terça-feira, 30 de novembro de 2010

Marxismo + Gregos + Cristianismo + Misticismo = Simone Weil

A parte do sobrenatural neste mundo é secreta, silenciosa, quase invisível, infinitamente pequena. Mas é decisiva. Prosérpina não acreditava que o seu destino se modificasse só por comer um bago de romã; e a partir desse instante o outro mundo foi a sua pátria e o seu reino.

Esta operação decisiva do infinitamente pequeno é um paradoxo que a inteligência humana tem dificuldade em reconhecer. Por este paradoxo se realiza a sábia persuasão de que fala Platão, essa persuasão por meio da qual a providência divina leva a necessidade a orientar a maior parte das coisas para o bem. A natureza, que é um espelho das verdades divinas, apresenta por toda a parte uma imagem deste paradoxo. Assim os catalisadores e as bactérias. Em relação a um corpo sólido, um ponto é infinitamente pequeno. Contudo, em cada corpo há um ponto que prevalece sobre toda a massa pois se for sustentado o corpo não cai; esse ponto é o centro da gravidade.

Mas um ponto suspenso somente impede uma massa de cair se esta estiver disposta simetricamente à volta dele, ou se a assimetria comportar determinadas proporções. O fermento só faz levedar a massa se lhe estiver misturado. O catalisador não age senão pelo contacto dos elementos da reacção. Do mesmo modo, há condições materiais para a operação sobrenatural do divino, presente neste mundo sob forma do infinitamente pequeno.

A miséria da nossa condição submete a natureza humana a uma gravidade moral que continuamente a atrai para o baixo, para o mal, para uma submissão total à força. «Deus viu que as ideias do coração do Homem tendiam sempre, constantemente para o mal». É essa a gravidade que leva o Homem, por um lado, a perder metade da sua alma, segundo um provérbio antigo, no dia em que se torna escravo*, e por outro lado a dominar sempre, segundo o termo empregue por Tucídides, em toda a parte onde tem o poder de o fazer. Tal como a força da gravidade propriamente dita, também esta gravidade tem as suas leis. Quando as estudamos, nunca conseguimos ser tão frios, lúcidos e cínicos como seria preciso. Neste sentido, e em certa medida, é necessário ser-se materialista.

Mas um arquitecto estuda não só a queda dos corpos como também as condições do equilíbrio. O verdadeiro conhecimento da mecânica social implica o das condições em que a operação sobrenatural de uma quantidade infinitamente pequena de bem puro, colocada no devido lugar, pode neutralizar a gravidade. Os que negam a realidade do sobrenatural assemelham-se verdadeiramente a cegos. Também a luz não luta, não pesa nada e é por ela que as plantas e as árvores crescem para o céu apesar da gravidade. Não se come, mas as sementes e os frutos que se comem não amadureceriam sem ela.

*nota para os curiosos: Od. 17.322-323.

Simone Weil, Fragmentos. Londres 1943.
in Opressão e Liberdade. Livraria Morais Editora, Lisboa: 1964. (trad.: Maria de Fátima Nunes).

Obviamente, Aristóteles Não Leu As Eddas

Um navio que fosse do tamanho da cabeça de um dedo, não seria um navio.
...οἷον πλοῖον σπιθαμιαῖον μὲν οὐκ ἔσται πλοῖον ὅλως...

Aristóteles, Política VII.1326a40
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

In Norse mythology, Skíðblaðnir is the ship of Freyr. The ship was made by Dvalin and his brothers, dwarves and sons of Ívaldi. It was made at the request of Loki, and was given to Freyr as part of Loki's reparation for the theft of Sif's golden hair. The ship was big enough to hold the whole of the host of Asgard, and whenever the sails were hoisted, a fair wind followed. It could travel over both land and sea. According to the Ynglinga saga, Skíðblaðnir was made by so many parts and with such ingenuity that it could be folded like a cloth and carried in one's pouch.

retirado daqui.

Três Novidades Classica Digitalia

I. Colecção “Humanitas Supplementum” (Estudos)

- Francisco de Oliveira, Jorge de Oliveira e Manuel Patrício: Espaços e Paisagens. Antiguidade Clássica e Heranças Contemporâneas. Vol. 3 – História, Arqueologia e Arte (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010). 331 p.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/56
PVP: 40 € / Estudantes: 32 € [capa dura]

II. Colecção “Autores Gregos e Latinos – Série Textos Latinos”

- Carlota Miranda Urbano: Santo Agostinho. O De Excidio Vrbis e outros sermões sobre a queda de Roma. Tradução do latim, introdução e notas (Coimbra, Classica Digitalia/ CECH, 2010). 170 p.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/57
PVP: 12 € / Estudantes: 9 €

III. Série “Varia”

- Nair de Nazaré Castro Soares, Diogo de Teive. Tragédia do Príncipe João. Introdução, texto, versão e notas (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010) 341 p. [reimpressão]
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/58
PVP: 22 € / Estudantes: 17 €

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Tales Tinha Razão (Ou Pelo Menos Estava Lá Perto)

Experiências no CERN indicam que o Universo começou como um líquido.

A Higiene Oral Ainda Não Devia Estar Muito Difundida

Decâmnico encabeçou um levantamento contra Arquelau, sendo o primeiro a instigar os conjurados devido a estar encolerizado com o monarca, que o entregara em tempos ao poeta Eurípides para ser açoitado (Eurípides ficara vexado em virtude de uma alusão que Decâmnico fizera ao seu mau hálito). Muitos outros morreram ou foram vítimas de conspirações por motivos do mesmo género.

Aristóteles, Política V.1311b30-35
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

[καὶ τῆς Ἀρχελάου δ᾽ ἐπιθέσεως Δεκάμνιχος ἡγεμὼν ἐγένετο, παροξύνων τοὺς ἐπιθεμένους πρῶτος: αἴτιον δὲ τῆς ὀργῆς ὅτι αὐτὸν ἐξέδωκε μαστιγῶσαι Εὐριπίδῃ τῷ ποιητῇ: ὁ δ᾽ Εὐριπίδης ἐχαλέπαινεν εἰπόντος τι αὐτοῦ εἰς δυσωδίαν τοῦ στόματος. καὶ ἄλλοι δὲ πολλοὶ διὰ τοιαύτας αἰτίας οἱ μὲν ἀνῃρέθησαν οἱ δ᾽ ἐπεβουλεύθησαν.]

domingo, 28 de novembro de 2010

A poesia não compensa?

Antigone, a daughter of Oedipus, king of Thebes, by his mother Jocasta. She buried by night her brother Polynices, against the positive orders of Creon, who, when he heard of it, ordered her to be buried alive. She however killed herself before the sentence was executed; and Haemon, the king's son, who was passionately fond of her, and had not been able to obtain her pardon, killed himself on her grave. The death of Antigone is the subject of one of the tatgedies of Sophocles. The Athenians were so pleased with it at the first reprentation, that they presented the author with the government of Samos. This tragedy was represented 32 times at Athens without interruption.

Biblioteca Classica or A Classical Dictionary, by J. Lemprière. DD (1797), citado em Antigones, de George Steiner.

