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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

σπουδαῖος



O fragmento tem essa característica: obriga o relevante a aparecer logo, a não ser adiado. O fragmento impõe uma urgência, uma impossibilidade de diferir. Um fragmento não quer que o outro fragmento que vem a seguir diga o que é da sua responsabilidade dizer. O fragmento acelera a linguagem, acelera o pensamento. Trata-se de uma questão de velocidade e mobilidade que aproxima o pensamento de uma certa urgência que existe, por exemplo, no verso. [...] Deixar que a poesia volte a entrar na Filosofia é aceitar um aumento de velocidade da Filosofia: a frase que avança sem medo de dizer rapidamente o que tem a dizer. 

Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação [pp. 41; 52]
Caminho, Lisboa: 2013.

σπουδαῖος, palavra grega que significa com pressa e sério (também, mas isso interessa menos para o caso, e é mais óbvio o porquê, bom): poucas pessoas até hoje inteligiram a conexão entre os dois sentidos, o primitivo e o usual. a citação acima é um contributo para a iluminação.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Leitores Atentos §13

as vinhas de Coppola (o F. F., sim).
Ninguém deve vangloriar-se senão do que lhe pertence. O que gostamos na videira é de ver-lhe os sarmentos carregados de fruto, é vê-la fazer tombar as estacas em que se enrola sob o peso dos cachos; ou será que alguém apreciaria mais uma videira de que pendessem uvas de ouro e folhas de ouro? A virtude própria da videira é a fecundidade.

Séneca, Cartas a Lucílio IV.41.7
Gulbenkian, Lisboa: 2009. (trad.: J. A. Segurado e Campos)

Diamantes

Em vez de uvas os cachos do reino deixavam cair sobre a terra diamantes.
— Diamantes, diamantes, diamantes! Há anos que é só isto — queixava-se o produtor.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht
Caminho, Lisboa: 2004.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ainda Gonçalo M. Tavares Sobre Séneca

— Quando é que percebeu isso [a urgência de não perder tempo perante a consciência da morte]?
— Não sei. Há um livro que é determinante no meu percurso: as Cartas a Lucílio, de Séneca. Li-o com uns 18 ou 19 anos. É um livro que me acompanha muito. Logo a primeira carta é uma carta sobre o tempo. Lucílio é um discípulo a quem Séneca diz: «Caro Lucílio, já que te queixas de falta de tempo, relata-me o teu dia anterior, diz-me o que fizeste e quanto tempo gastaste com cada coisa; depois de teres feito essa lista, vê de entre as coisas que fizeste quais são as que consideras essenciais e quais são as acessórias, aquelas que poderias dispensar; depois de definires o essencial e o acessório, elimina amanhã o que é acessório e faz apenas as coisas essenciais». O que acho muito bonito nisto é ele aconselhar a fazer uma contabilidade do tempo. Isto é marcante para mim.

[...]

— Acontece-lhe com frequência sentir uma décalage grande entre a ideia com que ficou de uma leitura antiga e a sensação que tem, mais tarde, com a releitura?
— Não faço assim tanta releituras. O que me acontece muito, desde há muito tempo, é que leio sublinhando e escrevendo pequenas notas. Lembro-me, por exemplo, nas Cartas a Lucílio, que houve certas coisas que achei muito significativas e que agora há outras coisas a que não dei atenção nenhuma e que me parecem afinal determinantes.

em entrevista com Carlos Vaz Marques à Ler deste mês.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Teógnis Comentado - III, ou Diógenes Contra Mundum

De todas as coisas é a pobreza que mais subjuga o Homem nobre,
mais do que a grisalha velhice, ó Cirno, e a doença.
Para se fugir dela é preciso atirarmo-nos ao mar cheio de monstros,
ó Círno, ou então despenharmo-nos de altos rochedos.
Pois o Homem subjugado pela pobreza não pode nem falar
nem fazer nada; e a sua língua encontra-se atada.
É preciso procurar na terra e no vasto dorso do mar,
ó Círno, a libertação da dolorosa pobreza.
Morrer, querido Cirno, é melhor para o Homem indigente
do que viver esmagado pela dolorosa pobreza.

