quinta-feira, 10 de maio de 2012

O Privado & A Cidade no 'Íon' de Eurípides: Uma Sugestão Sem Compromisso

Estive há duas semanas atrás num colóquio intitulado Narrativas do Poder Feminino, na Faculdade de Filosofia da Católica de Braga. Mária de Fátima Silva, conhecida pelas suas traduções de Aristófanes, boa comunicadora, falou sobre o Íon de Eurípides, peça-protótipo de toda a novela mexicana. Não pude deixar de a questionar em relação ao final deste late romance euripideano. A professora insistira particularmente no sofrimento de Creúsa, que vive a desonra feminina maior: o opróbrio da esterilidade, vendo mais: que, por causa disso, o marido, para garantir a sucessão do trono, terá de reconhecer um dos seus filhos bastardos, para mais de sangue bárbaro, como o pai. No fim, Apolo, por meio de outros deuses, que escolhe como seus mensageiros, faz perceber Creúsa que o rapaz que Xuto reconhece como filho de uma ligação anterior é, na realidade, filho da princesa e do deus: não só Creúsa, portanto, não é estéril (uma felicidade para ela como mulher), como quem herdará o trono será um ateniense de gema (um consolo para ela como rainha orgulhosa da sua terra). Todavia, Xuto, exige o deus, deverá permanecer na ignorância de tudo isto e pensar que Íon é o fruto de um antigo affair (ou de uma simples noite). 

A minha pergunta era simples: visto que a verdade, por ordem de Apolo, deve ser mantida em segredo, então, temos de admitir, Creúsa continuará a ser vítima da desonra social de ser oficialmente infértil, mais: verá a sua posição ainda mais degradada porque, para todos os efeitos, o novo herdeiro não é do seu sangue e, por causa da sua esterilidade, foi necessário ir buscar um rapaz estrangeiro, uma vergonha para Atenas, que se orgulhava da sua autoctonia. A professora falou de como isto, a bem dizer, recuava para segundo plano, pois a Creúsa fora concedido «tocar o privilégio da essência» (isto entrelançava-se com outras reflexões desenvolvidas ao longo do paper apresentado, as quais não podemos aqui reproduzir, para contextualizar a validade da resposta). Não pude, porém, deixar de ficar a pensar nisto e descobri aqui, não querendo regressar à severidade do juízo nietzschiano, o sinal de uma decadência: a esfera do privado triunfara sobre a do público, ao ponto desta última poder ser desprezada pelo sujeito, satisfeito com a sua verdade íntima. Se, com Sófocles, na Antígona, emergira, de forma violenta, a ruptura entre o sujeito e a cidade, mas esta oposição era ainda o material de uma tragédia a sério, porque o dramaturgo e os espectadores, educados na unidade das duas dimensões, que Ésquilo de alguma forma ilustra, sentiam tal tensão como perturbadora, já no Íon, pelo contrário, o privado superiorizou-se pacificamente e a comunidade recuou para um segundo plano onde recebe apenas a importância que eu lhe resolvo conceder. Não sei se esta intuição tem algum futuro, sequer se é, perspectivada globalmente, sustentável, mas não quis deixar de a partilhar, para suscitar ao pensamento, ou morrer já. 

II Congresso da Secção Mediterrânea da PSI: Programa Provisório












Está já disponível o programa provisório do II Congresso da Secção Mediterrânea da Sociedade Internacional de Platonistas, dedicado ao Parménides de Platão. O congresso decorrerá na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, entre 14 e 16 de Junho. Teremos entre nós alguns dos melhores platonistas (uma tribo ínclita e peculiar) da Europa, entre os quais Luc Brisson, Maurizio Migliori e Néstor Cordero. Comecem já a apontar algumas conferências nas vossas agendas.

Cursos de Verão do CEC-FLUL


Recepção da Antiguidade Clássica na Literatura Portuguesa 
com preço de desconto para estudante
4 de Junho a 18 de Julho de 2012 (2.ª e 4.ª-feira)
Saber mais 


Introdução ao Latim 
com preço de desconto para estudante 
5 de Junho a 19 de Julho de 2012 (3.ª e 5.º-feira) 
Saber mais 


Falar em público 
5 de Junho a 29 de Junho (3ª e 6ª-feira) 
Saber mais 


Lendas de Roma 
5 de Junho a 21 de Julho de 2012 (3.ª-feira, 5.ª-feira e sábado) 
Saber mais 


Textos e Mitos da Antiguidade Clássica - Ecos de uma Herança Cultural
5 de Junho a 21 de Julho de 2012 (3.ª-feira, 5.ª-feira e sábado)
Saber mais 


Paleografia Grega 
18 a 28 de Junho de 2012 (2.ª, 3.ª, 5.ª e 6.º-feira)
Saber mais 


