segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Platão Político: De Aristóteles ao Século XX: A Hermenêutica de um Escândalo

O Grupo Archai: As Origens do Pensamento Ocidental e o Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Brasília (PPG-FIL/UnB) promovem a III Escola Archai de Altos Estudos da CAPES organizada por Gabriele Cornelli. Ao longo deste mês e do próximo, Mario Vegetti, da Universidade de Pavia, Itália, falará sobre a recepção do pensamento político de Platão ao longo dos tempos, no que promete ser um ciclo de sessões de grande qualidade. Os vídeos das aulas serão disponibilizados online, podendo ser descarregados aqui. Eis o sumário do curso:

11 out: Platão político
18 out: Intérpretes e críticos de Aristóteles à Renascença
19 out: Às origens da Modernidades: Kant e Hegel
20 out: Liberais e socialistas na Europa do século XIX
25 out: De Wilamowitz ao Platão nazista
26 out: O Platão anglosaxão de Russell a Popper
01 nov: As defesas de Platão contra Popper: Platão apolítico?
03 nov: Platão e a utopia hoje

domingo, 17 de outubro de 2010

XIII

Ouves, amada, a alegre gritaria vinda da Via Flamínia?
São ceifeiros, regressam de novo a suas casas,
Longe daqui. Concluíram a colheita para o Romano,
Que não se baixa sequer para tecer uma coroa de flores para Ceres.
Já não se dedicam festas à grande Deusa
Que não dava bolotas como alimento, mas o trigo doirado.
Celebremos aqui em silêncio e alegria a nossa festa:
Dois seres que se amam muito, em vez do povo reunido.
Alguma vez ouviste falar daquela cerimónia mística
Que outrora acompanhava o vencedor de Elêusis até aqui?
Os Gregos criaram-na, e mesmo entre os muros de Roma
Só os Gregos chamavam sempre: «Venham à noite sagrada!»
E então fugia o profano, e à espera tremia o noviço
Que um hábito branco, símbolo de inocência, envolvia.
Assombrosos círculos de figuras estranhas
Confundiam o iniciado como se num sonho flutuasse, pois
No santuário serpenteavam cobras e moças passavam,
Coroadas de flores e espigas, trazendo nas mãos cofres fechados.
Com gestos ambíguos os sacerdotes sussuravam,
Impaciente e receoso o aprendiz ansiava por luz.
Só após muitas provas, voltando muitas vezes, ele soube
O que o círculo sagrado ocultava em estranhas imagens.
E qual era o segredo? Que também a grande Deméter
De bom grado se deitou um dia de costas
Quando cedeu ao nobre Iásion, o vigoroso rei dos Cretenses,
O doce segredo do seu corpo imortal.
Como se regozijou Creta, pois o leito nupcial da Deusa
Estava repleto de espigas e o campo pejado de trigo.
Mas o resto do mundo passava fome, pois no deleite
Do amor Ceres faltava ao seu belo ofício.
Cheio de espanto o iniciado ouviu a lenda,
Fez sinal à amada — Entendes tu agora, amor, o sinal?
Segue-me depressa até ao canavial no fundo da vinha,
O nosso prazer não traz perigo ao mundo.

Goethe, Erotica Romana
Cavalo de Ferro, Lisboa: 2005. (trad.: Manuel Malzbender)

[Hörest du, Liebchen, das muntre Geschrei den Flaminischen Weg her?
Schnitter sind es; sie ziehn wieder nach Hause zurück,
Weit hinweg. Sie haben des Römers Ernte vollendet,
Der für Ceres den Kranz selber zu flechten verschmäht.
Keine Feste sind mehr der großen Göttin gewidmet,
Die, statt Eicheln, zur Kost goldenen Weizen verlieh.
Laß uns beide das Fest im stillen freudig begehen!
Sind zwei Liebende doch sich ein versammeltes Volk.
Hast du wohl je gehört von jener mystischen Feier,
Die von Eleusis hieher frühe dem Sieger gefolgt?
Griechen stifteten sie, und immer riefen nur Griechen,
Selbst in den Mauern Roms: »Kommt zur geheiligten Nacht!«
Fern entwich der Profane; da bebte der wartende Neuling,
Den ein weißes Gewand, Zeichen der Reinheit, umgab.
Wunderlich irrte darauf der Eingeführte durch Kreise
Seltner Gestalten; im Traum schien er zu wallen: denn hier
Wanden sich Schlangen am Boden umher, verschlossene Kästchen,
Reich mit Ähren umkränzt, trugen hier Mädchen vorbei,
Vielbedeutend gebärdeten sich die Priester und summten;
Ungeduldig und bang harrte der Lehrling auf Licht.
Erst nach mancherlei Proben und Prüfungen ward ihm enthüllt
Was der geheiligte Kreis seltsam in Bildern verbarg.
Und was war das Geheimnis! als daß; Demeter, die große,
Sich gefällig einmal auch einem Helden bequemt,
Als sie Jasion einst, dem rüstigen König der Kreter,
Ihres unsterblichen Leibs holdes Verborgne gegönnt.
Da war Kreta beglückt! das Hochzeitbette der Göttin
Schwoll von Ähren, und reich drückte den Acker die Saat.
Aber die übrige Welt verschmachtete; denn es versäumte
Aber der Liebe Genuß Ceres den schönen Beruf.
Voll Erstaunen vernahm der Eingeweihte das Märchen,
Winkte der Liebsten - Verstehst du nun, Geliebte, den Wink?
Jene buschige Myrte beschattet ein heiliges Plätzchen!
Unsre Zufriedenheit bringt keine Gefährde der Welt.]

