quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Fortuna Imperatrix Mundi

A Fortuna, que corrompe a vida toda,
cuja natureza não conhece a moderação,
que mistura e depois serve de novo,
agora é ela própria taberneira, não deusa,
tem um ofício digno do seu carácter.

Páladas de Alexandria, Antologia Palatina 9.180
in Do Mundo Grego Outro Sol, Asa, Porto: 2001. (trad.: Albano Martins).

Páladas é um dos mais interessantes poetas antologiados na famosa Antologia Palatina. Gramático de profissão, residente em Alexandria, pagão, assistiu ao período conturbado do patriarcado de Teófilo, na passagem do século IV para o V, em que o cristianismo triunfou simbolicamente sobre o paganismo, com a destruição do templo de Serápis (o acontecimento com que culmina a primeira metade do Ágora, de Amenábar). Há, talvez por isso, um tom de desencanto que atravessa os seus poemas mais sérios, a consciência de que uma época chega ao seu fim e a consequente sensação de ser um exemplar anacrónico que restou de outros tempos, com a solidão que acompanha esse sentimento (ele tem, aliás, um belíssimo epigrama sobre isso). Poder-se-ia ler o poema acima nesta chave: uma reflexão mordaz sobre as voltas da roda da fortuna. Ainda assim, creio não estar em erro ao arriscar que muitos leitores estarão ainda a pensar no que possa significar aquele dístico final: que quer Páladas dizer com aquela imagem da Fortuna taberneira? Pois bem,
The cults of other traditional gods were discontinued at this time [depois da destruição do Serapeum], including that of Tyche [Fortuna], the former protectress of the city's abundance and good fortune. Palladas has left to us three enchanting epigrams depicting the transformation of the Tychaion into a wineshop. In these poems, Palladas plays upon the current misfortune of Fortune and he notes with some irony that "Thou who hadst once a temple, keepest a tavern in thy old age,/ and we see thee now serving hot drinks to mortals". The statues in the Tychaion, however, escaped destruction and existed at least until the Persian conquest in 619.
Christopher Haas, Alexandria in Late Antiquity - Topography and Social Conflict.
Johns Hopkins University Press, Baltimore & Londres: 1997.

Dominatrix

Aristóteles aconselhava Alexandre a conter-se e a não ir ter tantas vezes com a sua mulher, que era particularmente bonita, para que o seu espírito não descurasse o bem comum. Alexandre aquiesceu, mas a rainha, apercebendo-se disso, desgostosa, começou a seduzir Aristóteles, percorrendo os paços de pés descalços e cabelos soltos, tudo para o aliciar. Conquistado, por fim, o filósofo começou a solicitá-la carnalmente, mas ela disse: «De modo algum o farei, sem ter visto provas do teu amor, não se dê o caso de me estares a tentar. Vem primeiro até ao meu quarto, de gatas, para eu te montar como a um cavalo. Então saberei que não me estás a enganar». Depois de o filósofo concordar com esta condição, a rainha avisou Alexandre do facto. Este, que estava à espereita, apanhou-o a levar a rainha. A Alexandre, que o queria matar, disse então Aristóteles, em jeito de desculpa: «Se uma coisa destas acontece a um velho tão sábio, ao ponto de conseguir ser enganado por uma mulher, podes ver-ificar o quão bem te ensinei, pois pode acontecer-te o mesmo a ti, que és jovem». Ao ouvir isto, o rei perdoou-lhe, e continuou a progredir no seu magistério.

Esta é uma lenda que surgiu na Idade Média, atestada pelo menos desde o século XIII. Foi bem acolhida, pelo seu evidente valor didático, em que os valores da época se encontram plasmados de uma forma engraçada mas clara, tendo-se o tema de Fílis e Aristóteles convertido num motivo artístico algo corrente, até. O texto acima é uma tradução do original latino, de autor anónimo (retirado daqui).