Samos no mapa; coisa pouca:

A Queda de Roma e o Alvorecer da Europa — Programa


2/12/2010 | 14:30 | Sala 10, 5º piso, FLUC

O Mundo Romano no Dealbar do Século V, Vasco Gil Mantas (UC)
Tempus Barbaricum. Las migraciones bárbaras en la Península Ibérica, Rosa Sanz Serrano (Universidade Complutense de Madrid)
As Defesas das Cidades Romanas do Ocidente, Adriaan De Man (Universidade Nova de Lisboa)
La cittá de Roma nel Quinto Secolo, Cristina Cossi (Universidade de Cassino)
Os Cristãos e a Queda de Roma, Paula Barata Dias (UC)

3/12/2010 | 9:30 | Anf. IV, FLUC

Una Paisaje de villae fluviales: economía y sociedad en el territorio meridional de Emerita Augusta en la época tardoantigua, Saúl Martín González (Universidade Complutense de Madrid)
O Império Romano e as Crises no Limes: uma perspectiva militar, José Varandas (UL)
La Outra Ruptura del Limes en el 406: la piratería en las provincias occidentales del Imperio, David Álvarez Jiménez (Universidade Complutense de Madrid)
Do Limes à Marca: processo de definição territorial nos territórios do antigo império do Ocidente, Hermenegildo Fernandes (UL)
Crónica de uma Morte Anunciada: A Queda de Roma, Virgínia Pereira (Universidade do Minho)

[almoço]

Historiografia e Ideologia: a 'História Augusta', José Luís Brandão (UC)
Oráculos Bíblicos de Fim Projectados Sobre o Fim de Roma, José Ramos (UL)
Santo Agostinho e a Queda de Roma, Carlota Urbano (UC)

Apresentação da obra: Santo Agostinho. De Excidio Urbis e Outros Sermões Sobre a Queda de Roma, de Carlota Urbano, por Francisco Oliveira.

A Única Apologia Possível

diria eu até mesmo, a Única Apologia Possível.


Sempre disse aos meus alunos. "Não se negoceiam as nossas paixões. As coisas que vou tentar apresentar-vos são coisas de que gosto muito. Não posso justificá-las." Se sou arqueólogo e são os potes de quarto chineses do século VIII que constituem a minha vida, não posso justificá-lo. A pior coisa é tentar uma dialéctica da desculpa, da apologética, o que eu censuro ao ensino actual, e de que você [Cécile Ladjali] parece ser uma belíssima excepção; é a apologética de ter vergonha das paixões. Se o estudante sente que somos um pouco loucos, é já um primeiro passo. Não vai estar de acordo, talvez se ria, mas ouvirá. É nesse momento milagroso que o diálogo começa a estabelecer-se como paixão. Convém nunca tentarmos justificar-nos.

George Steiner, in Elogio da Transmissão - George Steiner e Cécile Ladjali. Carlos Aboim de Brito (trad.) Dom Quixote. (2004)

na imagem: Cécile Ladjali

sábado, 27 de novembro de 2010

A Queda de Roma e o Alvorecer da Europa — Colóquio Internacional

Terá lugar, nos próximos dias 2 e 3 de Dezembro, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o colóquio internacional subordinado ao tema A Queda de Roma e o Alvorecer da Europa. Amanhã revelaremos aqui o programa completo.

Better Book Titles























































































Mais aqui.

Conferência

"Roman and Local Time in the Empire"
Prof.ª Emma Dench (Universidade de Harvard)

Dia 6 de Dezembro de 2010 - 11h00
Sala de Investigadores do Centro de Estudos Clássicos  
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Mais informações aqui

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Descubra o Erro

cartoon de André Costa, da penúltima edição d' A Cabra
(clicar sobre a imagem para ampliar)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Escrita, Voz e Possibilidade do Romanesco: Uma Revisão do 'Fedro' de Platão

Abel Barros Baptista, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na qual dirige neste momento o Departamento de Estudos Portugueses e o ELAB (Laboratório de Estudos Literários Avançados, com o qual o programa de doutoramento em Materialidades da Literatura mantém um protocolo de colaboração), leccionará, na próxima sexta-feira, dia 26, o primeiro Seminário Transversal do nosso [doutoramento em Materialidades da Literatura] curso, com uma sessão sobre «Escrita, Voz e Possibilidade do Romanesco: uma revisão do Fedro de Platão».

A sessão, que se iniciará pelas 14 h, terá lugar na Sala Ferreira Lima da FLUC, no 6º piso. As inscrições para a sessão serão limitadas, podendo os interessados inscrever-se pelo mail do programa em Materialidades da Literatura: materialidades.da.literatura@gmail.com (nota amiga: mesmo sem estarem inscritos, não tenham problemas em aparecer; não promovemos o evento antes porque só hoje soubemos dele).

informação, adaptada, retirada daqui.

Mais Platão Online

Eis um extenso site com informação sobre Platão, os diálogos, as personagens, os locais, a filosofia. Já é algo antigo, há partes inacabadas (é o trabalho de um homem só), e é uma plataforma para o autor expor as suas próprias opiniões sobre o Mestre (cuidado, portanto: aquilo não é a wikipedia), mas, ainda assim, parece-me merecer uma visita.

Conferência

It is easier to steal Hercules’ club than to steal a line from Homer

The story of Achilles’ childhood is not very familiar today, even among those who know a bit about classical mythology. It is as the hero of Homer’s Iliad that Achilles is best known, and rightly so. In the Middle Ages, however, readers in Western Europe did not have direct access to Homer’s great epic, and had to make do with various works in Latin that summarized the tale of the Trojan War. These pallid recapitulations could never fully convey the qualities that gave Achilles the reputation he always enjoyed as the greatest hero of Ancient Greece. Disappointment will also have met the medieval reader looking for vibrant portraits of the hero in the great works of classical Latin literature. In Virgil’s Aeneid, Achilles is a figure already frozen in art, pictured on the walls of Juno’s temple in Carthage. Ovid, who delighted in drawing alternative portraits of certain heroes drawn from the canon of epic, such as Ulysses and Aeneas, only shows us brief glimpses of Achilles, even in that part of the Metamorphoses that tells the story of the Trojan War. The reason for this reticence is easy to understand. If, as Virgil is credited with saying, it is easier to steal Hercules’ club than to steal a line from Homer, then only a fool would try to compete directly with Homer’s eternal portrait of Achilles in all of his pride, stubbornness, rage, and pity.

