quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Officina Latina


 


Esta formação destina-se à introdução da Língua Latina, transmitindo as suas noções básicas através de:

- graffiti romanos de Pompeios
- sentenças e provérbios romanos e medievais
- inscrições em monumentos
- epitáfios

As sessões serão complementadas com a leitura in loco de inscrições em monumentos de Torres Vedras e visitas ao espólio romano do Museu Municipal (a confirmar).

No final da formação, será passado um certificado de frequência pelo Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Público Alvo: Estudantes do ensino Básico e Secundário | Público em geral

Duração: 15 sessões de 90 minutos - Sábados, 16:00-17:30
Início: 3 de Março de 2012
Local: escritório da Estufa (Avenida Tenente Valadim, nº 17, 2º)
Formador: André Simões (professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

Devido às limitações do espaço, só serão aceites 5 inscrições por turma. As inscrições deverao ser feitas por email para: asimoes arroba campus.ul.pt


também no mesmo site

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A 'Medeia' de Séneca


Alkan, Étude No. 12 Op. 39 "Le Festin d'Esope"

For his final study [of Op. 39] Alkan chose the most succinct way of summarising his technical invention by displaying it in a classically strict set of twenty-five variations on an original theme. Traditionally, the work is thought to represent various animals from Aesop's fables. Raymond Lewenthal discerns 'all manner of creeping, crawling things' within its colourful pages.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

ὁ Καιρός (É a Hora)


Girolamo da CarpiOportunidade e Paciência. (1541), Gemäldegalerie, Dresden.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

The Great American Novel

At the end of the Phaedrus, Plato has Socrates tell the story of the god Theuth, who, legend has it, invented the art of writing. When Theuth presented his new invention to the king of Egypt, he promised the king that it would make his people “wiser and improve their memories.” But the king disagreed, claiming that the habit of writing, far from improving memories, would “implant forgetfulness” by encouraging people to rely on external marks rather than “the living speech graven in the soul.” I think of Schopenhauer’s observation about the perils of excessive reading: Just as he who always rides gradually forgets how to walk, so he who reads constantly without pausing to reflect “gradually loses the capacity for thinking.”

“Such is the case,” said Schopenhauer, “with many scholars; they have read themselves stupid.”

Well, reading ourselves stupid is perhaps not our largest educational problem today.

Vale a pena ler na íntegra este artigo de Roger Kimball, aqui.

Private Joke

HERMES: Tu, chega aqui... Pomos em leilão um modelo de vida excelso e inteligente. Quem quer comprar um modelo de santidade?
COMPRADOR: Ora diz-me cá: que é que tu sabes a fundo?
MODELO ACADÉMICO [misto de Sócrates e Platão]: Amo os rapazinhos e sou especialista em coisas de amor.
COMPRADOR: Como haveria eu de te comprar? Na verdade, do que eu precisava era de um pedagogo para o meu filho, que é um belo rapaz.
MODELO ACADÉMICO: E quem haveria melhor do que eu, para conviver com um belo rapaz? Na verdade, eu não estou apaixonado pelos corpos, pois considero que a alma é que é bela. Não te dê cuidado, pois mesmo que eles se deitem sob o mesmo manto que eu, de todos ouvirás dizer que não sofreram qualquer dano da minha parte.
COMPRADOR: É incrível isso que estás a dizer, [ou seja,] que um homem que ama rapazes não se preocupa senão com a alma, quando tem toda a liberdade, assim deitado sob o mesmo manto.
MODELO ACADÉMICO: E no entanto, juro-te pelo cão e pelo plátano que é assim mesmo.
COMPRADOR: Por Héracles! Que estranheza de deuses!

[{ΕΡΜΗΣ} Δεῦρο ἐλθὲ σύ. βίον ἀγαθὸν καὶ συνετὸν ἀποκηρύττομεν. τίς ὠνεῖται τὸν ἱερώτατον; {ΑΓΟΡΑΣΤΗΣ} Εἰπέ μοι, τί μάλιστα εἰδὼς τυγχάνεις; {ΣΩΚΡΑΤΗΣ} Παιδεραστής εἰμι καὶ σοφὸς τὰ ἐρωτικά. {ΑΓΟΡΑΣΤΗΣ} Πῶς οὖν ἐγὼ πρίωμαί σε; παιδαγωγοῦ γὰρ ἐδεόμην τῷ παιδὶ καλῷ ὄντι μοι. {ΣΩΚΡΑΤΗΣ} Τίς δ' ἂν ἐπιτηδειότερος ἐμοῦ γένοιτο συνεῖναι καλῷ; καὶ γὰρ οὐ τῶν σωμάτων ἐραστής εἰμι, τὴν ψυχὴν δὲ ἡγοῦμαι καλήν. ἀμέλει κἂν ὑπὸ ταὐτὸν ἱμάτιόν μοι κατακέωνται, ἀκούσει αὐτῶν λεγόντων μηδὲν ὑπ' ἐμοῦ δεινὸν παθεῖν. {ΑΓΟΡΑΣΤΗΣ} Ἄπιστα λέγεις, τὸ παιδεραστὴν ὄντα μὴ πέρα τῆς ψυχῆς πολυπραγμονεῖν, καὶ ταῦτα ἐπ' ἐξουσίας, ὑπὸ τῷ αὐτῷ ἱματίῳ κατακείμενον. {ΣΩΚΡΑΤΗΣ} Καὶ μὴν ὀμνύω γέ σοι τὸν κύνα καὶ τὴν πλάτανον οὕτω ταῦτα ἔχειν. {ΑΓΟΡΑΣΤΗΣ} Ἡράκλεις τῆς ἀτοπίας τῶν θεῶν.]

Luciano, Filosofias em Leilão 15-16 
Trad.: Custódio Magueijo, edição de autor, 2009

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Provérbios Latinos §4

ver subest

a primavera está aí a chegar

(

ou, como diria o Ashbery,

Is it possible that spring could be
once more approaching? We forget it each time,
what a mindless business it is [...]

John Ashbery, Alcove.


e, seja como for, e talvez ainda bastante antes do tempo, mas digno por sinal,



)


Seminário

Hamlet



Reflexões hermenêuticas sobre a experiência da crise no reino da Dinamarca


João Almeida Flor


27 de Fevereiro
15:00 – 17:00
Sala D. Pedro V
F.L.U.L.


Uma iniciativa
Centro de Estudos Clássicos - FLUL/ Origem da Comédia

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Édipo no Chapitô

ÉDIPO
Nova Criação da Companhia do Chapitô 
De 19 de Janeiro a 11 de Março 
De quinta a Domingo às 22h no Chapitô 
Reservas através do 218 855 550

O Édipo de Sófocles é herói trágico, é paradigma, é complexo, é impulso, é cólera, é fatalidade, é logos, pathos, ethos, hybris, miasma, eros, thanatos, e mais uma grande quantidade de ‘is’, ‘eisis , ‘thos’ e ‘thas’. O Édipo da Companhia do Chapitô é azarado, é desajeitado, é escorraçado, é assediado, é vilipendiado, é enxovalhado, é aleijado, e mais uma grande quantidade de ‘puns!’, ‘aus!’,‘ais!’, ‘trunges!’ e ‘fsssts!’ A Companhia do Chapitô gestualiza mais uma tragédia grega apresentando a cómica fuga de Édipo ao seu terrível destino. O que é certo é que de gatas, de pé, de bengala, a rastejar, ao colo ou às cavalitas, Édipo não vai poder escapar.

Esta alusão ao mito grego

É só uma desculpa para pôr um link para isto aqui:

Estive a reler uma entrevista minha à “Ler”, e exclamei: “Eu disse isso?” Fiquei contente. Achei que tinha dito uma coisa acertada. Nem pareço eu. A propósito do Joaquim Manuel Magalhães falar do regresso ao real, disse: “Mas há alguma coisa que não seja real? Tudo é real. O problema é que há muitas realidades. O sonho é tão real como estar acordado.” De facto, nós sentimos efeitos físicos dos sonhos, dos desejos, dos medos, das esperanças. É tudo real. Digo-lhe mais, os mitos – e não estou a falar dos mitos gregos, que são arquétipos da realidade humana – são forças reais: não há nada mais mobilizador que um mito. O mito da greve geral dos trabalhadores é mobilizador. O mito de uma sociedade sem classes também mobilizou milhões de pessoas ao longo da história.

An elegant weapon for a more civilized age.



