terça-feira, 16 de outubro de 2012

Grego e Latim em Espanha (et ubique)

(Gratiae agendae Laminario Vivarioque Novo)

Dentro do deserto em que vai tornando a Europa no que ao que Estudos Clássicos no ensino secundário diz respeito (onde a Alemanha é a única surpreendente excepção), a Espanha é conhecida pelo combate aberto de sucesso que há alguns anos tem vindo a travar, com o resultado positivo de a comunidade se ter conseguido manter indiscutivelmente dinâmica. Pertence a esse dinamismo o seguinte "Manifesto pela defesa das aulas de Grego e de Cultura Clássica", reacção às medidas de reforma do ensino secundário (semelhantes às actualmente em curso em Itália), que visam expulsar ou reduzir à insignificância a presença das cadeiras de tema clássico no currículo de acesso ao ensino superior. Sobre o recente sucesso legal no mesmo assunto em Portugal - mas cuja infelizmente aplicação prática, pelo que tenho testemunhado, fica bastante aquém da 'força da lei'- ver também o já-aqui-publicitado texto de Paula Barata Dias.
El catedrático Jesús de la Villa cree que lo más grave de la desaparición de Cultura Clásica es que es «la verdadera entrada» al Bachillerato de Humanidades. «Los alumnos se enganchan con esta asignatura», afirma. En su opinión, no se puede concebir un sistema educativo sin ense- ñanzas clásicas porque «es imposible entender el arte y la literatura occidental sin conocer el arte de Grecia y Roma». Además, la ausencia de esta asignatura podría afectar, a su parecer, al número de alumnos que se decantan por la modalidad de Humanidades, y posteriormente por el estudio de las Filologías en la universidad. Para María Ángeles Almela profesora de Griego en el Instituto de Educación Secundaria «Ágora» de Alcobendas, la desaparición de los estudios clásicos en la escuela sería «peor que una tragedia griega», sobre todo si tenemos en cuenta que somos un país «plagado de restos arqueológicos». «En quince años España sería un yermo cultural», advierte esta docente, que asegura que gracias a las clases de Cultura clásica, algunos «pisan un museo por primera vez».

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ars latine loquendi et scribendi - Horários

No seguimento do anúncio, e para quem tenha ficado de pé atrás pela ausência de horários, comunica-se que as aulas se realizarão nos seguintes moldes: duas turmas, uma de iniciação, outra avançada, com um bloco em conjunto e outro em separado.

Aula Geral. Terças-feira, das 18.00-19.30
Turma avançada. Quartas-feiras, das 16-17.30.
Turma de iniciação. Quinta-feira, das 18-19.30.

Tudo no Instituto de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra. Quem estiver interessado sinta-se à vontade de aparecer na próxima Terça-feira, mesmo que nunca antes tenha estudado Latim.

Estas aulas são uma iniciativa do CECH-UC e da APEC.

O Sítio

fotograma de Cesare Deve Morire (2012), dos irmãos Taviani
(roubado a um amigo)
Investigadores espanhóis declararam ter descoberto o local exato onde foi assassinado Júlio César, no ano 44 antes de Cristo (a.C.). "Sempre soubemos que Júlio César foi assassinado na Cúria de Pompeu, a 15 de março do ano 44 a.C., porque é o que nos dizem os textos clássicos", explica em comunicado Antonio Monterroso, do Centro Superior de Investigação Científica (CSIC) espanhol. "Mas até agora não tínhamos qualquer testemunho material deste acontecimento tantas vezes representado na pintura e no cinema". 

Monterroso e a sua equipa anunciaram ter descoberto uma estrutura de cimento com cerca de três metros de largura por dois de altura que foi erguido por ordem de Otávio Augusto, filho adotivo e sucessor de César, no local exato onde este foi apunhalado, em plena sessão do senado, por um um grupo de senadores. "Sabemos com exatidão qual o local onde Júlio César presidiu a essa sessão do senado e onde caiu, apunhalado, pois foi fechado por uma estrutura retangular formada por quatro paredes que delimitam uma laje de cimento", afirmou o investigador. Essa laje foi colocada por Augusto para marcar o local onde César presidiu à sua última sessão no senado romano, antes de ser aí assassinado, como forma de condenar o local, afirma o centro de pesquisas. 

