quarta-feira, 30 de junho de 2010

Sim, A Antiguidade Também Tem Coisas Feias (Não É Tudo Só Apolos)

Estava eu todo entusiasmado a percorrer as galerias dos Museus Capitolinos com o Miguel, em Dezembro passado, quando damos de caras com isto. Este Ercole Bambino, do século III d.C., é um forte candidato ao prémio de estátua mais feia de toda a Antiguidade. Não se deixem enganar pela foto: este Hércules bebé é ainda grande. Grande e gordo. Grande e gordo e feio. Feio. Feio. (Esta coisa ainda me persegue em pesadelos).





















imagens retiradas daqui e daqui.

Tenham Um Bom Dia, ou Suplemento ao Último Post

terça-feira, 29 de junho de 2010

Leitores Atentos §2


Em seguida uma segunda raça muito pior do que a anterior,
de prata, modelaram os deuses que habitam as mansões Olímpicas,
nada semelhante à de ouro, nem no corpo, nem no espírito.
Os filhos, durante cem anos, junto da mãe prudente,
eram criados e brincavam, muito pueris, dentro de casa.
Mas quando cresciam e atingiam o limiar da juventude,
viviam durante muito pouco tempo, sujeitos a sofrimentos
por irreflexão [...]

Hesíodo, Trabalhos & Dias 127-134
INCM, Lisboa: 2005 (trad.: José Ribeiro Ferreira)

[δεύτερον αὖτε γένος πολὺ χειρότερον μετόπισθεν
ἀργύρεον ποίησαν Ὀλύμπια δώματ᾽ ἔχοντες,
χρυσέῳ οὔτε φυὴν ἐναλίγκιον οὔτε νόημα.
130ἀλλ᾽ ἑκατὸν μὲν παῖς ἔτεα παρὰ μητέρι κεδνῇ
ἐτρέφετ᾽ ἀτάλλων, μέγα νήπιος, ᾧ ἐνὶ οἴκῳ.
ἀλλ᾽ ὅτ᾽ ἄρ᾽ ἡβήσαι τε καὶ ἥβης μέτρον ἵκοιτο,
παυρίδιον ζώεσκον ἐπὶ χρόνον, ἄλγε᾽ ἔχοντες
ἀφραδίῃς]

[..] E Hera/
irresistivelmente incendiou os semideuses com uma saudade
da nau Argo, irrefutavelmente a fim de que nenhum deles
ficasse para trás, junto das mães, a fermentar uma vida inteira
sem correr riscos, mas antes descobrissem, ainda que lhes
custasse a vida, um elixir para que realizassem a sua excelência
com outros da mesma idade.

Píndaro, Pítica 4.183-188
Quetzal, Lisboa: 2010 (trad.: António Caeiro)

[τὸν δὲ παμπειθῆ γλυκὺν ἡμιθέοισιν πόθον ἔνδαιεν Ἥρα
ναὸς Ἀργοῦς, μή τινα λειπόμενον
τὰν ἀκίνδυνον παρὰ ματρὶ μένειν αἰῶνα πέσσοντ᾽, ἀλλ᾽ ἐπὶ καὶ θανάτῳ
φάρμακον κάλλιστον ἑᾶς ἀρετᾶς ἅλιξιν εὑρέσθαι σὺν ἄλλοις.]


Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!


Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.
[...]

Fernando Pessoa, Mensagem 3.1.2

imagem: selo grego com representação da Argo.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Dos Corvos (Com Um Excurso Sobre O Multiculturalismo)


É que os nossos altares e braseiros todos estão poluídos pelas aves e cães que comeram do infeliz filho de Édipo, que jaz no sítio onde caiu. E depois os deuses não aceitam da nossa parte as súplicas que acompanham os sacrifícios, nem a chama das oferendas, nem as aves soltam gritos de bom augúrio, pois devoraram a gordura do sangue de um homem morto.

Sófocles, Antígona (1016-1022)
Festea, Coimbra: 2006 (trad.: Maria Helena Rocha Pereira).

[βωμοὶ γὰρ ἡμῖν ἐσχάραι τε παντελεῖς/ πλήρεις ὑπ᾽ οἰωνῶν τε καὶ κυνῶν βορᾶς/ τοῦ δυσμόρου πεπτῶτος Οἰδίπου γόνου./ κᾆτ᾽ οὐ δέχονται θυστάδας λιτὰς ἔτι/ θεοὶ παρ᾽ ἡμῶν οὐδὲ μηρίων φλόγα,/ οὐδ᾽ ὄρνις εὐσήμους ἀπορροιβδεῖ βοάς/ ἀνδροφθόρου βεβρῶτες αἵματος λίπος.]

A sua consciência impeliu-o [Caim] a matar o irmão, e matou-o; assim, passou a estar entre os perversos. Deus enviou um corvo, que esgravatou na terra para lhe mostrar como devia ocultar o cadáver do seu irmão. Exclamou: «Ai de mim! É impossível que faça à semelhança deste corvo e oculte assim o cadáver de meu irmão». Assim passou a estar entre os que se arrependem.

Alcorão, Sura 5, 30-31.
Europa-América, Mem Martins: 1989 (trad.: Américo de Carvalho).

[فَطَوَّعَتْ لَهُ نَفْسُهُ قَتْلَ أَخِيهِ فَقَتَلَهُ فَأَصْبَحَ مِنَ الْخَاسِرِينَ ﴿٣٠﴾ فَبَعَثَ اللَّـهُ غُرَابًا يَبْحَثُ فِي الْأَرْضِ لِيُرِيَهُ كَيْفَ يُوَارِي سَوْءَةَ أَخِيهِ ۚ قَالَ يَا وَيْلَتَا أَعَجَزْتُ أَنْ أَكُونَ مِثْلَ هَذَا الْغُرَابِ فَأُوَارِيَ سَوْءَةَ أَخِي ۖ فَأَصْبَحَ مِنَ النَّادِمِينَ ]*

O corvo, ave necrófila, é, entre os gregos (e tantos outros povos), animal mal-querido se não mesmo maldito («vai para os corvos» é a versão grega de «vai bugiar»). O grego tinha também grande medo de não receber, após a morte, as honras fúnebres devidas, temor que tem já expressão nos poemas homéricos: Heitor, antes de expirar, pede a Aquiles que restitua o seu cadáver à família e é precisamente a recusa em o fazer e o tratamento humilhante que vai dar ao corpo do príncipe troiano que farão os deuses intervir para pôr cobro à situação. O grande receio de Heitor é que a sua carne venha a ser devorada pelos cães, sem respeito pela santidade (o termo é propositadamente anacrónico, mas captura uma verdade) do corpo. Aquiles nega-lho, prometendo, pelo contrário, que as aves de rapina o comerão inteiro (22.337-354). Também na Odisseia (11.51-78), Elpenor, companheiro de Ulisses que morre ao cair bêbedo do telhado do palácio de Circe, quando encontra o herói no Hades, suplica-lhe que, no regresso, quando voltarem a Eeia, o sepultem. Na Antígona, o texto-mor no que a cadáveres insepultos (e a muitas outras coisas) diz respeito, Tirésias chama a atenção para a profanação da cidade, agora que os pássaros se alimentam do corpo exposto de Polinices. As aves sobre o morto, debicando-o, são, de facto, uma imagem terrível para o grego. Não pude, por isso, deixar de me surpreender quando hoje, folheando o Alcorão, dou com a passagem que acima transcrevi em que quem vai ensinar os homens a enterrar o primeiro morto é, espanto!, um corvo, a ave de rapina por excelência, com o abutre. Definitivamente, tenho de tirar tempo para o ano para ler o Alcorão numa boa edição. É triste que, numa altura em que o multiculturalismo se tornou o credo de uma idade cansada, o usemos, afinal, como uma capa para a nossa ignorância. O verdadeiro respeito envolve o confronto (à letra: o face-a-face) activo com o outro, curiosidade sincera, um desejo de conhecer que envolve a dádiva total, o investimento todo do ser, e não a mera contemplação à distança, da segurança (e altura) do nosso estilete. Steiner, que tive a oportunidade de ouvir em Viseu, no final do ano passado, perguntado sobre o que pensava da ascenção da China, entre outras coisas, sublinhou com preocupação, vendo nisso uma grande vantagem do Império do Meio, o facto de eles lerem os nosso clássicos (cf. os norte coreanos e Esopo), mas nós desconhecermos totalmente a literatura deles. Dos árabes sabemos uma mão cheia de lendas das Mil e Uma Noites e pouco mais. É pena. Eu ficava triste se eles não lessem os gregos (e foi porque leram Aristóteles que muito se salvou). Fica então combinado: para o ano leio o Alcorão (quem se junta?). Entretanto, vou seguindo a poesia árabe publicada aqui.