Com isto na mão sinto-me o Luke Skywalker.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Shakespeare, One More Time

SANGUE 
a partir de Titus Andronicus de Shakespeare
encenação de David Pereira Bastos
Teatro Municipal Maria Matos
Quinta 23 a Domingo 26 de Fevereiro, 21h30 

A peça mais violenta de Shakespeare apresenta-nos um homem, general romano, exemplo de virtude e bravura, ser vítima de uma sangrenta e maquiavélica campanha de crueldade. A razão? As pessoas que sobem ao poder de Roma, depois de ele próprio ter recusado assumir esse cargo, têm agora contas a ajustar com ele. Titus Andronicus deixa de ter Roma a quem servir. A sua pátria tem a cara da vingança e não está interessada no seu valor, na sua honra, nos seus sacrifícios. Para Titus, o rol de atrocidades a que é sujeito leva-o ao ponto em que a sua única saída é vestir a mesma máscara de barbárie que os carrascos da sua desgraça usaram, para depois apenas poder apenas morrer em paz. sangue é um espetáculo sobre a vertigem da violência, sobre a solidão e orfandade dos filhos de pátrias, sobre as caras silenciosas que habitam a máscara do poder. A Lamentável Tragédia de Titus Andronicus serve o nosso propósito; revoltado — é o nosso nome. Temos tambores, temos um palco, temos voz e corpo para um grito de luz.

Urso de Ouro

Cântico da Pérola I

O dito Cântigo da Pérola é uma suspeita introdução nos Actos de Tomé, continuação apócrifa do já apócrifo Evangelho segundo São Tomé. Durante a história da crítica do Cântico a sua natureza religiosa sempre se disputou, havendo quem o considerasse integrado numa das theologias cristãs que floresceram nos primeiros séculos, isento porém da dita "theologia da cruz" de Paulo; houve também quem o considerasse decididamente afastado do Cristianismo, devendo-se a sua portanto presença nos médios Actos a um acidente filológico, ou usurpação copista; a dar-se esta última hipótese, estaríamos perante um texto da tradição gnóstica, um parente afastado do Cântico do Trovão e da Mente Perfeita. Pessoalmente prefiro esta segunda opção.

Venha donde vier, é digno de ser lido; e  assim sendo vou tentar ao longo destas duas semanas seguintes colocar neste blog a tradução integral do texto, dividida nas suas seis partes. A edição seguida é a encontrada no Thesaurus Linguae Graecae, com os poucos desvios a ser notados.


I

quando eu ainda nem sabia falar,
um menino no palácio de meu pai,
e repousava nas riquezas e no luxo da minha família,
os meus pais mandaram-me numa viagem
para longe da minha pátria Anatólia.

afastaram-me de todas aquelas riquezas
mas entregaram-me um fardo grandioso
e leve, que eu conseguisse levar sozinho:
o ouro vinha do Norte,
a prata das grandes minas,
as pedras preciosas dos Indos,
as pérolas de Koshan,
armaram-me de diamante -

a veste encrustada a ouro e gemas
amarela e brilhante
que na minha juventude me haviam feito
porque me amavam,
arrancaram-ma.

fizeram um pacto comigo
gravaram-no na minha alma
para que não me esquecesse;
disseram-me:

se desceres ao Egipto
e de lá trouxeres a Pérola
que a serpente devoradora guarda,
vestir-te-ás de pedras preciosas
e a da túnica que a tapa;
e com o teu irmão, o nosso vigário, tornar-te-ás
herdeiro do nosso reino.



ὅτε ἤμην βρέφος ἄλαλον ἐν τοῖς τοῦ πατρός μου βασιλείοις, ἐν πλούτῳ καὶ τρυφῇ τῶν τροφέων ἀναπαυόμενος, ἐξ Ἀνατολῆς τῆς πατρίδος ἡμῶν ἐφοδιάσαντές με οἱ γονεῖς ἀπέστειλάν με · ἀπὸ δὲ πλούτου τῶν θησαυρῶν τούτων φόρτον συνέθηκαν μέγαν τε καὶ ἐλαφρὸν ὅπως αὐτὸν μόνος βαστάσαι δυνηθῶ · χρυσός ἐστιν ὁ φόρτος τῶν ἄνω καὶ ἄσημος τῶν μεγάλων θησαυρῶν καὶ λίθοι ἐξ Ἰνδῶν οἱ χαλκεδόνιοι καὶ μαργαρῖται ἐκ Κοσάνων · καὶ ὥπλισάν με τῷ ἀδάμαντι · καὶ ἐξέδυσάν με ἐσθῆτα διάλιθον χρυσόπαστον ἣν ἐποίησαν στέργοντές με καὶ στολὴν τὸ χρῶμα ξανθὴν πρὸς τὴν ἐμὴν ἡλικίαν · σύμφωνα δὲ πρὸς ἐμὲ πεποιήκασιν ἐγκαταγράψαντες τῇ διανοίᾳ μου τοῦ μὴ ἐπιλαθέσθαι με · ἔφησάν τε · ἐὰν κατελθὼν εἰς Αἴγυπτον κομίσῃς ἐκεῖθεν τὸν ἕνα μαργαρίτην τὸν ὅντα ἐκεῖ περὶ τὸν δράκοντα τὸν καταπότην  ὅπως ἐνδύσῃ τὴν διάλιθον ἐσθῆτα καὶ τὴν στολὴν ἐκείνην ᾗ ἐπαναπαύεται · τοῦ εὐμνήστου καὶ γένῃ μετὰ τοῦ ἀδελφοῦ σου κῆρυξ τῇ ἡμετέρᾳ βασιλείᾳ.

Sonhando da Quaternidade

Μὴ δ' ὕπνον μαλακοῖσιν ἐπ' ὄμμασι προσδέξασθαι,
πρὶν τῶν ἡμερινῶν ἔργων τρὶς ἕκαστον ἐπελθεῖν·
«πῇ παρέβην; τί δ' ἔρεξα; τί μοι δέον οὐκ ἐτελέσθη;»
ἀρξάμενος δ' ἀπὸ πρώτου ἐπέξιθι καὶ μετέπειτα
δειλὰ μὲν ἐκπρήξας ἐπιπλήσσεο, χρηστὰ δὲ τέρπευ.
Ταῦτα πόνει, ταῦτ' ἐκμελέτα, τούτων χρὴ ἐρᾶν σε·
ταῦτά σε τῆς θείης Ἀρετῆς εἰς ἴχνια θήσει
ναὶ μὰ τὸν ἁμετέρᾳ ψυχᾷ παραδόντα τετρακτύ.

Nunca recebas sono algum nos doces olhos
Antes de te percorreres três vezes o dia passado:
"Por onde passei? O que fiz? O que ficou por fazer?"
Começa do princípio, prossegue, e quando terminares
Apavoriza-te com as velhacarias; e alegra-te com os sucessos:
Aplica-te neles, esforça-te, é preciso que os ames,
São eles que te colocarão no encalce da Divina Virtude -
Juro-o, em nome Daquele que confiou às nossas almas o 4.


Carmen Aureum Pythagoricum. 40-47. Tradução minha.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Pobreza Ática

HERMES: Desçamos então, a fim de esmagarmos ainda hoje uns quantos desses tipos [falsos filósofos]... Para que lado devemos seguir, ó Filosofia? Sim, tu é que sabes onde eles se encontram... Na Grécia, obviamente...
FILOSOFIA: De maneira nenhuma, ó Hermes... ou são muito poucos os verdadeiros filósofos. Os outros não querem nada com a pobreza ática, mas onde se extrai muito ouro e muita prata, é aí que devemos procurá-los.

[{ΕΡΜΗΣ} Κατίωμεν, ὡς κἂν ὀλίγους αὐτῶν ἐπιτρίψωμεν σήμερον. ποίαν δὲ χρὴ τραπέσθαι, ὦ Φιλοσοφία; σὺ γὰρ οἶσθα ὅπου εἰσίν. ἢ πρόδηλον ὅτι ἐν τῇ Ἑλλάδι; 
{ΦΙΛΟΣΟΦΙΑ} Οὐδαμῶς, ἢ πάνυ ὀλίγοι, ὅσοι ὀρθῶς φιλοσοφοῦσιν, ὦ Ἑρμῆ. οὗτοι δὲ οὐδὲν Ἀττικῆς πενίας δέονται, ἀλλ' ἔνθα πολὺς χρυσὸς ἢ ἄργυρος ὀρύττεται, ἐκεῖ που ζητητέοι εἰσὶν ἡμῖν.] 

Luciano, Os Fugitivos 24
Trad.: Custódio Magueijo, edição de autor, 2009-2010

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Interpretações

Alma Tadema, Girl With Cat (?)
Os fulanos [os falsos filósofos], porém, que exteriormente e em público parecem muito venerandos e graves, se acaso topam um formoso rapazinho ou uma linda mulher, que eles esperam... Bem, é melhor guardar silêncio sobre o que eles fazem... Mas alguns raptam as mulheres dos seus hóspedes, a fim de terem relações adúlteras com elas, a exemplo do famoso jovem de Ílion [Paris], mas também para as porem a... estudar filosofia. Depois, põem-nas em comum à disposição de todos os seus amigos, convencidos de que estão a pôr em prática certa doutrina de Platão, sem saberem em que sentido é que esse grande santo considerava as mulheres comuns [a todos].

