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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Hidra
 
Se nunca foste a Hidra no outono
então não sabes
como é branco o branco e azul o azul.
Se nunca ali chegaste com o sol
escorrendo das colinas entre as hastes
da flor encontrada por Ulisses
no próprio inferno - então não sabes
como a terra é o lugar certo
para morrer.

Eugénio de Andrade, Poesia, Modo de Ler, Lisboa, Abril 2011, p.547

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Outros labirintos

Agora falarei dos olhos de Ariadne.
Falarei dos teus olhos, pois de Ariadne
só talvez haja memória
entre as pernas de Teseu.

De Ariadne ou não, os olhos são azuis.
Azuis de um azul muito frágil,
como se ao fazer a cor uma criança
tivesse calculado mal a água.
É um azul diluído, o azul dos teus olhos,
diluído em duas ou três lágrimas
-uma delas minha, pelo menos uma,
as outras tuas, as outras de Ariadne.

Falarei destes olhos. Os de Ariadne,
deles deixarei que seja Teseu a falar.
Falarei desse azul que não vi em Creta,
pois passei a infância numa terra sem mar,
falarei desse azul que não vi em Naxos,
mas vi em Delfos onde, entre colunas,
passava os dias divinamente a fornicar,
indiferente ao oráculo de Apolo.
De resto, que deus grego não me aprovaria?
Que outra coisa se pode fazer na Grécia?
Ali podeis fornicar com toda a gente
- é clássico e barato -,
até com os coronéis.

Agora falarei dos olhos gregos de Ariadne,
que não são de Ariadne nem são gregos,
desses olhos que se fossem música
seriam a música de água dos oboés,
falarei apenas dos olhos do meu amor,
desses olhos de um azul tão azul
que são mesmo o azul dos olhos de Ariadne.


Ariadne, in "Obscuro Domínio"
Poesia Eugénio de Andrade, Modo de Ler, Rosto Editora, Abril 2011, pp.175-176.
(pelo aniversário do poeta, 19 de Janeiro de 1923)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011




Os Dioscuros, quadro de Giorgio de Chirico (1888-1978)

Os Dioscuros. Eu vi-os, numa praça de Roma, era de noite, levavam os cavalos pela mão. 
O seu olhar era oblíquo à passagem das raparigas, mas era um para o outro que sorriam.
Eugénio de Andrade, "De passagem", Memória doutro rio 
(Antologia Breve, Fundação Eugénio de Andrade, 6ªEd, Porto 1994, p.84)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Safo Sempre


A beleza servi
e não conheço nada maior.

Safo, frg. LXII na tradução de Eugénio de Andrade*
Limiar, Porto: 1974.
*agradece-se a quem me souber indicar o número correcto do fragmento.

imagem: In the Days of Sappho, de John William Godward (1904)
@ J. Paul Getty Museum, Los Angeles