quinta-feira, 31 de maio de 2012

Revista de Filosofia Antiga Vol. VI (2012)

Novo número online da Revista de Filosofia Antiga da Universidade de São Paulo e da Universidade de Campinas. Inclui:

David Konstan, Epicurean Happiness: A Pig's life?
Richard Bett, Can an Ancient Greek sceptic be eudaimon (or happy)? And what difference does the answer make to us? 
Lloyd Gerson, Plotinus on Happiness
Naomi Reshotko, Socratic Eudaimonism and Natural Value
Sandrine Berges, Virtue as Mental Health: A Platonic Defence of the Medical Model in Ethics
Orsan Oymen, Doubt and Anxiety: An Existentialist Reconstruction of Pyrrhonism

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Odysseus to Telemachus

Um poema do Brodsky no Lavorare Stanca. Lede aqui.
My dear Telemachus,
The Trojan War
is over now; I don't recall who won it.
[...]

terça-feira, 29 de maio de 2012

Portugal Romano

Uma interessante revista online sobre arqueologia romana em Portugal, agora no seu terceiro número.

Blogging Pompeii


E para aqueles que não trabalham lá também.

Variações Sobre 'As Nuvens'


Disciple: (pointing to a map) See, here's a map of the whole earth. Do you see? This is Athens.
Strepsiades: What say you? I don't believe you; for I do not see the Dicasts sitting.
Dis. Be assured that this is truly the Attic territory.
Strep. Why, where are my fellow-tribesmen of Cicynna?
Dis. Here they are. And Euboea here, as you see, is stretched out a long way by the side of it to a great distance.
Strep. I know that; for it was stretched by us and Pericles. But where is Lacedaemon?
Dis. Where is it? Here it is.
Strep. How near it is to us! Pay great attention to this, to remove it very far from us.

[Μαθητής:  αὕτη δέ σοι γῆς περίοδος πάσης. ὁρᾷς; αἵδε μὲν Ἀθῆναι.
Στρεψιάδης: τί σὺ λέγεις; οὐ πείθομαι, ἐπεὶ δικαστὰς οὐχ ὁρῶ καθημένους.
Μαθητής:  ὡς τοῦτ᾽ ἀληθῶς Ἀττικὸν τὸ χωρίον.
Στρεψιάδης: καὶ ποῦ Κικυννῆς εἰσὶν οὑμοὶ δημόται;
Μαθητής:  ἐνταῦθ᾽ ἔνεισιν. ἡ δέ γ᾽ Εὔβοἰ, ὡς ὁρᾷς, ἡδὶ παρατέταται μακρὰ πόρρω πάνυ. 
Στρεψιάδης:  οἶδ᾽: ὑπὸ γὰρ ἡμῶν παρετάθη καὶ Περικλέους. ἀλλ᾽ ἡ Λακεδαίμων ποῦ 'σθ᾽; 
Μαθητής: ὅπου 'στίν; αὑτηί.
Στρεψιάδης: ὡς ἐγγὺς ἡμῶν. τοῦτο πάνυ φροντίζετε, ταύτην ἀφ᾽ ἡμῶν ἀπαγαγεῖν πόρρω πάνυ.]

Aristófanes, As Nuvens 206-16
(não tendo à mão a tradução portuguesa de Custódio Magueijo,
servimo-nos da tradução inglesa do Perseus de William Hickie)

P.S: Em abono da verdade, a última legenda não corresponde ao que a Merkel diz, 
mesmo se não consigo perceber totalmente a fala dela, para sugerir uma correcção.

sábado, 26 de maio de 2012

Terminologia Gramatical Grega [Em Actualização]

Continuarei a acrescentar mais entradas sempre que me deparar com algum que ainda não aqui esteja listado, actualizando a lista. Em alternativa, se houver algum expressão gramatical cuja versão grega procurem, comentem por favor e tentarei encontrar o termo consagrado.


Tempos Verbais (χρόνοι)
Presente ἐνεστώς (presente no sítio)
Imperfeito παρατατικός (prolongado)
Futuro μέλλων (prestes a acontecer)
Futuro Perfeito Greek συντελεσμένος μέλλων (prestes a estar terminado)
Aoristo ἀόριστος (ilimitado NB: compara com o modo indicativo)
Perfeito παρακείμενος (posto ao lado)
Mais-que-Perfeito ὑπερσυντέλικος (mais que terminado[/perfeito])

Modos Verbais (διαθέσεις [?])
Indicativo ὁριστική (limitado)
Conjuntivo ὑποτακτική (colocado por baixo, sub-jectivo)
Optativo εὐκτική (desejado)
Infinitivo ἀπαρέμφατον (não explicado)
Imperativo προστακτική (ordenadora)
Particípio μετοχή (participante)

Vozes Verbais (φωναί)
Activa ἐνεργητική (activa)
Μédia μέση (média)
Passiva παθητική (passiva)

Casos Nominais (πτώσεις)
Nominativo ὀνομαστική (que nomeia)
Genitivo γενική (que gera)
Acusativo αἰτιατική (que acusa)
Vocativo κλητική (que chama)
Dativo δοτική (que dá)

Números (ἀριθμοί [?])
Singular ἑνικός
Dual δυϊκός
Plural πληθυντικός

Géneros Nominais (γένη)
Masculino ἀρσενικόν
Feminino θηλυκ/ν
Neutro οὐδέτερον

Categorias Morfológicas
Nome ὄνομα [já encontrei também algures οὐσιαστικόν]
Verbo ῥῆμα
Adjectivo ἐπίθετον [ou julgaram mesmo que era algo altíssimo? :)]
Advérbio ἐπίρρημα
Interjeição ἐπιφώνημα
Conjunção σύνδεσμος
Preposição πρόθεσις
Pronome ἀντωνυμία

Outros
Conjugar κανονίζειν [também de nomes]
Declinar κλίνειν
Alfabeto τὰ γράμματα [*αλφαβητος não se usa]
Diacrítico
Agudo
Grave
Perispómeno


πᾶσι ἐν τοῖς λόγοις τούτοις εἰώθαμεν, ὥσπερ καὶ Λουσιτανιστὶ διαλεγόμενοι ποιοῦμεν, ὑπακούεσθαι τὰ ῥήματα τὰ ἰδία, ἴνα οὖν παραδείγματος χάριν ὄποτε "παθητικὴν" λέγομεν, κλίνωμεν τὸ θηλυκὸν γένος διότι "[ἡ φωνὴ] ἡ παθητικὴ" ὑπακούεται.

Workshop on Euripides



WORKSHOP ON EURIPIDES
Researching, Rewriting and staging Euripidean tragedy

30.05.2012: Sala do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, FLUC, Coimbra

14h45m - Abertura
Milagros Quijada Sagredo (Univ. del País Vasco), “El Eurípides tardío: la tragedia griega a finales del siglo V a. C."
Frederico Lourenço, (UI&D-CECH, Univ. Coimbra), “Schopenhauer on Euripidean Tragedy"
Lorna Hardwick (Open Univ., U.K.), “Euripides and the Spectators: Ancient and Modern

17h - Pausa para café

Apresentação de livros
Carlos Morais (Univ. Aveiro), Frederico Lourenço, The Lyric Metres of Euripidean Drama, Coimbra, CECH, Classica Digitalia, 2011;
Jorge Pereira do Deserto (UI&D-CECH, Univ. Porto), Milagros Quijada Sagredo (ed.), Estudios sobre Tragedia Griega. Eurípides, el teatro griego de finales del siglo V a. C. y su influencia posterior, Madrid, Ed. Clásicas, 2011;
Cláudio Castro Filho (UI&D-CECH, Univ. Federal Rio de Janeiro): «O Projecto Hipólito. Encenação e workshop: Carlos de Jesus, Cláudio Castro Filho, José Ribeiro Ferreira (eds.), Hipólito e Fedra. Nos caminhos de um mito, Coimbra, CECH, Classica Digitalia, 2012».