[Aristotles cum doceret Alexandrum ut se contineret ab accessu frequenti uxoris suae, quae erat pulcra valde, ne animum suum a communi providentia impediret, et Alexander ei acquiesceret, hoc advertens regina et dolens, coepit Aristotelem trahere ad amorem suum, quia multociens sola transibat cum pedibus nudis et dissoluto crine, ut eum alliceret. Tandem allectus coepit eam sollicitare carnaliter, quae ait, "Hoc omnino non faciam, nisi videro signa amoris, ne me tentes: ergo veni ad meam cameram, reptando manibus et pedibus, sicut equus me portando, tunc scio quod non illudes mihi." Cui conditioni cum consensisset, illa intimavit hoc Alexandro; qui expectans apprehendit eum reginam portantem. Quem cum vellet occidere, ait Aristotles sic se excusando, "Si sic accidit seni sapientissimo, ut a muliere deciperar, potes videre quod bene docueram te, quid accidere potest tibi juveni." Quod audiens rex, ei perpercit, et in doctrina eius profecit.]

imagem: Aristóteles e Fílis, do Mestre de Housebook
c. 1485, @ Rijksmuseum, Amesterdão.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

e Homero cego se é que Homero existiu de facto

…aquelas mãos fantasmagóricas, aquele eu separável, o perigoso demónio de Homero dotado de vida e energia próprias sobre o qual não temos qualquer poder e que nos obriga a fazer coisas que doutro modo não faríamos, tudo aquilo que Platão pretende banir, raspar todas as ficções até chegar à verdade nua, ao animal humano bani-los sim, banir o modo lídio e o modo iónico e a flauta mais do que tudo a flauta é pior do que todos os instrumentos de corda juntos inventada unicamente para dar prazer e Homero, banir Homero e todos os poetas e pintores e escultores cujos poemas e Vénus nuas celebram as mulheres como instrumentos de prazer pense-se no primeiro andamento da Sonata Kreutzer, no presto dizes tu, será legítimo permitir que seja tocada num salão cheio de mulheres com vestidos decotados? Valha-me Deus Pozdnichev e voltamos ao ponto onde começámos, com aquilo de o prazer ser mau em qualquer circunstância, de estarmos aqui para ser punidos e da necessidade de o sermos de maneira que mataste a tua mulher enquanto o galã hotentote com gostos musicais se escapa por debaixo do piano, não sei se tudo isto não é um acesso daquelas paixões e emoções de que Platão nos queria salvar através da censura ou mesmo da proibição de todas as artes, a arte nasce de uma mistura de doença e fraqueza, loucura e suicídio, Keats tubercoloso e Beethoven surdo, Dostoiévski epiléptico, Byron coxo e Homero cego se é que Homero existiu de facto, Baudelaire e Schiller e loucura e suicídio em quantidade suficiente para agradar ao próprio Deus, Schumann e Kleist suicidas, Hölderlin louco e o mais infeliz deles todos sim, ali sentado de olhar vazio e bata branca exposto diante das visitas pela sua odiosa irmã, não é o facto de ela ter traído o homem, o artista, o ter vendido não isso era previsível, o homem é supérfluo, um mero veículo ou invólucro da obra mas esta sim foi o que a irmã traiu, nesta reside a imortalidade de um autor e foi isso que ela corrempeu, o que é pior do que o homicídio Pozdnichev, pior do que o homicídio senão pergunta ao teu mestre Tolstói, Pozdnichev, e que isso te sirva de consolo, sim e entre todos os artistas entre todos os suicidas falhados Levotchka dar-te-ia razão.

in:

Quand je dis beau, je ne parle pas de la beauté gréque

Ainda que a beleza das raparigas italianas, como paradigma do tipo mediterrânico, ou das suecas, como a coroa do género nórdico, seja proverbial, a verdade é que raramente ouvimos a expressão «a beleza sueca» ou «a beleza italiana». Já «a beleza grega» é uma locução com que, volta e meia, nos deparamos e que, no Ocidente, suscita uma série de associações, sendo o corpus (releve-se a carnalidade do termo, aqui) da escultura grega como que o corpo místico da Ideia platónica do Belo, para a nossa imaginação europeia. O Belo encarnou, para a nossa sensibilidade (αἴσθησις, donde estética) moderna, nos modelos e formas gregos, com a sua sabedoria da medida (o μέτρον, conceito-chave da ética helénica, que Protágoras uniu, no seu célebre dito, com o outro pilar da mundivisão grega: o Homem). A Vénus de Milo, mesmo se tão bela quanto o binómio de Newton, mantém o seu lugar cativo na cultura popular enquanto protótipo da mulher, e o seu equivalente masculino, o David, de Miguel Ângelo, esculpido pela observação atenta dos antigos, podia bem ter adornado, não fora talvez pelo seu tamanho que desagradaria aos gregos, a ágora de uma qualquer pólis.

Não obstante as nossas preferências pessoais, o certo é que «a beleza grega» continua um conceito operacional, um ideal válido (o que, insisto, nada tem que ver com os gostos de cada um: a minha mulher de sonho segue o padrão élfico, excepto no ser morena, e, todavia, nunca me apaixonei por nenhuma rapariga assim e as que conheço mais próximas desse ideal até me desagradam, honestamente falando). O ideal existe para não ser atingido, talvez até para nem ser sequer perseguido (como quem, mesmo não gostando de futebol, tem ainda assim um qualquer clube, herdado de família, e, se lhe perguntam, responde que sim, que é do sporting, mesmo se não sabe sequer quem é o actual treinador): só isso o pode preservar de toda a corrupção, e mantê-lo como a Ideia, a Forma, pura, transcendente e, todavia, no presente caso, observável, como a Forma não esperasse que subíssemos pela escada do Banquete (que se deita fora depois de usada, como explicava o Wittgenstein, mas falando da Filosofia toda), mas descesse ao mundo, para se dar a conhecer (o movimento da graça, como lhe chamaria Simone Weil, ainda que com outras implicações — foi porventura o não ter nunca pensado este movimento que condenou o platonismo, quando o cristianismo emergiu); observável, sim, mas irrecuperável: sussurro congelado dos deuses antigos, que nos chegou, quebrado, mas, como seria próprio dos deuses, ainda capaz de nos deslumbrar (lembrar a cena do Viagem a Itália, do Rosselini), pedra que petrifica (a medusa encrustada na égide de Atena é disso a metáfora — não esquecer que da Medusa nasce Pégaso, de cujo casco brota o Hipocrene: pensar a écfrase enquanto exercício de geneologia por parte da poesia: não por acaso o demiurgo de Platão, ao contrário do deus abraâmico, não cria ex nihilo, nem fala: esculpe — e assim começa o mundo).

Dito isto, Rohmer é um génio e La Collectionneuse mais uma jóia da série dos Seis Contos Morais. Qual daqueles três prólogos o melhor. (a frase do título está aos seis minutos - notem como a personagem assimila a beleza grega à beauté absolute).

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Navegar É Preciso, Mas Não Ao Sábado

The maritime activities of Alexandrian Jews are also revealed in a vastly different source, a letter written circa 400 by Synesius, the urbane bishop of Ptolemais. In this letter addressed to his brother, Euoptius, Synesius chronicles the disasters he encountered on a voyage he took from Alexandria to Cyrenaica. Synesius booked passage in Alexandria with a Jewish navicularius named Amarantus, whom he describes as "a teacher of the [Mosaic] law". Not only was the ship's captain Jewish but nearly half of the crew as well. Synesius reports how the ship almost suffered shipwreck owing to the religious practices of the captain — who refused to steer the vessel in the midst of a storm because the Sabbath had begun! [...] Another aspect of Jewish economic life within Alexandria concerns the question of debt, which seems to have been a large problem for some sectors of the community. Synesius' navicularius, Amarantus, "courted death owing to his bankrupt condition". In fact, his crew was unable to replace a torn sail during the storm since the spare one had been pledged as security for a loan.