P. J. Heslin, The Travestite Achilles: Genre and Gender in Statius' Achilleid, Cambridge University Press, 2005

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Única Lacuna

A noção do trabalho considerado como valor humano é, sem dúvida, aliás, a única conquista espiritual do pensamento humano posterior ao milagre grego; essa é talvez a única lacuna no ideal da vida humana que a Grécia elaborou e que nos foi legado como imorredoura herança. Bacon foi o primeiro a fazer surgir esta noção. À antiga e desesperante maldição do Génesis que representava o mundo como um cárcere e o trabalho como a marca da escravidão e da abjecção dos homens, substitui ele, num rasgo de génio, o verdadeiro enunciado das relações do Homem com o mundo: «o Homem dirige a natureza, obedecendo-lhe». Esta tão simples fórmula deveria constituir, por si só, a Bíblia da nossa época. Ela só basta para definir o trabalho autêntico, que liberta os homens, exactamente na medida em que constitui um acto de submissão consciente à necessidade. Após Descartes, os sábios caíram progressivamente na convicção de que a ciência pura encerra em si o seu próprio objectivo; mas o ideal de uma vida consagrada de forma livre de labor físico começou em contrapartida a surgir na literatura, dominando mesmo a obra-prima do poeta geralmente considerado como sendo de todos o mais aristocrático, Goethe. [...] Seria fácil citar ainda outros nomes ilustres, entre os quais Rousseau, Shelley e, sobretudo, Tolstoi, que desenvolveu o mesmo tema de maneira incomparável ao longo de toda a sua obra. Quanto ao movimento operário, sempre que lhe foi possível libertar-se da demagogia, foi sobre a dignidade do trabalho que fundou as reivindicações dos trabalhadores. Proudhon ousou escrever: «O génio de um simples artífice, exercendo-se sobre os seus materiais, reveste-se de uma dignidade idêntica à do espírito de um Newton reflectindo sobre as esferas inertes, calculando as distâncias, as massas e as revoluções». Marx, cuja obra encerra contradições diversas, considerava como característica essencial do Homem, opondo-o aos animais, o facto de produzir as condições da sua própria existência, produzindo-se assim indirectamente a si próprio. Os sindicalistas revolucionários, que colocam no centro da questão social a dignidade do produtor considerado como tal, filiam-se na mesma corrente. Considerado no seu conjunto, podemos orgulhar-nos de pertencer a uma civilização que trouxe consigo o pressentimento de um novo ideal.

Simone Weil, Reflexões Sobre as Causas da Liberdade e da Opressão Social
in Opressão e Liberdade. Livraria Morais Editora, Lisboa: 1964. (trad.: Maria de Fátima Nunes).

'O Luto Vai Bem Com Electra', no Teatro Municipal de Almada

O ciclo de três peças O luto vai bem com Electra (Mourning becomes Electra, 1931) de Eugene O’Neill regressa a um palco português, 67 após a sua estreia no Teatro Nacional D. Maria II – sob o título de Electra e os fantasmas –, onde foi encenada por Robles Monteiro, sobre tradução de Henrique Galvão. Numa nova produção da CTA, Rogério de Carvalho dirige Regresso a Casa (Homecoming); Os Caçados (The hunted); e Os Assombrados (The haunted), partindo de uma nova tradução, encomendada a Helena Barbas.

Com esta trilogia, o dramaturgo norte-americano desejou que os seus compatriotas experimentassem – literal, formal e esteticamente –, a imensidão da tragédia, renovando a expectativa do público da Atenas do século V a.C, quando assistia nos festivais dionisíacos a grupos de três tragédias. Inspirando-se na Oresteia, de Ésquilo – trilogia constituída pelas peças Agamémnon, Coéforas e Euménides –, O’Neill situa a acção no final da Guerra da Secessão, em 1865, quando o general vencedor Erza Mannon regressa a casa, na região da Nova Inglaterra (emblema da América genuína, por aí se terem estabelecido os Pilgrim Fathers no século XVII). Tal como Agamémnon, Erza é a primeira vítima da corrupção profunda da família, que se autodestrói pelo crime. Ora, onde Ésquilo buscara um horizonte ético e político onde a lei triunfa sobre a vingança, O’Neill desenha a atmosfera malsã do inconsciente insuspeito e indomável que hipoteca no homem a liberdade de perseguir o bem.

Ficha Técnica
Encenação: Rogério de Carvalho
Tradução: Helena Barbas
Cenário: José Manuel Castanheira
Figurinos: Mariana Sá Nogueira e Patrícia Raposo
Assistente de Figurinos: Miguel Morazzo
Luzes: José Carlos Nascimento
Sonoplastia: Guilherme Frazão
Intérpretes: André Albuquerque, Bernardo Almeida, Celestino Silva, Laura Barbeiro, Marques D' Arede, Miguel Martins, Paulo Guerreiro, São José Correia, Sofia Correia, Teresa Gafeira

1 a 19 DEZEMBRO 2010
Qua e Sáb às 21h30 e Dom às 16h
Duração: cerca de 04h00m
M/12

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Platão Contratado Para os Monty Python


— Respondo então que Iolau era sobrinho de Héracles e, pelo que me parece, não era nada a mim, pois o meu irmão Pátrocles não era pai dele, mas sim Ifícles, um nome parecido, que era o irmão de Héracles.
— E Pátrocles é teu irmão?
— Claro - disse eu [Sócrates] - Nascido da mesma mãe, mas não do mesmo pai.
— Então é teu irmão e não é teu irmão.
— Não nasceu do mesmo pai, meu caro - esclareci - pois o dele era Queredemo e o meu Sofronisco.
— E Sofronisco era pai e Queredemo também? - perguntou.
— Sem dúvida - respondi - Um era meu, outro era dele.
— Portanto, Queredemo era diferente de pai? - continuou.
— Do meu, sim.
— Mas então sendo pai era diferente de pai? Ou tu és o mesmo que esta pedra?
— Eu? Receio que aos teus olhos pareça o mesmo, mas no entanto não é essa a minha opinião.
— És então diferente desta pedra?
— Naturalmente que sou.
— Por conseguinte, sendo diferente de uma pedra, não és pedra? E sendo diferente de ouro não és ouro?
— É isso mesmo.
— Então também Queredemo sendo diferente de pai, não é pai.
— Parece não ser pai - disse eu.
— Pois, sem dúvida - disse Eutidemo, tomando a palavra - se Queredemo é pai, Sofronisco, pelo contrário, sendo diferente de pai, não é pai. De modo que tu, Sócrates, não tiveste pai.
Nessa altura Ctesipo interveio e disse:
— O vosso pai, por seu lado, não passou por esta mesma situação? Não é diferente do meu pai?
— Longe disso - respondeu Eutidemo.
— Então? É o mesmo?
— Naturalmente que é.
— Era preciso que eu o deixasse! Mas diz-me, Eutidemo, ele é só o meu pai ou também é dos outros homens?
— Também é dos outros homens - respondeu - Ou pensas que o mesmo homem que é pai, não é pai?
— De facto, pensava - disse Ctesipo.
— E então algo que é ouro, não é ouro? Ou alguém que é homem não é homem?
— Atenção, Eutidemo! - continuou Ctesipo - Não estás a atar um fio ao fio, refere o provérbio. É que estás a dizer coisas estranhas, se o teu pai é pai de todos.
— Mas é - afirmou.
— Apenas dos homens? - perguntou Ctesipo - Ou também dos cavalos e de todos os outros animais?
— De todos - respondeu.
— E será que a mãe também é mãe?
— A mãe também.
— Por conseguinte, a tua mãe é também mãe dos ouriços-do-mar.
— E também a tua.
— E tu, portanto, és irmão dos vitelinhos, dos cãezinhos e dos leitõezinhos.
— Sim, e tu também - disse.
— Então tens um pai cão.
— E tu também.
— Em breve irás concordar com isto, Ctesipo, se me responderes - disse Dionisodoro - Diz-me, pois: tens um cão?
— E muito feroz - respondeu Ctesipo.
— E sem dúvida tem cachorrinhos?
— Que também são outros que tais.
— Portanto, o cão é pai deles?
— De certeza. Eu próprio o vi cobrir a cadela.
— Ai sim? E o cão não é teu?
— Absolutamente.
— Então, ele é teu, sendo pai, de modo que o cão passa a ser teu pai e tu irmão dos cachorrinhos.