*Quem souber árabe, por favor, diga-me se aquilo está correcto.

imagem: The Body of Abel Found By Adam and Eve,
de William Blake (c. 1826) @ Tate Gallery, Londres.

A estrela maléfica



O primeiro a ver [Aquiles] com os olhos foi Príamo, o ancião:
viu-o refulgente como um astro a atravessar a planície,
como a estrela que aparece na época das ceifas, cujos raios
rebrilham entre os outros astros todos no negrume da noite,
estrela a que dão o nome de Cão de Oríon.
É a estrela mais brilhante do céu, mas é portento maligno,
pois traz muita febre aos desgraçados mortais.

Ilíada, XXII, vv25-29, Frederico Lourenço (trad.), Cotovia (2005)

Τὸν δ' ὃ γέρων Πρίαμος πρῶτος ἴδεν ὀφθαλμοῖσι
παμφαίνονθ' ὥς τ' ἀστέρ' ἐπεσσύμενον πεδίοιο,
ὅς ῥά τ' ὀπώρης εἶσιν, ἀρίζηλοι δέ οἱ αὐγαὶ
φαίνονται πολλοῖσι μετ' ἀστράσι νυκτὸς ἀμολγῷ,
ὅν τε κύν' Ὠρίωνος ἐπίκλησιν καλέουσι.
λαμπρότατος μὲν ὅ γ' ἐστί, κακὸν δέ τε σῆμα τέτυκται,
καί τε φέρει πολλὸν πυρετὸν δειλοῖσι βροτοῖσιν·


Não vês? O cavalo de corrida
é venético. Mas o cabelo
da minha prima
Hagesícora floresce
como ouro puro.
Seu rosto é de prata.
Mas por que te digo isto às claras?
Esta aqui é Hagesícora;
ela, segunda em beleza depois de Ágido,
correrá como um cavalo da Cítia contra um da Lídia.
As Plêiades, enquanto nós
levamos um arado até Órtria,
sobem através da noite imortal
como a estrela Sírio e lutam contra nós.

Álcman, fr.1 PMG 50-63, Poesia Grega. Frederico Lourenço (trad.), Cotovia (2006)

ἦ οὐχ ὁρῇς; ὁ μὲν κέλης
Ἐνητικός· ἁ δὲ χαίτα
τᾶς ἐμᾶς ἀνεψιᾶς
Ἁγησιχόρας ἐπανθεῖ
χρυσὸς [ὡ]ς ἀκήρατος·
τό τ’ ἀργύριον πρόσωπον,
διαφάδαν τί τοι λέγω;
Ἁγησιχόρα μὲν αὕτα·
ἁ δὲ δευτέρα πεδ’ Ἀγιδὼ τὸ Fεῖδος
ἵππος Ἰβηνῷ Κολαξαῖος δραμήται·
ταὶ Πεληάδες γὰρ ἇμιν
Ὀρθρίᾳ φᾶρος φεροίσαις
νύκτα δι’ ἀμβροσίαν ἅτε σήριον
ἄστρον ἀυηρομέναι μάχονται.


When in Egypt the early rising of Sirius became the beginning of the year, the approach of a better season could be foreseen by the first setting of the Nile. Yet this was also the time of the most dangerous heat: a highly ambivalent season! [Sírio desaparece do firmamento por 70 dias antes do solstício de Verão.] The same was true in Crete and Greece (with the exception that there was no Nile). The heat was obviously evil, and so was the star with whose appearance it began. But in a mysterious way the season was also good. In Greek it was called opora, a word that is not easy to translate because it means noy only the season but its fruits as well.

Carl Kerényi. Dionysos: Archetypal Image of Indestructible Life. Ralph Manheim (trad.), Princeton University Press (1976)

The Letters of Pliny the Younger

Mary Renault

Já por várias vezes soaram os lamentos de como, ao invés do que acontece em relação ao Império Romano, há poucas "divagações históricas" passadas na Grécia Antiga. Algo que capture um mundo sem se ficar pelas histórias já contadas, sendo o melhor exemplo disto a excelente série Rome da HBO (sobre a qual, estranhamente, ainda não há nenhum post). Para de certa forma colmatar essa lacuna, descobri hoje esta senhora:


Não tenho mais informações sobre ela nem sobre a sua qualidade ou veracidade da sua posição histórica (fora o tê-la encontrado num tal Cambridge Companion to Greek Lyric, o que dá uma certa credibilidada à dona), mas tenho a confessar ter ficado curioso.

domingo, 27 de junho de 2010

GoogleBooks, Latim & Grego

Uma das grandes vantagens das bibliotecas online que vão cada vez mais extensivamente digitalizadas por gigantes como o Google é a disponibilização de obras abandonadas, especialmente datadas dos séculos XVI-XIX. Boas notícias nessa fronte.
As part of its mission to make the world's books searchable and discoverable, Google has digitized over five hundred ancient Greek and Latin books. We present them here downloadable as zip files of images and plain text, and as links to Google Books web pages where you can read them online in full or download PDFs. This collection was selected by Prof. Greg Crane and Alison Babeu of Tufts University, and compiled by Will Brockman and Jon Orwant of Google. Enjoy!
Aqui. 

Uma Pessoa Abre A Ilíada

à procura de um qualquer verso para o qual tem a referência e, ao folhear as páginas para lá chegar, depara-se com isto (3.216-223; trad.: Frederico Lourenço, Cotovia 2005):
Mas quando se levantava Ulisses de mil ardis,
ficava em pé com os olhos pregados no chão,
sem mover o ceptro para trás ou para a frente,
mas segurava-o, hirto, como quem nada compreendia:
dirias que era um palerma, alguém sem inteligência.
Mas quando do peito emitia a sua voz poderosa,
suas palavras como flocos de neve em dia de inverno,
então outro mortal não havia que rivalizasse com Ulisses.
Aquele verso não me abandonou o dia inteiro.

[ἀλλ᾽ ὅτε δὴ πολύμητις ἀναΐξειεν Ὀδυσσεὺς
στάσκεν, ὑπαὶ δὲ ἴδεσκε κατὰ χθονὸς ὄμματα πήξας,
σκῆπτρον δ᾽ οὔτ᾽ ὀπίσω οὔτε προπρηνὲς ἐνώμα,
ἀλλ᾽ ἀστεμφὲς ἔχεσκεν ἀΐδρεϊ φωτὶ ἐοικώς:
220φαίης κε ζάκοτόν τέ τιν᾽ ἔμμεναι ἄφρονά τ᾽ αὔτως.
ἀλλ᾽ ὅτε δὴ ὄπα τε μεγάλην ἐκ στήθεος εἵη
καὶ ἔπεα νιφάδεσσιν ἐοικότα χειμερίῃσιν,
οὐκ ἂν ἔπειτ᾽ Ὀδυσῆΐ γ᾽ ἐρίσσειε βροτὸς ἄλλος:]

A Resposta Na Ponta da Língua

Conta Aulo Gélio, varão de elegantíssimo estilo e de vasta e profunda erudição, no seu livro que tem por título Noctes Atticae (Noites Áticas), que, certo dia, viajava no mar com um reputado filósofo estóico. Este filósofo, como mais larga e copiosamente refere Aulo Gélio e eu resumo aqui, ao ver o barco sacudido por um céu medonho e um mar perigosíssimo, devido ao medo começou a empalidecer. Isto foi notado pelos presentes, que, apesar da morte vizinha, curiosamente perguntavam se a alma de um filósofo se perturbaria. Depois, passada que foi a tempestade e quando a segurança deu aso à troca de impressões e mesmo de gracejos, um dos passageiros, faustoso rico asiático, increpou o filósofo por ter tido medo e empalidecido, ao passo que ele se manteve intrépido perante a morte iminente. Mas o outro contou-lhe a resposta do socrático Aristipo: este, ao ouvir, em iguais circunstâncias, as mesmas palavras de um indivíduo da mesma laia, respondeu-lhe que tinha feito muito bem em não se apoquentar com a vida de um velhaco, mas que devia recear pela vida de um Aristipo.