imagem: Temple of Ceres at Eleusis, de Joseph Gandy (1818)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Não sei se já «postáramos» isto

Pré-Socráticos #7: Os Sofistas

Sétima e última sessão do ciclo Tertúlias Pré-Socráticas, promovido pela associação Origem da Comédia. Maria Teresa Schiappa fala-nos dos sofistas, o nome genericamente atribuído a uma série de filósofos que, no século V a.C., revolucionaram o panorama intelectual de Atenas. Homens viajados e de grande cultura, procederam a uma intrincada reforma do sistema de cultura-educação grego fundado em moldes de pensamento político e linguístico, abandonando assim as especulações cosmológicas dos outros pré-socráticos. Protágoras, um dos mais famoso dentre eles, é o autor da célebre afirmação: «O Humano é a medida de todas as coisas», frase que ilustra bem o seu antropocentrismo, mas também o relativismo que marcou esta geração, bem mais céptica que as anteriores. Sessão decorrida no dia 5 de Maio de 2010, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Quidquid Latine, Altum Videtur

But how shall I account, illustrious fay,
For thine imperial absence? Pho, I can
Say you are very sick, and bar the way
To your so loving courtiers for one day.
If either of their two archbishops' graces
Should talk of extreme unction, I shall say
You do not like cold pig with Latin phrases,
Which never should be used but in alarming cases.

Keats, The Cap and the Bells or, The Jealousies, LX

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Conselho aos Poetas


Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero. (Ricardo Reis)

Talvez a Ilíada não seja um livro, mas a própria ideia de literatura, e todos os outros livros reescrevam incessantemente alguma estrofe ou algum verso seu. (Manuel António Pina, na contracapa da edição da Ilíada, da Cotovia, 2005).

Martha Nussbaum on Aristotle, ou, o Youtube é só para gatos


Não esquecer ver as outras variegadas playlists desta conta.

O Menino Agostinho na Escola (Traumas de Infância), ou Zaratustra Contra A Consciência Infeliz

Raríssimos são os que nenhumas penas sofrem nesta vida mas apenas depois dela. Todavia, nós próprios conhecemos e ouvimos falar que tem havido alguns que nunca sentiram nem sequer a mais leve ponta de febre e levaram uma vida tranquila até à decrépita velhice. Contudo, a própria vida dos mortais é toda ela uma pena, porque toda ela é tentação, como o proclamam as Sagradas Escrituras onde está escrito: «Não é certo que a vida do Homem sobre a terra é uma tentação?». Efectivamente, não é pequena pena a própria ignorância ou inexperiência que com razão se procura evitar ao ponto de se obrigarem as crianças, com castigos prenhes de dor, a aprenderem as artes e as letras — e o próprio facto de aprenderem, a que são obrigados com castigos, é-lhes de tal forma penoso que por vezes preferem suportar esses castigos com que os obrigam a aprender, a terem de aprender. Quem é que não fica horrorizado e prefere morrer se lhe for proposto ou a morte ou repetir de novo a infância? O próprio facto de esta começar a tecer a teia da vida, não com risos mas com choros, anuncia de certo modo, sem saber, os males em que acaba de entrar. Ao que se diz, só Zoroastro é que se riu ao nascer.

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro XXI, Cap. XIV
Gulbenkian, Lisboa: 1995. (trad.: J. Dias Pereira).