[οἱ δέ, μάλα σεμνοὶ καὶ σκυθρωποὶ τὰ ἔξω καὶ τὰ δημόσια φαινόμενοι, ἢν παιδὸς ὡραίου ἢ γυναικὸς λάβωνται καλῆς ἢ ἐλπίσωσιν, σιωπᾶν ἄξιον οἷα ποιοῦσιν. ἔνιοι δὲ καὶ ξένων τῶν σφετέρων γυναῖκας ἀπάγουσι μοιχεύσοντες κατὰ τὸν Ἰλιέα ἐκεῖνον νεανίσκον, ὡς φιλοσοφοῖεν δὴ καὶ αὗται· εἶτα κοινὰς αὐτὰς ἅπασι τοῖς ξυνοῦσι προθέμενοι Πλάτωνός τι δόγμα οἴονται ποιεῖν, οὐκ εἰδότες ὅπως ὁ ἱερὸς ἐκεῖνος ἠξίου κοινὰς ἡγεῖσθαι τὰς γυναῖκας.]
 
Luciano, Os Fugitivos 18
Trad.: Custódio Magueijo, edição de autor, 2009-2010

Museu de Olímpia Assaltado

Dois homens armados assaltaram esta manhã o museu da antiga cidade de Olímpia, roubando mais de 60 objectos antigos e arqueológicos de valor incalculável. O ministro da Cultura grego Pavlos Geroulanos apresentou a demissão, na sequência do assalto, avança a AFP. Segundo as autoridades, o assalto aconteceu esta manhã, às 7h (5h em Portugal) e é já considerado um dos maiores roubos na Grécia e o segundo em dois meses. Em Janeiro, duas obras de arte, um quadro de Pablo Picasso e outro de Piet Mondrian, foram roubadas da National Art Gallery, uma das maiores galerias de arte da Grécia, e até hoje nenhuma detenção foi feita nem nenhuma obra descoberta. 

À radio grega Flash, Thymios Kotzias, presidente da câmara de Olímpia, disse que o assalto foi feito por dois homens com a cara tapada e cada um com uma Kalashnikov na mão. “Eles imobilizaram o guarda, tendo anteriormente destruído o alarme”, conseguindo assim roubar dezenas de objectos e artefactos arqueológicos e fugir logo de seguida, explicou Kotzias. “Temos de esperar e ver o que é que o arqueólogo local vai dizer, mas os objectos eram de valor incalculável”, acrescentou o presidente da câmara. Ao certo os dois homens terão levado entre 65 e 68 peças, entre estátuas, elementos arquitectónicos, objectos de cerâmica e bronze, na sua grande parte da Grécia Antiga.

continuar a ler aqui.

Iconografia Socrática

Giambettino Cignaroli, A Morte de Sócrates @ Museu de Belas Artes, Budapeste
Peregrino, também dito Proteu, filósofo cínico charlatão, muito estimado por outros da seita, suicidou-se publicamente, por amor à glória, nas Olimpíadas de 165 d.C., atirando-se para uma pira, em cumprimento de uma promessa que fizera na edição anterior dos jogos. Luciano de Samósata, escritor satírico do século II, implacável para com este género de intrujões, descreveu n'A Morte de Peregrino o acontecimento:

Os cínicos que rodeavam a pira não estavam chorosos, mas mostravam em silêncio uma certa tristeza, olhando para o fogo... até que eu, já sufocado com essa atitude, disse: "Saiam daqui, seus cretinos! Não é espectáculo agradável, este de vermos um velho a ser assado e sermos infectados por este horrível pivete. Ou será que estais à espera de que algum pintor venha retratar-vos, como retratam os companheiros de Sócrates a seu lado na prisão?

[οἱ Κυνικοὶ δὲ περιστάντες τὴν πυρὰν οὐκ ἐδάκρυον μέν, σιωπῇ δὲ ἐνεδείκνυντο λύπην τινὰ εἰς τὸ πῦρ ὁρῶντες, ἄχρι δὴ ἀποπνιγεὶς ἐπ' αὐτοῖς, “Ἀπίωμεν,” φημί, “ὦ μάταιοι· οὐ γὰρ ἡδὺ τὸ θέαμα ὠπτημένον γέροντα ὁρᾶν κνίσης ἀναπιμπλαμένους πονηρᾶς.ἢ περιμένετε ἔστ' ἂν γραφεύς τις ἐπελθὼν ἀπεικάσῃ ὑμᾶς οἵους τοὺς ἐν τῷ δεσμωτηρίῳ ἑταίρους τῷ Σωκράτει παραγράφουσιν;”]

Luciano, A Morte de Peregrino 37.6-14
trad.: Custódio Magueijo, edição de autor, 2009-2010

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Purcell's Dido's Lament by Mark Morris

Para a Ana 

o que mundo negará



huc vina et unguenta et nimium brevis
flores amœnæ ferre jube rosæ,
  dum res et ætas et sororum
    fila trium patiuntur atra.

manda trazer vinho, unguentos, botões
amenos da rosa mais breve,
  até que o negue o mundo, os anos,
    as três irmãs que tecem a negro.

Horácio II.3. (13-16) Tradução minha.

Para quê classicistas em tempos indigentes?


Mais entendiante do que a frequência com que nos perguntam porquê estudarmos Clássicas só mesmo as respostas que damos, inevitavelmente embalançadas entre um romantismo inseguro e a asseveração duma indefinida utilidade cultural. Mas estes são tempos difíceis, em que por todo o lado o espírito do tempo nos tenta expulsar da condução dos nossos destinos e que, por sobrevivência, nos fechemos em nós mesmos. Deixámos já há muito, por um lado, e ainda bem, de poder contar para a nossa sobrevivência com o prestígio reaccionário que exalava do prestígio de estudar a Antiguidade; e por outro lado apercebemo-nos de que desbaratamos o tesouro que nos foi confiado no ócio: estudo clássicas porque gosto, tal como qualquer pessoa tem o direito de estudar seja o que for, e vocês, profanum vulgus, nada tendes que ver com isso. Contra isto urge ir na direcção precisamente contrária: somos vigários, não temos o direito de invejosamente nos escondermos. Se estudamos clássicas, temos de fazê-lo por firmemente acreditar que aquilo que aqui fazemos não é arbitrário ou aleatório, que o nosso amor pela Antiguidade não paira sob o Abgrund do relativismo, mas sim que é um amor nascido da admiração e da crença de que o nosso estudo tem o potencial de ser de uso tanto a nós directamente quanto à res publica directa ou indirectamente; não pode haver lugar para esteticismos. Implica isto o reconhecimento de que é nosso dever enquanto herdeiros falar, transmitir o que sabemos e aplicá-lo et ira et studio. Implica também rejeitar aquela ora tépida ora ultramontana justificação do estudo da antiguidade de que falava, que se afunda no vazio do papel oblíquo, seguro, e inquestionado da herança clássica que deve ser salvaguarda não se sabe bem do quê, como um κατέχον de bárbaros úteis; ou, se não é assim, que vive insegura de si visto que, feitas as contas, nem serve assim para grande coisa: “não ajudou a Grécia”, diz-nos uma famosa classicista, argumento de quem não percebe a diferença entre preservação e cultivo, entre arte e museologia. Antes de catalogar o que quer que seja, o nosso estudo implica, também longe duma fuga para uma Grécia idýlica e romântica, uma repolitização do conhecimento, um compromisso para com uma sociedade que não só precisa dos tesouros que nos foram transmitidos, mas também que tantas vezes os merece mais do que nós.

