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domingo, 29 de agosto de 2010

Memórias do Prado §2

A Forja de Vulcano, de Velázquez
1630, óleo sobre tela, 223 x 290.

Nesta obra estão presentes os ensinamentos da estatuária greco-romana, das obras de Miguel Ângelo, do classicismo romano-bolonhês e do neo-venezianismo triunfante em Roma nas primeiras décadas do século XVII. Uma passagem das Metamorfoses de Ovídio, na qual Apolo visita a frágua de Vulcano para lhe contar que a sua esposa, Vénus, o enganou com Marte, serve a Velázquez para criar uma composição complexa, em que a história é narrada através de um reportório incrivelmente animado de gestos e expressões de incredulidade e surpresa. Mas a qualidade dramática alia-se à criação de um cenário de grande verosimilhança, em que pode sentir-se o espaço existente entre os corpos de cuidada anatomia que a luz, superando o tenebrismo, modela com rigor. Também o ar parece circular entre os objectos, magníficos pedaços de realidade em forma de natureza-morta: a armadura, as ferramentas, o ferro em brasa.

Alberto Pancordo, "A Colecção de Pintura Espanhola" in AA.VV., O Guia do Prado
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Memórias do Prado §1

Os Bêbedos ou O Triunfo de Baco, de Velázquez
1628-29, óleo sobre tela, 165 x 188.

Velásquez, grande renovador dos géneros pictóricos, aborda aqui o tema mitológico, pouco habitual na pintura espanhola, e trata-o de modo realista. Aproximando-se do quotidiano, representa o deus do vinho, Baco, e a sua corte com os traços dos frequentadores das tabernas de Madrid, de forma semelhante à de Caravaggio nas suas cenas religiosas ou de Ribera nos seus quadros de filósofos, mas longe da idealização das obras de Rubens, que pode ter influenciado na escolha deste tema. Velázquez já tinha feito algo de semelhante em Sevilha, em pinturas em que o tema religioso está quase escondido atrás da cena quotidiana, como sucede em Cristo em Casa de Marta e Maria. Como nelas, mantém o gosto pelas gamas da terra, pela indumentária popular e pelos rostos curtidos mas, aqui, a paisagem, a luminosidade, o corpo despido e a magnífica e meditada composição indicam-nos que o artista já tinha assimilado os ensinamentos das obras dos pintores venezianos e de Rubens na Colecção Real.

Alberto Pancordo, "A Colecção de Pintura Espanhola" in AA.VV., O Guia do Prado
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008.