18h - Encerramento.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Musique de la Grèce Antique

Apesar dos poderes imensos que os escritores antigos atribuem à música da Grécia Antiga, dotando-a de capacidades quase sobrenaturais para influenciar as índoles, a educação e a política dos que a ouviam, acontece que da totalidade dos fragmentos que sobreviveram (poucas dezenas todos eles compilados no Documents of Ancient Greek Music de Martin West), aqueles que ainda somos capazes de reproduzir apesar da sua decomposição não acolhem de muitos um entusiasmo por aí além. Numa das primeiras aulas duma cadeira online de História da Música, ao ser apresentado o fragmento chamado o Orestes Stasimon, comentou o professor que "isso não vai chegar ao top 50 do dia de ninguém". Também junto de professores late docti em termos quer de música como de literatura grega nunca encontrei grande recepção para estes fragmentos, que "não fazem, de longe, jus aos textos", servindo aparentemente apenas como desconfortável memória de que os juízos estéticos dos Gregos sobre a sua própria arte é por vezes um pouco distante da realidade (lembremo-nos das reconstruções dos pigmentos dos mármores do Parthénon, verdadeira experiência halucinogénica, ao mesmo tempo que ponderemos o curso da História da Arte providencialmente conduzido pela ephémera qualidade das tintas utilizadas em Athenas).


Eu não consegui jamais partilhar dessa opinião. Na mesma aula onde o Orestes Stasimon foi apresentado, apesar de já na altura eu já o conhecer, bateu-me de novo: estamos a ouvir os sons antigos, um espelho quebrado como um fragmento de Píndaro. Talvez tal se devesse às minhas pessoais deficiências na apreciação musical, pois que até ao dia não consigo discernir com precisão e honestidade se a minha admiração se deve àquele fascínio perante fragmentos tão inextricavelmente ligados à cultura da qual para mim tomei tanto, ao formido perante o archaico; ou se seria capaz de os admirar da mesma maneira se os houvesse encontrado segregados. Mostrou-me um professor no meu primeiro ano La Musique de la Grèce Antique, uma das mais conhecidas (mas não a única) recriação dos fragmentos, ousada porque quando quer que da partitura não sobreviveram troços fundamentais para uma coerência da música, novos foram escritos, drasticamente diferentes, assumidamente modernos mas nel stilo antico, opção desviada de outras reconstruções que toleram o vazio, que tornam presente a ausência infligida pelo tempo.




Um outro caminho é o duma gravação que conheci há poucos meses, Sappho and Her Time, que assumidamente com os fragmentos nada tem que ver. Antes, após reconstruirem a panóplia de instrumentos utilizados na época, tomaram vários poemas de Anacreonte, Sappho, Mimnermo, Simónides, Sólon, e Theógnis e musicaram-nos, em grego evidentemente. Não é por nem sequer existirem os fragmentos musicais correspondentes que o resultado não é archeológico: encontramos várias soluções como utilização de polyphonias vocais, assim como subidas e descidas súbitas de tom que acreditamos não tenham jamais feito parte do repertório. De certa forma o dilema aqui repete-se ao nível da música que se pôs desde o século XVI ao nível da música e do theatro. Como podemos repetir o aliciar da música antiqua? Quando a ópera tentou recriar a tragédia, não possuía ainda os fragmentos musicais, mas sabia que a ênfase teria de passar pela música (de modo que ao longo da sua história a grande tensão operática tenha sido: o que é mais importante, palavras ou música?). No nosso tempo temos já alguns, parcos fragmentos, e temos os instrumentos: temos também felizmente bastantes textos. Repete-se a tentação de recriar a  música, com algum sucesso, muito embora, ou graças a, todos os desvios: assombram-nos faixas como Psaphródita (baseada no famoso Hymno a Aphrodita de Sappho) ou Lýkos de Sólon.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Vertigem das Listas, ou A Irmã de Alexandre

Para um espírito que as aprecia, uma das melhores coisas da wikipédia são as suas variadíssimas listas, que versam sobre os assuntos mais inúteis do mundo. A wikipédia alemã tem uma série de listas só com frases/expressões famosas começadas por cada uma das letras do alfabeto grego a que vim parar quando pesquisava sobre a expressão ζῷον λόγον ἔχον. Ora precisamente no Zeta [Z] encontrei a seguinte narrativa, que confirmou o meu desejo de me dedicar, não sei bem quando, mas ainda antes da próxima década, ao corpo de lendas em torno de Alexandre:
Ζεί και βασιλεύει.
„Er lebt und herrscht als König.“

Neugriechische sprichwörtliche Redensart für: „Es geht ihm unverändert gut.“ Nach der neueren griechischen Volksüberlieferung wurde die Schwester Alexanders des Großen nach ihrem Tod in eine Gorgone, eine Art Nixe verwandelt, die im Wasser lebt und jedes vorbeikommende Boot fragt, ob Alexander noch lebe: „Lebt König Alexander noch?“ („Ζει ο βασιλιάς Αλέξανδρος;“) Lautet die Antwort „nein“, so zieht sie das Schiff mitsamt der ganzen Besatzung zu sich hinab. Die „richtige“ Antwort, die dem Schiffer sein Leben bewahrt, lautet: „Er lebt und herrscht als König.“ („Ζεί και βασιλεύει.“)
Ζεί και βασιλεύει.
"Vive e reina".
Expressão proverbial em grego moderno que significa: [em resposta à pergunta: «E como está o X?»] «Vai tudo bem com ele: continua na mesma». Segundo o folclore grego, a irmã de Alexandre o Grande foi transformada após a sua morte numa Górgona [?: duvido desta informação: deviam ter em mente outro monstro feminino, mas a verdade é que a imagem ao lado, na sua legenda, fala também numa górgona: talvez a concepção do monstro se tenha alterado], uma espécie de Nixe [lembrar que o original foi escrito para um público germânico], que vive na água [noutras fontes, ao que pude apurar na minha brevíssima investigação, especificamente no Mar Egeu] e pergunta a cada barco que passa, se Alexandre ainda vive: «Vive [ainda] Alexandre, o rei?». Se a resposta for «não», ela afunda o navio com toda a sua tripulação. A resposta "certa", que permite ao marinheiro conservar a sua vida, é: «[Alexandre] vive e reina»

Por Uma História Alternativa


*

The Roman Empire is fucking badass, it was most the powerful empire in the world until it was brought down by sexual deviants and the cunted barbarians who attacked Rome repeatedly because they where fucked up beasts who had no intelligence on how important Rome was to the entire world. Rome was the only glory and light of the world, having built the most magificent structures, temples and buildings on the massive scale. Romans invented concrete and the government ideology where democratic processes are used to elect the people who control the empire or country at question. Without the Roman Empire, the world would be a disgraceful and boring place to live today. 100.1% of Italians are known to contain the same blood as the Romans did during the time of Jesus. Only the Roman empire is more fucked up than Japan. 

*

Pericles was born on the second of October on November 45th, 495 BC. He was taught by the great philosophers of his age, not including Zeno, Aristotle, or Socrates, the latter of which would later go on to commit suicide by eating a dog.Pericles himself lived a life governed by false virtues and by aspiration. After his frequent failures regarding his attempts to secure himself in a college, he made up his mind to enter the cottage industry. His many rivals, the most famous of which are Herodotus and Pythagoras, conspired to form the Delian League. They would maintain throughout their campaigns against Pericles the fact that he was a stupid, worthless bum.Pericles became ruler of Greece in 475 BC, as whom he made the malevolent contributions to society that we remember today. After exhaustive military campaigning, he was finally defeated by Nietzsche and his uberman army.

e muito mais aqui.