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro IX, Cap. IV
Gulbenkian, Lisboa: 1993. (trad.: J. Dias Pereira)

[In libris, quibus titulus est Noctium Atticarum, scribit A. Gellius, uir elegantissimi eloquii et multae undecumque scientiae, se nauigasse aliquando cum quodam philosopho nobili Stoico. Is philosophus, sicut latius et uberius, quod ego breuiter adtingam, narrat A. Gellius, cum illud nauigium horribili caelo et mari periculosissime iactaretur, ui timoris expalluit. Id animaduersum est ab eis, qui aderant, quamuis in mortis uicinia curiosissime adtentis, utrum necne philosophus animo turbaretur. Deinde tempestate transacta mox ut securitas praebuit conloquendi uel etiam garriendi locum, quidam ex his, quos nauis illa portabat, diues luxuriosus Asiaticus philosophum compellat inludens, quod extimuisset atque palluisset, cum ipse mansisset intrepidus in eo quod inpendebat exitio. At ille Aristippi Socratici responsum rettulit, qui cum in re simili eadem uerba ab homine simili audisset, respondit illum pro anima nequissimi nebulonis merito non fuisse sollicitum, se autem pro Aristippi anima timere debuisse.]

sábado, 26 de junho de 2010

Plato's Protagoras: An Open Translation

«David Hildebrand recently lamented the lack of availability online of good, new translations of ancient works, such as the dialogues of Plato, usually found in Jowett’s rendering. Benjamin Jowett was a great classicist with a sensitivity for philosophical texts as well as an astonishingly prolific translator, and he is one of the main reasons I wanted to study at Balliol. Nevertheless, his Victorian translations of Plato are clearly out of date (cf. also Lamb’s translation for the Loeb series, originally published in 1924 and available on the Perseus Project). We can do better for modern readers, and I believe we can do it freely, without simply converting already published translations into electronic form, something to which publishers would never consent.

Over the next couple of months, I will try to publish daily a Stephanus page’s worth of a rough translation of the Greek text of Plato’s Protagoras. I originally wrote this translation as part of my undergraduate thesis on the dialogue (at the University of Texas at Austin, under the supervision of Paul Woodruff), but I will improve it as I make it available. I would like to extend an open invitation to readers to collaborate and make corrections and improvements in the comments. Some points of difference will no doubt be stylistic, but others will be substantive, and I hope the result will be a translation that is faithful to the text, sensitive to its philosophical content, and readable. At the end, I will make the translation freely available under a suitable open license. Please join me!»

Sigam o projecto aqui.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Definição Possível de Sofrimento, Ou, O Meu Coração Contorce-se de Dor

Now Greece is making it easier for the rich and famous to fulfill their dreams by preparing to sell, or offering long-term leases on, some of its 6,000 sunkissed islands in a desperate attempt to repay its mountainous debts. The Guardian has learned that an area in Mykonos, one of Greece's top tourist destinations, is one of the sites for sale. The area is one-third owned by the government, which is looking for a buyer willing to inject capital and develop a luxury tourism complex, according to a source close to the negotiations. Potential investors also looking at property on the island of Rhodes, are mostly Russian and Chinese. [...] Roman Abramovich, the billionaire owner of Chelsea football club, is among those understood to be interested, although a spokesman denied he was about to invest. [...] As strikes almost paralysed the country and hedge funds bet against the economy, German politicians called for Greece to start selling islands, historic buildings and artworks. It now appears that the Greek government has heeded their demands. The City, where investors are increasingly shunning Greek investments, welcomed any island sales. "It's a shame if it has come to this but it does at least demonstrate that Greece is prepared to take all actions necessary to try and meet its obligations," said Gary Jenkins, a credit analyst at Evolution Securities.

(ler mais aqui)

*
[...]
AS ILHAS de zarcão e fumo negro
as ilhas com a vértebra de algum Zeus
as ilhas com os ermos estaleiros
as ilhas com azuis vulcões potáveis

Umas vão no meltémi à popa arrasada
E outros à bolina no garbino
cheias de espumas em toda a extensão
com seixos malvas e heliotrópios

Sifnos, Amorgós, Alónnisos,
Thasos, Ítaca, Santoríni,
Kos, Ios, Síkinos
[...]

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí)
Assírio & Alvim, Lisboa: 2004. (trad.: Manuel Resende)

Hipólito de Eurípides




































(Clicar na imagem para aumentar.) Restante programa do XII Festival Internacional de Tema Clássico aqui.

Definição de Ser Humano #2

Em diálogo.

Portanto, os seres humanos, — orgulhosos pela razão, poderosos pela palavra, dotados de alma imortal, de membros votados à morte, de espírito ágil e inquieto, de corpos pesados e débeis, de costumes dessemelhantes e erros parecidos, de audácia obstinada e de esperança firme, de actividade estéril e de fortuna instável, individualmente mortais, todos, porém, no seu género, perpétuos porque se sucedem na renovação das gerações, de existência fugidia, de tardia sabedoria, de morte rápida, de vida lastimosa —, habitam a terra.

Apuleio, De Deo Socratis, IV, citado por
Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro IX, Cap. VIII
Gulbenkian, Lisboa: 1993. (trad.: J. Dias Pereira)

[Igitur homines, inquit, ratione gaudentes, oratione pollentes, inmortalibus animis, moribundis membris, leuibus et anxiis mentibus, brutis et obnoxiis corporibus, dissimilibus moribus, similibus erroribus, peruicaci audacia, pertinaci spe, casso labore, fortuna caduca, singillatim mortales, cuncti tamen uniuerso genere perpetui, uicissim sufficienda prole mutabiles, uolucri tempore, tarda sapientia, cita morte, querula uita terras incolunt.]

quinta-feira, 24 de junho de 2010

To Marcus Aurelius

To Professor Henryk Elzenberg

Good night Marcus put out the light
and shut the book For overhead
is raised a gold alarm of stars
heaven is talking some foreign tongue
this the barbarian cry of fear
your Latin cannot understand
Terror against dark terror
against the fragile human land

begins to beat It's winning Hear
its roar The unrelenting stream
of elements will drown your prose
until the world's four walls go down
As for us? - to tremble in the air
blow in the ashes stir the ether
gnaw our fingers seek vain words
drag off the fallen shades behind us

Well Marcus better hang up your peace
give me your hand across the dark
Let it tremble when the blind world beats
on senses five like a failing lyre
Traitors - universe and astronomy
reckoning of stars wisdom of grass
and your greatness to immense
and Marcus my defenseless tears.

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956 - 1998, Alissa Valles (tradução), Ecco, 2007.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Eros & Psique, De Novo


«Há em Lisboa uma casa muito falada mas pouco conhecida. Chamam-lhe a Casa da Rua da Alcolena e por ela fizeram-se petições, lançaram-se apelos, indignaram-se estudiosos, arquitectos e simples cidadãos. A historiadora de arte e investigadora italiana Barbara Aniello veio para Portugal há cinco anos, apaixonou-se pela obra de Almada Negreiros, e pela Casa da Rua da Alcolena, situada no Restelo, em Lisboa. Escreveu um livro e espera que, se mais pessoas conhecerem a história desta casa, talvez ainda se possa salvar - possivelmente já não tudo, mas alguma coisa. [...] "Era aqui que José Manuel se reunia com os seus amigos eleitos, os colaboradores da revista Eros, que ele escreveu e editou precisamente nos anos em que a casa era concebida", explica a investigadora, que ouviu algumas das memórias ligadas à Rua da Alcolena da filha do proprietário, Madalena Ferrão. É nessa representação de Eros e Psique do vitral de Almada que está, segundo Barbara Aniello, a chave para compreender toda a casa. Esta é "um conjunto de poesia, porque José Manuel era poeta, de pintura, de Almada, escultura, de António Paiva, e arquitectura, de António Varela". Até o jardim faz parte do projecto cúmplice dos quatro amigos. "O jardim, com as suas plantas, foi pensado a partir de uma ideia unitária: o mito de Eros e Psique. Toda a casa conta as metamorfoses de Psique à procura de Eros."»