Ora, se esse é o estado presente das coisas, não o foi sempre: apenas a partir do fim da aliança entre Humanidades e Antiguidade, ruptura do século XIX, se aceitou o papel umbrático da Academia que permanece até hoje, à sombra da qual permanecemos aleados, tentando de ora em quando justificar a nossa existência com colóquios sobre inania quaeque. Quantas vezes não parece que estudar a Antiguidade significa sondar quantas vezes a palavra "Aquiles" aparece num dado poema –os Estudos de Recepção são das coisas mais inúteis e mais traidoras que existem nos nossos sacrosanctos corredores, pois que se apoiam na ilusão da existência de pontos de contacto entre os Antigos e os Modernos não através de reflexões profundas e úteis, mas através de superficialidades. As nossas índoles de hoje assentam-se sob a descura e o desprezo, sob o sacrifício daquela ideologia que nos dizia que estudar a Antiguidade e estudar a Humanidade eram duas faces da mesma coisa, antes de qualquer especialização técnica– antes do ingresso num curso de Clássicas quase se arrogar a prepotência direito de nos transformar em autómatos idólatras de edições críticas ou de morfologias históricas – falava-se de facto em Humanidades, e não em Filologia, (sendo que nesta nossa nem o amor ao λόγος se mantém, mas apenas uma dedicação à λόγου ὀρθότης). Lamentamo-nos que em tempos era parte duma educação universal saber Grego e Latim e ler os Clássicos, mas, para além do saudosismo barato e vazio, não há uma pessoa sã que julgue que deveríamos considerar Maquiavel, Thomas Jefferson ou Marx classicistas como nós: o que havia neles era um reconhecimento de que o nexo com a Antiguidade, fosse para cultivar fosse para rejeitar, era essencial à sociedade civil. À imposição etimológica da Filologia para se amar a palavra, é força responder com Zarathustra, Ich lieb die Menschen – amo o Homem –, e se amo a palavra é na justa medida em que essa é consubstancial à natureza humana.

Esses tempos não voltarão mais, nem isto é uma lamúria. Mas segue-se que o peso com que arcamos é muito maior porque está concentrado em muito menos pessoas. Estudar a Antiguidade implicará então que é preciso ter um papel na vida pública, na re publica –não necessariamente no Parlamento, mas certamente fora das bibliotecas–, implicará aceitar com a vox populi, certamente, que “esta situação não pode continuar”. Mas implica também ir muito para além disso. O marasmo da nossa era, reconhecido amplamente (o nosso querido por exemplo Steiner denunciou-o recentemente), nasce da nossa aparente incapacidade para abrir novos caminhos, saídas de emergência. As inúmeras manifestações em praças, ruas, terreiros, multiplicadas por Portugal, pela Grécia, pelo mundo inteiro, nascidas por certo da intuição incontornável e inegável da Justiça, são inestimáveis, mas tristemente de pouco ou de nada servem agora ou servirão no futuro, a não ser de ténues travas nos portões duma cidade sitiada, enquanto não tivermos novos modelos de organização política para propor, alternativas de regimes, de esquemas culturais, de ideologias. Não nos basta gritar ferozmente que Não Queremos Isto: enquanto não tivermos um Queremos Aquilo para oferecer, enquanto não sejamos capazes também de congregar os nossos e os dos outros espíritos numa outra direcção persuasiva que possa dar seguimento à revolta. Se não o conseguirmos, continuaremos a insurgir-nos mudando ou nada ou futilidades (boa, tiramos de lá o tecnocrata #57 e pomos lá o próximo); ou abrindo as portas, depois duma revolução, para o poder fanático do obscurantismo –os tiranos sempre saberão abusar do pior que a palavra faz à mente humana. A nossa vocação enquanto estudantes de Clássicas é pressionar os antigos para que nos sejam de auxílio na nossa busca e descoberta de novas formas possíveis de clamar Justiça.

Essa vocação, se quer ser consciente, impele-nos a concordar com várias afirmações. Em primeiro de tudo a acreditar que, para além da raiva e da revolta, é necessária uma excogitação vehemente para nos tirar do poço, e que para a atingir é preciso algo de novo, ou seja de radicalmente alterado, ou de poderosamente recuperado. Concordar ainda que a natureza humana permanece idêntica a ponto de sobre ela terem sido formuladas intuições que se possam aplicar até aos dias de hoje. Por fim reconhecer que a Antiguidade nos fornece chaves de acesso por excelência que, não sendo absolutas nem solitárias, não podem ser de maneira alguma ignoradas nesta procura. Na Antiguidade encontramos os exemplos paragonados ao longo dos séculos em textos e em vidas que vão do Julgamento de Sócrates ao ao fracasso de Platão com Sicarusa; do enterro de Antígona à língua de prata de Górgias; da vaciladora oposição oscilante entre vida interior e entrega política pelos Estóicos e Epicuristas; da hipocrisia triste de Cícero à theologia política do Império cristão. E pelo menos até ao século XIV, onde se dá uma ruptura (ruptura essa também contestável, como o afirmam vários, e como o João tem vindo a testemunhar ao longo deste blog #1#2#3#4#5#7#8#9), os fundamentos de organização política no Ocidente, assim como até certo ponto no Médio-Oriente, foram os Greco-Latinos acima definidos, e mesmo após essa data a sua influência é inegavelmente inflamatória.

Desligar a Humanidade daqueles que talvez mais profundo alguma vez sobre ela pensaram não lhe augura uma feliz retirada deste pântano; o nosso papel na sociedade, a nossa parte, que tem uma dignidade especial, é juntarmo-nos a outros e a outras sabedorias com os quais partilhemos estes objectivos, para com eles interpretarmos o o conhecimento fornecido pela Antiguidade. Pois sem a nossa reunião com essoutros saberes, não tenho dúvidas que as esperanças que neles colocamos inevitavelmente mancarão. É nosso dever fugir de todo o género de antiquariados, e desnudarmos mais uma vez a sabedoria da Antiguidade para a construção dum futuro novo.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sobre as Traduções Amigas do Leitor [Considerações Intempestivas]

Estava eu a ler a introdução de Marie-Odile Goulet-Cazé ao Livro VI das Vidas e Opiniões dos Filósofos Eminentes, de Diógenes Laércio, na tradução francesa de referência, quando vejo uma sua nota a uma alusão de Aristóteles na Retórica III.10 (1411a24-25) a um Cão (como eram conhecidos os filósofos da escola kínica), que a autora, talvez a maior especialista viva sobre o assunto (juntamente com Luis Navia), defende dizer respeito não a Diógenes de Sínope, o Cão por excelência, mas a Antístenes, que o terá inspirado. Por curiosidade, resolvi ver o passo original e abri a minha edição da Retórica (posterior ao artigo em que Goulet-Cazé expôs mais detalhadamente a sua tese), da série das Obras Completas de Aristóteles, publicadas pela INCM. Eis o que encontrei: «... e Diógenes, o Cínico, [chamava] às tabernas "refeições públicas da Ática"» (segue-se uma nota que explica a natureza destas «refeições públicas», tipicamente espartanas). No original, lê-se: «ὁ Κύων [ἐκάλει] δὲ τὰ καπηλεῖα τὰ Ἀττικὰφιδίτια». Ou seja: o tradutor, onde estava simplesmente «o Cão», resolveu, sem dúvida animado por bons propósitos, para facilitar a vida ao leitor e poupar uma nota, pôr «Diógenes, o Cínico». Com isso, contudo, fez, ainda que inconscientemente, uma asneira potencial (digo potencial porque podemos, claro, discordar de Goulet-Cazé e manter que «o Cão», neste passo, é uma referência a Diógenes). São estes e outros exemplos que me levam a afirmar que, quando lidamos com estes textos antigos, de natureza filosófica, nos devemos ater o mais possível ao original, sem facilitar. Por certo, este género de tradução, se levado ao extremo, é insustentável para o grande público e percebo que se opte por uma versão razoavelmente fiel mas acessível. Nesse caso, porém, que não haja medo de, como dizia o Nabokov, encher a página de notas, sob pena de a tradução servir o curioso mas não o estudioso sem culpa de não saber grego. Este é um equilíbrio frágil e eu não tenho qualquer moralidade para estar aqui a pregar, mas, quando confrontado com um exemplo como este, em que era tão fácil ter satisfeito os dois públicos, traduzindo fielmente e depois em nota elucidando a referência, não posso não escrever.

Apolo y Dionisio. La intrinseca duplicidad del mito



O Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, através do seu Grupo de Investigação História Antiga e Memória Global, em colaboração com o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, divulga a Conferência:

«Deconstruyendo identidades: Apolo y Dionisio. La intrinseca duplicidad del mito»,

proferida pela Professora Doutora Maria Cecilia Colombani da Universidade de Buenos Aires.

Dia 17 de Fevereiro de 2012, pelas 10h00 no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Entrada livre.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Rumores de los Bajos Fondos


Rumores de los bajos fondos — El mito como forma de nombrar el mundo”,
Maria Cecília Colombani & Juan Antonio Botta 
(Universidades de Buenos Aires e Mar del Plata, Argentina). 