Convite Grego Para Festa de Anos

Lembram-se da cena, no início do Banquete de Platão, em que Sócrates, ainda a caminho da casa de Ágaton, surpreende Aristodemo que o vê não descalço, como de costume, mas de sandálias, e lavado? Por razões que para aqui não interessam, tive recentemente de consultar o grego do passo e servi-me da minha edição habitual do texto: a de Kenneth Dover para a Cambridge Greek and Latin Classics. Eis o comentário do insigne classicista, que me arrancou uma valente gargalhada:
174a3 λελουμένον τε... 4 ἐποίει: Socrates commonly went unshod (cf. 220b6 and Ar. Clouds 103). It sounds here as if he also went unwashed, and Ar. Birds 1554 calls him ἄλουτος. But he washes the morning after the party (223d11 ἀπονιψάμενον); we should distinguish between washing off sweat and surface dirt (ἀπονίζεσθαι) and having a good bath (λούεσθαι) followed by oiling and preening. In Ar. Birds 132 and Plutus 165 λούεσθαι is associated with feasting and celebration; we do not say 'next Wednesday have a bath and come to my birthday party', but evidently the Greeks did. 
Claramente, o senhor que escreve isto é o mesmo que é aqui pintado por Frederico Lourenço:

Em meados da década de noventa do século XX, as Universidades de Coimbra e Lisboa receberam a visita de um monstro sagrado da Filologia Grega: nada menos que o helenista inglês Sir Kenneth Dover. Conhecido pelo seu vocabulário aristofânico (para consternação da esposa, a sempre afável Lady Dover), o ex-presidente da British Academy e ex-reitor de um prestigiado colégio da Universidade de Oxford virou-se para mim, no meio de um engarrafamento na vila de Sintra, e declarou: "noventa e nove por cento do que se publica sobre literatura grega é lixo". E aqui devo avisar que a minha tradução das palavras que o senhor proferiu em inglês não é inteiramente literal — mas escusar-me-ei a entrar em pormenores. 
Frederico Lourenço, Grécia Revisitada
Cotovia, Lisboa: 2004, pg. 85 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Forget Mandarin. Latin is the key to success; ou, Diatribe #2


Chamaram-me a atenção há pouco tempo para um artigo do Spectator, Forget Mandarin. Latin is the Key to Success. Além do tom bombástico do título, vou aproveitar o facto de se concentrar num só sítio de tanta da publicidade falsa em relação e das mentiras que nos contamos a nós próprios e aos outros quando defendemos esta língua principal do currículum clássico.
But just how useful is Mandarin? All very well if you go to China, but Latin has the advantage of being at the root of a whole host of European languages. “If I’m on an EasyJet flight with a group of European nationals, none of whom speak English, I find we can communicate if we speak to each other in Latin,” says Grace Moody-Stuart, a Classics teacher in West London. “Forget about Esperanto. Latin is the real universal language of Europeans.”
Fazer a apologia do Latim por via da utilidade para o globe-trotter on a budget tem qualquer coisa de tragicómico, mesmo que não fosse pela maneira iludida como contempla a memória daquilo que houve realmente em tempos na Europa e nas Américas, a respublica litterarum que floresceu apoiada na utilização do Latim como língua franca, mas que claramente já não existe. A ideia de apanhar um vôo da easyJet e cumprimentar o passageiro do lado com um Salve! Quomodo te habes? não só é ridícula devido ao facto de a aprendizagem da língua contemporânea, por não ser feita viva voce, não facultar aos seus doutos a capacidade de falar, como também mesmo que tiverem a sorte de ser uma das poucas pessoas que hoje em dia ainda falam Latim, boa sorte em encontrar outros latineloquentes no próximo vôo (talvez na Ryanair): o Latim não é uma língua impossível de se falar, longe disso (ao contrário do que aparece aqui troçado), mas não basta o património linguístico das línguas Neo-Românicas para se perceber o que alguém diz. Argumentos destes mereciam era umas boas orelhadas: não há uma pessoa viva que, a querer ser honesta para com alguém que lhe perguntasse sinceramente se é mais útil no sentido em que a palavra é geralmente entendida, o Latim ou o Mandarim, lhe respondesse Latim (a não ser que estivesse preparado para se engajar na discussão platónica da unidade do bom e do útil): in plain terms, responder que Latim é mais útil que Mandarim são sophismas e hypocrisias.
Unlike other languages, Latin isn’t just about conjugating verbs. It includes a crash course in ancient history and cosmology. “Latin is the maths of the Humanities,” says Llewelyn Morgan, “But Latin also has something that mathematics does not and that is the history and mythology of the ancient world. Latin is maths with goddesses, gladiators and flying horses, or flying children.”
Este é outro dos mitos, e confesso que aquele que mais me chateia. "O Latim é a Matemática das línguas" é um argumento proferido por um de dois tipos de pessoas: por alguém que não faz ideia de como a língua latina funciona, ou por alguém pura e simplesmente que aja desonestamente e em má fé. Uma língua matemática, aliás a única que o poderia ser, é o Esperanto: língua criada a régua e esquadro para não ter excepções e para não permitir desvios. Todas as línguas existem em paralelo a culturas e a tempos, e pela mesma porta entram também todas as confusões inerentes a essas línguas. A ideia do Latim como língua racional e matemática é portanto uma escolha mutuamente exclusiva: ou temos "a matemática das línguas" ou  temos "the history and mythology of the ancient world" - e esta última é impagável e eligenda. O Latim é uma língua cheia de excepções, cheia de quadraturas do círculo, de irracionalidade, de incoerências, e de evoluções. Como qualquer língua que não tenha sido feita em laboratório.

Aquilo que o Latim poderia ter de matemático, a "grandiosa arquitectura" que lhe é concedida pelo pontos de equilíbrio presentes principalmente no sistema verbal, é ela mesma contrabalançada pelas constantes incoerências e falhas estruturais que assolam a restante língua - de que outra forma explicaríamos a ambiguidade do ablativos da terceira declinação em e/i,  que Petrarca esteja autorizado a escrever expecto pro exspecto, que um dos advérbio seja facile mas o outro difficulter, que a primeira pessoa do plural do verbo fio ser efficimur? Isto é interessante, mas pouco surpreendente - mas seja como for nada tem de matemático, e aliás o género de pensamento que levou a que este tipo de aforismos nascesse, a saber a aprendizagem do Latim equiparada à aprendizagem da tabuada (4x1,4; 4x2, 8, 4x3, 12 não é substancialmente diferente de rosa, rosæ, rosam, rosæ, rosa) é precisamente o género de inépcia que tornou os seus defensores incapazes de perceber a beleza da língua enquanto língua, enquanto caos ordenado originário duma cultura específica e carregada com o peso da sua história própria, que nunca é algo asséptico nem merece ser.
No doubt some people will persist in questioning the usefulness of Latin. For these skeptics I have a two-word answer: Mark Zuckerberg. The 26-year-old founder of Facebook studied Classics at Phillips Exeter Academy and listed Latin as one of the languages he spoke on his Harvard application. So keen is he on the subject, he once quoted lines from the Aeneid during a Facebook product conference and now regards Latin as one of the keys to his success. Just how successful is he? According to Forbes magazine, he’s worth $6.9 billion. If that isn’t a useful skill, I don’t know what is.
Aqui salta aos dedos apontar o óbvio ao meu caro cronista lembrando-o de que o Mark Zuckerberg saber Grego e Latim (como já aqui apontámos também) honra obviamente mais o Mark Zuckerberg do que honra o Grego e o Latim. Da incapacidade de compreender este facto básico —que a utilidade destas línguas jaz no acesso que elas nos concedem ao passado, e não às reciclagens e a utilitarismos contemporâneos parecem padecer todos aqueles quantos argumentam que o conhecimento do Latim é útil porque nessa altura poderemos compreender que  o nome do gelado Magnum é uma palavra latina, que audio e video são palavras latinas, ou que o nome dum qualquer pokemon é de origem latina (tenho muita verdadeiramente pena que a idade não perdoe e já não tenha exemplos presentes). A ideia está de pernas para o ar: o conhecimento desta língua é apregoado como uma colecção de inutilidades absolutas, e torna-se ainda mais bizarro quando ao testemunharmos estes usos bacôcos parecemos proclamar triunfalmente a nossa utilidade social (faz até lembrar o momento em que o Alasdair McIntyre ironiza sobre um cavaleiro medieval que encontrasse algum consolo em saber que apesar de as regras da cavalaria terem caído em decadência continuamos a medir a potência automóvel em 'cavalos').

