domingo, 6 de maio de 2012

Apontamentos Sobre a Antígona de Sófocles §1

Ἐτεοκλέα μέν, ὡς λέγουσι, σὺν δίκης
χρήσει δικαίᾳ καὶ νόμου κατὰ χθονὸς
ἔκρυψε τοῖς ἔνερθεν ἔντιμον νεκροῖς: [23-5]

Por um lado, a Etéocles, ao que dizem, no justo
uso da justiça e da lei, [Creonte] debaixo da terra
escondeu, para ser honrado pelos mortos inferiores.

Ἐτεοκλέα μέν, ὃς πόλεως ὑπερμαχῶν
ὄλωλε τῆσδε, πάντ᾽ ἀριστεύσας δόρι,
τάφῳ τε κρύψαι καὶ τὰ πάντ᾽ ἐφαγνίσαι
ἃ τοῖς ἀρίστοις ἔρχεται κάτω νεκροῖς. [194-7]

Por um lado, Etéocles, que pela cidade alti-lutando
morreu - por esta cidade -, em tudo o melhor com a lança,
num túmulo esconder e todas as honras lhe prestar,
aquelas que descem para os melhores dos mortos.

A primeira das falas transcritas pertence a Antígona, quando dá conta a sua irmã, Ismena, no prólogo da peça, do decreto do rei, Creonte. O texto dá a entender que Etéocles, o irmão que lutou pela cidade, Tebas, foi já enterrado: ἔκρυψε é um aoristo, o tempo pretérito por excelência na gramática grega. Não pode por isso senão espantar quando, na tradução de Marta Várzeas (feita para a encenação de Nuno Carinhas no TNSJ há dois anos atrás), lemos: «A Etéocles mandou sepultar». Certo que é possível ler a frase com um sentido mais-que-perfeito: Creonte mandou sepultar Etéocles, Etéocles já foi sepultado e agora Antígona conta tudo isto à irmã. Todavia, deverá reconhecer-se que o português é ambíguo o suficiente para acolher um outro sentido: Creonte mandou sepultar Etéocles — isso ainda vai acontecer, então: por hora existe tão somente a ordem, mas não a realidade. A tradução de Marta Várzeas torna-se porém mais inteligível quando a entendemos como um esforço para impor à peça alguma coerência. De facto, mais tarde, no primeiro episódio, quando Creonte entra em cena, ele diz que proclamou um édito no sentido de enterrar Etéocles. Guardamos aqui o infinitivo de propósito: o grego tem κρύψαι, um infinitivo aoristo, sendo que o aoristo tem aqui um valor apenas aspectual, e não temporal, ou seja: simplesmente quer-se dizer que a acção de enterrar Etéocles é uma acção única, não continuada. κρύψαι é vulgarmente entendido num sentido futuro e de facto o contexto convida a, se é que não implica, tal. O uso do infinitivo, em que insistimos, permite salvaguardar fragilmente a unidade do texto: Creonte reproduz aqui o édito como o emitiu originalmente, édito que tem apenas dois comandos temporalmente indeterminados: enterrar [Etéocles] | não honrar [Polinices]. A primeira parte pode já ter sido cumprida: o grego talvez (outros mais sábios me esclarecerão) não obrigue a projectar a acção no futuro (ajuda porventura a esta interpretação subtil se não até manhosa o facto de o «[não] honrar [Polinices]» ser κτερίζειν, um infinitivo presente, que aponta para uma acção continuada, não pontual, ao contrário de κρύψαι — contra, porém, pesa o κωκῦσαί que se lhe segue). Reconheço, todavia, que nem eu mesmo estou muito convencido desta leitura, pelo que estou particularmente receptivo a contributos de quem se queira juntar à discussão: afinal Etéocles já foi enterrado? Ou Sófocles pura e simplesmente contradiz-se?

NOTA: segui, para o grego e traduções, a edição de Griffith, salvo para o problemático σὺν δίκης χρήσει δικαίᾳ καὶ νόμου, no primeiro excerto, em que segui a lição de Müller e Jebb. Haveria muito mais a dizer sobre estes dois passos (há escolhas na colocação das palavras que devem ser tidas em atenção e a métrica, ao que diz o comentário, é de suma importância quando confrontada com os versos seguintes sobre Polinices): impõe-se uma explicação do último verso da segunda citação, que só se compreende tendo em mente os ritos fúnebres gregos. Algumas opções de tradução haveriam ainda que ser justificadas, mostrando a complexidade a que se procuram abrir. 

António Gil vencedor do Certamen Horatianum


O aluno português António Gil triunfou recentemente no Certamen Horatianum 2012, competição de traduções a partir do Latim de Horácio realizada em Venosa, Itália. Muitos parabéns ao António Gil, e sinant dii haec multo pluries iterari!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

É Já Amanhã

ESTREIA
As Suplicantes, de Ésquilo, pelo Thíasos
Museu Machado de Castro, Coimbra, 21h30
precedido de
dia de conferências sobre a peça:

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Aristóteles VS Acordo Ortográfico

Da mesma maneira não pode haver deliberação sobre as ciências rigorosas e auto-suficientes, como por exemplo sobre a ortografia (pois não temos dúvidas sobre o modo como haveremos de escrever).

καὶ περὶ μὲν τὰς ἀκριβεῖς καὶ αὐτάρκεις τῶν ἐπιστημῶν οὐκ ἔστι βουλή, οἷον περὶ γραμμάτων - οὐ γὰρ διστάζομεν πῶς γραπτέον.