Ler mais aqui ou no P2 do Público de hoje.

À La Bibliotecário de Babel #2

Desafio de hoje:
19:30 - Paulo contra Epicteto
Sim, eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico. Ora, se o que eu não quero é que faço, então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Deparo, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance.
Rm 7, 18-21. retirado da Nova Bíblia dos Capuchinhos.
Difusora Bíblica, Lisboa/Fátima: 1998. (trad.: Anacleto Oliveira).

[οἶδα γὰρ ὅτι οὐκ οἰκεῖ ἐν ἐμοί, τοῦτ' ἔστιν ἐν τῇ σαρκί μου, ἀγαθόν: τὸ γὰρ θέλειν παράκειταί μοι, τὸ δὲ κατεργάζεσθαι τὸ καλὸν οὔ: οὐ γὰρ ὃ θέλω ποιῶ ἀγαθόν, ἀλλὰ ὃ οὐ θέλω κακὸν τοῦτο πράσσω. εἰ δὲ ὃ οὐ θέλω [ἐγὼ] τοῦτο ποιῶ, οὐκέτι ἐγὼ κατεργάζομαι αὐτὸ ἀλλὰ ἡ οἰκοῦσα ἐν ἐμοὶ ἁμαρτία. Εὑρίσκω ἄρα τὸν νόμον τῷ θέλοντι ἐμοὶ ποιεῖν τὸ καλὸν ὅτι ἐμοὶ τὸ κακὸν παράκειται:]
Why is it that when you want something it does not happen, and when you do not want it, it does happen? For this is the greatest indication of discontent and misery. I want something, and it does not happen; and what creature is more wretched than I? I do not want something, and it does happen; and what creature is more wretched than I?
Discursos de Epicteto 2.17.17-18 apud John M. Dillon (1997),
'Medea Among the Philosophers' in Clauss & Johnston (eds.), Medea.
Princeton University Press: 1997. (trad.: Oldfather para a Loeb + Dillon)

[διὰ τί θέλοντός σού τι οὐ γίνεται καὶ μὴ θέλοντος γίνεται; ἀπόδειξις γὰρ αὕτη μεγίστη δυσροίας καὶ κακοδαιμονίας. θέλω τι καὶ οὐ γίνεται: καὶ τί ἐστιν ἀθλιώτερον ἐμοῦ; οὐ θέλω τι καὶ γίνεται: καὶ τί ἐστιν ἀθλιώτερον ἐμοῦ;]

À La Bibliotecário de Babel #1

Desafio de Hoje:
15:00- Ovídio contra Keats

O quê? Não vês como o ano se desenrola em quatro fases
no seu percurso, à imitação da nossa própria vida?
Pois, no início da Primavera é terno e lactente, semelhante
à idade da meninice. Então, a erva jovem, sem vigor, é
rechonchuda e tenra, e delicia os lavradores com esperanças.
Então, há flores por toda a parte, e com as cores das flores
brinca o nutriente prado, e não há ainda pujança nas folhas.
Depois da Primavera, o ano, mais robusto, passa ao Verão,
e torna-se um jovem forte. Na verdade, não há estação
mais robusta, nem outra mais luxuriante, nem mais ardente.
Sucede o Outono, que, pondo de lado o ardor da juventude,
é maduro e calmo, moderado, a meio caminho entre jovem
e velho, mas já com as suas têmporas salpicadas de cãs.
E lá chega o Inverno, a tremer de frio, senil, o passo trémulo,
despojado de cabelo, ou então, se algum tiver, todo branco.

Ovídio, Metamorfoses 15.199-213
Cotovia, Lisboa: 2007. (trad.: Paulo Farmhouse Alberto)

['Quid? non in species succedere quattuor annum/ adspicis, aetatis peragentem imitamina nostrae?/ nam tener et lactens puerique simillimus aevo/ vere novo est: tunc herba recens et roboris expers/ turget et insolida est et spe delectat agrestes;/ omnia tunc florent, florumque coloribus almus/ ludit ager, neque adhuc virtus in frondibus ulla est./ transit in aestatem post ver robustior annus/ fitque valens iuvenis: neque enim robustior aetas/ ulla nec uberior, nec quae magis ardeat, ulla est./ excipit autumnus, posito fervore iuventae/ maturus mitisque inter iuvenemque senemque/ temperie medius, sparsus quoque tempora canis./ inde senilis hiems tremulo venit horrida passu,/ aut spoliata suos, aut, quos habet, alba capillos.]

Four Seasons fill the Measure of the year;
Four Seasons are there in the mind of Man.
He hath his lusty spring when fancy clear
Takes in all beauty with an easy span:
He hath his Summer, when luxuriously
He chews the honied cud of fair spring thoughts,
Till, in his Soul dissolv'd they come to be
Part of himself. He hath his Autumn ports
And Havens of repose, when his tired wings
Are folded up, and he content to look
On Mists in idleness: to let fair things
Pass by unheeded as a threshhold brook.
He hath his Winter too of pale Misfeature,
Or else he would forget his mortal nature.

in Keats - The Complete Poems.
Londres, 1970: Longman. (Ed.: Miriam Allott)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

"Psyche opening the golden box"


































Quadro de John William Waterhouse, datado 1903.
O conto de Amor e Psique é o único momento em O Burro de Ouro de Apuleio em que me esqueço que estou a ler a obra de um retor.

Ovídio Ilustrado

A Universidade da Virgínia, fundada em 1819 por Jefferson, no terreno que James Monroe, quinto presidente dos EUA, vendeu quando se mudou para a Casa Branca (nada disto interessa para o que se segue, mas achei um pormenor curioso), disponibiliza online um magnífico centro de recursos sobre as Metamorfoses de Ovídio, obra-maior da literatura clássica, colocando acessíveis várias edições latinas da obra, do século XVI a 1914, bem como uma série de traduções antigas, inclusive em português. A joía da coroa, a meu ver, é, porém, a colecção de ilustrações que acompanharam as primeiras edições impressas da obra, da autoria de alguns dos maiores gravadores de então, como Virgil Solis. O site peca apenas por não ser sobremaneira instintivo e pela profusão de janelas que abre. Ainda assim, creio, vale uma visita.

imagem: A Morte de Adónis (Canto X), de Virgil Solis,
para a edição de Sigmund Feyerabendt, Frankfurt, 1581.

sábado, 19 de junho de 2010

Athens, Karyotakis

Athens

A sweet hour. Athens sprawls like a hetaira
offering herself to April.
Sensuous scents are in the air,
the spirit waits for nothing any more.

The silver of the evening's eyelids
droops, grows heavy up above the houses.
Queenlike the Acropolis puts on
the sunset's crimson like a robe.

The first star rises with a kiss of light.
A zephyr by Ilissus falls in love with
quivering laurels, rosy nymphs.

A sweet hour of delight and love, when
small birds chasing one another raise a wind
that beats upon a column of Olympian Zeus...


Kostas Karyotakis, Peter J. King and Andrea Christofidou (trad.) http://users.ox.ac.uk/~shil0124/poems/nepenthe.htm

I Mammut

















I Mammut é uma chancela muito peculiar da casa italiana Newton Compton. Trata-se de uma colecção de volumes de grande porte (daí o sugestivo nome) que reúnem a obra completa de um nome maior da literatura (de Ésquilo a Lorca, passando por Austen e Sade), ou, então, os livros mais importantes de um autor (caso de Dostoiévski ou Freud). Casos há, também, em que um só tomo é consagrado a uma obra de fôlego (o BTP do Proust ou O Capital, do Marx, por exemplo). As edições, como creio que a amostra acima comprova, têm capas com bonequinhos deliciosos a cujo encanto é difícil resistir (notem as faces rosadas dos tragediógrafos). De momento, de autores gregos, a colecção só tem ainda os três volumes que encimam este post, dois dos quais, o de Aristófanes e o de Platão, são bilingues. Os três livros, juntos, custam 60€. Em Portugal, a República de Platão, edição não bilingue, custa 17,50€. A edição completa das tragédias de Sófocles (entretanto esgotada) custava 35€. O primeiro volume das comédias de Aristófanes, não bilingue, editado pela INCM, custa 38€. Quem foge comigo para Itália, mal o Berlusconi deixe de ser primeiro-ministro?