Teógnis, 173-182 in Poesia Grega de Álcman a Teócrito.
Cotovia, Lisboa: 2006. (trad.: Frederico Lourenço).

The honorable body is not the one that is beautiful, or strong, or swift, or large, or even healthy — though many would believe this, indeed, to be rather honorable — nor, of course, a body that has the opposite characteristics. Instead, those attributes which occupy the middle ground, in between all these, are the most moderate and steady by far. For the former extremes make souls boastful and rash, while the latter make them humble and unfree.

Platão, Leis 728e
University of Chicago Press, Chicago: 1980. (trad: Thomas L. Pangle)

[τίμιον εἶναι σῶμα οὐ τὸ καλὸν οὐδὲ ἰσχυρὸν οὐδὲ τάχος ἔχον οὐδὲ μέγα, οὐδέ γε τὸ ὑγιεινόν—καίτοι πολλοῖς ἂν τοῦτό γε δοκοῖ—καὶ μὴν οὐδὲ τὰ τούτων γ᾽ ἐναντία, τὰ δ᾽ ἐν τῷ μέσῳ ἁπάσης ταύτης τῆς ἕξεως ἐφαπτόμενα σωφρονέστατα ἅμα τε ἀσφαλέστατα εἶναι μακρῷ: τὰ μὲν γὰρ χαύνους τὰς ψυχὰς καὶ θρασείας ποιεῖ, τὰ δὲ ταπεινάς τε καὶ ἀνελευθέρους.]

Por conseguinte, posto que concordámos que o moderado e o intermédio é o que há de melhor, torna-se evidente que, em relação à posse dos bens, a riqueza mediana é a melhor de todas porque é a que mais facilmente obedece aos ditames da razão. Pelo contrário, a beleza excessiva, a força extrema, a linhagem inigualável, a riqueza desmedida, ou os respectivos opostos, tais como a pobreza excessiva, a debilidade extrema e a ausência de honrarias, têm dificuldade em seguir a voz da razão. [...] Já aqueles que vivem numa excessiva penúria encontram-se rebaixados. Assim sendo, estes não sabem o que significa propriamente mandar, mas apenas comportar-se como escravos sujeitos à autoridade.

Aristóteles, Política 1295b5-7, 18-20
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes).

[ἐπεὶ τοίνυν ὁμολογεῖται τὸ μέτριον ἄριστον καὶ τὸ μέσον, φανερὸν ὅτι καὶ τῶν εὐτυχημάτων ἡ κτῆσις ἡ μέση βελτίστη πάντων. ῥᾴστη γὰρ τῷ λόγῳ πειθαρχεῖν, ὑπέρκαλον δὲ ἢ ὑπερίσχυρον ἢ ὑπερευγενῆ ἢ ὑπερπλούσιον <ὄντα>, ἢ τἀναντία τούτοις, ὑπέρπτωχον ἢ ὑπερασθενῆ ἢ σφόδρα ἄτιμον, χαλεπὸν τῷ λόγῳ ἀκολουθεῖν. [...] οἱ δὲ καθ᾽ ὑπερβολὴν ἐν ἐνδείᾳ τούτων ταπεινοὶ λίαν. ὥσθ᾽ οἱ μὲν ἄρχειν οὐκ ἐπίστανται, ἀλλ᾽ ἄρχεσθαι δουλικὴν ἀρχήν,...]

*

Descia Mercator umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, contra a parede, a comer lentilhas. Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava, e pelo estômago farto, disse, para Diógenes:
— Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.
E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico? Diógenes respondeu. À letra:
— E tu - disse o filósofo - se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisava de bajular o rei.