Platão, Eutidemo 297e-298e5
INCM, Lisboa: 1999 (trad.: Adriana Nogueira).

Os Gladiadores Ficaram Sem Casa, Mas O Marte Já Tem Pilinha

Silvio Berlusconi's enthusiasm for cosmetic surgery is well documented, but it was not previously known to extend to either genitalia or classical sculpture. Government officials confirmed today, however, that a valuable statue of the god Mars, on loan to the prime minister's office, had been fitted with an artificial penis. The original was chipped off at some stage in its long life, beginning in AD175.

La Repubblica said the transplant was carried out at Berlusconi's "express request" and that, along with a new hand for an accompanying statue of the goddess Venus, it had cost the Italian taxpayer €70,000 (£60,000). But Mario Catalano, the prime minister's architect, told the Guardian: "I took the decision." He said he had agreed the operation with the heritage ministry and that it had "not cost a lira" because it was carried out by restorers employed by the government.

"There are two philosophies of restoration," he said. "One is just to clean the work and leave it as it is. The other involves making the work whole again, without damaging it, to provide an image of the work as it was originally conceived." He said the missing part had been attached to the original with a magnetic system, but was unable to say exactly how it worked. Both the hand and the prosthetic penis were removable.

The prime minister had approved the finished work and had the statue put in a prominent position at the entrance to his official residence in Rome, Palazzo Chigi. It is not the first time Berlusconi has been accused of interfering with art works. Two years ago, government employees veiled the breasts of a nude in a mural that featured prominently behind the prime minister during press conferences.

notícia retirada daqui.
imagem: a dita cuja estátua, restaurada.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Acabadinho de Sair

Comentários do Colégio Conimbricense da Companhia de Jesus
Sobre os Três Livros do Tratado 'Da Alma' de Aristóteles Estagirita
P. Manuel de Góis
Mário S. de Carvalho (introdução)
Maria da Conceição Camps (tradução)
P.V.P.: 25,90 euros

No século de Camões, de Gil Vicente e de Pedro Nunes foi publicada em Coimbra e em Lisboa a obra maior e mais internacional da filosofia portuguesa, os Comentários Conimbricenses da Companhia de Jesus, sobretudo da autoria de Manuel de Góis. Descartes, Peirce, entre outros, estudaram por essas páginas, cujo texto sobre o 'De Anima' conhece agora a primeira tradução do latim numa língua viva. O Comentário fez parte do curriculum dos Colégios Jesuítas do Atlântico aos Urais, marcou o ensino no Brasil e na Índia, sendo também, provavelmente, o primeiro texto de filosofia ocidental a conhecer uma adaptação em língua chinesa. Numa época de globalização como é a nossa, bom será que se reconheça a importância que o Curso Conimbricense teve ao contribuir para a criação de uma cultura universal com todas as suas consequências, designadamente a que envolveu a difusão de valores hoje considerados inquestionáveis no domínio dos direitos do homem, no respeito pela natureza e no reconhecimento do valor da ciência e da religião, em todas as suas vertentes. Tanto ou mais do que a explicação da psicologia de Aristóteles, o leitor encontrará a surpresa de uma filosofia renascimental nas suas múltiplas temáticas, desenvolvida de um modo sistemático, mas aberto, cuja actualidade ou perenidade se pode aferir pelo eco que os autores dão à ciência da alma: a mais nobre de entre as demais, já que ninguém se pode conhecer a si mesmo nem ao Universo se não se debruçar sobre os segredos que a alma encerra e que são simultaneamente únicos, porque individuais, e universais. O início da introdução geral (pdf de 12 páginas) pode ser lido aqui.

Relembre-se, para benefício do leitor, que o De Anima acabou de ser publicado em tradução portuguesa no mês passado, na série Obras Completas de Aristóteles, da INCM.

Como Se Explica

«Como se explica, Hípias, que os antigos sábios
todos se tenham afastado dos negócios públicos?»*
perguntei, porque também eu calei
a minha voz pública de outrora. Cidade,
perdoa-me a ausência e o rancor,
perdoa que a minha voz agora
não nomeie os teus cais de embarque,
a dor, miséria, cúpida opressão.
Ainda amo, neste exílio de paz, a mesma Paz.

Sábia, não sou. Calei-me porque
as memórias minhas e a voz sozinha
também pertencem ao Todo, em harmonia.
Ainda amo a pátria, feita de lugares, parentes,
dos próximos, e do vento, meu semelhante.

*Platão, Hípias Maior

Fiama, Âmago - Antologia
Assírio & Alvim, Lisboa: 2010.
(originalmente em Cenas Vivas, de 2000).

sábado, 20 de novembro de 2010

Exame de Filosofia Reposto

Apesar de não estar directamente implicada, a Origem da Comédia não quer deixar de se muito regozijar com a notícia de que o exame de filosofia volta a ser obrigatório para o 11º ano.

breves notas sobre as ligações

#1
Esta cidade que nunca se apaga da mente é como uma armação ou um reticulado em cujas casas cada um pode dispor as coisas que lhe aprouver recordar: nomes de homens ilustres, virtudes, números, classificações vegetais e minerais, datas de batalhas, constelações, partes de um discurso. Entre todas as noções e todos os pontos do itinerário poderá estabelecer um nexo de afinidades ou de contrastes que sirva de mnemónica, de referências instantânea para a sua memória. E assim é de maneira tal que os homens mais sábios do mundo são os que conhecem Zora de cor. Mas foi inutilmente que parti em viagem para visitar a cidade: obrigada a permanecer imóvel e igual a si própria para melhor ser recordada, Zora estagnou, desfez-se e desapareceu. A Terra esqueceu-a.
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis


#2
Para fazermos os antigos falar temos que lhes dar a beber do nosso próprio sangue.
Ulrich von Wilamowitz


#3
A Casa dos Gladiadores, um dos edifícios mais notáveis da cidade soterrada de Pompeia, desaba por negligência governamental.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Aristóteles Sobre Portugal 2010 AD

Um ponto de suprema importância em qualquer regime é que a legislação e demais instituições políticas estejam estabelecidas de forma a não constituírem fonte de lucros para os magistrados. Esta circunstância merece especial atenção nos regimes oligárquicos. De facto, nada irrita tanto o povo (que nem se preocupa muito com o afastamento dos cargos governamentais; pelo contrário, até fica satisfeito em ter liberdade para se dedicar aos assuntos particulares) quanto o pressentimento que os magistrados desfalcam o erário público em proveito próprio. Nestas alturas, ressentem-se das duas coisas: de não participar nas honrarias, nem no lucro.