Mas a verdade é que esta excelência rhetórica continua a ser pomposamente apregoada. Aqueles que tentam aliciar as pessoas para as Clássicas - ou para as Humanidades em geral - com estes exemplos de sucesso são traidores. Ide para as Clássicas, meus Zuckerbergezinhos em potência. Atrever-me-ia até mesmo a dizer que falham redondamente o alvo: estas "Humanidades enquanto vias para o sucesso" acabam por dizer: o objectivo é o dinheiro, e as Humanidades também vos podem conduzir até lá (acreditem em mim!); o subtexto é: se conseguirem ficar podres de ricos doutra maneira mais fácil até é melhor. Não sou um especialista em Mark Zuckerberg, mas se ele realmente ama a Antiguidade não trocaria a sua formação clássica por uma valorização a triplicar do Facebook.

Estes desvios e mentiras ocultam aquela que é a via verdadeira e a vida que podemos conceder se queremos ser honestos para connosco e para com aqueles que tentamos aliciar: aprendei Latim se quereis ler Vergílio, Agostinho, Petrarca, Ficino. Claro que é preciso dividir públicos, e não esquecer que esses exemplos preservam alguma importância pedagógica junto de alunos mais novos - mas não torná-lo num emblema de honra e da salvaguarda do nosso uso, como acontece vezes de mais de cada vez que alguém se lembra de defender tudo isto junto dos seus pares. Se não acreditarem em nós, não temos o direito de os tentar puxar para algo outro, para becos que são verdade apenas contingente ou tangencialmente, sejam eles argumentos mercantis, linguísticos (saber Latim ajuda no conhecimento do Português, eg), ou matemáticos. E se nós mesmos tememos que o acesso aos textos não seja razão suficiente para alguém estudar esta língua, então somos nós que não a confidamos o bastante, somos nós que não a merecemos.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Aquilo que permanece




[...]

But even granting that, it must be the case that some aspects of civilization have endured because they have real value—not in some abstract, notional, theoretical way, value for publications and promotions and tenure, but solid, meaningful value to the very human beings, the ordinary people whose forgotten lives make up 99 percent of the past that we study when, often naively, we study the past, unaware sometimes that we are studying just the tiny fraction of experience that has not been lost.

Why do I think this? Because of the story the second old Jewish woman told me. She, too, was a survivor; I had been interviewing her for the book I wrote about the Holocaust, and by the time I had the brief conversation I am about to tell you about, I knew of some of the things she had suffered, and I can tell you that they were the kind of things that strip all sentimentality away, that do not leave you with any mushy illusions about the value of Western culture, of “civilization” and its traditions. I just want you to know that before I tell you what she told me, which was this:

We had spent a long day together, talking about sad things—talking, in fact, about the erasure of a culture, the unmaking of a civilization, as total and final as what Vergil described in Book 2 of the Aeneid; there are, after all, as many Jews left today in the city this lady had lived in as there are Trojans in Troy. We were tired, night was falling. Because I didn’t want to leave her with sad thoughts that night, any more than I want to leave you with sad thoughts today, I tried to lead the conversation to a happier time.

“So what happened when the war was over?” I asked softly. “What was the first thing that happened, once things started to be normal again?”

The old lady, whose real name had disappeared in the war along with her parents, her house, and nearly everything else she had known, was now called Mrs. Begley. When I asked her this question Mrs. Begley looked at me; her weary expression had kindled every so slightly.

“You know, it’s a funny thing,” she told me. “When the Germans first came, in ’41, the first thing they did was close the theaters.”

“The theaters?” I echoed, a bit confused, not dreaming where this could be leading. I didn’t know which theaters she meant; I thought, briefly, of the great Beaux Arts Pantheon of an opera house in Lwów, with its Muse-drawn chariots and gilded victories, a mirage of civilization, the 19th century’s dream of itself. She had told me, once, that she had seen Carmen there, when she was a newlywed.

But she wasn’t talking, now, about operas in Lwów or about the 1930s; she was talking about theaters in Kraków, where she and her husband and child ended up once the war was over.

“Yes,” she said, sharply, as if it ought to have been obvious to me that the first thing you’d do, if you were about to end a civilization, would be to put an end to playgoing, “the theaters. The first thing they did was close the theaters. And I’ll tell you something, because I remember it quite clearly: the first thing that happened, after the war was over and things got a little normal–the first thing was that the actors and theater people who were still alive got together and put on, in Polish, a production of Sophocles’ Antigone.”

So that was the story, and here is what I think it means:

A lot of life gets lost—almost everything, in fact. That much, my poor step-grandmother knew, a woman whose own life disappeared into the abyss. But as Mrs. Begley knew, some of what remains means something—something very real, to real people, to people whose knowledge of suffering is derived from more than a book or a night at the movies. And so, I would ask you this: when you think of what it means to be a classicist, don’t think only about your deconstructive readings of Homer, or post-structuralist approaches to Plautus, or Freudian readings of the Euripidean romances, or Marxist interpretations of the Peloponnesian War, the iconography of red-figure vases or the prosopography of the late Roman Republic. Think about Mrs. Begley; think about the people in Kraków, who, when they had very good reasons to believe that civilization had ended, felt that the first thing they needed to do was to put on a play by Sophocles.

That, in the end, is the meaning of the tradition you have been studying, and for which you, the newest generation of classicists, are now responsible.

So go, and have some fun today; and then, later, do something to earn that.

David Mendelsohn

quinta-feira, 17 de maio de 2012

[C3-C #2] Ciclo Clássicos no Cinema: 'Antígona', de J.-M. Straub e Danièle Huillet (1992)

Depois da sessão de ontem (é possível ainda que venhamos a partilhar aqui um apanhado de algumas das ideias mais férteis que vieram ao de cima na longa discussão final), concluímos a extensão coimbrã do ciclo Clássicos no Cinema com a exibição da Antígona (1992), de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. A sessão irá realizar-se segunda, dia 21 de Maio, às 21h, de novo na Sala Arte à Parte. A apresentação ficará a cargo de Sérgio Dias Branco, que escolheu o filme, e, para o comentário final, contaremos com a presença de António Sousa Ribeiro e Tiago Santos. A intervenção destes visa suscitar o debate com o público, que esperamos mais uma vez participado, num registo informal.


ANTÍGONA, de J.-M. Straub & Danièle Huillet
apresentado por Sérgio Dias Branco
com António Sousa Ramos e Tiago Santos no debate final

21 de Maio, 21h
Sala Arte à Parte,
Rua Fernandes Tomás 29, Coimbra
 

terça-feira, 15 de maio de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

[C3-C #1] Ciclo Clássicos no Cinema: 'Medeia', de P. P. Pasolini (1969)

No mesmo dia em que se exibe o último filme do ciclo Clássicos no Cinema em Lisboa, começa a extensão conimbricense do mesmo. A sessão irá realizar-se dia 16 de Maio, às 21:00h, na Sala Arte à Parte. Será exibida a Medeia (1969) de Pier Paolo Pasolini (curiosamente uma produção do mesmo ano do Satyricon). A apresentação ficará a cargo de Abílio Henrandez, que escolheu o filme, e, para o comentário final, contaremos com a presença de Clelia Bettini e Paulo Fonseca. A intervenção destes visa suscitar o debate com o público, que esperamos participativo, num registo informal.



MEDEIA, de P. P. Pasolini
apresentado por Abílio Hernandez Cardoso
com Clelia Bettini e Paulo Fonseca no debate final

16 de Maio, 21h
Sala Arte à Parte,
Rua Fernandes Tomás 29, Coimbra
 

[C3 #4] Ciclo Clássicos no Cinema: 'Satyricon', de Federico Fellini (1969)


 A última sessão do ciclo Clássicos no Cinema a ter lugar em Lisboa irá realizar-se dia 16 de Maio, às 15:00h, na sala 5.2, com a exibição do filme Satyricon (1969) de Federico Fellini. A apresentação será da responsabilidade de Fernando Guerreiro, sendo que o comentário final contará com a presença de Rafael Esteves Martins e de Luís Cerqueira, este último colocando particular ênfase no paralelo literário estabelecido com a obra de Petrónio. Uma vez mais, espera-se uma participação activa e informal por parte da audiência. Como fora explicado anteriormente, o projecto terá continuidade em Coimbra.