Oliver Taplin

On classics.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Apopudobalia

Apopudobalia. Antigo desporto, de facto uma forma primitiva do futebol moderno; não se conhecem, porém, pormenores. Já nos Gymnastica de Aquileu Táctico (fr. 3) se fala de 'homens apopudobaliantes (i.e., que jogam apopudobalia)' em Corinto, no começo do século IV a.C. O jogo parece ter chegado também a Roma na época helenística tardia; pelo menos, no escrito pseudo-ciceroniano De Viris Illustribus (3.2) surgem enumerados vários apopudobaliantes importantes. No século I-II d.C. o apopudobalia é levado pelas legiões romanas para a Inglaterra, donde, no século XIX, se difundiu, renovado. Não obstante a sua grande popularidade junto do público, o jogo foi logo condenado na literatura cristã primitiva (cf., em especial, Tertuliano, De Spectaculis, 31 f.); não surge mais documentado a partir do século IV d.C.

Lembram-se da pergunta que tinha deixado aqui? No decurso das minhas investigações tropecei na entrada do Pauly (a mais importante enciclopédia das coisas clássicas) que acima traduzo. Por interessante que possa ser, trata-se de um fraude, de uma pequena piada dos editores da obra, gente bem-humorada (davam bons membros da Origem, estou em crer). Ler mais aqui.

Crónica de uma Morte Anunciada

De acordo com as informações que nos chegaram, houve 201 alunos inscritos para o exame de Latim realizado na quarta passada (descarregar prova aqui). No ano passado, foram 313. E assim também o Latim, depois do Grego, vai paulatinamente desaparecendo do ensino secundário. Se é apenas justo que se exija que as escolas providenciem Latim a quem o quer ter (o que hoje não sucede), é bastante claro, porém, que a estratégia para a manutenção da cultura clássica no nosso país não passa por aqui. E é melhor que se tome consciência disso. Daí também, quero crer, a Origem, como uma possibilidade de resposta: assim os deuses nos favoreçam, e a Fortuna.

O Altar da Vitória


Quando, nos dias moribundos do Paganismo Romano, a facção cristã conseguiu com que o Altar da Vitória fosse retirado do edifício do senado, o Prefeito de Roma, Aurélio Símaco, escreveu uma carta ao imperador Valenciano em protesto. Mas o seu pedido foi prontamente refutado pelo então Bispo de Milão futuro Santo Ambrósio, na sua famosa 17ª epístula. A carta de Símaco surge aos nossos olhos ingénua em vários pontos (do mesmo tipo de ingenuidade que já apareceu aqui), mas possui igualmente passagens de uma candura memorável. Uma das quais cito.

Então aos deuses e aos heróis da nossa pátria imploramos salvação. Faz sentido que se considere uma só coisa aquilo a que todos prestam culto. Contemplamos as mesmas estrelas, o céu mostra-se igual para todos, e é o mesmo mundo que nos envolve. O que é que interessa por que ritos é que cada um procura a Verdade? Não se pode chegar por um só caminho a um tão grande segredo. Mas esta discussão é ociosa. Agora é hora de oferecer preces, não mais conflitos.

Ergo diis patriis, diis indigetibus pacem rogamus. Aequum est, quidquid omnes colunt, unum putari. Eadem spectamus astra, commune cælum est, idem nos mundus involvit. Quid interest, qua quisque prudentia verum requirat? Uno itinere non potest perveniri ad tam grande secretum. Sed haec otiosorum disputatio est. Nunc preces, non certamina offerimus. Symmachus, Relatio Tertia sive De Ara Victoriæ, 10.

Mas era já uma causa perdida, e Símaco sabia-o. "Nunc preces, non certamina offerimus." A disputa marcial fora já perdida, igualmente a política, e a teológica estava podre. Agora teria sido preciso um deus ex  machina, mas não veio nenhum.

Eu Andava à Procura do 'Rei Édipo' de A. Calmettes (1908), Mas Isto Também Está Muito Bom. Mesmo.


Site oficial aqui.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Conferências de Verão

Sim, a primeira já lá vai. Mas têm já no próximo dia 21, segunda, ao meio-dia, no Anfiteatro III da FLUL, uma com Emílio Suárez de la Torre, da Universidade de Pompeu Fabra, de Barcelona. E dois dias depois, 23, na Sala de Investigadores do Centro de Estudos Clássicos, à mesma hora, Thomas Earle, de Oxford (se a minha memória não me trai, já tive a oportunidade de o ouvir uma vez, também sobre a Castro, pela qual tem uma paixão enorme). Informação retirada daqui.

Sein und Zeit, Derrida, (e Heraclito)


Claro que seguirmos isto até às suas consequências lógicas todos estes bonequinhos vão ter de aprender Grego Antigo para ler os Pré-Socráticos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Happy Bloomsday 2010

[Jack:] If you and I could only work together we might do something for the island. Hellenise it.

imagem: fotograma de Lost 05x06

One of those things

Tibério Júlio Alexandre era um Judeu originário de Alexandria, que terá nascido ca. 15 d.C. O seu pai, Alexandre Lísimaco, era um homem muito importante e influente dentro e fora da sua comunidade: entre outras responsabilidades, foi alabarca de Alexandria e procurador dos bens de Antónia, a mais nova das filhas de Marco António, no Oriente. O tio de Tibério era Fílon de Alexandria, importante escritor judaico, que constitui para nós um exemplo paradigmático da síntese entre a cultura judaica e helenística na Alexandria do primeiro século de Império Romano.
Era difícil Tibério exceder qualquer um destes seus dois familiares. Mas a verdade é que, quando Josefo nos fala de Alexandre, o identifica como sendo o pai de Tibério Júlio Alexandre, o que por si é sinal de que, ainda na Antiguidade, o filho veio a exceder o pai em notoriedade e importância.
E de facto assim foi. Tibério protagonizou uma ascensão meteórica. Depois de ter renunciado à religião dos seus ancestrais, muito provavelmente porque esta o impedia de aceder a cargos públicos na cidade de Alexandria, foi, entre outras coisas, governador da Judeia entre 46 e 48 d.C., governador do Egipto durante o principado de Nero e, mais para o fim da vida, prefeito do Pretório em Roma.
Tibério devia ser também um bom general. A imagem com que ficamos é que ele devia pertencer àquela casta de homens que são capazes de tomar a decisão mais difícil e mais cruel (por vezes até para eles próprios) no mais curto espaço de tempo, quando ela é ainda eficaz. Infelizmente, não raras vezes, para reprimir revoltas entre elementos do seu povo e elementos de outras comunidades teve de recorrer ao derramamento de sangue, por vezes revelando uma mão muito pesada. Este foi o caso em 66, altura em que era governador de Alexandria e do Egipto (o título, salvo erro, englobava esta distinção), e Judeus, Gregos e (muito provavelmente) Egípcios resolveram repetir os eventos da perseguição de 38, mas desta vez estando os Judeus armados, o que não sucedeu em 38. Além disso, Tibério era um governador com características muito diferentes das de Flaco, o governador que em 38 se revelou perfeitamente incapaz de lidar com a situação.
Tibério deu as suas instruções às legiões Romanas. Estas abriram caminho através das ruas do quarteirão Judaico, que estavam apinhadas de gente, e, quando encontraram resistência, reagiram com violência indiscriminada. Josefo avança com um número de cinquenta mil judeus mortos e termina o seu relato com a não muito agradável imagem de cidadãos Alexandrinos a terem de ser arrancados dos cadáveres dos Judeus seus inimigos (BJ 2. 494 - 98). (Digno de uma página da história de Bizâncio!)
Há pelo menos mais um evento tão amargo como este na carreira de Tibério Pode-se até pensar que deve ter sido uma espécie de punição do destino, ou algo assim.
No ano de 70, Tibério desempenhou o cargo de general de Tito. E aconteceu ser ele o general de Tito que comandou a destruição da Hierosolyma, de Jerusalém.
Às vezes divirto-me a imaginar se nesta ocasião Alexandre e Fílon ainda estariam vivos. Se estivessem, teriam uma idade muito avançada (Fílon pelo menos oitenta anos; Alexandre não faço ideia, porque não sei se era o irmão mais velho ou mais novo).
Se Alexandre de facto ainda estivesse vivo, como teria o filho explicado ao pai que, o Templo para cuja construção este contribuíra com tão vastas somas de dinheiro quando era ainda um homem na flor da idade, fora destruído às suas ordens?
Ainda que Josefo nos diga que Tibério votou em conjunto com Tito a favor da preservação do Templo (cf. Bellum Judaicum 6.242), a verdade é que primeiro votou para que este fosse destruído e ele foi de facto arrasado. One of those things, indeed.