Aristóteles, Política V.1308b31-38
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

[μέγιστον δὲ ἐν πάσῃ πολιτείᾳ τὸ καὶ τοῖς νόμοις καὶ τῇ ἄλλῃ οἰκονομίᾳ οὕτω τετάχθαι ὥστε μὴ εἶναι τὰς ἀρχὰς κερδαίνειν.τοῦτο δὲ μάλιστα ἐν ταῖς ὀλιγαρχικαῖς δεῖ τηρεῖν. οὐ γὰρ οὕτως ἀγανακτοῦσιν εἰργόμενοι τοῦ ἄρχειν οἱ πολλοί, ἀλλὰ καὶ χαίρουσιν ἐάν τις ἐᾷ πρὸς τοῖς ἰδίοις σχολάζειν, ὥστ᾽ ἐὰν οἴωνται τὰ κοινὰ κλέπτειν τοὺς ἄρχοντας, τότε γ᾽ ἀμφότερα λυπεῖ, τό τε τῶν τιμῶν μὴ μετέχειν καὶ τὸ τῶν κερδῶν]

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O corifeu

Quem sabe quanto tempo levamos à espera,
prostrados na cal ardente das ilhas,
afundados na noite sem lua das armas,
abertos aos poços sem fundo do desejo,
olhando-nos muito quietos no espelho pisado
duma terra assolada lentamente por dunas.
Para que mar fugiram nossas vidas prematuras,
as fábulas indefesas da nossa adolescência.
Que deixaram nossos anos de maturidade
senão o cansaço puro da placidez,
a casa abandonada e o amor muito longe.
Vede aqui vossos filhos: já não os reconhecem
a aurora, a esperança. Não sabem os caminhos
antigos da luz, ocultos atrás da névoa.
Crescemos sem sossego, no abatimento.
Fomos um povo dócil e crédulo em lendas.
Clamo a solidão dos nossos corações.

Vicente Valero, Trípticos Espanhóis, 2.º vol., Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Relógio d'Água, 2000

Profecia de Uma Revolução


Muitos, incluindo até aqueles que pretendem estabelecer regimes aristocráticos, cometem o erro de não só favorecerem os ricos, como de ludibriarem as expectativas do povo. Todavia, o certo é que acaba por chegar a hora em que dos falsos bens nasce inevitavelmente um verdadeiro mal, pois os excessos cometidos pelos ricos constituem um factor mais dissolvente dos regimes do que os cometidos pela massa popular.

Aristóteles, Política IV.1297a7-13
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

[διαμαρτάνουσι δὲ πολλοὶ καὶ τῶν τὰς ἀριστοκρατικὰς βουλομένων ποιεῖν πολιτείας, οὐ μόνον ἐν τῷ πλεῖον νέμειν τοῖς εὐπόροις, ἀλλὰ καὶ ἐν τῷ παρακρούεσθαι τὸν δῆμον. ἀνάγκη γὰρ χρόνῳ ποτὲ ἐκ τῶν ψευδῶν ἀγαθῶν ἀληθὲς συμβῆναι κακόν: αἱ γὰρ πλεονεξίαι τῶν πλουσίων ἀπολλύασι μᾶλλον τὴν πολιτείαν ἢ αἱ τοῦ δήμου.]

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Arquitectura Romana

O fabuloso site Academic Earth (do qual já aqui falámos) brinda-nos de novo, desta vinda com um curso sobre Arquitectura Romana da Universidade de Yale.

A Escola É De Todos: Destrói A Tua Parte

Por outro lado, esta fórmula apresenta uma outra dificuldade. Quanto mais uma coisa é comum a um maior número, menos cuidado recebe. Cada um preocupa-se sobretudo com o que é seu; quanto ao que é comum, preocupa-se menos, ou apenas na medida do seu interesse particular. Aliás, desleixa-se ainda mais ao pensar que outros cuidam dessas coisas.

Aristóteles, Política II.1261b32-36
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes).

[πρὸς δὲ τούτοις ἑτέραν ἔχει βλάβην τὸ λεγόμενον. ἥκιστα γὰρ ἐπιμελείας τυγχάνει τὸ πλείστων κοινόν: τῶν γὰρ ἰδίων μάλιστα φροντίζουσιν, τῶν δὲ κοινῶν ἧττον, ἢ ὅσον ἑκάστῳ ἐπιβάλλει: πρὸς γὰρ τοῖς ἄλλοις ὡς ἑτέρου φροντίζοντος ὀλιγωροῦσι μᾶλλον]

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Propósito de 'The Social Network'

His [Mark Zuckerberg] best subject in school: “At his Ardsley, N.Y., high school, he excelled in the classics. He transferred to Phillips Exeter Academy where he immersed himself in Latin. In college, he was known for reciting lines from epic poems such as "The Iliad." (daqui).

His reasons for attending Exeter, however, were originally non-electronic. For Zuckerberg, the school’s major selling point was its Latin program. The current computer science concentrator originally intended to study classics at Harvard. (daqui).

On his college application, Zuckeberg listed as non-English languages he could read and write: French, Hebrew, Latin, and ancient Greek. (daqui).

imagem: fotograma de The Social Network, de David Fincher (2010).

domingo, 14 de novembro de 2010

Quero Ir Para Estudos Medievais e Renascentistas

Georgius Gemistus Plethon
Γεώργιος Πλήθων Γεμιστός
c. 1355–1452/1454

...Plethon drew up plans in his Nomoi to radically change the structure and philosophy of the Byzantine Empire in line with his interpretation of Platonism. The new state religion was to be founded on a hierarchical pantheon of Pagan Gods, [...] with Zeus as supreme sovereign, containing within himself all being in an undivided state... (ler mais aqui: é inacreditável).

Próxima encomenda de Inglaterra: George Gemistos Plethon - The Last of the Hellenes, de C. M. Woodhouse (Oxford, 1986).

sábado, 13 de novembro de 2010

Frase no Brasão do Steiner (e de Outros Tantos)

Indeed, Nicias, it is hard to say about any study at all that one must not learn it, for it seems good to know all things.

ἀλλ᾽ ἔστι μέν, ὦ Νικία, χαλεπὸν λέγειν περὶ ὁτουοῦν μαθήματος ὡς οὐ χρὴ μανθάνειν: πάντα γὰρ ἐπίστασθαι ἀγαθὸν δοκεῖ εἶναι.

Platão, Laques 182d9
in Thomas L. Pangle (ed.), The Roots of Political Philosophy - Ten Forgotten Socratic Dialogues.
Cornell University Press, Ithaca/Londres: 1987. (trad. deste diálogo: James H. Nichols Jr.)

imagem: Ung man läsande vid vaxljus/
Young Man Reading by Candlelight, de Matthias Stom

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ésquilo, Perdão, Esquilo em Roma

Diogenes and the Naughty Boys from Corinth

This set of magic lantern slides is based on Wilhelm Busch's Diogenes and the Naughty Boys from Corinth picture story. Wilhelm Busch (1832-1908) is thought to be one of the most important forerunners of strip cartoons. He was the creator of the popular Max e Moritz characters. The set was made by York & Son (London) in 1887 or earlier. Diogenes, the philosopher who lived in a barrel, is seriously disturbed by two naughty boys, but their pranks are ferociously punished. (retirado daqui)












terça-feira, 9 de novembro de 2010

Teógnis Comentado - III, ou Diógenes Contra Mundum

De todas as coisas é a pobreza que mais subjuga o Homem nobre,
mais do que a grisalha velhice, ó Cirno, e a doença.
Para se fugir dela é preciso atirarmo-nos ao mar cheio de monstros,
ó Círno, ou então despenharmo-nos de altos rochedos.
Pois o Homem subjugado pela pobreza não pode nem falar
nem fazer nada; e a sua língua encontra-se atada.
É preciso procurar na terra e no vasto dorso do mar,
ó Círno, a libertação da dolorosa pobreza.
Morrer, querido Cirno, é melhor para o Homem indigente
do que viver esmagado pela dolorosa pobreza.