SATYRICON, de Federico Fellini
apresentado por Fernando Guerreiro
com Luís Cerqueira e Rafael Martins no debate final

16 de Maio, 15h
Sala 5.2,
Faculdade de Letras, Lisboa

 

sábado, 12 de maio de 2012

A ideia da Linguagem


Un discours qui dirait le langage même et en exposerait les limites sans être un métalangage ni plonger dans l'indicible est-il possible?

Une tradition de pensée antique énonce cette possibilité comme une théorie des idées.
Contrairement à l'interprétation qui voudrait y voir le fondement indicible d'un métalangage, la théorie des idées se fonde sur une acception sans réserve de l'anonymat du langage comme de l'homonymie qui en gouverne le champ (c'est en ce sens qu'il faut comprendre l'insistance de Platon sur l'homonymie entre les idées et les choses et le refus de Socrate de toute misologie). Mais c'est justement cette finitude et cette équivocité du langage humain qui ouvrent la voie au “voyage dialectique” de la pensée. Si toute parole humaine présupposait toujours déjà une autre parole, si le pouvoir présupposant du langage ne prenait jamais fin, alors vraiment il ne saurait jamais y avoir d'expérience des limites du langage. Par ailleurs, un langage parfait, d'où toute homonymie aurait disparu et au sein duquel tous les signes seraient univoques, serait un langage absolument privé d'idées.

L'idée est entièrement comprise entre l'anonymat et l'homonymie du langage. Ni l'un est et a un nom, ni l'un n'est pas et n'a pas de nom. L'idée n'est pas un mot (un métalangage) et elle n'est pas non plus la vision d'un objet à l'extérieur du langage (un tel objet, un tel indicible n'existent pas), mais vision du langage même. Parce que le langage, qui offre à l'homme la médiation pour toute chose et toute connaissance, est lui-même immédiat. Rien d'immédiat ne peut être atteint par l'homme parlant – si ce n'est le langage lui-même, si ce n'est la médiation elle-même. Une telle médiation immédiate constitue pour l'homme la seule possibilité de rejoindre un principe libéré de tout presupposé jusqu'à sa propre présupposition; c'est à dire, la possibilité de rejoindre cette ἀρχή ἀνυπόθετος que Platon, dans la République, présente comme τέλος, comme l'achèvement et la fin de l'αὐτὸς ὁ λόγος, du langage même, et, dans le même temps, comme la “chose même” et affaire de l'homme. 
 
Aucune communauté humaine véritable ne peut surgir sur la base d'un présupposé – qu'il s'agisse de la nation, de la langue, ou même de l'a priori de la communication qu'évoque l'herméneutique. Ce qui unit les hommes entre eux n'est pas une nature ni une voix divine, ni l'emprisonnement commun dans la langage signifiant, mais la vision du langage lui-même, et par voie de conséquence, l'expérience de ses limites, de sa fin. La seule véritable communauté est une communauté non présupposé. C'est pourquoi l'exposition philosophique pure ne peut être exposition de ses idées sur le langage, ou sur le monde, mais exposition de l'idée du langage.

Giorgio Agamben, La potenza del pensiero. Saggi e conferenze, trad. francesa de Joël Gayraud e Martin Rueff, Paris, Payot & Rivages, 2006 .

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Apontamentos Sobre a Antígona de Sófocles §2; ou, Os Posts São Cartas Breves Aos Amigos


Aviso: este post surge duma discussão em comentários nesta outra mensagem e respectivos comentários, que ao prolongar-se achei que faria mais sentido numa partilha separada.

João,

Quando formulaste a pergunta naturalmente consultei as edições que tinha à minha disposição assim como outras que encontrei online. Todas elas, de facto, traduziam o κρύψαι pelo futuro, embora isto deva ser atenuado pela construção estranha que nos obrigue a analisar o que seja "ter decretado", qual é o tempo entre a palavra e o acto? (Falls the shadow, diria o Eliot.) Entre a ordem e o cumprir? Ele dá o decreto ao dizer "ἔχω κήρυξας", ou já antes o dera? Apesar dessas traduções mo parecerem contestar traduzindo pelo futuro (mas não temos as justificações dos tradutores para essa escolha), e mesmo sabendo que quem as fez foram pessoas que muito mais grego sabem que eu, a verdade é que olhando para o original, e correndo o risco de vir a ver a minha ignorância desmascarada quando pedirmos a alguém mais sábio para nos guiar, como tu dizes e bem, a ambiguidade está lá e as traduções pelo futuro não são fundamentadas, ou pelo menos  digamos que são arbitrárias: pois não sabemos quando foi dado o decreto. Os modos dos infinitivos são inúteis para isso, e apenas o solucionariam se lá estivesse um κρύψειν, infinitivo futuro.

E sim, a tradução do Hölderlin por "Ihn decket mit dem Grab und heiliget" [Cobri-o na tumba e honrai-o.] é filologicamente inaceitável, embora duvido que aqui esteja em causa uma má compreensão do grego (sem duvidar que a haja noutros pontos): simplesmente, confrontado com este passo, o tradutor vê-se forçado a atribuir na sua tradução um tempo ao acto, por muito arbitrária que essa escolha seja: e se escolher o futuro então o imperativo exprime o mesmo sentido (ou então sou eu apenas mais uma vez a tomar o partido do meu Liebling). Perdoa-me a mim por ter poucos argumentos sólidos para apresentar: nisto das línguas mais que citar regras servir-me-ia poder valer-me dum sentido da língua, algo que muito me falta quando me comparo com os tradutores cujas versões consultei; mas apesar disso tento-me a dizer que o terem optado quase todos eles pelo futuro se deve a uma coincidência, ou então a uma descura na comparação com o passo que citaste.

Mas vamos um passo à frente: como se entende o próprio texto a este respeito? Quando o coro responde submisso com um resmungo (211-214), Creonte aconselha-os (usando o conjuntivo, ἦτε), a serem “os vigias das minhas palavras” [σκοποὶ τῶν εἰρημένων] – o que significa vigias? Aqueles que fazem com que algo aconteça, ou aqueles que previnem que algo seja feito contra? O verbo aqui, sendo σκοπεῖν, não resolve. Neste contexto poderia ser quer aqueles que guardam o corpo quer aqueles que guardam a lei opondo-se aos malfeitores. (A própria Antígona é a certa altura a ὅσια πανουργήσασα, a sacra malfeitora [74].) Acontece até que também o coro não é capaz de desfazer a ambiguidade da ordem, e pede-lhe que “atribua” [πρόθες] essa ordem (conselho?) a um "mais novo". Ora eles são os anciãos, são  os censores, são os vigias por excelência dos costumes e das leis da cidade: portanto caso acreditassem que ele lhe estava a pedir que assumissem a sua função, não faria sentido que pedissem que Creonte a atribuisse a “um mais novo”; eles acreditam que ele lhes está a pedir que vão lá, e que fiquem de vigia ao cadáver insepulto. Isto parece corroborar a tese do “insepulto”.

Mas Creonte apercebe-se que eles estão a perceber mal o que se passa, e corrige-os. A primeira palavra é ἀλλά, Mas. “Ἀλλ' εἴσ' ἑτοῖμοι τοῦ νεκροῦ γ' ἐπίσκοποι.”, que poderíamos traduzir como “Não se enganem, estão já [com um εἴσι forte, acentuado, embora, certo, isto seja alexandrino] vigias [colocados = ἐπί] ao morto.” Portanto com isto diz-lhes que já há quem faça aquilo que eles pensavam que ele lhes imperava.

A resposta do Coro é de certa forma cómica, “Τί δῆτ' ἂν ἄλλο τοῦτ' ἐπεντέλλοις ἔτι;” Mas então que raio [τί δῆτα], é que ainda [ἔτι] te falta [ἄλλο] ordenar? Eles pensavam que aquilo que ele lhes ia pedir era algo, estando esse algo já cumprido, eles não conseguem perceber o que possa ser, e stupent: quase que se sentem inúteis, 'reduzidos' às suas funções. Creonte termina a breve sticomaquia clarificando o que é que exige deles: que não se aliem aos desobedientes. Τὸ μὴ 'πιχωρεῖν τοῖς ἀπιστοῦσιν τάδε.