Esopo e a Coreia do Norte

Uma coisa que me irrita sempre que leio os livros de fábulas de Esopo é o modo como os editores e os tradutores tão agressivamente censuram os vários contos que o fabulista escreveu sobre o conflito entre as duas Coreias.


"We presented and explained to [the council] the evidence that the Cheonan was sunk by a torpedo, which was made in North Korea, and launching was also done by a North Korean ... submarine," said Yoon Duk-yong, a science and physics professor serving as a civilian expert on the South Korean panel.

Yoon said the findings were based on evidence recovered after the sinking, including an intact piece of the torpedo with propellers, steering plates and a motor.

"We hope that on the basis of these findings," he said, "the Security Council will take timely and appropriate measures against the provocation of North Korea against the naval ship of the Republic of Korea."

But North Korea's ambassador disputed the international findings, comparing them to "some kind of fiction in Aesop's Fables."

Lisbon Meeting on Aristotle's Posterior Analytics [ACTUALIZADO]

Recebemos o cartaz.



Localização: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Sala 5.2. A entrada é livre.

Primeiro dia 17/06
SYLLOGISM, PROOF AND DEMONSTRATIVE SCIENCE

“Euclid’s Elements from an Aristotelian Standpoint”
(Bernardo Mota, Universidade de Lisboa)

“Syllogistic, Necessity and Demonstration in Posterior Anaytics I.2”
(Lucas Angioni, Universidade de Campinas)

“Subordinate Sciences in Post. Anal. I.13, Natural Form and Physics”
(Michael Peramatzis, University of Oxford)

“Categories and Demonstrative Knowledge in Aristotle’s Post. Anal. I.22”
(Ricardo Santos, Universidade de Évora)


Segundo dia 18/06
METHOD, PREDICATION AND DEFINITION

“Types of Predication in Aristotle’s Posterior Analytics I.22”
(António Pedro Mesquita, Universidade do Minho)

“Inquiry and Definition: Posterior Analytics II.1-10”
(David Bronstein, Boston University)

“Aristotle on Definition”
(David Charles, University of Oxford)

terça-feira, 15 de junho de 2010

Entretanto

bravo Platão bravo
bravo a essa tua dos poetas fora da república
deixa que te diga
essa tua é de amigo Banana
toda a gente o sabia

mas tiveste a necessidade de dizê-la tu
e então o caso muda de figura

há a república e há a poesia
ambas são a mesma coisa no fim
e metade-metade é zero-nada

bravo a hoje bravo
bravo a esta nossa da república fora da poesia
esta nossa é de amigo Banana
toda a gente o sabia

mas temos a necessidade de dizê-la nós
e então o caso muda de figura

dizê-la nós a quem? a nós
«entretanto» nada temos a dizer á república
ela dobra o outro Cabo da Boa Esperança

encontrar-nos-emos ou não e é tudo

«entretanto» nascem poetas e republicanos
sem ser possível só poetas ou só republicanos
nem ambos lado-a-lado

«entretanto» não será possível reconhecer irmãos senão vizinhos
o nosso espelho fragmentado

a combinação é diabólica ou divina
haver fora da república lugar de poetas

o mundo é de ambos
não é território mais território
isto é
não há o mundo da república mais o mundo dos poetas
poesia e república são a lua-nova uma da outra
não haveria mundo se não houvesse gente
e o mundo só cabe à-vez em cada pessoa
sem máquina registradora disto
senão pela própria pessoa ela-mesma

e foi então que um dia chegou a palavra vocação

a vez do mundo em cada pessoa
a coz da vez de cada um
a voz antes do falar
a voz da memória do antes de havermos nascido para a memória do «entretanto» da vez

o único poder que diz respeito a um mesmo
«vós sois deuses» (Cristo)
a única defesa de cada um à nascença, na circunstância e no extremo

tu-cá-tu-lá com a vocação é tudo o que se pede
e depois de ter chegado a palavra vocação vieram todas as outras

Vocação: a vez, o «entretanto», o agir
poetas e república o agir difere
agir é o que se pode
e também o que ainda não se pode
também o destronamento do impossível
o estanque deslocável cada vez mais para lá

Almada, Poemas
Assírio & Alvim, Lisboa: 2005.

(Ce)lembram-se hoje os 40 anos da morte de Almada, um dos meus autores portugueses favoritos, um artista integral, um Leonardo luso e moderníssimo. Fica o poema à sua memória.

September 1, 1939

September 1, 1939
W. D. Auden

[...]

Exiled Thucydides knew
All that a speech can say
About Democracy,
And what dictators do,
The elderly rubbish they talk
To an apathetic grave;
Analysed all in his book,
The enlightenment driven away,
The habit-forming pain,
Mismanagement and grief:
We must suffer them all again.

[...]


[Auden's] modernist predecessors such as Yeats, Lawrence, Eliot or Pound, had turned nostalgically away from a flawed present to some lost illusory Eden where life was unified, hierarchy secure, and the grand style a natural extension of the vernacular. All of this Auden rejected. His continuing subject was the task of the present moment: erotic and political tasks in his early poems, ethical and religious ones later. When Auden looked back into history, it was to seek the causes of his present conditions, that he might act better and more effectively in the future. The past his poems envisioned was never a southern classical domain of unreflective elegance, as it was for the modernists, but a past that had always been ruined, a northern industrial landscape marred by the same violence and sorrow that marred his own. (Edward Mendelson, ed.)

WH Auden, Selected Poems, faber&faber (1979)

The Heroes of the Greeks















Károly Kerényi conta neste livro a história dos heróis dos Gregos. O livro é uma excelente introdução a inúmeros mitos, está organizado cronologicamente e lê-se com a mesma alegria com que se lê um romance.
Há qualquer coisa na prosa de Kerényi que me recorda a graciosidade do mito melhor narrado por um autor do séc. XX que alguma vez li (a magnífica descrição do nascimento de Apolo feita por Pietro Citati na primeira página deste livro).
Károly Kerényi só tem um livro publicado em Portugal, o que é uma lástima, porque, como se diz, é «dos mais densos e profícuos historiadores das antigas religiões grega e romana e, em sentido lato, da mitologia mediterrânica».
(Eis um livro que podíamos publicar na OCE - Origem da Comédia Edições, e já agora este.)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Para Depois do Jogo de Portugal

Amanhã na Sala de Investigadores do Centro de Estudos Clássicos, na FLUL, com William J. Dominik, da Universidade de Otago, Nova Zelândia, às 16:30 (com quarto de hora académico, para ver o jogo até ao fim). Informação retirada daqui.

Se Há Imagem Mais Bela Deste Mito

Cadmus came in the course of his wanderings to Delphi, where he consulted the oracle. He was ordered to give up his quest and follow a special cow, with a half moon on her flank, which would meet him, and to build a town on the spot where she should lie down exhausted. The cow was given to Cadmus by Pelagon, King of Phocis, and it guided him to Boeotia, where he founded the city of Thebes. Intending to sacrifice the cow to Athena, Cadmus sent some of his companions to the nearby Castalian Spring, for water. They were slain by the spring's guardian water-dragon, which was in turn destroyed by Cadmus. By the instructions of Athena, he sowed the dragon's teeth in the ground, from which there sprang a race of fierce armed men, called the Spartoí ("sown"). By throwing a stone among them, Cadmus caused them to fall upon one another until only five survived, who assisted him to build the Cadmeia or citadel of Thebes, and became the founders of the noblest families of that city.

