 2010 (2ªed.)

Sobre a Transmissão dos Textos na Antiguidade

Por esse tempo, contam alguns, proferiu os seus vaticínios a Sibila de Eritreia. Refere Varrão que não houve uma só, mas várias sibilas. Esta Sibila de Eritreia escreveu acerca de Cristo alguns vaticínios evidentes: o que eu mesmo li em latim, mas em mau latim, em versos coxos, devidos à imperícia não sei de que tradutor, como depois vim a descobrir.

[Eodem tempore nonnulli Sibyllam Erythraeam uaticinatam ferunt. Sibyllas autem Varro prodit plures fuisse, non unam. Haec sane Erythraea Sibylla quaedam de Christo manifesta conscripsit; quod et.iam nos prius in Latina lingua uersibus male Latinis et non stantibus legimus per nescio cuius interpretis imperitiam, sicut post cognouimus.]
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Lactâncio apresentou sumária e desordenadamente estes testemunhos da Sibila, como lhe parecia que os devia apresentar para provar o que pretendia. Apresentando-os sem nada intercalar e ordenando-os num texto seguido, apenas procurei distingui-los pelas suas primeiras palavras. Oxalá que, para o futuro, os copistas tenham o cuidado de os conservar.

[Ista Lactantius carptim per interualla disputationis suae, sicut ea poscere uidebantur, quae probare intenderat, adhibuit testimonia Sibyllina, quae nos nihil interponentes, sed in unam seriem conexa ponentes solis capitibus, si tamen scriptores deinceps ea seruare non neglegant, distinguenda curauimus.]
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Nem os próprios três Profetas Menores, Abdias, Naum e Habacuc, nos dizem, nem se encontram nas Crónicas de Eusébio e Jerónimo, a época em que profetizaram. É certo que Abdias foi por eles colocado junto de Miqueias, mas não na passagem onde são referidos os tempos em que, segundo os seus escritos, ele profetizou — o que aconteceu, julgo eu, por erro dos que transcrevem sem cuidado trabalhos alheios.

[Tres prophetae de minoribus, Abdias, Naum, Ambacum, nec tempora sua dicunt ipsi, nec in chronicis Eusebii et Hieronymi, quando prophetauerint, inuenitur. Abdias enim positus est quidem ab eis cum Michaea, sed non eo loco, ubi notantur tempora, quando Michaeam prophetasse ex eius litteris constat; quod errore neglegenter describentium labores alienos existimo contigisse.]

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro XVIII, Cap. XXIII e XXXI
Gulbenkian, Lisboa: 1995. (trad.: J. Dias Pereira).

imagem: Manuscript Book Mural (1896), de John White Alexander
@ Library of Congress Thomas Jefferson Building, Washington, D.C.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Estudos Clássicos: Entradas na Universidade

Ainda não demos aqui conta dos resultados das candidaturas ao ensino superior, que foram tornados públicos na noite de sábado para domingo. Como é sabido, os Estudos Clássicos são apenas leccionados em Lisboa e Coimbra. Este ano entraram na capital nove alunos em primeira fase e para a impropriamente chamada cidade do conhecimento vieram vinte. Em Lisboa, foram quatro a entrar em primeira opção; em Coimbra, apenas três. Tal, porém, não serve senão de indicador, e falível: muitos acabam por descobrir a sua vocação apenas mais tarde, já integrados no curso. A ver vamos, pois, o que nos reserva esta nova fornada.

imagens: retiradas daqui e daqui.

Invenções

Durante o seu [de Argos] reinado, foi esta honra [a divinização] atribuída a um simples particular fulminado por um raio, um certo Homogiro, o primeiro que atrelou bois ao arado.

[...qui honor eo regnante ante illum delatus est homini priuato et fulminato cuidam Homogyro, eo quod primus ad aratrum boues iunxerit.]

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro XVIII, Cap. VI

Pode ter-se tudo isto como uma ficção poétia e asseverar-se que quem foi o pai de Pico foi Esterces, hábil agricultor que descobriu a maneira de fecundar os campos com o estrume dos animais, que, do seu nome, tomou o de esterco.

[Sed haec poetica opinentur esse figmenta et Pici patrem Stercen potius fuisse adseuerent, a quo peritissimo agricola inuentum ferunt, ut fimo animalium agri fecundarentur, quod ab eius nomine stercus est dictum]

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro XVIII, Cap. XV
Gulbenkian, Lisboa: 1995. (trad.: J. Dias Pereira)

Se há coisa que me agrada nos antigos é o seu cuidado em, para quanto é útil na vida, inventar o seu inventor, por mais simples que seja a coisa, como nos dois exemplos que encimam o post. Sempre me custou — e não exagero no meu sentimento — não sabermos o nome, por exemplo, de quem descobriu a bolacha ou o iogurte, duas das criações gastrónimas que, pelo menos a meu ver, tornam a vida superiormente agradável. Acho também que é de ponderar uma estátua ao inventor das luvas ou do cachecol. Desprezamos em demasia os inventores (poucos saberão que Wittgenstein, por exemplo, desenhou um tipo de puxador de porta ainda hoje fabricado); os gregos, pelo contrário, divinizavam-nos, como Homogiro. Visto que luvas, cachecóis e iogurtes, tudo existia já pelo menos no tempo dos romanos, com um pouco de investigação, quiçá ainda descubro os inventores míticos de cada uma das coisas. Não deixarei, nesse caso, de lhes fazer justiça aqui, com um pequeno, mas sincero, post.

imagem: selo de Ícaro e o seu pai, Dédalo, o inventor-mor grego.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Memórias do Prado §8

Exéquias de um Imperador Romano, de Giovanni Lanfranco
1634-1637, óleo sobre tela, 335 x 488.

Esta tela fazia parte de uma grande encomenda constituída por um total de 34 pinturas inspiradas na história e nos costumes da antiga Roma, seis delas perdidas, que foram colocadas nas paredes do recém-construído Palácio de Buen Retiro. O intermediário do rei foi Manuel de Fonseca y Zúñiga, sexto conde de Monterrey e vice-rei de Nápoles entre 1631 e 1637, que não poupou esforços para contratar os mais afamados pintores italianos da época. Lanfranco deu à sua obra um aspecto esboçado que se deve, sobretudo, ao seu labor principal como pintor de frescos e que lhe valeu críticas acesas durante o século XIX. A intencionalidade simbólica do programa do Buen Retiro não foi ainda satisfatoriamente resolvida.

José María Riello, "A Colecção de Pintura Italiana" in AA.VV., O Guia do Prado
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008