Retórica 
18 a 28 de Junho de 2012 (2.ª, 3.ª, 5.ª e 6.º-feira) 
Saber mais

Celebrações do Dia da Latinidade (15/05, FLUL)

[clicar sobre a imagem para ampliar]
A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a União Latina organizam no próximo dia 15 o Dia da Latinidade. A cerimónia evocativa da data, a decorrer no Anfiteatro II da FLUL, seguirá o seguinte programa: 

17h: Alocuções do Director da FLUL, do Representante da União Latina, do Presidente do Plano Nacional de Leitura, do Vice‑Presidente do Instituto Camões e do Presidente do Júri do Concurso [vide infra] 

17h30: Entrega dos Prémios do Concurso Diálogo Latino aos Alunos e às Escolas 

18h [Anfiteatro I]: Representação teatral “As Suplicantes” de Ésquilo, pelo grupo Thíasos (Coimbra)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

George Steiner, τί ἡ εὐδαιμονία;

Ce qui est mon bonheur, aujourd'hui,


il est simple, être seul, m'asseoir et lire des commentaires sur Platon...


J'aimerais que le souvenir que l'on garde de moi soit celui d'un maître à lire, de quelqu'un qui a passé sa vie à lire avec les autres. Un lecteur, un auditeur, qui se sent avant tout européen, et qui s'est posé de plus en plus de questions. Celle-ci par exemple: «L'espérance serait-elle une erreur?» À méditer. J'aimerais également laisser ce message aux jeunes lecteurs: «Ne jamais négocier vos passions!» Mais pour terminer sur une note moins sombre, je vais vous confier, en parodiant Samuel Beckett, que j'appelle «le virtuose de Babel», ce qui est mon bonheur, aujourd'hui ; il est simple: être seul, m'asseoir et lire des commentaires sur Platon… C'est très British, n'est-ce pas?


Mas não consigo evitar ficar um pouco apreensivo com este tom: e tenho medo.

Louvada Seja a Grécia, Theodorakis

11.20am The renowned composer Mikis Theodorakis last night expressed his support for Syriza and the efforts of its leader, Alexis Tsipras, "to form a government that will terminate the memorandum and will seek to recover our country's national sovereignty". He was speaking after a meeting with Tsipras, Manolis Glezos MP and constitutional law expert Yiorgos Kassimatis. Theodorakis called on all "patriots" and "creative Greeks" to assist in bringing Greece to self-sufficiency, progress and rebirth.


Theodorakis é famoso entre outros por ter composto a banda sonora de Alexis Zorba (1964) e musicado o sublime poema de Odysseas Elytis Το Άξιον Εστί - Louvada Seja (1959), composição de liturgia nacional (lembrando, multis mutatis mutandis, a nossa Mensagem) traduzido para português por Manuel de Resende, e já aqui lembrado.

Repito aqui a primeira parte, como que um hymno de Athena que inspire a Grécia nestes finsteren Zeiten.


terça-feira, 8 de maio de 2012

Waiting for the Benedictines


It is always dangerous to draw too precise parallels between one historical period and another; and among the most misleading of such parallels are those which have been drawn between our own age in Europe and North America and the epoch in which the Roman empire declined into the Dark Ages. Nonetheless certain parallels there are. A crucial turning point in that earlier history occurred when men and women of good will turned aside from the task of shoring up the Roman imperium and ceased to identify the continuation of civility and moral community with the maintenance of that imperium. What they themselves set to achive instead —often not recognizing fully what they were doing— was the construction of new forms of community within which the moral life could be sustained so that both morality and civility might survive the coming ages of barbarism and darkness. If my account of our moral tradition is correct, we ought also to conclude that for some time now we too have reached that turning point. What matters at this stage is the construction of local forms of community within which civility and the intellectual and moral life can be sustained through the dark ages which are already upon us. And if the tradition of the virtues was able to survive the horrors of the last dark ages, we are not entiretly without grounds for hope. This time however the barbarians are not waiting beyond the frontiers, they have already been governing us for quite some time. And it is our lack of consciousness of this that constitutes part of our predicament. We are waiting not for a Godot, but for another —doubtless very different— St. Benedict.

Alasdair MacIntyre. After Virtue. Bloomsbury (2007)

[FLUP] Symbolon VI - Ira e Indignação

segunda-feira, 7 de maio de 2012

[C3 #3] Ciclo Clássicos no Cinema: 'The Browning Version', de Anthony Asquith (1951)


Após as exibições dos filmes Sebastiane e Violência e Paixão, a penúltima sessão a ter lugar em Lisboa dá agora continuidade ao ciclo Clássicos no Cinema com o visionamento do filme The Browning Version (1951), de Anthony Asquith. Contará com a presença de João Figueiredo na apresentação e de Sebastião Belfort Cerqueira no comentário final, o qual esperamos ser complementado com a interacção informal da audiência.