20 de fevereiro, pelas 15h, 
Sala do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC

Ovídio, Amores II.5

No love is worth this much. Cupid, take your quiver
and go. Get out of my life! My usual prayers
these days are for death, which seems a better option
than the torment in which I suffer from that girl!
The evidence is clear. I did not have to infer
from equivocal clues or see my uncertain way
through ambiguities. These are no mere suspicions,
and not even a fool would try to refute them.
Happy is he who can in good conscience defend
his darling, who can swear, “I didn’t do it!”
But stronger than I am in mind and heart is he who can be
satisfied by proving his mistress guilty,
winning the bloody battle and losing the damned war.
I saw what you did. You thought I was drunk and asleep,
but through my half-closed lids I watched you play the coquette,
nodding, flirting, and making that little moue
you sometimes use. I watched your fingers write on the table
messages that you once traced for me.
And your talk was full of suggestive jokes and double-entendres.
Then, when the party broke up and most had left,
and only a few of us drunks were still in the room dozing,
I saw you and him kissing, no mere pecks
of the kind a brother and sister might very well exchange
(Diana and Phoebus, say) but deep probings
as if you were trying to swallow one another’s tongues
(for example, Venus and Mars in the heat of passion).
“What in hell is this?” is what I shouted out.
“Why are you sharing the joys that should be mine?
I assert and will defend my rights. Those kisses are ours,
unencumbered by claims of any third party.”
(Elaborate, but remember I had been drinking a lot.)
She blushed. Of course, she blushed, crimson with shame
with the tint of Tithonus’s spouse, like the flush of a virgin bride
on her wedding night, like roses among the lilies,
or the moon as it sometimes shows itself when it is in labor,
or Assyrian ivory Lydians dye to preserve it
and keep it from turning yellow . . . But you see my desperate condition,
with metaphors running wild to describe her color,
which, I have to admit, was absolutely lovely.
She kept her eyes on the ground, which was also becoming,
and the grief and shame on her face made an appealing picture.
Still, what I wanted to do was tear her hair
and rowel her gorgeous cheeks with my desperate fingernails.
But as I stared at her face my arms dropped
as if she were wearing armor. No longer enraged but humble,
I begged her for kisses no less sweet than those
I had observed. She smiled at me and then she kissed me
in a way that would make great Jove let fall from his hand
his three-forked thunderbolts. Again, I was wretched, thinking
that he had enjoyed embraces just as sweet,
or, even more disturbing, these kisses she gave me
were better than before, inventive now,
or say that she had been taught and now knew how to please
voluptuously. I enjoy them, but they gnaw
at my vitals as I think how she was lewdly taught
and how much pleasure her tutor must have taken.

Tradução de David Slavitt, daqui.

Nunca ouvimos falar dum rebanho que se rebelasse

Digamos então que todos os que pastoreiam os diversos géneros de animais se podem com sensatez considerar os seus governantes: e, em conformidade, presenciamos o modo como todos os rebanhos estão muito mais dispostos a obedecer aos pastores do que os humanos aos seus governantes. Para onde os fazem ir, vão; ficam a pastar nos campos onde os deixam; e mantém-se à distância dos lugares proibidos. O que é por mais, permitem aos pastores fazer uso segundo a sua vontade dos produtos que eles próprias geram. E diga-se ainda que até agora jamais ouvimos falar dum rebanho que se rebelasse contra o pastor, que não lhe obedecesse, ou que não lhe permitisse recolher os produtos que ele quisesse; antes pelo contrário, os rebanhos são bem mais hostis contra estranhos do que contra os seus governantes e contra aqueles que se aproveitam deles. Por outro lado, os seres humanos em nenhuma outra altura se revoltam com mais ímpeto do que quando se apercebem que há alguém a querer dominá-los.

Xenofonte. A Educação de Cyro. 1.2. Tradução minha.


ἔτι δὲ πρὸς τούτοις ἐνενοοῦμεν ὅτι ἄρχοντες μέν εἰσι καὶ οἱ βουκόλοι τῶν βοῶνκαὶ οἱ ἱπποφορβοὶ τῶν ἵππων, καὶ πάντες δὲ οἱ καλούμενοι νομεῖς ὧν ἂνἐπιστατῶσι ζῴων εἰκότως ἂν ἄρχοντες τούτων νομίζοιντο: πάσας τοίνυν ταύτας τὰς ἀγέλας ἐδοκοῦμεν ὁρᾶν μᾶλλον ἐθελούσας πείθεσθαι τοῖς νομεῦσιν ἢ τοὺς ἀνθρώπους τοῖς ἄρχουσι. πορεύονταί τε γὰρ αἱ ἀγέλαι ᾗ ἂν αὐτὰς εὐθύνωσιν οἱνομεῖς, νέμονταί τε χωρία ἐφ᾽ ὁποῖα ἂν αὐτὰς ἐπάγωσιν, ἀπέχονταί τε ὧν ἂναὐτὰς ἀπείργωσι: καὶ τοῖς καρποῖς τοίνυν τοῖς γιγνομένοις ἐξ αὐτῶν ἐῶσι τοὺς νομέας χρῆσθαι οὕτως ὅπως ἂν αὐτοὶ βούλωνται. ἔτι τοίνυν οὐδεμίαν πώποτε ἀγέλην ᾐσθήμεθα συστᾶσαν ἐπὶ τὸν νομέα οὔτε ὡς μὴ πείθεσθαι οὔτε ὡς μὴἐπιτρέπειν τῷ καρπῷ χρῆσθαι, ἀλλὰ καὶ χαλεπώτεραί εἰσιν αἱ ἀγέλαι πᾶσι τοῖς ἀλλοφύλοις ἢ τοῖς ἄρχουσί τε καὶ ὠφελουμένοις ἀπ᾽ αὐτῶν: ἄνθρωποι δὲ ἐπ᾽οὐδένας μᾶλλον συνίστανται ἢ ἐπὶ τούτους οὓς ἂν αἴσθωνται ἄρχειν αὑτῶν ἐπιχειροῦντας..

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Massacre do Coro


[Sócrates, dirigindo-se a Antístenes, a propósito da tirania dos Trinta] Do you regret at all that we've become nothing serious or worthy of respect like those monarchs we see in tragedy, those figures of Atreus, Thyestes, Agamemnon, and Aegisthus? Those are revealed each time being slaughtered, decked out in tragic pomp, dining on unholy food — but no poet of tragedy has become so daring and shameless so as to introduce into his drama the slaughter of a choros

["μή τί σοι μεταμέλει ὅτι μέγα καὶ σεμνὸν οὐδὲν ἐγενόμεθα ἐν τῷ βίῳ καὶ τοιοῦτοι οἵους ἐν τῇ τραγῳδίᾳ τοὺς μονάρχους ὁρῶμεν, Ἀτρέας τε ἐκείνους καὶ Θυέστας καὶ Ἀγαμέμνονας καὶ Αἰγίσθους; οὗτοι μὲν γὰρ ἀποσφαττόμενοι καὶ ἐκτραγῳδούμενοι καὶ πονηρὰ δεῖπνα δειπνοῦντες [καὶ ἐσθίοντες] ἑκάστοτε ἐκκαλύπτονται˙ οὐδεὶς δὲ οὕτως ἐγένετο τολμηρὸς οὐδὲ ἀναίσχυντος τραγῳδίας ποιητής, ὥστε ἐσαγαγεῖν ἐς δρᾶμα ἀποσφαττόμενον χορόν."]

trad.: Brian Hook in (2005), 'Oedipus and Thyestes among the Philosophers', 
Classical Philology 100: 27, n. 42.

Oh Valentine! (está no vocativo)





A minha favorita é a Medusa, sempre ouvi dizer que looks don't matter. (badum-tish)

Tirado daqui.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Quamobrem vertere e sermone latino non deceat

Diuturni silenti, patres conscripti, quo eram his temporibus usus —non timore aliquo, sed partim dolore, partim verecundia— finem hodiernus dies attulit, idemque initium quae vellem quaeque sentirem meo pristino more dicendi. Tantam enim mansuetudinem, tam inusitatam inauditamque clementiam, tantum in summa potestate rerum omnium modum, tam denique incredibilem sapientiam ac paene divinam, tacitus praeterire nullo modo possum.

Cicero. Pro Marcello. I

Estavam distraídos

An earthquake occurred at Lake Trasimene in 217 B.C., while the Romans and Carthaginians were fighting there. Despite its severity, neither the Romans nor the Carthaginians noticed it (Pliny Natural History 2.200).

J. C. McKeown, A Cabinet of Roman Curiosities: Strange Tales and Surprising Facts from the World's Greatest Empire, Oxford University Press, 2010

Prosadores Latinos do Século Quinze



Um excelente volume editado por Eugenio Garin, contendo textos por vezes bastante difíceis de encontrar (com tradução italiana) de autores como Poggio Bracciolini, Lorenzo Valla, Leon Battista Alberti, Pico della Mirandola, Angelo Poliziano, Marsilio Ficino, entre outros.

Na imagem, detalhe dum fresco da Igreja de Santo Ambrósio em Florença,
retratando Ficino, Policiano, e Pico della Mirandola.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Trovão - Mente Perfeita.