Esta descoberta confirma, ainda segundo o CSIC, "que o general foi apunhalado mesmo no centro da parte inferior fundo da Cúria de Pompeu, enquanto presidia, sentado numa cadeira, à reunião do senado". A descoberta insere-se no quadro de trabalhos realizados por uma equipa de investigadores na zona arqueológica de Torre Argentina, no centro histórico de Roma, onde se encontra a Cúria de Pompeu. 

in Diário de Notícias, 10 de outubro de 2012

História, Rhetórica, e Tyrannia

A retórica socrática existe para ser um instrumento indispensável da filosofia. O seu propósito é conduzir potenciais filósofos até à filosofia quer treinando-os quer libertando-os dos encantos que obstruem o esforço filosófico, assim como para prevenir o acesso à filosofia àqueles que não são aptos. A retórica socrática é enfaticamente justa. É animada pelo espírito da responsabilidade social. É baseada na premissa de que existe uma desproporção entre a busca intransigente pela verdade e os requisitos da sociedade, ou que nem todas as verdades são sempre inócuas. A sociedade há-de sempre tentar tiranizar o pensamento. A retórica socrática é o meio clássico para frustrar sempre e para sempre essas investidas. Este mais elevado de todos os tipos de retórica não morreu com os pupilos imediatos de Sócrates. Há muitas monografias que testemunham o facto de os grandes pensadores de tempos posteriores terem usado um tipo de cuidado e de contenção ao comunicar o seu pensamento à posteridade, cuidado esse que deixou de ser apreciado: deixou de ser apreciado mais ou menos ao mesmo tempo da emergência do historicismo, no final do século XVIII.

A experiência da presente geração ensinou-nos a ler a grande literatura política do passado com outros olhos e com outras expectativas. Essa lição não pode deixar de ter importância para a nossa orientação política. Somos confrontados cara a cara com uma tirania que ameaça tornar-se, graças à "conquista da natureza" e em particular da natureza humana, naquilo que uma tirania prévia jamais se tornou: perpétua e universal. Confrontados com a alternativa tenebrosa de que o homem, ou o pensamento humano, possa ser colectivizado, seja dum só golpe e sem misericórdia, seja por processos lentos e cuidadosos, somos forçados a questionarmo-nos sobre como poderemos escapar a este dilema. Repensamos portanto quais as condições elementares e discretas da liberdade humana.

O facto de a reflexão aqui apresentada aparecer de forma histórica talvez não seja desapropriado. A colectivização ou coordenação manifesta e deliberada do pensamento está a ser preparada de maneira escondida, e muitas vezes até mesmo inconsciente, pela difusão do ensinamento de que todo o pensamento humano é colectivo, independentemente de qualquer esforço humano que tenha isso como objectivo, visto que todo o pensamento humano é histórico. Parece não haver maneira mais apropriada de combater esse ensinamento do que o estudo da história.

Leo Strauss. On Tyranny. Chicago University Press. 
Tradução minha.

domingo, 14 de outubro de 2012

σύμβολα τῆς εὐϕροσύνης

As Rosas de Heliogábalo (1888), de Alma-Tadema
Breve e triste é a nossa vida,
não há remédio algum quando chega a morte.
E também não se conhece ninguém
que tenha regressado do mundo dos mortos.
Foi por acaso que viemos à existência
e, depois, será como se não tivéssemos existido!
A respiração das nossas narinas é apenas fumo,
e o pensamento, uma centelha do bater do coração!
Quando ela se apaga, o nosso corpo voltará ao pó
e o nosso espírito se dissolverá como o ar subitl.
Com o tempo, o nosso nome cairá no esquecimento,
e ninguém se lembrará das nossas obras.
A nossa vida é como uma nuvem que passa sem deixar rasto,
há-de dissipar-se como bruma,
ferida pelos raios do sol
e abatida pelo seu calor.
O tempo da nossa vida é como sombra que passa,
e o nosso fim não se pode adiar,
pois a vida está selada e ninguém pode voltar atrás.
Vinde, pois! Gozemos dos bens presentes,
tiremos prazer das criaturas com o ardor da nossa juventude!
Inebriemo-nos do melhor vinho e de perfumes,
e não deixemos passar as primeiras flores da Primavera!
Coroemo-nos de botões de rosas, antes que murchem!
Nenhum de nós falte às nossas [festas];
deixemos em toda a parte sinais da nossa alegria,
pois esta é a nossa parte e a nossa herança.