Christopher Haas, Alexandria in Late Antiquity - Topography and Social Conflict.
Johns Hopkins University Press, Baltimore & Londres: 1997.

imagem: o Farol de Alexandria, segundo Martin Heemskerck.

Benjamin Button 'avant la lettre'

A idade de cada ser vivo, antes de mais, estacionou no ponto em que se encontrava e tudo o que era mortal deixou de continuar a envelhecer no seu aspecto; ao invés, invertendo o sentido, foi-se tornando mais jovem e mimoso. As cabeleiras brancas dos mais velhos escureceram; as faces barbadas dos homens, readquirida a maciez inicial, reconduziram cada um deles de novo à juventude passada; os corpos robustos dos jovens, tornando-se de dia para dia mais pequenos, regressaram ao estádio de recém-nascidos, assemelhando-se-lhes tanto do ponto de vista psíquico como físico. E, daí em diante, já totalmente enfraquecidos, vêem-se reduzidos a nada.

Platão, O Político 270d6-270e9
Temas & Debates, Lisboa: 2008. (trad.: Carmen Soares).

[ἣν ἡλικίαν ἕκαστον εἶχε τῶν ζῴων, αὕτη πρῶτον μὲν ἔστη πάντων, καὶ ἐπαύσατο πᾶν ὅσον ἦν θνητὸν ἐπὶ τὸ γεραίτερον ἰδεῖν πορευόμενον, μεταβάλλον δὲ πάλιν ἐπὶ τοὐναντίον οἷον νεώτερον καὶ ἁπαλώτερον ἐφύετο: καὶ τῶν μὲν πρεσβυτέρων αἱ λευκαὶ τρίχες ἐμελαίνοντο, τῶν δ᾽ αὖ γενειώντων αἱ παρειαὶ λεαινόμεναι πάλιν ἐπὶ τὴν παρελθοῦσαν ὥραν ἕκαστον καθίστασαν, τῶν δὲ ἡβώντων τὰ σώματα λεαινόμενα καὶ σμικρότερα καθ᾽ ἡμέραν καὶ νύκτα ἑκάστην γιγνόμενα πάλιν εἰς τὴν τοῦ νεογενοῦς παιδὸς φύσιν ἀπῄει, κατά τε τὴν ψυχὴν καὶ κατὰ τὸ σῶμα ἀφομοιούμενα: τὸ δ᾽ ἐντεῦθεν ἤδη μαραινόμενα κομιδῇ τὸ πάμπαν ἐξηφανίζετο.]

imagem: fotograma de The Curious Case of Benjamin Button (2008), de David Fincher.

Oedipus Rex segundo Tom Lehrer

domingo, 19 de setembro de 2010

'Origen: Spirit & Fire', de Hans Urs von Balthasar [Crítica]

Hans Urs von Balthasar, Origen: Spirit & Fire.
Catholic University of America Press, Washington D.C.: 1984. (trad.: Robert Daly, s.j.).

Não sei como funciona o curso em Lisboa, mas, em Coimbra, pelo menos, o período a que damos o nome de Antiguidade Greco-Romana parece terminar com a morte de Augusto, em 14 d.C. De facto, é raro avançar-se mais no tempo e, na minha turma, só no ano passado, numa cadeira de mestrado, nos aventurámos para lá desse muro de berlim temporal, estudando a correspondência de Plínio e Trajano. Não fora por Marcial (e, eventualmente, Juvenal ou, com muita sorte, Suetónio), também todo o período do Império seria ignorado nas aulas de Literatura e Língua. É vergonhoso, mas a verdade é que concluímos o curso sem sermos capazes de listar, de cor, os grandes imperadores ou ordenar cronologicamente os seus nomes, se eles nos forem dados.