Teógnis, 173-182 in Poesia Grega de Álcman a Teócrito.
Cotovia, Lisboa: 2006. (trad.: Frederico Lourenço).

The honorable body is not the one that is beautiful, or strong, or swift, or large, or even healthy — though many would believe this, indeed, to be rather honorable — nor, of course, a body that has the opposite characteristics. Instead, those attributes which occupy the middle ground, in between all these, are the most moderate and steady by far. For the former extremes make souls boastful and rash, while the latter make them humble and unfree.

Platão, Leis 728e
University of Chicago Press, Chicago: 1980. (trad: Thomas L. Pangle)

[τίμιον εἶναι σῶμα οὐ τὸ καλὸν οὐδὲ ἰσχυρὸν οὐδὲ τάχος ἔχον οὐδὲ μέγα, οὐδέ γε τὸ ὑγιεινόν—καίτοι πολλοῖς ἂν τοῦτό γε δοκοῖ—καὶ μὴν οὐδὲ τὰ τούτων γ᾽ ἐναντία, τὰ δ᾽ ἐν τῷ μέσῳ ἁπάσης ταύτης τῆς ἕξεως ἐφαπτόμενα σωφρονέστατα ἅμα τε ἀσφαλέστατα εἶναι μακρῷ: τὰ μὲν γὰρ χαύνους τὰς ψυχὰς καὶ θρασείας ποιεῖ, τὰ δὲ ταπεινάς τε καὶ ἀνελευθέρους.]

Por conseguinte, posto que concordámos que o moderado e o intermédio é o que há de melhor, torna-se evidente que, em relação à posse dos bens, a riqueza mediana é a melhor de todas porque é a que mais facilmente obedece aos ditames da razão. Pelo contrário, a beleza excessiva, a força extrema, a linhagem inigualável, a riqueza desmedida, ou os respectivos opostos, tais como a pobreza excessiva, a debilidade extrema e a ausência de honrarias, têm dificuldade em seguir a voz da razão. [...] Já aqueles que vivem numa excessiva penúria encontram-se rebaixados. Assim sendo, estes não sabem o que significa propriamente mandar, mas apenas comportar-se como escravos sujeitos à autoridade.

Aristóteles, Política 1295b5-7, 18-20
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes).

[ἐπεὶ τοίνυν ὁμολογεῖται τὸ μέτριον ἄριστον καὶ τὸ μέσον, φανερὸν ὅτι καὶ τῶν εὐτυχημάτων ἡ κτῆσις ἡ μέση βελτίστη πάντων. ῥᾴστη γὰρ τῷ λόγῳ πειθαρχεῖν, ὑπέρκαλον δὲ ἢ ὑπερίσχυρον ἢ ὑπερευγενῆ ἢ ὑπερπλούσιον <ὄντα>, ἢ τἀναντία τούτοις, ὑπέρπτωχον ἢ ὑπερασθενῆ ἢ σφόδρα ἄτιμον, χαλεπὸν τῷ λόγῳ ἀκολουθεῖν. [...] οἱ δὲ καθ᾽ ὑπερβολὴν ἐν ἐνδείᾳ τούτων ταπεινοὶ λίαν. ὥσθ᾽ οἱ μὲν ἄρχειν οὐκ ἐπίστανται, ἀλλ᾽ ἄρχεσθαι δουλικὴν ἀρχήν,...]

*

Descia Mercator umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, contra a parede, a comer lentilhas. Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava, e pelo estômago farto, disse, para Diógenes:
— Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.
E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico? Diógenes respondeu. À letra:
— E tu - disse o filósofo - se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisava de bajular o rei.

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas
Leya - BIS, Alfragide: 2010.

imagem: Diógenes, de John William Waterhouse
1882, @ Art Gallery of New South Wales

Ben-Hur XXI, ou Para Os Amantes das Quadrigas

Este cadeirão chama-se Ben-Hur e, a partir daqui, a explicação seria simples não fosse a polémica. O cadeirão faz parte de uma colecção de móveis e acessórios de casa que o criador de moda francês Jean-Paul Gaultier desenhou para a também francesa Roche Bobois, que celebra neste Outono/Inverno 50 anos. O Ben-Hur foi, obviamente, inspirado na famosa corrida de carros romanos do famoso filme onde Hollywood contou a perseguição de Roma aos cristãos.

Cadeirão Ben-Hur, €4630 (!), aqui.

texto, de A. G. Ferreira, e informação colhidos na última Pública.

Cristianismo Primitivo e Cosmética Grega

Porque este blog tem tido demasiado Santo Agostinho ultimamente.

Hans was a colourless young man, bony without being tall or strong, who tended to wipe his hands on his hair or his clothes and peer, wherever possible, into a small round tin-framed pocket mirror because he was always troubled by some new eruption of his muddy skin. But this, with the possible exception of the pocket mirror, was exactly how Gerda pictured the early Roman Christians, forgathering in their underground catacombs in defiance of his persecutors. It was not an exact correspondence of details that she meant, after all, but the basic general feeling of terror shared with the early Christian martyrs, as she saw them. Actually, she found the well-scrubbed and scented pagans more attractive, but taking sides with the Christians was a sacrifice one owed to one's character.

Robert Musil, Der Mann ohne Eigenschaften


A lei de Píndaro e Musil sobre tradução erótica

Nota: título de post enganador, lasciate ogne speranza etc.

“I don’t understand any of it,” Agathe replied. “But do you know that a boy in his class once translated a passage from Shakespeare quite literally, and the effect was touching, beginning with ‘Cowards die many times before their deaths,’ and without any feeling for what the boy had done, Hagauer simply crossed it out and replaced it, word for word, with the old Schlegel version!

“And I remember another instance, a passage from Pindar, I think: “The law of nature, King of all mortals and immortals, reigns supreme, approving with extreme violence, with almighty hand,’ and Hagauer polished it: ‘The law of nature, that reigns over all mortals and immortals, rules with almighty hand, even approving violence.”

[...]

Frowning, Ulrich stared at his sister. “The person who won’t try to ‘restore’ an old poem but leaves it in its decayed state, with half its meaning lost, is the same as the person who will never put a new marble nose on an old statue that has lost its own,” he thought. “One could call it a sense of style, but that’s not what it is. Nor is the person whose imagination is so vivid that he doesn’t mind when something’s missing. It’s rather the person who cares nothing for perfection and accordingly doesn’t demand that his feelings be ‘whole’ either. She’s capable of kissing,” he concluded with a sudden twist,” without her body going all to pieces over it.

Robert Musil, Der Mann ohne Eigenschaften


O fragmento Das Höchste, O Supremo, é o fragmento central da tradução de Hölderlin dos Fragmentos de Píndaro.



Das Höchste

Das Gesetz,
Von allen der König, Sterblichen und
Unsterblichen; das führt eben
Darum gewaltig
Das gerechteste Recht mit allerhöchster Hand.


O supremo

A lei,
De todos o rei, mortais e
Imortais; exerce precisamente
Por isso com violência
A mais justa justiça, com mão soberana.

Νόμος πάντων βασιλεύς
θνατν τε κα θανάθων
γει δικαιν τ βιαιότατον
περτάτ χειρί.