O que podemos concluir disto? Imediatamente, e mais uma vez, que a ambiguidade que existe no texto do discurso de Creonte e que te levou a apontar tudo isto em primeiro lugar existe de facto e não pode ser negada, visto que é reconhecida pelas próprias personagens e tem até um efeito dramático. Ao mesmo tempo obriga-nos a pensar a chronologia da peça. Temos alguns testemunhos textuais, e incluímos o ἔκρυψε. Ordem sugerida: 1) O decreto que coloca os guardas data de antes da peça; ou pelo menos de antes da aparição de Creonte; faz sentido que date antes da peça porque pretendemos levar a sério o ἔκρυψε: isto é, se é necessário que os guardas já tenham sido colocados aquando do anúncio público do decreto, não há nada que nos faça crer que Creonte promulgasse apenas a parte relativa a Poliníces e não à de Etéocles. Poderíamos portanto esperar que os guardas tivessem sido mandados algures entre o antes da peça e a aparição; mas se Etéocles já foi enterrado antes do início, devemos entender também o ἔχω κήρυξας como referindo-se a um edito lançado antes do início da peça. 2) Antígona e Ismena encontram-se. 3) Creonte entra em cena e anuncia publicamente o decreto e ao mesmo tempo que o faz os guardas descobrem o cadáver enterrado e um deles corre a avisar o soberano. 4) Os guardas voltam a guardar o corpo. 5) Antígona é descoberta a enterrar o cadáver.


Se isto for verdade, aquela interpelação e inserção no final dos Sete Contra Tebas de Ésquilo, com o anúncio por parte dum arauto a confrontar Antígona e a cidade com os decretos de Creonte, inserção essa que haveria sido levada a cabo como uma resposta posterior à Antígona, seria uma má interpretação na economia das duas peças: A Antígona olha para uma realidade (a lei  decretada) a qual não foi ainda publicamente decretada, embora já tenha sido anunciada em privado e posta em acto. Já foi anunciada em privado porque de outro modo a ouverture com as duas irmãos careceria de sentido; já foi posta em acto porque quer Antígona o diz explicitamente, quer os guardas já foram colocados.

Tudo isto me refresca a memória duma perspectiva sobre a peça que, percebo agora, contribui apenas tangencialmente, mas que me faz lamentar nunca ter seguido o assunto com mais atenção tendo-o negado cuidados maiores em cada das três vezes que me lancei mais a fundo na Antígona, quer ao dá-la a nas aulas, quer dois anos mais tarde, quer recentemente quando finalmente a li em grego; refiro-me à hipótese que alguns comentadores afloram sobre as circunstâncias mágicas e quase celestiais em que se dá cada um dos enterros, e do quão fantásticas são as descrições: do primeiro é-nos dito que a terra está absolutamente incorrupta: ninguém por lá passou, ninguém por lá deixou qualquer sinal de si (ἄσημος οὑργάτης τις ἦν 252), de tal forma que o coro atreve-se a conjecturar que “θεήλατον / τοὔργον τόδε”, que este feito tenha origem divina: habituados como estamos a atribuir ambos os feitos a Antígona, desprezamos essa intuição, talvez justamente. Mas talvez Antígona seja então até mais Gottkind do que nós estamos habituados a considerá-lhe. Pois o segundo enterro não é menos fabuloso (vale a pena ler, e já agora traduzi:

                       Subitamente um tufão solevou
o flagelo dos céus numa tempestade de areia
que queimou todo prado e destruiu a folhagem
da planície silvestre. O ar revolvia-se
num reboliço; cerrámos os olhos à peste sagrada.
E quando ao fim de muito tempo tudo acalmou,
a menina apareceu e gritou com a aguda
voz dum pássaro amargurado que vazio
e orfão das crias encontra o seu o leito.


                     καὶ τότ' ἐξαίφνης χθονὸς
τυφὼς ἀείρας σκηπτόν, οὐράνιον ἄχος,
πίμπλησι πεδίον πᾶσαν αἰκίζων φόβην
ὕλης πεδιάδος, ἐν δ' ἐμεστώθη μέγας
αἰθήρ· μύσαντες δ' εἴχομεν θείαν νόσον.
Καὶ τοῦδ' ἀπαλλαγέντος ἐν χρόνῳ μακρῷ,
ἡ παῖς ὁρᾶται κἀνακωκύει πικρᾶς
ὄρνιθος ὀξὺν φθόγγον, ὡς ὅταν κενῆς
εὐνῆς νεοσσῶν ὀρφανὸν βλέψῃ λέχος.


417-421). E de novo somos levados a pensar: ela certamente estava disposta a sacrificar-se para isto, mas que por aqui passou um deus; não é da raça humana invocar tempestades ferventes de areia. Tem algum cabimento a ideia do enterro divino: e que este enterro, a ter acontecido, terá de ter sido apenas após o decreto de Creonte, pois a fortiori os deuses não poderiam enterrar alguém que a cidade pudesse ainda de sua vontade enterrar. (Esta foi linha de pensamento que persegui, mas que acabou por não dar em nada que não uma confirmação do que já sabíamos. — Oh well!) Isto está é a precisar duma nova encenação para resolver estas hesitações. Inserir tosse nada suspeita.

Um abraço,
Miguel.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O Privado & A Cidade no 'Íon' de Eurípides: Uma Sugestão Sem Compromisso

Estive há duas semanas atrás num colóquio intitulado Narrativas do Poder Feminino, na Faculdade de Filosofia da Católica de Braga. Mária de Fátima Silva, conhecida pelas suas traduções de Aristófanes, boa comunicadora, falou sobre o Íon de Eurípides, peça-protótipo de toda a novela mexicana. Não pude deixar de a questionar em relação ao final deste late romance euripideano. A professora insistira particularmente no sofrimento de Creúsa, que vive a desonra feminina maior: o opróbrio da esterilidade, vendo mais: que, por causa disso, o marido, para garantir a sucessão do trono, terá de reconhecer um dos seus filhos bastardos, para mais de sangue bárbaro, como o pai. No fim, Apolo, por meio de outros deuses, que escolhe como seus mensageiros, faz perceber Creúsa que o rapaz que Xuto reconhece como filho de uma ligação anterior é, na realidade, filho da princesa e do deus: não só Creúsa, portanto, não é estéril (uma felicidade para ela como mulher), como quem herdará o trono será um ateniense de gema (um consolo para ela como rainha orgulhosa da sua terra). Todavia, Xuto, exige o deus, deverá permanecer na ignorância de tudo isto e pensar que Íon é o fruto de um antigo affair (ou de uma simples noite). 

A minha pergunta era simples: visto que a verdade, por ordem de Apolo, deve ser mantida em segredo, então, temos de admitir, Creúsa continuará a ser vítima da desonra social de ser oficialmente infértil, mais: verá a sua posição ainda mais degradada porque, para todos os efeitos, o novo herdeiro não é do seu sangue e, por causa da sua esterilidade, foi necessário ir buscar um rapaz estrangeiro, uma vergonha para Atenas, que se orgulhava da sua autoctonia. A professora falou de como isto, a bem dizer, recuava para segundo plano, pois a Creúsa fora concedido «tocar o privilégio da essência» (isto entrelançava-se com outras reflexões desenvolvidas ao longo do paper apresentado, as quais não podemos aqui reproduzir, para contextualizar a validade da resposta). Não pude, porém, deixar de ficar a pensar nisto e descobri aqui, não querendo regressar à severidade do juízo nietzschiano, o sinal de uma decadência: a esfera do privado triunfara sobre a do público, ao ponto desta última poder ser desprezada pelo sujeito, satisfeito com a sua verdade íntima. Se, com Sófocles, na Antígona, emergira, de forma violenta, a ruptura entre o sujeito e a cidade, mas esta oposição era ainda o material de uma tragédia a sério, porque o dramaturgo e os espectadores, educados na unidade das duas dimensões, que Ésquilo de alguma forma ilustra, sentiam tal tensão como perturbadora, já no Íon, pelo contrário, o privado superiorizou-se pacificamente e a comunidade recuou para um segundo plano onde recebe apenas a importância que eu lhe resolvo conceder. Não sei se esta intuição tem algum futuro, sequer se é, perspectivada globalmente, sustentável, mas não quis deixar de a partilhar, para suscitar ao pensamento, ou morrer já. 