Entre as muitas consequências desta escolha curricular está o desprezo a que é votado o estudo da Igreja primitiva, área de investigação virtualmente inexistente em Portugal (sobre o que, mau grado tudo, se vai fazendo, ler aqui). O cristianismo é um fenómeno do mundo greco-romano e deve ser analisado no contexto do seu ambiente, sendo por isso coerente que seja estudado no âmbito das Clássicas (aliás, estou convencidíssimo que, à medida que a sociedade se vai descristianizando, a cadeira de Mitologia, por muito que me custe conceber tal situação, vai passar a incluir também algumas noções base de cristianismo, para que os alunos possam perceber os textos clássicos tardios). Pelo contrário, continua-se a alimentar a ideia do cristianismo como uma coisa fundamentalmente outra, estranha à cultura clássica, postulando-se uma ruptura que, se existiu (não vamos ser teimosos como Weil), e sendo profunda, contém também muitos elementos em que não se observa solução de continuidade e ignora o diálogo fecundo que se estabeleceu, para usar a expressão de Steiner, entre Atenas e Jerusalém.

A culpa, porém, não é apenas dos classicistas nacionais, mas também da própria Igreja, que há muito deixou de formar convenientemente os crentes, preferindo a transmissão de uma versão light da sua própria fé aos domingos na catequese. A verdade é que a maioria dos fiéis, hoje, seria incapaz de perceber várias das controvérsias teológicas daqueles primeiros séculos, coisas que, na altura, pelo relato, creio, de um dos Gregórios (ou o de Nissa ou o Nazianzeno), eram discutidas na ágora, enquanto se comprava pão. Aparecem depois filmes como o último de Amenábar — a quem devo a minha descoberta deste período — e subitamente apercebemo-nos de como não sabemos nada daquele período, mas que, afinal, até aconteceram coisas bastante importantes durante aqueles quase cinco séculos (!) que o império do Ocidente ainda durou. Um último incentivo ao estudo do cristianismo primitivo: aquilo é uma novela com todos os ingredientes do sucesso (veja-se Gibbon): mortes (cada uma melhor que a outra), mulheres nos bastidores a manipularem a cena, imperadores heréticos e apóstatas, exílios, monges malucos, eremitas, trapaceiros, chicos-espertos, rivalidades eclesiásticas e rendas de bilros.

No meio disto tudo, há grandes nomes, que, porém, o tempo e a ignorância fizeram esquecer. Um desses é Orígenes (c. 185-254), sem dúvida o maior teólogo antes de Santo Agostinho; aliás, é mesmo possível defender que só com Orígenes podemos falar de uma teologia sistemática e, assim, ele seria o primeiro teólogo cristão. É impossível minimizar a importância do discípulo de Clemente de Alexandria e um dos primeiros casos de anxiety of influence bem documentados tem que ver precisamente com a influência opressiva da sua figura sobre São Jerónimo, que acabou por renegar o mestre, mesmo se nunca deixou de o copiar. Orígenes não é santo, nem mesmo doutor da Igreja, bem pelo contrário: foi anatemizado em 553, no Concílio de Constantinopla, como um precursor do arianismo e defensor de doutrinas, como a pré-existência das almas ou a salvação universal (até para os demónios), entretanto rejeitadas pela ortodoxia. Só no século XX, com o ressourcement — isto é, a recuperação dos padres da Igreja e o regresso às fontes — promovido por Henri de Lubac e outros (entre eles o discípulo de Lubac, von Balthasar, que é responsável por esta antologia), é que Orígenes foi recuperado para a Igreja, sendo reabilitado como um teólogo maior da tradição cristã, ao ponto de o próprio papa actual ter já feito um discurso sobre o pensamento do alexandrino, na sua catequese semanal.