Segundo a minha modesta opinião, um dos poemas mais belos da Antiguidade (século IV AD), parte da colecção de obras gnósticas da biblioteca de Nag Hammadi. Uma versão de George MacRae daqui.








I was sent forth from the power,
and I have come to those who reflect upon me,
and I have been found among those who seek after me.
Look upon me, you who reflect upon me,
and you hearers, hear me.
You who are waiting for me, take me to yourselves.
And do not banish me from your sight.
And do not make your voice hate me, nor your hearing.
Do not be ignorant of me anywhere or any time. Be on your guard!
Do not be ignorant of me.

For I am the first and the last.
I am the honored one and the scorned one.
I am the whore and the holy one.
I am the wife and the virgin.
I am <the mother> and the daughter.
I am the members of my mother.
I am the barren one
and many are her sons.
I am she whose wedding is great,
and I have not taken a husband.
I am the midwife and she who does not bear.
I am the solace of my labor pains.
I am the bride and the bridegroom,
and it is my husband who begot me.
I am the mother of my father
and the sister of my husband
and he is my offspring.
I am the slave of him who prepared me.
I am the ruler of my offspring.
But he is the one who begot me before the time on a birthday.
And he is my offspring in (due) time,
and my power is from him.
I am the staff of his power in his youth,
and he is the rod of my old age.
And whatever he wills happens to me.
I am the silence that is incomprehensible
and the idea whose remembrance is frequent.
I am the voice whose sound is manifold
and the word whose appearance is multiple.
I am the utterance of my name.

Why, you who hate me, do you love me,
and hate those who love me?
You who deny me, confess me,
and you who confess me, deny me.
You who tell the truth about me, lie about me,
and you who have lied about me, tell the truth about me.
You who know me, be ignorant of me,
and those who have not known me, let them know me.

For I am knowledge and ignorance.
I am shame and boldness.
I am shameless; I am ashamed.
I am strength and I am fear.
I am war and peace.
Give heed to me.

I am the one who is disgraced and the great one.
Give heed to my poverty and my wealth.
Do not be arrogant to me when I am cast out upon the earth,
and you will find me in those that are to come.
And do not look upon me on the dung-heap
nor go and leave me cast out,
and you will find me in the kingdoms.
And do not look upon me when I am cast out among those who
are disgraced and in the least places,
nor laugh at me.
And do not cast me out among those who are slain in violence.

But I, I am compassionate and I am cruel.
Be on your guard!

Do not hate my obedience
and do not love my self-control.
In my weakness, do not forsake me,
and do not be afraid of my power.

For why do you despise my fear
and curse my pride?
But I am she who exists in all fears
and strength in trembling.
I am she who is weak,
and I am well in a pleasant place.
I am senseless and I am wise.

Why have you hated me in your counsels?
For I shall be silent among those who are silent,
and I shall appear and speak,

Why then have you hated me, you Greeks?
Because I am a barbarian among the barbarians?
For I am the wisdom of the Greeks
and the knowledge of the barbarians.
I am the judgement of the Greeks and of the barbarians.
I am the one whose image is great in Egypt
and the one who has no image among the barbarians.
I am the one who has been hated everywhere
and who has been loved everywhere.
I am the one whom they call Life,
and you have called Death.
I am the one whom they call Law,
and you have called Lawlessness.
I am the one whom you have pursued,
and I am the one whom you have seized.
I am the one whom you have scattered,
and you have gathered me together.
I am the one before whom you have been ashamed,
and you have been shameless to me.
I am she who does not keep festival,
and I am she whose festivals are many.

I, I am godless,
and I am the one whose God is great.
I am the one whom you have reflected upon,
and you have scorned me.
I am unlearned,
and they learn from me.
I am the one that you have despised,
and you reflect upon me.
I am the one whom you have hidden from,
and you appear to me.
But whenever you hide yourselves,
I myself will appear.
For whenever you appear,
I myself will hide from you.

Those who have [...] to it [...] senselessly [...].
Take me [... understanding] from grief.
and take me to yourselves from understanding and grief.
And take me to yourselves from places that are ugly and in ruin,
and rob from those which are good even though in ugliness.
Out of shame, take me to yourselves shamelessly;
and out of shamelessness and shame,
upbraid my members in yourselves.
And come forward to me, you who know me
and you who know my members,
and establish the great ones among the small first creatures.
Come forward to childhood,
and do not despise it because it is small and it is little.
And do not turn away greatnesses in some parts from the smallnesses,
for the smallnesses are known from the greatnesses.

Why do you curse me and honor me?
You have wounded and you have had mercy.
Do not separate me from the first ones whom you have known.
And do not cast anyone out nor turn anyone away
[...] turn you away and [... know] him not.
[...].
What is mine [...].
I know the first ones and those after them know me.
But I am the mind of [...] and the rest of [...].
I am the knowledge of my inquiry,
and the finding of those who seek after me,
and the command of those who ask of me,
and the power of the powers in my knowledge
of the angels, who have been sent at my word,
and of gods in their seasons by my counsel,
and of spirits of every man who exists with me,
and of women who dwell within me.
I am the one who is honored, and who is praised,
and who is despised scornfully.
I am peace,
and war has come because of me.
And I am an alien and a citizen.

I am the substance and the one who has no substance.
Those who are without association with me are ignorant of me,
and those who are in my substance are the ones who know me.
Those who are close to me have been ignorant of me,
and those who are far away from me are the ones who have known me.
On the day when I am close to you, you are far away from me,
and on the day when I am far away from you, I am close to you.

[I am ...] within.
[I am ...] of the natures.
I am [...] of the creation of the spirits.
[...] request of the souls.
I am control and the uncontrollable.
I am the union and the dissolution.
I am the abiding and I am the dissolution.
I am the one below,
and they come up to me.
I am the judgment and the acquittal.
I, I am sinless,
and the root of sin derives from me.
I am lust in (outward) appearance,
and interior self-control exists within me.
I am the hearing which is attainable to everyone
and the speech which cannot be grasped.
I am a mute who does not speak,
and great is my multitude of words.
Hear me in gentleness, and learn of me in roughness.
I am she who cries out,
and I am cast forth upon the face of the earth.
I prepare the bread and my mind within.
I am the knowledge of my name.
I am the one who cries out,
and I listen.
I appear and [...] walk in [...] seal of my [...].
I am [...] the defense [...].
I am the one who is called Truth
and iniquity [...].

You honor me [...] and you whisper against me.
You who are vanquished, judge them (who vanquish you)
before they give judgment against you,
because the judge and partiality exist in you.
If you are condemned by this one, who will acquit you?
Or, if you are acquitted by him, who will be able to detain you?
For what is inside of you is what is outside of you,
and the one who fashions you on the outside
is the one who shaped the inside of you.
And what you see outside of you, you see inside of you;
it is visible and it is your garment.
Hear me, you hearers
and learn of my words, you who know me.
I am the hearing that is attainable to everything;
I am the speech that cannot be grasped.
I am the name of the sound
and the sound of the name.
I am the sign of the letter
and the designation of the division.
And I [...].
(3 lines missing)
[...] light [...].
[...] hearers [...] to you
[...] the great power.
And [...] will not move the name.
[...] to the one who created me.
And I will speak his name.

Look then at his words
and all the writings which have been completed.
Give heed then, you hearers
and you also, the angels and those who have been sent,
and you spirits who have arisen from the dead.
For I am the one who alone exists,
and I have no one who will judge me.
For many are the pleasant forms which exist in numerous sins,
and incontinencies,
and disgraceful passions,
and fleeting pleasures,
which (men) embrace until they become sober
and go up to their resting place.
And they will find me there,
and they will live,
and they will not die again.






Encontros de Filologia Latina Medieval - II Ciclo

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Herman Enciclopédia - Minotauro

Tertium nam datur



τοῦ λογικοῦ ζώου τὸ μέν ἐστι θεός, τὸ δ' ἄνθρωπος, τὸ δὲ οἷον Πυθαγόρας 

há três géneros de animais dotados de razão, o de Deus, o do Humano, e o de Pythágoras


Iâmblico. De Pythagorica Vita VI. Tradução minha.


Torna-se mais interessante ainda quando pensamos que, segundo os padrões pitagóricos, isto até é ser modesto na coisa.

Isto por certo exige-se do ser humano


Hoc nempe ab homine exigitur, ut prosit hominibus, si fieri potest, multis, si minus, paucis, si minus, proximis, si minus, sibi. Nam cum se utilem ceteris efficit, commune agit negotium. Quomodo qui se deteriorem facit non sibi tantummodo nocet sed etiam omnibus eis quibus melior factus prodesse potuisset, sic quisquis bene de se meretur hoc ipso aliis prodest quod illis profuturum parat. 