Sb 2, 1-9, retirado da Nova Bíblia dos Capuchinhos
Difusora Bíblica, Lisboa/Fátima: 1998. (trad.: Eduardo Pereira da Silva)

[᾽Ολίγος ἐστὶν καὶ λυπηρὸς ὁ βίος ἡμῶν, καὶ οὐκ ἔστιν ἴασις ἐν τελευτῇ ἀνϑρώπου, καὶ οὐκ ἐγνώσϑη ὁ ἀναλύσας ἐξ ᾅδου. ὅτι αὐτοσχεδίως ἐγενήϑημεν καὶ μετὰ τοῦτο ἐσόμεϑα ὡς οὐχ ὑπάρξαντες· ὅτι καπνὸς ἡ πνοὴ ἐν ϱισὶν ἡμῶν, καὶ ὁ λόγος σπινϑὴρ ἐν κινήσει καρδίας ἡμῶν, οὗ σβεσϑέντος τέϕρα ἀποβήσεται τὸ σῶμα καὶ τὸ πνεῦμα διαχυϑήσεται ὡς χαῦνος ἀήρ. καὶ τὸ ὄνομα ἡμῶν ἐπιλησϑήσεται ἐν χρόνῳ, καὶ οὐϑεὶς μνημονεύσει τῶν ἔργων ἡμῶν· καὶ παρελεύσεται ὁ βίος ἡμῶν ὡς ἴχνη νεϕέλης καὶ ὡς ὁμίχλη διασκεδασϑήσεται διωχϑεῖσα ὑπὸ ἀκτίνων ἡλίου καὶ ὑπὸ ϑερμότητος αὐτοῦ βαρυνϑεῖσα. σκιᾶς γὰρ πάροδος ὁ καιρὸς ἡμῶν, καὶ οὐκ ἔστιν ἀναποδισμὸς τῆς τελευτῆς ἡμῶν, ὅτι κατεσϕραγίσϑη καὶ οὐδεὶς ἀναστρέϕει. δεῦτε οὖν καὶ ἀπολαύσωμεν τῶν ὄντων ἀγαϑῶν καὶ χρησώμεϑα τῇ κτίσει ὡς ἐν νεότητι σπουδαίως· οἴνου πολυτελοῦς καὶ μύρων πλησϑῶμεν, καὶ μὴ παροδευσάτω ἡμᾶς ἄνϑος ἔαρος· στεψώμεϑα ϱόδων κάλυξιν πρὶν ἢ μαρανϑῆναι· μηδεὶς ἡμῶν ἄμοιρος ἔστω τῆς ἡμετέρας ἀγερωχίας, πανταχῇ καταλίπωμεν σύμβολα τῆς εὐϕροσύνης, ὅτι αὕτη ἡ μερὶς ἡμῶν καὶ ὁ κλῆρος οὗτος.]

sábado, 13 de outubro de 2012

Uma Luz Demasiado Forte


HORTON: Can you say something about your new script?
ANGELOPOULOS: It concerns a filmmaker who has lost the will to make films. One day while he is visiting the sacred island of Delos, the birth-place of Apollo, from a crack in the ground a marble head of Apollo mysteriously rises from the ground and shatters into many pieces. The filmmaker tries to take a picture of this event, but when he develops it, he sees that nothing appears. You see, the head had emerged from the spot where Apollo, the god of light, had first appeared. The light at such a spot, the source of light, was too strong for the camera! (Angeloupoulos smiles.) This event leads him to think about the first film ever made in the Balkans and he learns that there was one film that was never developed. The film then becomes the filmmaker's search for this film and for his own need for inspiration, across the Balkans: Bulgaria, Greece, Skopje, Albania, Romania, Belgrade, and finally Sarajevo. (He details a few more plot turns.) Finally in Sarajevo in the bombed-out film archive as bombs go off around him, he is able to see this first film, which a film archivist in Sarajevo at last develops. It is a 1902 black-and-white silent film of an actor playing Odysseus, washed up on the shore of Ithaca at the end of the voyage. The actor-Odysseus looks out at the filmmaker and across the twentieth century: Ulysses' Gaze is completed!