A presente antologia, que inclui mais de mil excertos retirados do corpus de Orígenes, é uma excelente introdução ao homem. Balthasar, talvez o maior teólogo católico do século XX (existem dois livros dele editados na série Teofanias, da Assírio), teve um trabalho imenso ao organizar tematicamente as várias passagens das homílias, comentários e tratados de Orígenes, tendo o cuidado de expor o pensamento do alexandrino de forma orgânica e, sobretudo, racional: é possível perceber a lógica do seu sistema, que vai sendo desenrolado ante os nossos olhos. Não estamos, portanto, perante uma mera recolha de textos que os organiza sob grandes temas (e.g.: a ressureição, a alma, a encarnação), mas que submete esses mesmos cabeçalhos a uma organização pensada, que permita ao leitor seguir a construção do edifício teológico de Orígenes, tarefa em que somos acompanhados pelas pequenas introduções barra resumos de Balthasar, que antecedem cada grupo de textos, fornecendo-nos um fio de Ariadne que nos conduza ao longo do que, de outra forma, se arriscaria a ser, nos seus piores momentos, um conjunto desconexo de citações. Tal, porém, nunca chega a suceder, e, pelo contrário, como digo, a antologia tem o mérito de funcionar como um livro de exposição da doutrina per se, um quase tratado, uma obra praticamente independente, não fora pela ligação fragmentária entre vários parágrafos, retirados de textos diferentes, e que a denuncia como colagem.

A edição inglesa tem três grandes vantagens: (1) todas as passagens bíblicas a que Orígenes alude foram identificadas — trabalho colossal que muito temos de agradecer; (2) a tradução dos textos foi feita a partir do original grego e latino, salvo pouco mais que trinta fragmentos, a que o tradutor não conseguiu ter acesso senão na tradução alemã de Balthasar; (3) no final, encontra-se um pequeno texto que dá uma visão panorâmica dos estudos de Orígenes à data de publicação da edição inglesa, indicando os principais estudos do século XX, fornecendo uma série de pistas para quem queira explorar mais a teologia e a pessoa de Orígenes. O livro tem ainda um novo prefácio pelo tradutor, mesmo se o ensaio em jeito de prólogo escrito por Balthasar para a edição original se mantém.

A quem, portanto, se dirige este livro? Não vou ser hipócrita e recomendá-lo indiscriminadamente, por muito que o tenha apreciado (e posso confessar que foi das melhores coisas que li este ano: as probabilidades de entrar para o meu top 10, lá para Dezembro, são até elevadas). O seu público é, apesar de tudo, restrito. É um livro eminentemente teológico, mais do que, por exemplo, filosófico (uma abordagem que poderia interessar a mais pessoas). Orígenes não é também um poeta da palavra (o que não quer dizer que o seu estilo seja enxuto: longe disso), pelo que, também desse ponto de vista, não há muitos atractivos na sua obra. Quem, de facto, não estiver disposto a empreender uma viagem teológica pura e dura, mais vale não pegar nisto. A esses, arrisco-me a aconselhar, com base noutro livro da série que tenho agora em mãos, e que muito me está a agradar, esta outra introdução: Origen, de Joseph Trigg, da série The Early Church Fathers, da Routledge. Aqueles, porém, que ousarem, com coragem, mas também espírito de abertura (e curiosidade), embarcar na viagem mais directa a Orígenes, com Balthasar, tenho a certeza de que colherão muitas flores: afinal, não é isso uma anto-logia: um bouquet?

Fluir Perene

It was no dream; or say a dream it was,
Real are the dreams of Gods.
Keats, Lamia 1.126-7

Com tanta coisa boa que há para ler, e tão pouco o tempo, é normal que, quando verificamos que o livro a que nos dedicámos nas últimas horas ou dias é, de facto, um produto menor, que não compensou o nosso esforço, fiquemos um tanto ao quanto, se não aborrecidos, pelo menos com pena: afinal, a vida é breve, e nunca se ouviu falar de bibliotecas no paraíso (salvo com Borges). E, todavia, é impressionante a fecundidade, isto é, a capacidade de gerar novas obras, destas obras menores, chamemos-lhes assim, capazes de rivalizarem, nesse aspecto, com alguns dos mais importantes títulos da literatura mundial. Não pude deixar de confirmar quanto os caminhos da inspiração são insondáveis ao ler agora a Lamia de Keats.