(retirado daqui)

imagem: Maxfield Parrish, Cadmo Semeando os Dentes do Dragão.
Ilustração para uma edição de 1908 de A Wonder-Book &
Tanglewood Tales, de Nathaniel Hawthorne.

Contra a Navalha de Occam - Versão XXX

Que o deus Jugatino intervenha na união do homem com a mulher — vá que não vá! Mas é preciso levar a noiva a casa — e lá temos o deus Domiduco; para lá a instalar, está o deus Domítio; para a fazer estar com o seu marido, junta-se a deusa Manturna. Para quê buscar mais? Tenha-se em consideração o pudor humano! Seja a concupiscência da carne e do sangue a levar a cabo o resto no recato do pudor. Para quê encher o quarto com uma caterva de deuses quando se retiram os paraninfos? E enchem o quarto, não para que o conhecimento da sua presença constitua uma garantia maior do pudor, mas para que a mulher, débil em razão de sexo, aterrada pela novidade, graças ao concurso deles perca a virgindade sem dificuldade: realmente, lá estão presentes a deusa Virginense, o deus-pai Súbigo, a deusa-mãe Prema, a deusa Pertunda e ainda Vénus e Priapo! Que vem a ser isto? Se era absolutamente necessário que os deuses ajudassem o varão em apuros, não bastaria um ou uma? Não bastaria apenas Vénus, pois que, diz-se, ela assim se chama porque sem violência (vis) nunca a mulher poderá deixar de ser virgem? Se nos homens há pudor que falta aos deuses, os esposos que acreditam na presença de tantos deuses de ambos os sexos, todos atentos ao acto conjugal, — não se sentirão possuídos de tal vergonha que o ardor do acto se vai apagando e vai aumentando a resistência à vergonha? Se, para desatar o cinto da donzela, lá está a deuses Virginense; se lá está o deus Súbigo para a submeter ao varão; se, para a obrigar, uma vez entregue, a deixar-se desflorar sem resistência, está lá a deusa Prema — que faz lá a deusa Pertunda? Que tenha vergonha! que se vá embora! que deixe ao marido alguma coisa para fazer! É altamente indecoroso que seja outro a cumprir uma tarefa que, como o seu nome indica, só a ele pertence.

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro VI, Cap. IX
Gulbenkian, Lisboa: 1991. (trad.: J. Dias Pereira)

[Cum mas et femina coniunguntur, adhibetur deus lugatinus; sit hoc ferendum. Sed domum est ducenda quae nubit; adhibetur et deus Domiducus; ut in domo sit, adhibetur deus Domitius; ut maneat cum uiro, additur dea Manturna. Quid ultra quaeritur? Parcatur humanae uerecundiae; peragat cetera concupiscentia carnis et sanguinis procurato secreto pudoris. Quid impletur cubiculum turba numinum, quando et paranymphi inde discedunt? Et ad hoc impletur, non ut eorum praesentia cogitata maior sit cura pudicitiae, sed ut feminae sexu infirmae, nouitate pauidae illis cooperantibus sine ulla difficultate uirginitas auferatur. Adest enim dea Virginensis et deus pater Subigus, et dea mater Prema et dea Pertunda, et Venus et Priapus. Quid est hoc? Si omnino laborantem in illo opere uirum ab diis adiuuari oportebat, non sufficeret aliquis unus aut aliqua una? Numquid Venus sola parum esset, quae ab hoc etiam dicitur nuncupata, quod sine ui femina uirgo esse non desinat? Si est ulla frons in hominibus, quae non est in numinibus, nonne, cum credunt coniugati tot deos utriusque sexus esse praesentes et huic operi instantes, ita pudore adficiuntur, ut et ille minus moueatur et illa plus reluctetur? Et certe si adest Virginensis dea, ut uirgini zona soluatur; si adest deus Subigus, ut uiro subigatur; si adest dea Prema, ut subacta, ne se commoueat, conprimatur: dea Pertunda ibi quid facit? Erubescat, eat foras; agat aliquid et maritus. Valde inhonestum est, ut, quod uocatur illa, impleat quisquam nisi ille.]

imagem: Polifemo e Galateia. Fresco de um quarto de Pompeia.
@ Gabinetto Segreto, Museo Archeologico Nazionale, Nápoles

Ad mortem festinamus



Devo à realização, organizada pelo GEFAC, do ciclo Ják-Há-Vynhas o meu conhecimento da música. Na primeira sessão, Chão do Bispo, uma série de bispos saem da casa em cantando esta curiosa música. Alguma informação acrescida aqui.

domingo, 13 de junho de 2010

Subsídios Para o Estudo do Taylorismo no Séc. V d.C.

...à maneira de subalternos cobradores de impostos ou de artífices do bairro operário, em que o menor dos vasos, para se dar por acabado, passa por numerosas mãos até que o mestre lhe ponha sozinho termo. Pensaram, contudo, que não se podia tirar melhor rendimento da multidão dos trabalhadores senão fazendo com que cada um aprendesse, depressa e com facilidade, apenas uma parte da tarefa, para não os obrigar, à custa de muito tempo e canseiras, a serem todos perfeitos no trabalho todo.

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro VII, Cap. IV
Gulbenkian, Lisboa: 1991. (trad.: J. Dias Pereira)

[...tamquam minuscularios uectigalium conductores uel tamquam opifices in uico argentario, ubi unum uasculum, ut perfectum exeat, per multos artifices transit, cum ab uno perfecto perfici posset. Sed aliter non putatum est operantium multitudini consulendum, nisi ut singulas artis partes cito ac facile discerent singuli, ne omnes in arte una tarde ac difficile cogerentur esse perfecti.]

imagem: fotograma de A Nous la Liberté, de René Clair (1931).

Outros Dois Que Gostam Muito dos Gregos

Começa com Platão e um elogio aos gregos, acaba com a Antígona e Hölderlin. Não deixem de ver este excerto de coisa de vinte minutos de uma entrevista a Steiner por Guillaume Chenevière para a TSR (Télévision Suisse Romande), em 1998. Sobre Heidegger, as suas ligações ao nazismo e a importância e originalidade da sua filosofia.

sábado, 12 de junho de 2010

Elogios

“Hardly any lawful price would seem to me too high for what I have gained by being made to learn Latin and Greek.” – C.S. Lewis

“To read Latin and Greek authors in their original, is a sublime luxury. I thank on my knees him who directed my early education for having put into my possession this rich source of delight; and I would not exchange it for anything which I could then have acquired, and have not since acquired.” – Thomas Jefferson

Latin and Greek are not dead languages. They have merely ceased to be mortal.” - J. W. MacKail

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Aceitam-se Sugestões

Today [09/06/10, desculpem o atraso] sees the unveiling of Tintoretto’s Apollo (or Hymen) Crowning a Poet and Giving Him a Spouse at Kingston Lacy, the National Trust property in Dorset. The painting has spent most of the last 30 years in storage but has undergone a major programme of cleaning and restoration. Art historians at the National Trust believe that the painting depicts Apollo, or possibly the god of marriage, Hymen, placing a crown on an unknown figure, probably a poet who is holding a book. Mythical figures surrounding them include the god Hercules and a woman believed to be the intended spouse. However, the identification of other figures is still open to question along with the significance of various objects which would have had a clear meaning to those who saw it when it was painted. These include a die depicting five dots and the presence of a gold box and dish with coins in it.

(retirado daqui)

Le cygne

I
Andromaque, je pense à vous! Ce petit fleuve,
Pauvre et triste miroir où jadis resplendit
L'immense majesté de vos douleurs de veuve,
Ce Simoïs menteur qui par vos pleurs grandit,

A fécondé soudain ma mémoire fertile,
Comme je traversais le nouveau Carrousel.
Le vieux Paris n'est plus (la forme d'une ville
Change plus vite, hélas! que le coeur d'un mortel);

Je ne vois qu'en esprit tout ce camp de baraques,
Ces tas de chapiteaux ébauchés et de fûts,
Les herbes, les gros blocs verdis par l'eau des flaques,
Et, brillant aux carreaux, le bric-à-brac confus.