De longe o mais surpreendente nesta tradução é a alteração de δικαιῶν τὸ βιαιότατον (que poderíamos traduzir como “justificando a maior força”) para “exerce com violência a mais justa justiça”. O foco fica completamente desviado. O comentário é terrível. “O imediato, considerado de modo estrito, é para os mortais impossível, tanto quanto para os imortais.” “A estrita mediação é porém a lei”— o que nos diz que a ilusão --o dolo-- sugerido pelos fragmentos anteriores, sobre a necessidade de a lei humana espelhar a divina para poder melhor preencher o quadro do destino cósmico, não passava duma perversa sedução dos deuses que amam e destroem como a rosa floresce, sem porquê. Mediar a esfera do divino —traduzir de deus para humano, poderíamos dizer— é unir as duas pontas através da lei, mas compreender que isso nada tem de hospitalidade: a lei terá de ser exercida com força, não por ela justificar a força, mas porque a divisão entre mortais e imortais é dolorosa e não pode existir junção ao plano da mais alta legislação. “o Deus tem de distinguir mundos diferentes, em conformidade com a sua natureza, pois a benevolência celeste, por si mesma, tem de ser sagrada, não híbrida.” Compreendermos a necessidade da lei, rei de todos, é compreender que o caminho entre humano e divino não pode ser nunca completamente trilhado: o híbrido, isto é, o centauro, nunca é meio-deus, é sempre meio-animal: a possibilidade humana fica sempre aquém das expectativas, sempre abaixo da mediania universal, desde o momento em que Júpiter assumiu o trono real. ““Rei” significa aqui o superlativo, o qual é o sinal unicamente do supremo fundamento do conhecimento, não do poder supremo.” O deus é a lei, na medida exacta em que o deus não é verdade: a verdade é violenta porque se funda lei do deus, que a ninguém presta contas.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Que O Vulcão Não Destruiu, A Chuva Derrubou

The 2,000-year-old "House of the Gladiators" in the ruins of ancient Pompeii collapsed on Saturday, officials said. They said the stone house, on the main street of the world-famous archaeological site and measuring several hundred square meters (yards), collapsed just after dawn while the site was closed. Custodians discovered the collapse when they opened the site.

The structure was believed to be where gladiators gathered and trained and used as a club house before going to battle in a nearby amphitheatre in the city that was destroyed by an eruption of Mount Vesuvius in 79 AD. Known officially by its Latin name "Schola Armaturarum Juventus Pompeiani," the structure was not open to visitors but was visible from the outside as tourists walked along one of the ancient city's main streets. Its walls were decorated with frescoes of military themes.

Officials speculated that the collapse may have been caused by heavy rains. Art historians and residents for years have complained that the archaeological sites at Pompeii, among the world's most important, were in a state of decay and needed better maintenance. Opposition politicians quickly criticized the government of Prime Minister Silvio Berlusconi, particularly Culture Minister Sandro Bondi, for allowing the site to degrade in recent years.

retirado daqui.

Perdoem-me O Atraso, Mas Eu Só Leio Os Jornais Ao Fim-de-Semana

Santos Silva, que, mal subiu à tribuna, ouviu um sonoro "ohhhhhh" vindo da oposição, chegou a ser pateado pela bancada do PSD. Isso mesmo aconteceu quando decidiu recorrer a figuras da mitologia clássica para caracterizar a distância entre o discurso de Manuela Ferreira Leite, ontem de manhã, e as intervenções da direcção da bancada e do próprio partido: "Que a senhora deputada possa ser nesta hora o Mercúrio capaz de transmitir ao indeciso Janus palavras de sensatez e responsabilidade", disse, recolhendo então uma pateada dos sociais-democratas e aplausos da bancada socialista.

Mas Santos Silva não ficou por aqui. Discorreu ainda sobre "a fala a várias vozes e o olhar em diferentes direcções de Janus", numa comparação com o PSD, sublinhou a "admoestação pública" feita por Ferreira Leite ao seu próprio partido, e, por fim, disse que os tempos actuais exigem "a coragem e a sabedoria de Minerva". [...] Pelo Bloco de Esquerda, Luís Fazenda anotou como curioso que os dois partidos do bloco central tenham como "pitonisa" Manuela Ferreira Leite.

excertos do artigo do Público de 4 de Novembro, por Sofia Rodrigues, Nuno Simas
e Maria José Oliveira, sobre a discussão do orçamento na semana passada.

esclarecimento desnecessário: a Origem não tem qualquer filiação ou simpatia política
e o presente post surge apenas aqui pelas referências, não inéditas no parlamento, à mitologia.

domingo, 7 de novembro de 2010

'Cidade de Deus', de Santo Agostinho [Crítica]

Santo Agostinho, Cidade de Deus
Gulbenkian, Lisboa: 1991, 93 e 95.
Tradução em três volumes de J. Dias Pereira.

Citações da Cidade de Deus são uma paisagem familiar para os leitores deste blogue desde o seu começo. De facto, foi por volta de maio, em cumprimento de uma promessa que fizera já no ano anterior a um amigo meu, que peguei na obra mastodonte de Agostinho, ciente de que me exigiria grande dedicação, mas sobretudo uma enorme paciência e perseverança. Falamos, afinal, de um livro de filosofia/teologia (fora um romance e o «problema» não se poria) com mais de duas mil páginas, que se estende por três volumes. Não é a Summa Theologica (que era, não nos esqueçamos, um manual para principiantes), mas não deixa de impor respeito.

Não tenho propriamente como princípio comentar no blogue obras da Antiguidade e, se abro aqui uma excepção, faço-o em virtude do esforço que a Civitate me exigiu, mas também por estarmos perante o que será, muito provavelmente, a última grande obra do período greco-romano, sendo que o texto de Agostinho, simultaneamente, estabelece já a ponte para a Idade Média, ao lançar os fundamentos sobre os quais esta se construirá. Não deixa de ser perturbador, ou, se preferirem uma palavra mais suave, estranho, pensar que, se ousarmos traçar uma linha da literatura dos pouco mais de 1200 anos que durou a chamada Antiguidade Clássica, encontramos, num dos extremos, a Ilíada, no outro, a Civitate. Um novo mundo irrompera de dentro do antigo (um pouco ao jeito do bicharoco no Alien).

Na Civitate, porém, encontramos ainda, muito presente, o universo pagão. De facto, a obra está dividida em duas grandes partes: na primeira metade, Agostinho refuta os argumentos dos filósofos contra os cristãos, envolvendo-se nas polémicas do seu tempo; na segunda, expõe a doutrina cristã sob o prisma unificador da narrativa do que ele designa de a cidade de Deus, a comunidade dos santos de todos os tempos. Como não é difícil de imaginar, numa obra assim tão vasta, é normal que nem todos os livros tenham a mesma qualidade. Na verdade, e adivinho que o que vá dizer não abone particularmente a favor da Cidade, creio que Agostinho nunca volta, no resto da obra, a alcançar a força, a todos os níveis, que o primeiro livro patenteia. Este foi escrito imediatamente após o saque de Roma de 410, tendo como missão principal consolar os cristãos da capital do império, que, obviamente, viam o mundo à sua volta a desagregar-se, não sabendo como lidar com o que, para a altura, deve ter sido um acontecimento absolutamente traumatizante. Nessas páginas iniciais, escritas sob a pressão dos eventos, nota-se uma urgência que, progressivamente, se vai apagando, um fogo e uma necessidade naquelas linhas que nos transporta, de facto, para a cidade em ruínas e, sobretudo, para a perplexidade dos crentes.

