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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Apesar De Embebido Nos Diálogos Socráticos

Baco, de Caravaggio (1595), @ Uffizi, Florença.
Ó comigo nascida no consulado de Mânlio,
tragas tu queixas ou diversão,
rixas ou loucos amores,
ou ainda o sono fácil,

seja qual for o nome com que guardas o selecto Mássico,
desce daí, o amável ânfora, digna de ser servida
num dia propício: é que Corvino manda trazer
os vinhos mais suaves.

Ele, apesar de embebido nos diálogos socráticos,
não será tão sisudo que te despreze:
até a virtude do velho Catão — assim se conta —
amiúde se aquecia com o vinho puro.

Tu por um momento doces tormentos trazes
aos duros corações. Tu, com o alegre Lieu,
as angústias dos sábios revelas
e os seus secretos pensamentos.

Tu devolves a esperança às almas ansiosas,
e ao pobre dás força e coragem: depois de te provar,
ele não treme perante as iradas coroas dos reis
e as armas dos soldados.

A ti te fará durar Líbero, e Vénus, se feliz a nós se juntar,
e as Graças, lentas em desatar seu nó,
e as vivas candeias, até que Febo, voltando,
em fuga ponha as estrelas.

Horácio, Odes 3.21
Cotovia, Lisboa: 2008. (trad.: Pedro Braga Falcão)

[O nata mecum consule Manlio,
seu tu querellas siue geris iocos
seu rixam et insanos amores
seu facilem, pia testa, somnum,

quocumque lectum nomine Massicum
seruas, moueri digna bono die,
descende, Coruino iubente
promere languidiora uina.

Non ille, quamquam Socraticis madet
sermonibus, te negleget horridus:
narratur et prisci Catonis
saepe mero caluisse uirtus.

Tu lene tormentum ingenio admoues
plerumque duro; tu sapientium
curas et arcanum iocoso
consilium retegis Lycaeo.

Tu spem reducis mentibus anxiis
uiresque et addis cornua pauperi,
post te neque iratos trementi
regum apices neque militum arma.

Te Liber et si laeta aderit Venus
segnesque nodum soluere Gratiae
uiuaeque procucent lucernae,
dum rediens fugat astra Phoebus.]

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Breve História da Propaganda

Filho dos bons deuses, insigne protector
do povo de Rómulo, já por demais te ausentas:
prometeste ao sacro concílio dos Pais
umr rápido regresso — pois regressa.

Devolve a luz, bom comandante, à tua pátria.
Pois logo que teu rosto de Primavera
para o povo reluz, o dia mais alegre passa,
os raiso do sol melhor brilham.

Tal como a mãe o olhar não desvia da recurva costa
e com votos e augúrios e preces
por seu jovem filho chama
que o invejoso sopro de Noto

nos confins do mar Cárpato atrasa,
afastando-o por mais de um ano do lar amado,
assim a pátria fiel, ferida de saudade,
César procura.

Passeia o boi em segurança pelos pastos,
Ceres e a alma Prosperidade alimentam os campos,
os marinheiros vagam pelo pacato mar,
a Lealdade não admite ser posta em causa,

nenhuma desonra polui o casto lar,
o costume e a lei domaram o sujo vício,
as mães são louvadas pela semelhança de seus filhos,
o castigo segue de perto a culpa.

Quem receará o Parto, quem o assustado Cita,
quem os filhos que a hórrida Germânia deua à luz
estando César a salvo? Quem se inquietará
com a guerra da feroz Ibéria?

Cada homem passa nas suas colinas o dia inteiro
casando a videira com as árvores despidas,
e daí regressa ledo ao seu vinho, convidando-te
como um deus para a segunda mesa,

e honra-te com muitas preces, vertendo o vinho
das páteras, e louva em conjunto a tua divindade
e a dos seus Lares, tal como a Grécia se lembra
de Castor e do grande Hércules.

"Oh, possas tu, bom comandante, dar à Hespéria
longos dias de festa!", dizemos sóbrios de manhã,
quando o dia começa, dizemos ébrios à noites,
quando o sol no Oceano imerge.