Là s'étalait jadis une ménagerie;
Là je vis, un matin, à l'heure où sous les cieux
Froids et clairs le Travail s'éveille, où la voirie
Pousse un sombre ouragan dans l'air silencieux,

Un cygne qui s'était évadé de sa cage,
Et, de ses pieds palmés frottant le pavé sec,
Sur le sol raboteux traînait son blanc plumage.
Près d'un ruisseau sans eau la bête ouvrant le bec

Baignait nerveusement ses ailes dans la poudre,
Et disait, le coeur plein de son beau lac natal:
«Eau, quand donc pleuvras-tu? quand tonneras-tu, foudre?»
Je vois ce malheureux, mythe étrange et fatal,

Vers le ciel quelquefois, comme l'homme d'Ovide,
Vers le ciel ironique et cruellement bleu,
Sur son cou convulsif tendant sa tête avide
Comme s'il adressait des reproches à Dieu!

II

Paris change! mais rien dans ma mélancolie
N'a bougé! palais neufs, échafaudages, blocs,
Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie
Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs.

Aussi devant ce Louvre une image m'opprime:
Je pense à mon grand cygne, avec ses gestes fous,
Comme les exilés, ridicule et sublime
Et rongé d'un désir sans trêve! et puis à vous,

Andromaque, des bras d'un grand époux tombée,
Vil bétail, sous la main du superbe Pyrrhus,
Auprès d'un tombeau vide en extase courbée
Veuve d'Hector, hélas! et femme d'Hélénus!

Je pense à la négresse, amaigrie et phtisique
Piétinant dans la boue, et cherchant, l'oeil hagard,
Les cocotiers absents de la superbe Afrique
Derrière la muraille immense du brouillard;

À quiconque a perdu ce qui ne se retrouve
Jamais, jamais! à ceux qui s'abreuvent de pleurs
Et tètent la Douleur comme une bonne louve!
Aux maigres orphelins séchant comme des fleurs!

Ainsi dans la forêt où mon esprit s'exile
Un vieux Souvenir sonne à plein souffle du cor!
Je pense aux matelots oubliés dans une île,
Aux captifs, aux vaincus!... à bien d'autres encor!

Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, Editions Gallimard, 1996

Aristóteles, Homero, Rembrandt


Aristóteles contemplando um busto de Homero, Rembrandt, 1653

Por outro lado, o escritor, compositor, coreógrafo ou escultor vivos são convidados pelas universidades. A universidade americana não se limita a estudar e a ensinar as artes vivas: acolhe-as igualmente nos seus programas  de "escrita criativa", nas suas equipas de trabalho e nos seus recitais. Aristóteles já não se limita a olhar para o busto de Homero, como na alegoria concebida por Rembrandt das relações entre os modos de existência do poético e do crítico-filósofo. Transforma-se doravante em anfitrião tanto do poeta como do escultor.

George Steiner, Presenças Reais, Miguel Serras Pereira (trad.), Presença (1993)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Blogues de Classicistas Têm Destas Coisas

[...]
SÓCRATES: Pois, bem, Fedro, em que respeito então é uma garrafa de gin parecida com o amor? Qualquer dos tipo de amor, isto é.
FEDRO: Em nada, ó Sócrates. Posso ir agora? Tenho de ir ouvir uma história egípcia sobre Sólon a um amigo ali no bar.
SÓCRATES: Eu é que faço as perguntas aqui! Desejas, portanto, ir para o bar?
FEDRO: Sim, ó Sócrates.

Ler o resto aqui.
imagem: Sócrates conversa com Fedro enquanto bebe uma taça de gin.
(retirada daqui, outra divertidíssima paródia).

Medeia












































Este é o poster concebido por Alphonse Mucha para a interpretação que Sarah Bernhardt fez de Medeia, no Théatre de la Renaissance. Trata-se de um poster Art Noveau. Muito possivelmente terá sido Mücha a inspirar nas pessoas o hábito de roubar posters. O original (?) encontra-se preservado na Galeria Moravská. Para o ver basta ir até à cidade de Brünn.

Liber Chronicarum


















O Liber Chronicarum, de Hartmann Schedel, é uma história ilustrada do mundo, impressa em Nuremberga, em 1493. Originalmente publicada em latim, foi traduzida ainda no mesmo ano para alemão e revelou-se um sucesso de vendas. A oficina de Michael Wolgemut, uma das maiores do seu século, onde se formou, por exemplo, Dürer, cujo padrinho imprimiu a obra (o mundo é pequeno), foi encarregada de providenciar as ilustrações a que o livro, em boa medida, deve, ainda hoje, a sua fama. A editio princeps do Liber Chronicarum encontra-se disponível online aqui e só vos posso convidar a darem uma vista de olhos: é difícil, em começando, parar, tal a beleza das imagens (não se deixem enganar pelas divertidas figuras acima: há gravuras que ocupam páginas inteiras, de uma minúcia admirável).

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Opera in Fieri- Take II [actualizado, outra vez]

O Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH) da Universidade de Coimbra, depois do sucesso da primeira edição dos Opera in Fieri, em Abril passado, regressa agora ao formato, que permite aos jovens investigadores partilharem parte do trabalho que se encontram a desenvolver e receber feedback crítico. A apresentação de cada um é seguida de um comentário alongado por outro, abrindo-se depois a discussão ao público. Esta segunda sessão dos Opera in Fieri decorrerá já esta sexta-feira, dia 11 de Junho, na sala do CECH (anexa ao Instituto de Estudos Clássicos), e centrar-se-á na área de estudos gregos e recepção. Se o programa abaixo não está completo (falta o tema da maioria das sessões), é porque mais informação não nos chegou. Trataremos, porém, de, por outras vias (a Origem é muito expediente), recolher os dados em falta e ir completando o cartaz. Estejam por isso atentos: este post vai ser actualizado, se tudo correr bem, umas quantas vezes.

PROGRAMA

10:00: Abertura — 'O Alcibíades de Plutarco à luz de Foucault, Hermenêutica do Sujeito', por Tereza Virgínia Barbosa (Univ. Federal Minas Gerais).

I
10:30: Opera in Fieri
Jadir Pereira (Univ. Federal Alagoas; CECH) | Comentário por Félix Neto (Univ. Federal Paraíba; CECH)
«Cantar, pintar e escrever o mito: Baquílides e a iconografia», por Carlos Martins de Jesus (CECH) | Comentário por Rodolfo Lopes (CECH)
«'O Progresso de Édipo. Poema Dramático', de Natália de Correia», por António Manuel Vilhena (CECH) | Comentário por Ália Rodrigues (CECH)
«História e ficção em Tucídides», por Martinho Soares (CECH) | Comentário por Adriana Nogueira (Univ. Algarve; CECH)

~Pausa para Almoço~

14:30
«Tragédia e Filosofia: Sófocles e Heraclito», por Violeta Varela Álvarez (Univ. Salamanca; CECH) | Comentário por Marta Várzeas (Univ. Porto; CECH).
«Traduzir Aristófanes: Os Acarnenses numa versão caipira», por Ana Maria Pompeu (Univ. Federal Ceará).

II
«Tragédia e Violência», por Tereza Virgínia Barbosa (Univ. Federal Minas Gerais).
«Aspásia: uma Estrangeira na Atenas do tempo de Péricles», por Concepción López Rodríguez (Univ. Granada).
«Tra misticismo e erotismos: Edipo e la Sfinge en la cultura simbolista», por Giorgio Ierano (Univ. Trento).

Frase a Negrito

— Mas diga-me, meu caro senhor — prosseguiu tenazmente o outro — a morte do homem foi provocada pela forca ou foi uma espécie de eutanásia?
— A eutanásia, senhor comissário, é assim uma coisa como a sua força de vontade; duvido da sua autenticidade como termo científico, e de novo lhe peço desculpa. É um termo simultaneamente poético e metafísico, em resumo, grego. Mas — disse mudando bruscamente de tom — tenho um caso na enfermaria que não quero deixar aos meus assistentes. Peço-lhe que me perdoe.
E levantando-se da mesa, despediu-se cerimoniosamente.

Herman Melville, Billy Budd
Biblioteca Editores Independentes, Lisboa: 2010.
(trad.: José Sasportes)