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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Defesa Breve dos Deuses Pagãos

Há um certo discurso, com origem entre os pré-socráticos, retomado por Platão, e, mais tarde, muito aproveitado pelos Padres da Igreja (e ainda hoje ecoado — daí este pequeno post), segundo o qual a mitologia clássica exprime uma concepção primitiva do fenómeno divino, que os hebreus, dizem, teriam muito mais rapidamente superado, com a progressiva rarefacção da ideia de deus que se foi operando na sua cultura. Os deuses greco-romanos seriam deuses, à luz de Iavé e dos seus descendentes cristão e muçulmano, inaceitáveis: adúlteros, mentirosos, caprichosos. Já o monoteísmo teria cumulado deus com todas as perfeições, erigindo-o em modelo moral, daí a sua superioridade em termos do que poderíamos chamar a história da ideia de deus. O pecado capital da teologia pagã seria, assim, o da antropomorfização radical dos deuses (superior, apesar de tudo, ao teriomorfismo dos egípcios). Este discurso é, porém, contraditório, pois assenta ele mesmo numa lógica implícita de antropomorfização, ao querer submeter os deuses ao mesmo código moral que deve valer nas relações entre humanos, esquecendo a sentença de Heraclito: «para os deuses, todas as coisas são belas, boas e justas; os homens, porém, consideram injustas umas coisas e justas outras» (trad.: Alexandre Costa) [τῷ μὲν θεῷ καλὰ πάντα καὶ ἀγαθὰ καὶ δίκαια, ἄνθρωποι δὲ ἃ μὲν ἄδικα ὑπειλήφασιν, ἃ δὲ δίκαια] [B102].   

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Eurípides/Crítias Contra Os Deuses

Também Eurípides, o poeta trágico, não quis manifestar as suas ideias, receando o Areópago, mas deu-as a entender do seguinte modo: pôs em cena Sísifo como representante desta opinião e fê-lo exprimir-se a favor da sua ideia. Disse [...]:

Houve um tempo em que a vida humana era desordenada
e serva de uma força selvagem
quando nem existia nenhuma recompensa para os indivíduos honestos
nem havia castigo para os maus.
E parece-me que, em seguida, os homens instituíram leis
punitivas a fim de que a justiça fosse soberana
[de todos igualmente] e que fizesse da insolência uma escrava.
Se alguém cometesse uma falta seria penalizado.
Em seguida, uma vez que as leis os impediam
de praticar manifestos actos de violência
e eles os praticavam às ocultas, parece-me que nesta altura
[pela primeira vez] um certo homem, ousado e sábio na maneira de pensar
inventou o receio [dos deuses] para os mortais, para que
os malvados tivessem receio de fazer
ou dizer ou pensar [algo] às ocultas.
Por isso, introduziu o divino:
«Há uma potestade florescente, com vida indestrutível,
que, com o espírito, ouve e vê, e, com suma inteligência,
vigia estas acções, dotada ela própria de uma natureza divina.
Ouvirá tudo o que se disser entre os mortais
e poderá ver tudo [o] que é feito.
Se, em silêncio, planeares algum mal,
isso não passará desapercebido aos deuses. A inteligência
é nela [suma]». Fazendo esta afirmação,
introduziu a mais agradável das doutrinas
e encobriu a verdade com um discurso falso.
Defendia que os deuses habitavam num lugar que,
só de o mencionar, assustava imenso os homens.
Sabia que daí partiam os receios para os mortais
e os consolos para a sua vida desditosa,
vindos da esfera celeste, onde via
existirem relâmpagos e terríveis estrondos
de trovão e o estrelado corpo do céu,
obra admiravelmente variegada do sábio artífice, o tempo.
Daqui avança a massa incandescente da estrela
e a tempestade de chuva sai em direcção à terra.
Em tais medos envolveu os homens,
pelos quais [ele] integrou bem a divindade
no discurso e num local conveniente;
e com as leis destruiu a ausência de leis.
[...] Penso que foi desta maneira que alguém, pela primeira vez, persuadiu
os mortais a pensarem que existia uma raça de deuses.

Sexto Empírico, Contra os Matemáticos 9.54 = Crítias DK 88 B 25
(o fragmento é atribuído por Diels-Kranz e outros, mau grado o testemunho de Sexto Empírico, a Crítias, um dos trinta tiranos, da família de Platão)
in Sofistas - Testemunhos e Fragmentos. INCM, Lisboa: 2005. (trad.: Ana Alexandre Sousa e Maria José Vaz Pinto)

imagem: estátua de bronze de Zeus @ Museu Arqueológico de Atenas

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Mitologia Comparada


Estas palavras, desconhecidas da maioria dos amantes das coisas clássicas (parecemos perseverar no erro de ignorar o segundo grande filão mitológico da Europa, como os deuses fossem uma criação grega - Ódin nos perdoe a hamartia), quando bem pesadas, não podem senão provocar uma alteração profunda no nosso modo de olhar a mitologia grega.

…we may with some truth contrast the 'inhumanness' of the Greek gods, however antropomorphic, with the 'humanness' of the Northern, however titanic. In the southern myths there is also a rumour of wars with giants and great powers not Olympian [...]. But this war is differently conceived. It lies in a chaotic past. The ruling gods are not besieged, not in ever-present peril or under future doom. Their offspring on earth may be heroes or fair women; it may also be the other creatures hostile to men. The gods are not the allies of men in their war against these or other monsters. The interest of the gods is in this or that man as part of their individual schemes, not as part of a great strategy that includes all good men, as the infantry of the battle. In Norse, at any rate, the gods are within Time, doomed with their allies to death. Their battle is with monsters and the outer darkness. They gather heroes for the last defence. [...] When Baldr is slain and goes to Hel he cannot escape thence any more than mortal man. This may make the southern gods more godlike - more lofty, dread, and inscrutable. They are timeless and do not fear death.

J. R. R. Tolkien, Beowulf: The Monsters and the Critics
(disponível aqui).

imagem: Odin's Last Words To Baldr, de W.G. Collingwood
em The Elder or Poetic Edda. Edited and translated
with introduction and notes by Olive Bray
(1908).