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas
Leya - BIS, Alfragide: 2010.

imagem: Diógenes, de John William Waterhouse
1882, @ Art Gallery of New South Wales

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

S & S

















Porém Shankra tinha também olhos
e com eles havia visto, na pequena
mala de Bloom, duas preciosidades,
dois livros que a velha Europa havia
inventado: «Cartas a Lucílio», de
Séneca, em edição tão antiga
e com as páginas de tal forma a desfazer-se
que quase se diria serem páginas não materiais mas espirituais, e
ainda - vira Shankra - o teatro completo
de Sófocles, também em edição rara.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Canto VIII.61 (Caminho, Lisboa: 2010)

Sobre a influência de Séneca em Gonçalo, ler aqui.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Confirmação da Profecia do Post Anterior

Imagine uma geometria que, além de ter os lados perfeitos,
ainda libertasse calor — eis Maria E (disse Thom C).
Maravilhado, assim, com tal descrição do corpo feminino
— uma geometria com temperatura —, Bloom,
enquanto caminhava, lembrou-se da velha sabedoria
de Platão que, à entrada da sua academia, havia escrito:
«Não entre aqui quem não souber geometria.»
A filosofia, finalmente,
entusiasma certos órgãos que não o cérebro
— ironiza Bloom; e não pôde então deixar de pensar
como tal frase clássica ficaria perfeita
pendurada na entrada de um bordel.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, Lisboa: 2010).

*
comentário:


quarta-feira, 28 de julho de 2010

Gonçalo M. Tavares Sobre Séneca


[...] Às vezes é interessante não saber nada sobre o autor de um livro, para não haver contaminação do percurso político, pessoal. O que me parece é que os livros têm que ser lidos fora do... [sic] Quando são realmente literatura de qualidade são coisas que saltam do tempo em que foram escritos e editados. Os grandes livros perdem a data, podemos quase enganar as pessoas e dizer que acabou de sair um livro que tem 300 ou 400 anos. Se pegarmos um clássico, por exemplo, "Cartas a Lucílio", de Sêneca, e não dissermos que é de um autor do ano 30 depois de Cristo, que escreveu aquilo há quase 2.000 anos, o livro parece que foi escrito ontem. Realmente, para quem se interessa por livros, por literatura, os livros soltam-se do seu tempo e são avaliados pelo seu conteúdo.

[...] A questão da escolha dos senhores [do Bairro] tem a ver por um lado com o gostar da obra, mas muitas vezes tem a ver com se criar um personagem a partir do tom da escrita do autor. Então não é uma coisa direta e óbvia. Há autores que eu gosto imenso e nunca os colocaria como senhores. Há pouco falei do Sêneca, que é um autor que me marcou muito, mas que eu não conseguiria colocar nos senhores. Tem que ter um caráter lúdico.

Gonçalo M. Tavares em entrevista a um jornal brasileiro, aqui.

imagem: Morte de Séneca (sem mais informações)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Luciano

Era um velho amigo que primeiro olhava, depois respirava, depois falava e só no fim agia.
Claro que foi escritor.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca
Campo de Letras, Porto: 2004.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O Cego Que Vê


Édipo é cego porque alguém escreveu em cima dos seus olhos. A cegueira é uma escrita em sítio errado.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca s.v. Heiner Muller
Campo de Letras, Porto: 2004.

ESTRANGEIRO
E que ajuda pode vir de um homem privado de vista?
ÉDIPO
Aquilo que eu disser terá visão infalível.

Sófocles, Édipo em Colono (73-74)
FESTEA, Coimbra: 2001. (trad.: Maria do Céu Fialho)

[Ξένος
καὶ τίς πρὸς ἀνδρὸς μὴ βλέποντος ἄρκεσις;
Οἰδίπους
ὅσ᾽ ἂν λέγωμεν πάνθ᾽ ὁρῶντα λέξομεν.]


imagem: Édipo em Colono, de Jean-Antoine-Theodore Giroust (1788)
@ Museu de Arte de Dallas, Texas, EUA.