[Diuis orte bonis, optume Romulae
custos gentis, abes iam nimium diu;
maturum reditum pollicitus patrum
sancto consilio redi.

Lucem redde tuae, dux bone, patriae;
instar ueris enim uoltus ubi tuus
adfulsit populo, gratior it dies
et soles melius nitent.

Vt mater iuuenem, quem Notus inuido
flatu Carpathii trans maris aequora
cunctantem spatio longius annuo
dulci distinet a domo,

uotis omnibusque et precibus uocat,
curuo nec faciem litore dimouet,
sic desideriis icta fedelibus
quaerit patria Caesarem.

Tutus bos etenim rura perambulat,
nutrit rura Ceres almaque Faustitas,
pacatum uolitant per mare nauitae,
culpari metuit fides,

nullis polluitur casta domus stupris,
mos et lex maculosum edomuit nefas,
laudantur simili prole puerperae,
culpam poena premit comes.

Quis Parthum paueat, quis gelidum Scythen,
quis Germania quos horrida parturit
fetus incolumi Caesare? Quis ferae
bellum curet Hiberiae?

Condit quisque diem collibus in suis
et uitem uiduas ducit ad arbores;
hinc ad uina redit laetus et alteris
te mensis adhibet deum;

te multa prece, te prosequitur mero
defuso pateris et Laribus tuum
miscet numen, uti Graecia Castoris
et magni memor Herculis.

'Longas o utinam, dux bone, ferias
praestes Hesperiae!' dicimus integro
sicco mane die, dicimus uuidi,
cum sol Oceano subest. ]



Horácio, Odes 4.5
Cotovia, Lisboa: 2008. (trad.: Pedro Praga Falcão)

*

Ó tu, Estaline, grande chefe dos povos,
Tu que fazes nascer o Homem,
Tu que fecundas a terra,
Tu que rejuvenesces os séculos,
Tu que cobres a Primavera de tranças,
Tu que fazes cantar a lira [...],
Tu és a flor da minha Primavera,
Um Sol reflectido por milhões
De corações humanos.

Rakhimov, Pravda de 28/08/1936.
(tirado de O Tempo da História — 12º ano)
*

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Exílio de Si

[ver 3'21'' a 4'21'']

Porque nos mudamos para terras
que outro sol aquece? Quem, exilado da pátria,
de si próprio fugiu também?

[Quid terras alio calentis
sole mutamus? Patriae quis exul
se quoque fugit?]

Horácio, Odes 2.16
Cotovia, Lisboa: 2008. (trad.: Pedro Braga Falcão)

...nem mudar de terra mudou o carácter ou os costumes.
[...nec terra mutata mutauit genus aut mores, normalmente abreviado em citações para terra mutata non mutat mores].

Lívio, Ab Urbe Condita 37.54.18

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Apostilha a 'Teógnis Comentado - III, ou Diógenes Contra Mundum'

[...] e se a pobreza, considerada a suprema vergonha, ordena
que tudo se faça e sofra,
o trilho da árdua Virtude abandonando?

Magnum pauperies obprobrium iubet
quiduis et facere et pati
uirtutisque uiam deserit arduae.


Horácio, Odes 3.24.42-44
Cotovia, Lisboa: 2008. (trad.: Pedro Braga Falcão)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

On φύσις: Compromisso

Fotograma de Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick
Dos bons e dos bravos nascem os bravos:
têm os novilhos e os cavalos a coragem dos pais,
e as ferozes águias não dão à luz
uma pacífica pomba.

Contudo, o estudo aumenta a força inata,
e o culto do que é correcto fortalece o espírito;
sempre que não se observam os costumes,
a culpa desgraça até os bem-nascidos.


Horácio, Odes 4.4.29-36
Cotovia, Lisboa: 2008. (trad.: Pedro Braga Falcão)

[Fortes creantur fortibus et bonis;
est in iuuencis, est in equis patrum
uirtus neque inbellem feroces
progenerant aquilae columbam;

doctrina sed uim promouet insitam
rectique cultus pectora roborant;
utcumque defecere mores,
indecorant bene nata culpae.]