Aristóteles. Ethica Nicomachea III.1112b1. Tradução minha.

domingo, 29 de abril de 2012

They Told Me You Were a Scholar

A Man For All Seasons (1966), de Fred Zinnemann, vencedor de seis óscares no seu ano, entre os quais o de melhor filme, ainda que seja uma produção clássica de Hollywood, absolutamente convencional na sua gramática, com uma narrativa linear mas um guião inteligente. Sucumbiria, porém, não fora a força dos seus actores, que dão ao filme muito da sua glória. Margaret, de seu nome de casada Margaret Roper, foi uma das mulheres mais cultas do século XVI, tendo-se correspondindo com Erasmo (chegou a descobrir um erro no latim deste, uma vez), cuja obra Precatio Dominica traduziu para inglês aos dezanove anos. A ela devemos ainda a conservação dos textos (sobretudo as famosas cartas) do tempo da prisão do seu pai (Thomas More). A wikipedia alemã tem um extenso artigo sobre ela, em que os curiosos poderão, com a ajuda do Google Translate, encontrar mais informações. 

sábado, 28 de abril de 2012

O Que Lêem Os Nossos Políticos

A presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, defende que a União Europeia deve “olhar para todos os Estados membros com a mesma isenção e neutralidade com que Homero na sua Ilíada tratou Aquiles e Heitor, gregos e troianos”.

Do lado troiano, sobressai em toda a sua grandeza a figura de Heitor, ao mesmo tempo heróica e humana. É modelo de filho, de marido, de pai, de cidadão. Luta pelo seu país e pela sua família, não apenas para alcançar honra pessoal, como Aquiles. Este tratamento do herói máximo da facção inimiga é a mais antiga prova da imparcialidade — direi mesmo, da superioridade moral grega*. Não será a última.
*Quando Heitor morre às mãos de Aquiles, e os Aqueus finalmente ousam aproximar-se para o verem de perto, o seu primeiro movimento é de admiração pela beleza física do inimigo (XXII.367-371)

Maria Helena Rocha Pereira, 
Estudos de História da Cultura Clássica - I Volume: Cultura Grega.
Gulbenkian, Lisboa: 2006 (pg. 78).

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Colóquio: Revisitar o Mito


COLÓQUIO INTERNACIONAL
REVISITAR O MITO

2-5 de Maio, 2012
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Entrada Livre
Para inscrição com direito a pasta de materiais e certificado de presença: 25€

Conferencistas Plenários
Arthur W. Frank (University of Calgary)
Emilio Suarez (Universitat Pompeu Fabra)
Marina Warner (University of Essex)
Alessandro Zironi (Università di Bologna)

Zeus Egipto Io Dânao Argos Ésquilo Thíasos

[clicar para ampliar]

EM TORNO DAS DANAIDES
Colóquio a propósito da estreia das Suplicantes de Ésquilo pelo Thíasos 
Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra 
4 de Maio de 2012 

PROGRAMA
10h: Cocktail de abertura
10h30: Maria do Céu Fialho (UC): Eros e identidade nas “Suplicantes” de Ésquilo 
11h: Frederico Lourenço (UC): Canto e lirismo nas “Suplicantes” de Ésquilo
11h30: Maria de Fátima Sousa e Silva (UC): Efeitos de cena nas “Suplicantes” de Ésquilo
12h: Carlos A. Martins de Jesus (UC): Além de Ésquilo: a catarse das Danaides na literatura e nas artes plásticas (Leitura diacrónica e intersemiótica)
12h30: Discussão alargada
13h-14h30: Almoço
14h30: Lia Nunes (encenadora): “As Suplicantes” em cena: tragédia e políticas de uma súplica. 
15h: Mesa redonda com o tradutor, a encenadora, os atores e a restante equipa da peça.

21h30: As Suplicantes de Ésquilo, pelo Thíasos (estreia) – entrada livre. 

terça-feira, 24 de abril de 2012

Their Minions

Edward II (1991), de Derek Jarman
Nephew, I must to Scotland: thou stayest here. 
Leave now to oppose thyself against the King: 
Thou seest by nature he is mild and calm; 
And seeing his mind so dotes on Gaveston, 
Let him without controlment have his will. 
The mightiest Kings have had their minions 
Great Alexander loved Hephaestion, 
The conquering Hercules for Hylas wept, 
And for Patroclus stern Achilles droop'd. 
And not kings only, but the wisest men; 
The Roman Tully loved Octavius, 
Grave Socrates wild Alcibiades. 
Then let his grace, whose youth is flexible, 
And promiseth as much as we can wish, 
Freely enjoy that vain lightheaded earl; 
For riper years will wean him from such toys.

Marlowe, Edward II, Acto I, Cena IV

segunda-feira, 23 de abril de 2012

[C3 #2] Ciclo Clássicos no Cinema: 'Violência e Paixão', de Luchino Visconti (1974)

O ciclo Clássicos no Cinema continua agora com Violência e Paixão (1974) de Luchino Visconti, depois da apresentação na semana passada de Sebastiane. Como já antes aqui explicáramos, a sessão inclui  uma apresentação do filme escolhido pelo próprio convidado, José Pedro Serra neste filme, complementada, após a visualização do próprio filme, pelos comentários iniciais de Ana Maria Tarrío e de Victor Gonçalves.



VIOLÊNCIA E PAIXÃO, de Luchino Visconti (1974)
apresentado por José Pedro Serra
com Ana María Tarrío e Victor Gonçalves no debate final

26 de Abril, 16h
Sala de Vídeo, Faculdade de Letras, Lisboa