Este Verão, nas minhas explorações da história da Igreja dos primeiros séculos, tropecei na Vida de Apolónio, de Filóstrato, sofista que viveu na passagem do segundo para o terceiro século depois de Cristo. Trata-se da biografia de um filósofo do século I, homem muito reputado no seu tempo, com fama de homem santo. Alguns escritores pagãos quiseram equipará-lo a Cristo e daí eu, interessado nas polémicas anti-cristãs e nos escritos apologéticos, me ter atirado aos três volumes da série da Loeb sobre Apolónio. Trata-se de uma narrativa interessante, mas desigual: o segundo volume é bem mais cativante que o primeiro. No cômputo geral, porém, é um livro que só interessará hoje a um público muito específico, apesar de ter algumas passagens que, tivera o texto sempre aquela qualidade, seria, sem dúvida, mais lido, ou do retrato curioso, porque até inesperado, que pinta das relações entre filosofia, religião e política naquele tempo (e para os que se interessam por isto, não direi que é essencial, mas será sem dúvida valioso).

O «milagre» mais conhecido de Apolónio, narrado por Filóstrato, é a salvação de um jovem de Corinto, boa pessoa, de tendências filosóficas (acabará por seguir o mestre), que, enfeitiçado por uma lâmia, uma criatura demoníaca do folclore grego, por vezes associada aos modernos vampiros, se ia casar com ela. Apolónio denunciou em plena boda a verdadeira natureza da bela mulher que o rapaz se preparava para desposar e expulsou-a da casa, salvando-o da morte (as lâmias bebiam o sangue daqueles que escolhiam). Keats não leu a obra de Filóstrato, mas soube da história através daquele que terá dito um dia ser o seu livro favorito: The Anatomy of Melancholy, de Richard Burton. Inspirado pela lenda, compôs um dos poemas mais conhecidos da sua maturidade, entre finais de Junho e inícios de Setembro de 1819: Lamia. E, assim, uma passagem importante, mas nem sequer a melhor, de uma obra pouco lida floresceu num poema em que o génio de um dos nomes maiores do Romantismo inglês se manifesta no alto da sua criatividade e talento. A Musa progride por caminhos esquivos.

imagem: Lamia (1909), de Herbert James Draper

sábado, 18 de setembro de 2010

Olhó Cometa!

A celestial event seen by the ancient Greeks may be the earliest sighting of Halley's comet, new evidence suggests. According to ancient writers, a large meteorite smacked into northern Greece between 466BC and 467BC. The writers also described a comet in the sky at the time the meteorite fell to Earth, but this detail has received little attention, say the researchers.

Comet Halley would have been visible for about 80 days in 466BC, researchers write in the Journal of Cosmology. New Scientist magazine reports that, until now, the earliest probable sighting of the comet was an orbit in 240BC, an event recorded by Chinese astronomers. If the new findings are confirmed, the researchers will have pushed back the date of the first observation of Comet Halley by 226 years.

The latest idea is based on accounts by ancient authors and concerns a meteorite that is said to have landed in the Hellespont region of northern Greece in 466-467BC. The space rock fell during daylight hours and was about the size of "a wagon load", according to ancient sources. The object, described as having a "burnt colour", became a tourist attraction for more than 500 years.

In his work Meteorology [a sair em 2012 em português pelo INCM], Aristotle wrote about the event about a century after it occurred. He said that around the same time the meteorite fell, "a comet was visible in the west". [...] They [os astrónomos] calculated that Halley's comet could have been visible for about 80 days between early June and late August in 466BC - depending on atmospheric conditions and the darkness of the sky.

ler a notícia completa aqui.