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Espalha As Rosas!

Os anos que distam entre Ínaco
e Codro, que pela pátria não receou morrer,
e a estirpe de Éaco, e as guerras travadas
junto da sagrada Ílion, tudo isso nos contas;

mas quanto ao preço com que compraremos
o jarro do vinho de Quios, sobre quem aquecerá
a água com o fogo, em que casa e a que horas
escaparei deste frio peligno, nem uma palavra.

Serve-nos vinho, rapaz, depressa!
Serve-nos, pela lua nova! Serve-nos, pela meia noite!
Serve-nos, pelo áugure Murena! Preparam-se
os copos com três ou nove cíatos, ao gosto de cada um.

Quanto ao vosso atordoado poeta,
que as ímpares musas ama, três cíatos vezes três há-de pedir:
de tocar em mais de três
a Graça com suas desnudas irmãs nos proíbe,

por recear as rixas.
Agrada-me ensandecer. Porque cessa o sopro
da tíbia de Berecinto?
Porque penduradas na parede se calam a siringe e a lira?

Odeio mãos avaras!
Espalha as rosas! Que Lico ouça invejoso
este demente barulho,
e a nossa mal casada vizinha, esposa desse velho Lico.

A ti, de brilhante e espesso cabelo,
a ti, Télefo, semelhante à pura Estrela da Tarde,
te procura a tempestiva Rode;
a mim me incendeia o lento amor de minha Glícera.

Horácio, Odes 3.19
Cotovia, Lisboa: 2008. (trad.: Pedro Braga Falcão)

imagem: As Rosas de Heliogabalo, de Alma-Tadema (1888)

[Quantum distet ab Inacho
Codrus, pro patria non timidus mori,
narras, et genus Aeaci,
et pugnata sacro bella sub Ilio.
Quo Chium pretio cadum
mercemur, quis aquam temperet ignibus,
quo praebente domum et quota
Paelignis caream frigoribus, taces.
Da lunae propere nouae,
da noctis mediae, da, puer, auguris
Murenae. Tribus aut nouem
miscentur cyathis pocula commodis?
Qui Musas amat imparis,
ternos ter cyathos attonitus petet
uates, tris prohibet supra
rixarum metuens tangere Gratia
nudis iuncat sororibus.
Insanire iuuat... Cur Berecyntiae
cessant flamina tibiae?
Cur pendet tacita fistula cum lyra?
Parcentis ego dexteras
odi: sparge rosas; audiat inuidus
dementem strepitum Lycus,
et uicina seni non habilis Lyco.
Spissa te nitidum coma,
puro te similem, Telephe, Vespero
tempestiua petit Rhode:
me lentus Glycerae torret amor meae.]

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Apologia da Pequenez

[...] Fiz bem em ter horror
de à vista de todos levantar a cabeça, Mecenas,
glória dos cavaleiros.

A quanto mais se negar o Homem,
mais dos deuses receberá. Procuro nu as muralhas
dos que nada desejam, e anseio por deixar,
qual edesertor, as fileiras dos ricos.

Daquilo que desprezei, sou mais glorioso senhor
do que se a fama tivesse de esconder nos celeiros
tudo o que o infatigável Apúlio lavra,
um pobre entre tantas riquezas.

De pura água um ribeiro, de poucas jeiras um bosque,
e uma segura fé na minha colheita: tudo isso escapa
ao Homem que sobre a fértil África o seu poder irradia —
na sorte sou mais feliz.

E embora nem as abelhas da Calábria me tragam mel,
nem envelheça meu vinho nas ânforas dos Lestrígones,
nem cresçam para mim espessos velos
nos pastos da Gália,

de mim está longe a importuna pobreza,
e o que mais quisesse não te negarias a dar.
Retraindo o desejo faço melhor em esticar
o meu pequeno rendimento,

do que se unir o reino de Aliates aos campos
de Migdónia. Àqueles que muito pedem
muito falta. Está bem aquele a quem o deus
com frugal mão o suficiente doou.

Horácio, Odes 3.16
Cotovia, Lisboa: 2008. (trad.: Pedro Braga Flacão)