II Congresso da Secção Mediterrânea da PSI: Programa Provisório












Está já disponível o programa provisório do II Congresso da Secção Mediterrânea da Sociedade Internacional de Platonistas, dedicado ao Parménides de Platão. O congresso decorrerá na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, entre 14 e 16 de Junho. Teremos entre nós alguns dos melhores platonistas (uma tribo ínclita e peculiar) da Europa, entre os quais Luc Brisson, Maurizio Migliori e Néstor Cordero. Comecem já a apontar algumas conferências nas vossas agendas.

Cursos de Verão do CEC-FLUL


Recepção da Antiguidade Clássica na Literatura Portuguesa 
com preço de desconto para estudante
4 de Junho a 18 de Julho de 2012 (2.ª e 4.ª-feira)
Saber mais 


Introdução ao Latim 
com preço de desconto para estudante 
5 de Junho a 19 de Julho de 2012 (3.ª e 5.º-feira) 
Saber mais 


Falar em público 
5 de Junho a 29 de Junho (3ª e 6ª-feira) 
Saber mais 


Lendas de Roma 
5 de Junho a 21 de Julho de 2012 (3.ª-feira, 5.ª-feira e sábado) 
Saber mais 


Textos e Mitos da Antiguidade Clássica - Ecos de uma Herança Cultural
5 de Junho a 21 de Julho de 2012 (3.ª-feira, 5.ª-feira e sábado)
Saber mais 


Paleografia Grega 
18 a 28 de Junho de 2012 (2.ª, 3.ª, 5.ª e 6.º-feira)
Saber mais 


Retórica 
18 a 28 de Junho de 2012 (2.ª, 3.ª, 5.ª e 6.º-feira) 
Saber mais

Celebrações do Dia da Latinidade (15/05, FLUL)

[clicar sobre a imagem para ampliar]
A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a União Latina organizam no próximo dia 15 o Dia da Latinidade. A cerimónia evocativa da data, a decorrer no Anfiteatro II da FLUL, seguirá o seguinte programa: 

17h: Alocuções do Director da FLUL, do Representante da União Latina, do Presidente do Plano Nacional de Leitura, do Vice‑Presidente do Instituto Camões e do Presidente do Júri do Concurso [vide infra

17h30: Entrega dos Prémios do Concurso Diálogo Latino aos Alunos e às Escolas 

18h [Anfiteatro I]: Representação teatral “As Suplicantes” de Ésquilo, pelo grupo Thíasos (Coimbra)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

George Steiner, τί ἡ εὐδαιμονία;

Ce qui est mon bonheur, aujourd'hui,


il est simple, être seul, m'asseoir et lire des commentaires sur Platon...


J'aimerais que le souvenir que l'on garde de moi soit celui d'un maître à lire, de quelqu'un qui a passé sa vie à lire avec les autres. Un lecteur, un auditeur, qui se sent avant tout européen, et qui s'est posé de plus en plus de questions. Celle-ci par exemple: «L'espérance serait-elle une erreur?» À méditer. J'aimerais également laisser ce message aux jeunes lecteurs: «Ne jamais négocier vos passions!» Mais pour terminer sur une note moins sombre, je vais vous confier, en parodiant Samuel Beckett, que j'appelle «le virtuose de Babel», ce qui est mon bonheur, aujourd'hui ; il est simple: être seul, m'asseoir et lire des commentaires sur Platon… C'est très British, n'est-ce pas?


Mas não consigo evitar ficar um pouco apreensivo com este tom: e tenho medo.

Louvada Seja a Grécia, Theodorakis

11.20am The renowned composer Mikis Theodorakis last night expressed his support for Syriza and the efforts of its leader, Alexis Tsipras, "to form a government that will terminate the memorandum and will seek to recover our country's national sovereignty". He was speaking after a meeting with Tsipras, Manolis Glezos MP and constitutional law expert Yiorgos Kassimatis. Theodorakis called on all "patriots" and "creative Greeks" to assist in bringing Greece to self-sufficiency, progress and rebirth.


Theodorakis é famoso entre outros por ter composto a banda sonora de Alexis Zorba (1964) e musicado o sublime poema de Odysseas Elytis Το Άξιον Εστί - Louvada Seja (1959), composição de liturgia nacional (lembrando, multis mutatis mutandis, a nossa Mensagem) traduzido para português por Manuel de Resende, e aqui lembrado.

Repito aqui a primeira parte, como que um hymno de Athena que inspire a Grécia nestes finsteren Zeiten.


terça-feira, 8 de maio de 2012

Waiting for the Benedictines


It is always dangerous to draw too precise parallels between one historical period and another; and among the most misleading of such parallels are those which have been drawn between our own age in Europe and North America and the epoch in which the Roman empire declined into the Dark Ages. Nonetheless certain parallels there are. A crucial turning point in that earlier history occurred when men and women of good will turned aside from the task of shoring up the Roman imperium and ceased to identify the continuation of civility and moral community with the maintenance of that imperium. What they themselves set to achive instead —often not recognizing fully what they were doing— was the construction of new forms of community within which the moral life could be sustained so that both morality and civility might survive the coming ages of barbarism and darkness. If my account of our moral tradition is correct, we ought also to conclude that for some time now we too have reached that turning point. What matters at this stage is the construction of local forms of community within which civility and the intellectual and moral life can be sustained through the dark ages which are already upon us. And if the tradition of the virtues was able to survive the horrors of the last dark ages, we are not entiretly without grounds for hope. This time however the barbarians are not waiting beyond the frontiers, they have already been governing us for quite some time. And it is our lack of consciousness of this that constitutes part of our predicament. We are waiting not for a Godot, but for another —doubtless very different— St. Benedict.

Alasdair MacIntyre. After Virtue. Bloomsbury (2007)

[FLUP] Symbolon VI - Ira e Indignação

segunda-feira, 7 de maio de 2012

[C3 #3] Ciclo Clássicos no Cinema: 'The Browning Version', de Anthony Asquith (1951)


Após as exibições dos filmes Sebastiane e Violência e Paixão, a penúltima sessão a ter lugar em Lisboa dá agora continuidade ao ciclo Clássicos no Cinema com o visionamento do filme The Browning Version (1951), de Anthony Asquith. Contará com a presença de João Figueiredo na apresentação e de Sebastião Belfort Cerqueira no comentário final, o qual esperamos ser complementado com a interacção informal da audiência.



THE BROWNING VERSION, de Anthony Asquith (1951)
apresentado por João Figueiredo
com Sebastião Belfort Cerqueira no debate final

9 de Maio, 15h
Sala 2.14,
Faculdade de Letras, Lisboa



Philosophia juvenil - Μειρακιώδης φιλοσοφία)

Lembrei-me disto ao ler este post.


[Sócrates] Repara ainda com quanto ardor e audácia me preparo para afirmar que a Cidade se deva ocupar do estudo da filosofia, exactamente ao contrário do que faz agora.

[Adeimanto] Como assim?

[Sócrates] No presente - disse - os que encetam estes estudos são adolescentes acabados de sair da infância, que no intervalo antes de chegarem à economia doméstica e aos negócios, se aproximam da parte mais difícil e logo dela se afastam - e são estes que são olhados como os melhores filósofos. Pela parte mais difícil entendo a dialéctica. Depois disto, eles julgam fazer muito se, quando convidados, condescendem em ouvir as discussões filosóficas dos outros. É que estão persuadidos de que a filosofia não deve ser mais do que um passatempo. Com a aproximação da velhice e, com raras excepções, a sua luz estingue-se muito mais do que o Sol de Heraclito, na medida em que não se tornam a acender.