entrevista a Angelopoulos em 1993, parcialmente publicada em 
Andrew Horton, The Films of Theo Angelopoulos. A Cinema of Contemplation.
Princeton University Press, Princeton: 1999 [2ª edição].  

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Cybele


... Fritz Saxl drew attention to Mantegna's picture (in the National Gallery) of the cult of Cybele being introduced to Rome by Scipio as an early example of an attempt to paint a subject from ancient history in a historically correct manner...

Peter Burke. The Renaissance Sense of the Past (1969).

sábado, 6 de outubro de 2012

Aulas de Latim falado e escrito

NOTA BENE. Os horários, entretanto anunciados, encontram-se aqui.

Para dar os primeiros passos no uso activo do Latim, dito viva voce.

Estas aulas têm como objectivo auxiliar nos primeiros passos no uso activo da língua latina, tanto falada quanto escrita. A quem já estuda a parte receptiva do Latim — aprendendo principalmente a ler e a traduzir — o treino de fala e de escrita fornece a capacidade para interiorizar as estruturas gramaticais e vocabulares da língua, de maneira a conseguir lidar com os textos clássicos, medievais, modernos, de maneira muito menos mecânica. O objectivo é trabalhar o mais possível em Latim, reduzindo tanto quanto possível a presença do vernáculo no manuseamento dos autores.

São bem-vindos todos aqueles que começam a estudar Latim este ano ou que o já estudaram em anos passados. As aulas são gratuitas. Poderá haver uma ou duas turmas, dependendo do número e do nível prévio dos alunos, sendo que do horário constarão dois blocos semanais de 1h30 cada. Pede-se a todas as pessoas interessadas que compareçam no Instituto de Estudos Clássicos da FLUC pelas 14h do dia 15/10 para se encontrar um horário viável. Quem não tiver possibilidade de estar presente nessa primeira data, envie-me um email (ver abaixo) com a sua disponibilidade.

Uma iniciativa do Centro de Estudos Clássicos & Humanísticos da Universidade de Coimbra.

Para mais informações:
Miguel Monteiro (CECH): miguelsena em gmail.com
(ou perguntar no Instituto de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Política & Vida


Deixar a família, originalmente para abraçar alguma empresa aventureira e gloriosa, e mais tarde simplesmente para dedicar a vida aos negócios da cidade, exigia coragem, pois era só no lar que o homem se empenhava basicamente em defender a vida e a sobrevivência. Quem quer que ingressasse na esfera política deveria, em primeiro lugar, estar disposto a arriscar a própria vida; o excessivo amor à vida era um obstáculo à liberdade e sinal inconfundível de servilismo. A coragem, portanto, tornou-se a virtude política por excelência, e só aqueles que a possuíam podiam ser admitidos a uma associação dotada de conteúdo e finalidades políticos e que por isso mesmo transcendia o mero companheirismo imposto a todos — escravos, bárbaros e gregos — pelas exigências da vida. A vida «boa», como Aristóteles qualificava a vida da cidadão, era, portanto, não apenas melhor, mais livre de cuidados ou mais nobre que a vida ordinária, mas possuía qualidade inteiramente diferente. Era «boa» exactamente porque, tendo dominado as necessidades do mero viver, tendo-se libertado do labor e do trabalho, e tendo superado o anseio inato de sobrevivência comum a todas as criaturas vivas, deixava de ser limitada ao processo biológico da vida.

Hannah Arendt, A Condição Humana, pp. 45-46
Editora Forense-Universitária, Rio de Janeiro: 1981.(trad.: Roberto Raposo).