THE BROWNING VERSION, de Anthony Asquith (1951)
apresentado por João Figueiredo
com Sebastião Belfort Cerqueira no debate final

9 de Maio, 15h
Sala 2.14,
Faculdade de Letras, Lisboa



Philosophia juvenil - Μειρακιώδης φιλοσοφία)

Lembrei-me disto ao ler este post.


[Sócrates] Repara ainda com quanto ardor e audácia me preparo para afirmar que a Cidade se deva ocupar do estudo da filosofia, exactamente ao contrário do que faz agora.

[Adeimanto] Como assim?

[Sócrates] No presente - disse - os que encetam estes estudos são adolescentes acabados de sair da infância, que no intervalo antes de chegarem à economia doméstica e aos negócios, se aproximam da parte mais difícil e logo dela se afastam - e são estes que são olhados como os melhores filósofos. Pela parte mais difícil entendo a dialéctica. Depois disto, eles julgam fazer muito se, quando convidados, condescendem em ouvir as discussões filosóficas dos outros. É que estão persuadidos de que a filosofia não deve ser mais do que um passatempo. Com a aproximação da velhice e, com raras excepções, a sua luz estingue-se muito mais do que o Sol de Heraclito, na medida em que não se tornam a acender.

[Adeimanto] E o que devem então fazer?

[Sócrates] Precisamente o contrário. Enquanto são adolescentes e crianças devem ocupar-se com uma educação filosófica apropriada à juventude; devem, sobretudo cuidar muito bem dos seus corpos, no tempo em que crescem para a maturidade, assim garantindo o fundamento e o suporte para servir a vida intelectual. Mas com o avanço da idade, quando a alma começa a atingir a maturidade, devem intensificar os exercícios que lhes convêm; e, quando as forças corporais os abandonarem e tiverem passado a idade dos deveres políticos e militares, devem deixar-se, como os animais sagrados, pastar em liberdade, sem outra ocupaçãop séria além da filosofia, excepto como passatempo, caso se deseje que vivam felizes e que, depois da morte, coroem a felicidade da vida que lhes coube com um destino digno no além.



σκόπει δὲ καὶ νῦν ὡς προθύμως καὶ παρακινδυνευτικῶς μέλλω λέγειν, ὅτι τοὐναντίον ἢ νῦν δεῖ τοῦ ἐπιτηδεύματος τούτου πόλιν ἅπτεσθαι.

πῶς;

νῦν μέν, ἦν δ᾽ ἐγώ, οἱ καὶ ἁπτόμενοι μειράκια ὄντα ἄρτι  ἐκ παίδων τὸ μεταξὺ οἰκονομίας καὶ χρηματισμοῦ πλησιάσαντες αὐτοῦ τῷ χαλεπωτάτῳ ἀπαλλάττονται, οἱ φιλοσοφώτατοι ποιούμενοι—λέγω δὲ χαλεπώτατον τὸ περὶ τοὺς λόγους —ἐν δὲ τῷ ἔπειτα, ἐὰν καὶ ἄλλων τοῦτο πραττόντων παρακαλούμενοι ἐθέλωσιν ἀκροαταὶ γίγνεσθαι, μεγάλα ἡγοῦνται, πάρεργον οἰόμενοι αὐτὸ δεῖν πράττειν: πρὸς δὲ τὸ γῆρας ἐκτὸς δή τινων ὀλίγων ἀποσβέννυνται πολὺ μᾶλλον τοῦ Ἡρακλειτείου ἡλίου, ὅσον αὖθις οὐκ ἐξάπτονται.

δεῖ δὲ πῶς; ἔφη.

πᾶν τοὐναντίον: μειράκια μὲν ὄντα καὶ παῖδας μειρακιώδη παιδείαν καὶ φιλοσοφίαν μεταχειρίζεσθαι, τῶν τε σωμάτων, ἐν ᾧ βλαστάνει τε καὶ ἀνδροῦται, εὖ μάλα ἐπιμελεῖσθαι, ὑπηρεσίαν φιλοσοφίᾳ κτωμένους: προϊούσης δὲ τῆς ἡλικίας, ἐν ᾗ ἡ ψυχὴ τελεοῦσθαι ἄρχεται, ἐπιτείνειν τὰ ἐκείνης γυμνάσια: ὅταν δὲ λήγῃ μὲν ἡ ῥώμη, πολιτικῶν δὲ καὶ στρατειῶν ἐκτὸς γίγνηται, τότε ἤδη ἀφέτους νέμεσθαι καὶ μηδὲν ἄλλο πράττειν, ὅτι μὴ πάρεργον, τοὺς μέλλοντας εὐδαιμόνως βιώσεσθαι καὶ τελευτήσαντας τῷ βίῳ τῷ βεβιωμένῳ τὴν ἐκεῖ μοῖραν ἐπιστήσειν πρέπουσαν.

Platão. República 497e-498c. Elísio de Moura (trad).