[Adeimanto] E o que devem então fazer?

[Sócrates] Precisamente o contrário. Enquanto são adolescentes e crianças devem ocupar-se com uma educação filosófica apropriada à juventude; devem, sobretudo cuidar muito bem dos seus corpos, no tempo em que crescem para a maturidade, assim garantindo o fundamento e o suporte para servir a vida intelectual. Mas com o avanço da idade, quando a alma começa a atingir a maturidade, devem intensificar os exercícios que lhes convêm; e, quando as forças corporais os abandonarem e tiverem passado a idade dos deveres políticos e militares, devem deixar-se, como os animais sagrados, pastar em liberdade, sem outra ocupaçãop séria além da filosofia, excepto como passatempo, caso se deseje que vivam felizes e que, depois da morte, coroem a felicidade da vida que lhes coube com um destino digno no além.



σκόπει δὲ καὶ νῦν ὡς προθύμως καὶ παρακινδυνευτικῶς μέλλω λέγειν, ὅτι τοὐναντίον ἢ νῦν δεῖ τοῦ ἐπιτηδεύματος τούτου πόλιν ἅπτεσθαι.

πῶς;

νῦν μέν, ἦν δ᾽ ἐγώ, οἱ καὶ ἁπτόμενοι μειράκια ὄντα ἄρτι  ἐκ παίδων τὸ μεταξὺ οἰκονομίας καὶ χρηματισμοῦ πλησιάσαντες αὐτοῦ τῷ χαλεπωτάτῳ ἀπαλλάττονται, οἱ φιλοσοφώτατοι ποιούμενοι—λέγω δὲ χαλεπώτατον τὸ περὶ τοὺς λόγους —ἐν δὲ τῷ ἔπειτα, ἐὰν καὶ ἄλλων τοῦτο πραττόντων παρακαλούμενοι ἐθέλωσιν ἀκροαταὶ γίγνεσθαι, μεγάλα ἡγοῦνται, πάρεργον οἰόμενοι αὐτὸ δεῖν πράττειν: πρὸς δὲ τὸ γῆρας ἐκτὸς δή τινων ὀλίγων ἀποσβέννυνται πολὺ μᾶλλον τοῦ Ἡρακλειτείου ἡλίου, ὅσον αὖθις οὐκ ἐξάπτονται.

δεῖ δὲ πῶς; ἔφη.

πᾶν τοὐναντίον: μειράκια μὲν ὄντα καὶ παῖδας μειρακιώδη παιδείαν καὶ φιλοσοφίαν μεταχειρίζεσθαι, τῶν τε σωμάτων, ἐν ᾧ βλαστάνει τε καὶ ἀνδροῦται, εὖ μάλα ἐπιμελεῖσθαι, ὑπηρεσίαν φιλοσοφίᾳ κτωμένους: προϊούσης δὲ τῆς ἡλικίας, ἐν ᾗ ἡ ψυχὴ τελεοῦσθαι ἄρχεται, ἐπιτείνειν τὰ ἐκείνης γυμνάσια: ὅταν δὲ λήγῃ μὲν ἡ ῥώμη, πολιτικῶν δὲ καὶ στρατειῶν ἐκτὸς γίγνηται, τότε ἤδη ἀφέτους νέμεσθαι καὶ μηδὲν ἄλλο πράττειν, ὅτι μὴ πάρεργον, τοὺς μέλλοντας εὐδαιμόνως βιώσεσθαι καὶ τελευτήσαντας τῷ βίῳ τῷ βεβιωμένῳ τὴν ἐκεῖ μοῖραν ἐπιστήσειν πρέπουσαν.

Platão. República 497e-498c. Elísio de Moura (trad).

domingo, 6 de maio de 2012

Apontamentos Sobre a Antígona de Sófocles §1

Ἐτεοκλέα μέν, ὡς λέγουσι, σὺν δίκης
χρήσει δικαίᾳ καὶ νόμου κατὰ χθονὸς
ἔκρυψε τοῖς ἔνερθεν ἔντιμον νεκροῖς: [23-5]

Por um lado, a Etéocles, ao que dizem, no justo
uso da justiça e da lei, [Creonte] debaixo da terra
escondeu, para ser honrado pelos mortos inferiores.

Ἐτεοκλέα μέν, ὃς πόλεως ὑπερμαχῶν
ὄλωλε τῆσδε, πάντ᾽ ἀριστεύσας δόρι,
τάφῳ τε κρύψαι καὶ τὰ πάντ᾽ ἐφαγνίσαι
ἃ τοῖς ἀρίστοις ἔρχεται κάτω νεκροῖς. [194-7]

Por um lado, Etéocles, que pela cidade alti-lutando
morreu - por esta cidade -, em tudo o melhor com a lança,
num túmulo esconder e todas as honras lhe prestar,
aquelas que descem para os melhores dos mortos.

A primeira das falas transcritas pertence a Antígona, quando dá conta a sua irmã, Ismena, no prólogo da peça, do decreto do rei, Creonte. O texto dá a entender que Etéocles, o irmão que lutou pela cidade, Tebas, foi já enterrado: ἔκρυψε é um aoristo, o tempo pretérito por excelência na gramática grega. Não pode por isso senão espantar quando, na tradução de Marta Várzeas (feita para a encenação de Nuno Carinhas no TNSJ há dois anos atrás), lemos: «A Etéocles mandou sepultar». Certo que é possível ler a frase com um sentido mais-que-perfeito: Creonte mandou sepultar Etéocles, Etéocles já foi sepultado e agora Antígona conta tudo isto à irmã. Todavia, deverá reconhecer-se que o português é ambíguo o suficiente para acolher um outro sentido: Creonte mandou sepultar Etéocles — isso ainda vai acontecer, então: por hora existe tão somente a ordem, mas não a realidade. A tradução de Marta Várzeas torna-se porém mais inteligível quando a entendemos como um esforço para impor à peça alguma coerência. De facto, mais tarde, no primeiro episódio, quando Creonte entra em cena, ele diz que proclamou um édito no sentido de enterrar Etéocles. Guardamos aqui o infinitivo de propósito: o grego tem κρύψαι, um infinitivo aoristo, sendo que o aoristo tem aqui um valor apenas aspectual, e não temporal, ou seja: simplesmente quer-se dizer que a acção de enterrar Etéocles é uma acção única, não continuada. κρύψαι é vulgarmente entendido num sentido futuro e de facto o contexto convida a, se é que não implica, tal. O uso do infinitivo, em que insistimos, permite salvaguardar fragilmente a unidade do texto: Creonte reproduz aqui o édito como o emitiu originalmente, édito que tem apenas dois comandos temporalmente indeterminados: enterrar [Etéocles] | não honrar [Polinices]. A primeira parte pode já ter sido cumprida: o grego talvez (outros mais sábios me esclarecerão) não obrigue a projectar a acção no futuro (ajuda porventura a esta interpretação subtil se não até manhosa o facto de o «[não] honrar [Polinices]» ser κτερίζειν, um infinitivo presente, que aponta para uma acção continuada, não pontual, ao contrário de κρύψαι — contra, porém, pesa o κωκῦσαί que se lhe segue). Reconheço, todavia, que nem eu mesmo estou muito convencido desta leitura, pelo que estou particularmente receptivo a contributos de quem se queira juntar à discussão: afinal Etéocles já foi enterrado? Ou Sófocles pura e simplesmente contradiz-se?

NOTA: segui, para o grego e traduções, a edição de Griffith, salvo para o problemático σὺν δίκης χρήσει δικαίᾳ καὶ νόμου, no primeiro excerto, em que segui a lição de Müller e Jebb. Haveria muito mais a dizer sobre estes dois passos (há escolhas na colocação das palavras que devem ser tidas em atenção e a métrica, ao que diz o comentário, é de suma importância quando confrontada com os versos seguintes sobre Polinices): impõe-se uma explicação do último verso da segunda citação, que só se compreende tendo em mente os ritos fúnebres gregos. Algumas opções de tradução haveriam ainda que ser justificadas, mostrando a complexidade a que se procuram abrir.