Isto por certo exige-se do ser humano: que seja de benefício aos outros. Se for possível, a muitos, se menos, a poucos, se menos, aos mais chegados, se menos, a si próprio. Pois é verdade que quem se torna a si mesmo útil aos outros está a empenhar-se no bem comum. Então da mesma maneira que quem se torna pior não se prejudica apenas a si mesmo mas também a todos aqueles a quem poderia beneficiar caso se tornasse melhor, assim também nós louvamos aqueles que beneficiam os outros na mesma medida em que lhes estão preparar beneficios futuros.

Séneca. De Otio III. Tradução minha.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Lendas de Roma - Curso de Verão

Constituem objectivos deste curso fornecer os elementos básicos da língua latina de forma a facultar instrumentos linguísticos que permitam aceder a fontes latinas; reflectir sobre a herança latina na língua portuguesa e compreender o significado das lendas no seio da cultura romana. 

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa 
Junho e Julho de 2012 
Terças-feiras, 12 h às 14 h 
Quintas-feiras, 12 h às 14 h 
Sábados, 10 h às 13 h 

COORDENAÇÃO: Doutora Cristina Abranches Guerreiro Doutora
Ana Alexandra Alves de Sousa Curso
equivalente a 3 ECTS

INSCRIÇÕES LIMITADAS
Preço: 80 €
Inscrições abertas no Secretariado do Centro de Estudos Clássicos e em centro.classicos@fl.ul.pt

Textos e Mitos da Antiguidade Clássica - Curso Trimestral

O curso visa dar a conhecer a recepção de alguns mitos clássicos na Cultura Ocidental; transmitir os elementos linguísticos básicos da língua grega, para permitir aceder directamente às fontes e reflectir sobre a herança linguística grega na língua portuguesa. 

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa 
6 de Março a 26 de Maio de 2012 
Terças-feiras, 18 h às 20 h 
Sábados, 10 h às 13 h 

Sessão de Abertura dia 15 de Fevereiro, às 14:30, na Faculdade de Direito
COORDENAÇÃO: Doutora Cristina Abranches Guerreiro
Doutora Ana Alexandra Alves de Sousa Curso
equivalente a 3 ECTS

INSCRIÇÕES LIMITADAS
Preço: 120 €
Inscrições abertas no Secretariado do Centro de Estudos Clássicos e em centro.classicos@fl.ul.pt.

Caça ao Tesouro em Tessalónica

Countless Treasures Found in the Excavations for the Subway in Thessaloniki.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Writing Greek [Crítica/Diatribe]






Writing Greek: An Introduction to Writing in the Language of Classical Athens.
Stephen Anderson, John TailorBristol Classical Press: 2010
+
Key to Writing Greek
Stephen Anderson, John Tailor. Bristol Classical Press: 2010


Este livro, publicado em 2010 pela Bristol University Press, vive uma introdução perfeitamente insegura de si. Não é de estranhar, confessemos, que um manual de exercícios de composição em Grego [sc, Antigo] tenha dificuldades em justificar a sua existência num mundo onde não só o conhecimento da língua vai desaparecendo do Ocidente. Além do mais, os poucos que a cultivam não vêem porquê acquirir a faculdade de se exprimir sequer na sua língua irmã, o Latim, que muito mais se aproxima às nossas línguas contemporâneas, quanto mais em Grego, que além dum manifesto discrímen em termos vocabulares exibe ainda uma sintaxe que nos é nativamente estranha. Um professor meu de Latim, checo, pasmava-se por os professores das línguas clássicas serem dos únicos que se consideram acima de frequentar simpósia de didáctica de línguas. A qualquer pessoa que nos pergunta, após o espanto inicial por estudarmos Grego e Latim, se, então, as podemos falar, respondemos (muitas vezes com um meio sorriso amarelo de desprezo), que esse não é objectivo. Embora isso possa ser discutível (especialmente no caso do Latim), mesmo concedendo esse a priori permanecemos em erro, pois parece-me óbvio e aparente que qualquer conhecimento e mestria duma língua que não possa ser recriada na página vazia permanecerá uma uma mestria manca, um conhecimento parcial, um diferido ficar-aquém na conquista do prémio pelo qual as aprendemos. Porque se aplicar as línguas activamente não é certamente o objectivo para a maior parte de nós, é-o o ler os textos na língua original, com fluência que não nos obrigue a parar a cada duas páginas ou menos. Parece-nos bizarro que um aluno duma língua moderna que a estude durante três, quatro, cinco anos não seja capaz de ler fluentemente um texto medianamente complexo sem todo o aparato crítico, dicionários, e ginástica sintática à qual nos torpemente habituamos. A razão é que mordemos a nossa língua antiga e não queremos largar.

E é por isso que quem quer aprender alguma coisa das línguas clássicas e não pretender ficar nos corredores universitários durante 10 anos tem necessariamente de tentar outras métodos. As que utilizamos, que recorrem à lenga-lenga infindável de paradigmas de verbos, declinações, não funcionam. Não nego que haja professores que tentem fugir a essa tabe circense, mas mesmo esses, muitas vezes por simples impossibilidade e ausência de meios, pouco poderão fazer contra o instaurado reino; além de que serão raríssimos. Fora disso, só por força bruta: é natural que alguém que passe 10+ anos numa língua acabe por ser capaz de lhe atingir uma suficiente confiança. Mas isso, além da hipocrisia implicada no matar uma mosca com um martelo, é suicída: os Estudos Clássicos, como são publicitados e na minha opinião bem, devem servir como base propedêutica da cultura humana, o fundamento que existe no alto: é impossível a um aluno passar entre três e cinco anos a estudar estes textos para, terminado o curso, ser capaz de continuar a sua vida levando consigo o tesouro que é ler com aceitável fluência Séneca ou Platão (autores fáceis); esse aluno – todos nós – foi traído [com ph] por aqueles que diziam que lhe haveriam de entregar a chave: se o realmente deseja poder fazê-lo, terá de continuar nas universidades, ingrossando as fileiras (ou, τοῖς καθεστῶσιν, não engrossando) dum mandarinato que por muitas boas intenções que tenha não lhe pode dar o que deseja; mas entretanto o "fundamento cultural dos Estudos Clássicos" onde é que já vai.

Este livro é um primeiro e hesitante passo para ultrapassar esse marasmo, no que ao que à língua grega diz respeito. Consiste de 21 capítulos, com 5 apêndices; há ainda um Livro de Soluções, virtualmente essencial, sem o qual possivelmente de nada pode servir o volume principal. Em cada um dos 21 capítulos são apresentados, de forma pragmática e utilitária à resolução dos exercícios que se seguirão, consistindo cada capítulo de 2 conjuntos de 10 frases a verter, acrescidos dum texto de cerca de 15 linhas (para todos estes as soluções apresentam propostas de traduções utilizando os preceitos apresentados). É necessário dizer que não é uma gramática nem um manual da língua: nos exercícios e nas respectivas resoluções encontramos construções morfológicas, especialmente à medida que o livro progride, relativamente complexas: aqui trata-se apenas dum manual de sintaxe, não de morfologia verbal ou nominal (o vocabulário encontra-se todo no dicionário presente ao fim do livro) - não é de maneira alguma para pessoas que não tenham nunca pegado em Grego, não substitui um outro manual, aulas, ou outro estudo; é sim um bom complemento para alunos universitários (porque não há outros) que se vejam na situação acima descripta. Todos os exercícios consistem em versões do Inglês para o Grego. Num contexto de ensino onde as relações com os textos antigos são quase invariavelmente de tradução (“O Górgias de Platão? Mas isso não está já traduzido?”), poderíamos ser levados a pensar que a dita retroversão é um passo gigantesco. Não é: pouco tem de mérito, fora o facto de poder ser corrigida com relativa facilidade com o prestar de exercícios resolvidos. Pois na realidade aquilo que mais faz avançar na aprendizagem é a escrita de textos independentes, mas para isso pouco ou nada há que guie, e virtualmente ninguém, fora alguns raros manuais e fraseologias há muito fora do mercado (muitas das quais porém se encontram na internet, aproveitando eu agora para recomendar uma passagem atenta pelos recursos neste site).

Este volume pouco traz então que não se incluisse já em manuais antigos, fora o bizarro o ano de publicação. (Quem não tiver grande interesse em gastar os ~25 euros pelos dois volumes podê-los-ia substituir sem grande insuficiência, por exemplo, pelo North and Hillard, um livro de paragonáveis virtudes e vícios.) Gabar-se-á porém este aqui de alguns prestantes acrescentos, como o são os apêndices, que funcionam como enquirídia 1# dos usos comparados do conjuntivo e do optativo; #2 das partículas negativas; 3# da totalidade das preposições e respectivos casos; #4 da posição dos acentos; das formas irregulares dos 100 verbos mais comuns; #5 dum breve dicionário inglês-grego. A vantagem sobre uma gramática tradicional, mais completa, é a obviedade de este estar, em complemento com as secções gramaticais ao longo do curso, orientado ad usum discipulorum sem informação supérflua ou sobrecomplexa. Um pequeno passo então este manualeto, que exige algum esforço mas não muito, e que é de louvar pelo remar contra a corrente num campo do saber que já em si é remar contra a corrente (mas dois negativos não fazem um positivo).

