sábado, 15 de janeiro de 2011

A Democracia na América (e em Atenas)

Ontem, ao ouvir este discurso do Obama sobre o tiroteio em Tucson, no Arizona, não pude deixar de me recordar da Oração Fúnebre de Péricles, talvez, com o chamado Diálogo Meliano, o trecho mais conhecido da História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides. Podia sublinhar aqui uma série de semelhanças entre os dois: a homenagem aos mortos, o discurso como elemento de catarse pública, o elogio do país e das virtudes do regime. Duas democracias, e dois impérios, separados por coisa de mil e quinhentos anos: os mesmos rituais no luto público, o mesmo cultivo e trabalho da oratória, recolocando a palavra no centro do exercício comunitário da política, lembrando que a ἰσηγορία (isegoria), o direito à igualdade no acesso à palavra, na assembleia, é o pilar em que assenta a democracia: a troca de juízos em comum, diria Arendt, a partilha de formas de ver o mundo (Nussbaum, jurista e classicista, fala na imaginação como a virtude cívica por excelência: a capacidade de me pôr no lugar do outro; Obama, no discurso, desafia-nos a que expandamos «a nossa imaginação moral»).

A democracia americana, como a sua congénere ateniense, tem muitos podres (e não são aqueles que a Wikileaks veio revelar), mas é talvez a mais viva, ou pelo menos a mais pura (não num sentido de virgindade, mas de nela se encontrar tudo aquilo que define o regime em estado bruto e completo, se me permitem o não-paradoxo), democracia à face do planeta, como Atenas na Hélade do seu tempo. Dir-me-ão que nos EUA não há Estado Social, que entre nós, na Europa, é quase sinónimo de democracia, mas, se formos filosoficamente probos, temos que reconhecer que não é isso que define a democracia qua democracia. Não há outro país actualmente onde o debate político seja tão participado, onde haja tanta proximidade entre os eleitores e os seus representantes (que é um dos nossos principais problemas, na Europa), onde a democracia seja também mais espectáculo (que é coisa diferente da propaganda, que é, numa das suas múltiplas encarnações, mas também uma das suas mais populares, a forma degradada do espectáculo). A dimensão do espectáculo vai-se tornar particularmente proeminente em Roma (ver, a esse propósito), mas era já uma presença em Atenas: lembremos Alcibíades.

A democracia como uma festa: por isso o regime mais belo, como o classifica Platão na República. A política como uma celebração tão pública como as festividades religiosas: a política como a religião em honra do deus Homem. Ora o Homem é fundamentalmente o «animal dotado de palavra» e daí decorre a sua natureza enquanto «animal político», pois que para Aristóteles a Natureza nada faz em vão e, se o Homem fala, se é esse o traço distintivo do Homem, o discurso, o λόγος, e este exige sempre um outro, um segundo, um receptor, então é apenas natural que o Homem exista para viver em comunidade: «a comunhão destas coisas [as nossas opiniões sobre o bem e o mal, o justo e o injusto] produz a casa e a cidade» (Política, 1253a19). É esta palavra pública que sinto que me foi roubada: qual é o último grande discurso de um político português que se lembram? Tucídides reproduz uns quantos, o que nos diz algo sobre o lugar que a retórica tinha na vida pública ateniense (pense-se, ainda a propósito da Oração Fúnebre de Péricles, que esta era uma prática tão enraizada que Platão a pode parodiar no Menéxeno, com uma oração fúnebre de Aspásia). Ontem entrei na segunda sala do Instituto de Estudos Americanos e, depois de um lance de livros com os discursos do Jefferson, havia uma prateleira inteira só com os volumes em capa dura dos do Lincoln. A única colectânea de discursos entre nós, que me ocorre, é a antologia dos do Sá-Carneiro.

Não nos devemos espantar de politicamente estarmos tão decandentes, se o próprio discurso público, enquanto arte, se perdeu (temos até ministros gagos). Aquiles fora ensinado por Fénix a «ser orador de discursos e fazedor de façanhas» (Il. 9.443; trad: Frederico Lourenço), e não havia contradição nenhuma entre as duas coisas. Hoje, pelo contrário, desaprendemos a tal ponto esta verdade política que negamos com cinismo aos discusos qualquer relevância política, resumindo-os, o mais das vezes, a uma manifestação de boas-intenções, sem qualquer eficácia. O pensamento desligou-se da mão, como o Ulisses de Sophia temia. E, todavia, as palavras têm força (e devíamos reler mais o Génesis para não nos esquecermos disso). A palavra é, aliás, a anti-força por excelência: a persuasão (cf. a cena inicial da República), frágil, como o bem (Nussbaum, again). Mas a palavra é, afinal, o mais Humano. Um regime que a tente ignorar, que a substitua pelo ruído (e há múltiplas formas de ruído, dos chavões aos soundbytes - e aos bitaites), é um regime mais pobre, mais deficiente, menos livre também. O discurso de Obama fez-me lembrar tudo isso, e não deixa de ser curioso (sinal) que o tenha visto no mesmo dia em que, na biblioteca de Estudos Clássicos, descobri a prateleira sobre retórica. Talvez regresse lá em breve, porque, nesse ponto, como em tanto, gregos e romanos têm lições úteis para nós.

2 comentários:

  1. Ao contrário da América, que nunca passou por totalitarianismos, e que portanto consegue ainda orientar-se por este fogo. Mas e se a Palin fosse bem falante? Há algo de contraditório numa Palin que faça belos discursos?

    ResponderEliminar
  2. Não há, obviamente, nada de paradoxal numa Palin que faça belos discursos: os nossos inimigos políticos não têm necessariamente de falar mal, como se houvesse, recuperando a crítica de Schmitt, uma identificação entre o inimigo (relação política) e o feio (esfera estética) ou mesmo o mau (âmbito moral). Uma Palin bem-discursante não creio que prejudique a cena política (pensar, por exemplo, ainda nos EUA, no Mark Rubio, afiliado ao Tea Party, e não por isso incapaz de articular um discurso interessante: ainda tem de crescer retoricamente, mas tem alguma potência/apetência para). A mesma arte dos discursos que sedimentou o nazismo foi a mesma que permitiu a Churchill manter o espírito do povo inglês durante o Blitz, e que o faria ganhar o Prémio Nobel da Literatura. A retórica não é nem boa nem má, no sentido moral (e por isso o Platão não gostava nada dela, pela sua neutralidade, que dava tanto para um lado como para o outro); ela é tão-só, no seu melhor, profundamente política: ela é como que a forma natural (um género literário próprio) do discurso na arena política, da mesma forma que se espera que o cientista escreva em relatórios, e o lírico em poemas. Um poeta podia escrever em prosa, mas não era a mesma coisa. É um pouco o que eu creio da política sem boa oratória: é possível, claro, e continua, mas perde-se algo, como que as ideias políticas falham em atingir a sua formulação não diria mais clara, mas, e perdoa a minha redundância, mais política, isto é, entre outras coisas, mais capaz de mobilizar, de persuadir, de mover: a política é uma acção. Não sejas muito severo no julgamento destas minhas palavras. É tarde, e escrevo sem filtro, cosendo algumas ideias soltas, mas sem a pretensão de estar a desenhar uma teoria robusta, e, talvez, muito cheio de wishful thinking: não consigo simplesmente resistir à beleza, e sei que isso me fragiliza (Heidegger: «mas e as suas mãos! que mãos tão belas!»).

    ResponderEliminar