Como está bom de ver, não tardou a que se começasse a dizer que a culpa pelo ataque era da ascenção do cristianismo, e que os visigodos só haviam chegado à urbe por o culto dos antigos deuses ter sido desprezado. Já no Livro I se oferecem algumas respostas a estes ataques, mas será nos livros imediatamente seguintes, até ao décimo segundo, que Agostinho, de uma forma sistemática, trata de demolir toda a argumentação pagã, expondo, de forma crua, as contradições da religião antiga e das filosofias que acorriam em sua defesa. O tratamento exaustivo do assunto impressiona qualquer um, mas Agostinho sofre de dois principais problemas: primeiro, apesar de conhecer bem alguns dos textos latinos fundamentais, tem um conhecimento deficitário da produção grega e, mesmo dentro das obras romanas, ele apega-se obsessivamente a meia dúzia e, de entre estes, a certas passagens, que lhe são convenientes, em particular, insistindo nelas de forma algo repetitiva (confronte-se, em contrapartida, mais de dois séculos antes, Clemente de Alexandria, graças ao qual nos chegaram uma série de fragmentos de tragediógrafos, líricos e filósofos, um homem de uma cultura extraordinária: em doze páginas refere mais autores que Agostinho, nos seus melhores esforços, num livro inteiro).

O segundo problema da argumentação de Agostinho, mas que não lhe pode ser imputado na totalidade, é que procura combater o paganismo como se ele fora um sistema, coisa que, claro, ele não é, o que desde logo o deixa em desvantagem face à bem organizada ortodoxia dogmática cristã que, se é certo que estava ainda em formação, formava um todo bem mais coerente que tudo o que o paganismo conseguira produzir nos séculos antes. Agostinho opõe Platão a Porfírio a Apuleio a Varrão a Cícero, numa salganhada que, se, por um lado, para quem o lesse na altura, não deixaria de produzir uma sensação fascinante, ao ver as contradições entre tantos grandes nomes expostas sem pudor, por outro, do ponto de vista metodológico, não colhe, pois revela uma certa falta de honestidade: Agostinho sabia bem que não há um sistema de pensamento pagão organizado (simultaneamente a sua maior força e fraqueza), pelo que não pode pretender refutar um autor aludindo a outro. Isto, porém, não significa que também não haja refutações «a sério» e que Agostinho tenha simplesmente contornado os problemas fazendo batota: longe disso. Não diminuam assim infantilmente o que foi, apesar de tudo, uma das grandes cabeças do seu século. Há excelentes capítulos de óptima filosofia espalhados por esta primeira parte. Desta, então, será de ler com especial atenção o Livro V e, para os interessados na parte mais hard filosófica, a partir do Livro VIII para a frente, se não me engano.

Já na segunda metade da obra, como se disse, Agostinho vai narrar a história da cidade de Deus, o que equivale, em boa medida, a recontar toda a Bíblia, em particular o Génesis, ao qual dedica uma série de livros e onde desenvolve, claro, a sua famosa doutrina do pecado original, que tem pormenores deliciosos, como: o facto de os homens serem, hoje, incapazes de controlar a erecção do pénis, é um resultado directo da Queda: não era assim que se passava com Adão, no Jardim. Ainda assim, se há coisa que pode surpreender, quando pegamos na Civitate, e tendo em conta as ideias pré-feitas que possamos ter sobre Agostinho, é ver o quanto, apesar de tudo, ele crê na bondade da criação e o seu pensamento sobre o mal enquanto entidade não existente per se, mas um testemunho precisamente da bondade natural das coisas (sim, isto tem fortes influências neo-platónicas: não nos podemos esquecer da juventude de Agostinho). Num capítulo em que discute as paixões, por exemplo, ele vai ao ponto de afirmar que estas são boas e naturais e que não se procura nenhuma espécie de imperturbabilidade estóica no cristianismo, pelo contrário: como ele sublinha, até Cristo chorou quando Lázaro morreu.

Quem, portanto, se abrir, não deixará de ter muitas surpresas, logo a começar pelos tais livros sobre o Génesis. Diga-se, em abono da verdade, que são dos mais interessantes desta segunda parte da obra, pois que, a partir de um dado momento, começamos a entrar num registo em que nos perguntamos se não valeria estar mais a ler a Bíblia em vez de ler narrados em segunda mão os acontecimentos do povo de Israel. A partir de Noé, também, começam uma série de capítulos — perdoem-me, mas não posso classificá-los de outra forma — secantes, sobre a questão das divergências, na contagem dos anos dos patriarcas e das gerações, entre a versão hebraica e a dos Setenta. Por importante que seja o assunto, foi com grande sofrimento que li todas as páginas consagradas a uma coisa que é, para nós, absolutamente irrelevante. Nesta segunda parte temos ainda um livro que pode interessar a alguns, em que se procura mostrar como a vinda de Cristo e a expansão da Igreja estavam já previstas no Antigo Testamento. Sabemos todos que a Igreja o defende, mas é curioso ver a argumentação de perto. Contudo, sem qualquer espécie de dúvida, depois, como digo, daqueles primeiríssimos livros dedicados ao Génesis, o melhor da segunda parte da obra está reservardo para o fim, com os livros sobre a ressureição dos mortos, nomeadamente aquele em que se analisa a sorte dos danados, não, como possam estar a pensar, pela diversão que possa proporcionar a descrição da feira de torturas que se imaginava ser o inferno, mas sim pela forma como Agostinho tenta defender a sua existência, a possibilidade de a carne ressuscitar e a possibilidade de esta não arder no fogo. Podem parecer bizantinices, mas, no que diz respeito, por exemplo, à questão da carne, encontram-se aí alguns dos mais interessantes passos de toda a Civitate.

Em suma: a Cidade de Deus ganharia muito em ser antologizada, pois é uma obra muito de altos e baixos, capaz de passagens genuinamente apelativas e outras, pelo contrário, fastidiosas e mesmo insuportáveis. Do ponto de vista da teologia, estamos perante uma obra de, num primeiro momento, polémica apologética e, num segundo, construção de dogmática. Do ponto de vista filosófico, os últimos livros da primeira parte são os mais preciosos, bem como um ou outro capítulo sobre a ressureição, já no fim. Por fim, o livro ganha ainda alguns pontos pelas inúmeras referências que encontramos a cenas do quotidiano, muitas das quais transcrevi aqui no blogue, como seja a descrição dos murais no porto de Cartago ou o momento em que, pela primeira vez, Agostinho viu um íman em acção, mil anos depois de Tales de Mileto. Esses momentos, breves, mas recorrentes, aligeiram o tom da obra, e valorizam-na. O facto, porém, de estarem espalhados, fortifica a minha convicação de que a obra ganharia, de facto, com uma selecção do que tem de melhor, uma antologia dos melhores passos de filosofia, teologia e quotidiano, colecção essa que teria obrigatoriamente de começar por uma transcrição, na íntegra, do primeiro livro.

Teógnis Comentado - II, ou A Ética Grega e O Espírito do Capitalismo

Nenhum homem é próspero ou pobre,
ou vil ou nobre, sem sanção divina.

Teógnis, 183-192 in Poesia Grega de Álcman a Teócrito.
Cotovia, Lisboa: 2006. (trad.: Frederico Lourenço).
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