Tendo dito isto, passo a algo mais pessoal, mais dado: como dizia acima, é impossível aprender e fazer verdadeiros progressos sem a escrita independente nas duas línguas – o conhecimento profundo da sintaxe latina é a nossa grande arma, que muitas vezes nos esquecemos de afiar, para enfrentar a sintaxe grega: são muito semelhantes, e não é por acaso que as dificuldades sofridas por aquela ínclita geração renascentista que foi a última a aprender Grego com Bizâncio, apesar de não se esgotarem com o vocabulário abundantemente novo, em grande parte se reduziam a ele. Nesta arte há já muitos séculos que somos todos nós novatos, todos nós amadores: qualquer pessoa que esteja disposta a trocar comigo emails em Grego ou em Latim, que esteja disposta a corrigir-me a mim e a ser por mim corrigida, com tanta simplicidade quanta nos exigir a falta de arte, será bem-vindo a fazê-lo em miguelsena a gmail . com. ἔρρωσθε!

O Mapa de Anaximandro

Desejaria mostrar exemplarmente o carácter polémico do empirismo científico no «objecto» que é a terra, pois, como se sabe, todas as ciências da natureza e até a astronomia nos remetem para esse objecto, que continua a ser a quintessência dos nossos «interesses pela natureza». É relativamente fácil mostrar que as «ciências da terra» são movidas por interesses polémico-práticos. A observação das superfícies da terra, bem como a exploração do seu interior, respondem, em muitos casos, a interesses políticos e militares [...]. No início da tradição geográfica europeia, encontramos um episódio memorável. Conta-se que o filósofo da natureza, Anaximandro, originário de Mileto, criou uma «escultura filosófica» (G. Nebel) por volta de 500 a.C. (pouco antes do levantamento jónico e antes da entrada da Grécia nos anos decisivos das guerras médicas): «...uma placa de bronze... sobre a qual estavam inscritos todo o globo terrestre, todos os mares e todos os rios» (Heródoto). O tirano de Mileto levou esse modelo da terra aos Espartanos por ocasião da visita que lhes fez a fim de pedir a ajuda militar da cidade do Peloponeso. «Só a carta geográfica pôde, na época, fazer compreender aos Espartanos a grandeza e os recursos do império persa; aprenderam a ver-se do exterior, aperceberam-se da sua pequenez e renunciaram à guerra» (Gerhard Nebel, Die Geburt des Philosophie, Estugarda, 1967, pp. 37 sq.). Nessa altura, imediatamente saltou a faísca entre a geografia e o cálculo estratégico.

Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica P-II, III.A.6 (pg. 441)
Relógio d'Água, Lisboa: 2011 (trad.: Manuel Resende).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Hino de Catullo a Diana




em Diana está nossa fé
rapazes e raparigas ·
de Diana é a pura voz
que puros ofertamos ·

Latónia, grande fruto
do portentoso Júpiter,
tua mãe poisou-te junto
da oliveira em Delos

para dominares os montes
as florestas verdejantes
as clareiras recônditas
as ribeiras soantes ·

chamam-te Juno Lucina
as grávidas dolorosas ·
chamam-te Lua de má luz
e Trívia potente ·

cada mês o teu caminho,
Deusa, que no ano segues,
enche as casas camponesas
de mais fartas benesses ·

com o nome que te agradar
serás sancta · aos Romanos,
como sempre fizeste, dá
tua mão benfazeja.


Catullo. XXXIV. Tradução minha.


Dianæ sumus in fide
puellæ et pueri integri:
Dianam pueri integri
puellæque canamus.

O Latonia, maximi
magna progenies Jovis,
quam mater prope Deliam
deposivit oliviam,

montium domina ut fores
silvarumque virentium
saltuumque reconditorum
amniumque sonantum:

tu Lucina dolentibus
Juno dicta puerperis,
tu potens Trivia et notho es
dicta lumine Luna;

tu cursu, dea, menstruo
metiens iter annuum,
rustica agricolæ bonis
tecta frugibus exples.

Sis quocumque tibi placet
sancta nomine, Romulique,
antique ut solita es, bona
sospites ope gentem.

Provérbios Latinos §4

pormenor de A Conversão de Santo Agostinho, de Fra Angelico










Dilige, et quod vis fac.

Ama, e faz o que quiseres.


Agostinho, Homília Sétima Sobre a Primeira Epístola de João, 8.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Os Mitos de Criação no Mediterrâneo Antigo

JORNADA DO GAMNA - 
Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia 

fotograma da Divina Comédia (1991), de Manoel de Oliveira

"Os Mitos de Criação no Mediterrâneo Antigo" 
Dias 7 a 15 de Fevereiro, sempre às 18h30. 
Museu Nacional de Arqueologia - Lisboa 

Dia 7 - Egipto, por Luís Manuel de Araújo
Dia 8 - Mesopotâmia, por Francisco Caramelo
Dia 9 - Síria-Palestina, por José Augusto Ramos
Dia 14 - Grécia, por Nuno Simões Rodrigues
Dia 15 - Roma, por Ana Alexandra Sousa

Entrada livre.

informação obtida aqui.

Etymology-Man: A Saga Continua

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Para o Nosso Correspondente em Roma

Erst Jetzt

Muito se engana quem julga que há épocas antigas. Só agora começa a nascer a Antiguidade. 
...denn man irrt sehr, wenn man glaubt, daß es Antiken gibt. Erst jetzt fängt die Antike an zu entstehen.

Novalis, Fragmentos
(trad.: Manuel Resende, in Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica 224)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Hobbes, Tradutor de Homero

From time to time the translator reveals certain personal prejudices. Like Thucydides, whom he admired enough to translate into English, Hobbes minimizes anything to do with gods or women. Where Homer says, "Now the goddess, grey-eyed Athene, put it into the heart of the daughter of Icarius, wise Penelope, to set the bow and the axes of grey iron" (Butcher-Lang), Hobbes makes Penelope act entirely without any such divine instigation (Od. 21. 1 ff.). It is true that the mortal thus given prominence happens to be a woman; as a rule Hobbes avoids emphasizing the female element, whether human or divine. Where Homer speaks of some god or mortal as born of such and such a mother, Hobbes mentions rather the father who begat him, as we see in the narration of Jupiter's amours (Iliad 14. 296 ff.). The materialist side of Hobbes' nature appears in a few places: for instance, he turns Homer's words, "Even as when the mind of a man darts speedily, of one that hath travelled over far lands, and considers in his wise heart, 'Would that I were here or there,' and he thinketh him of many things" (Butcher-Lang), into something much more suggestive of the purely physical: As when a man looks o'er an ample plain, To any distance quickly goes his eye (Od. 15. 70-71). Ethical cynicism appears in the mention of Democoon, whom Homer simply calls the bastard son of Priam but whom the author of Leviathan declares to be "a lawful son where nature is the law" (Iliad 4. 465). 

[…] Pedantry, however, is less obtrusive in these versions than undignified colloquialism. When the Archer-God Apollo walks in anger, "the arrows chink as often as he jogs" (Iliad 1. 50): Diomedes speaks of Mars as a "blockhead" (5. 774); the coward who trembles in an ambush "dances on his hams" (13. 262); the heroes who exult over fallen adversaries "crow" (13. 389, 417); in Juno's angry clutch Diana is shown "wriggling" (21. 458); Hector in his flight is not able, like a hare, "to double or to squat" (22. 185); his mother, lamenting his death, is said to "squeal" (22. 403); and other Trojan women are represented as "howling" for their slain menfolk (24. 154); Helen deprecatingly refers to herself as "this monkey me" (Od. 4. 146), and calls Ulysses' adventures "pranks" (4. 245); Penelope addresses her depraved serving-women as "sluts" (4. 685), and tearfully remarks, concerning the voyage that Telemachus is making to Pylos, "And now my son at sea is in a tub" (4. 817); Ulysses swimming for dear life raises his head "above the pickle" (5. 301), and elsewhere it is said of him that he "roll'd by Neptune always was in souse" (8. 431). But the supreme example of bad taste occurs in the description of the inexhaustible riches of Alcinous and the other Phaeacians: "his riches was a never-dying teat" (7. 88).

G. B. Riddehough, Thomas Hobbes' Translations of Homer
Phoenix 12.2: 58-62 (1958)

Modelo Para Ciclope

roubado aqui.