[Rarissimi sunt autem qui nullas in hac uita, sed tantum post eam poenas luunt. Fuisse tamen aliquos, qui usque ad decrepitam senectutem ne leuissimam quidem febriculam senserint quietamque duxerint uitam, et ipsi nouimus et audiuimus; quamquam uita ipsa mortalium tota poena sit, quia tota temptatio est, sicut sacrae litterae personant, ubi scriptum est: Numquid non temptatio est uita humana super terram? Non enim parua poena est ipsa insipientia uel inperitia, quae usque adeo fugienda merito iudicatur, ut per poenas doloribus plenas pueri cogantur quaeque artificia uel litteras discere; ipsumque discere, ad quod poenis adiguntur, tam poenale est eis, ut nonnumquam ipsas poenas, per quas compelluntur discere, malint ferre quam discere. Quis autem non exhorreat et mori eligat, si ei proponatur aut mors perpetienda aut rursus infantia? Quae quidem quod non a risu, sed a fletu orditur hanc lucem, quid malorum ingressa sit nesciens prophetat quodam modo. Solum, quando natus est, ferunt risisse Zoroastrem]

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Alexandria Ad Aegyptum

ALEXANDRIA AD AEGYPTUM
A experiência do multiculturalismo na Antiguidade
21 e 22 de Outubro 2010
Anfiteatro nobre (FLUP).
Entrada gratuita.

21/10
09:00 — Abertura

09:30 — No Encalço da Fundação de Alexandria, de Maria de Fátima Sousa e Silva (UC)
10:00 — Os Ptolomeus: uma dinastia mal-amada e mal conhecia, de José das Candeias Sales (Univ. Aberta)
10:30 — The Alexandria Project, de Omnia Mounir Fathallah (Bibliotheca Alexandrina)

11:00 — Intervalo

11:30 — A Obra Historiográfica de Maneton, de Luís Manuel de Araújo (UL)
12:00 — Alexandria em Festa: Mobilidade, Lazer e Arte na Época Helenística, de Luísa de Nazaré Ferreira (UC)

12:30 — Almoço

14:30 — Identidade e Cosmopolitismo: o politeuma judaico de Alexandria, de Delfim Leão (UC)
15:00 — Hermes Trimegisto e as rotas cruzadas da filosofia oculta, da ciência e da linguagem, de Filomena Vasconcelos (UP)
15:30 — A Alexandria de Fílon em Fílon de Alexandria, de Manuel Alexandre Júnior

16:00 — Intervalo

16:30 — Os Calendários do Antigo Egipto, de Telo Canhão (UL)
17:00 — A Astronomia Alexandrina, de Henrique Leitão (UL)
17:30 — A Matemática de Alexandria: a nossa matemática, de Jorge Nuno Silva (UL)

18:00 — Inauguração da exposição de fotografia A Cor e a Luz: detalhes de uma fascinação egípcia, coordenada por Maria do Carmo Serén (Biblioteca Central)

22/10
09:30 — Os Septuaginta e a helenização da tradição judaica, de José Augusto Ramos (UL)
10:00 — A origem alexandrina do Evangelho (gnóstico) segundo São João, de Ricardo Tavares (Univ. Católica)
10:30 — Hipácia e as particularidades do cristianismo egípcio: causas para a incomunicabilidade, de Paula Barata Dias (UC)

11:00 — Intervalo

11:30 — Cosmopolitan trands in the arts of Ptolemaic Alexandria, de Mona Haggan (Univ. Alexandria)
12:30 — O retrato e o realismo da escultura no período helenístico, de José Ribeiro Ferreira (UC)

12:30 — Almoço

14:30 — Apolónio de Rodes e o universo dos Argonautica, de Maria do Céu Fialho (UC)
15:00 — Calímaco e os novos caminhos do mito, de Marta Várzeas (UP)
15:30 — Tradição e identidade em Lícofron, de Jorge Deserto (UP)

16:00 — Intervalo

16:30 — Alexandria na literatura latina clássica, de Maria Cristina Pimental (UL)
17:00 — O Culto de Ísis em Roma, de Cláudia Teixeira (Univ. Évora)
17:30 — Entre o Museu e a Biblioteca de Alexandria, de Maria Helena da Rocha Pereira (UC)

18:00 — Encerramento

18:30 — Joclécio Azevedo: performance «Alexandria: Fragmentos» (Biblioteca Central)

imagem: fotograma de Ágora, de Amenábar (2010)
reconstituição da ágora de Alexandria em 391 d.C.

Vantagens da Educação Clássica

Quem na infância leu Horácio no original, ainda que penosamente, poderá, adulto, escrever versos sem metro, ou sequer ritmo regular, mas qualquer equilíbrio íntimo haverá nesses versos que não conseguiria dar-lhes quem não teve esse passado, ainda que formalmente esquecido.

A educação clássica na infância equivale à boa-educação, como vulgarmente se diz, recebida nessa mesma infância. Quem foi bem-educado na infância pode esquecer as boas-maneiras, pode esquecer a etiqueta: o que não esquece é a civilidade, que é o fundamento de ambas.

Quem teve uma educação clássica pode vir a esquecer o latim ou o grego, seus principais veículos, pode perder a firmeza de um e a perspicuidade (harmonia) do outro; contra certos vícios de dicção, contra certas falhas de gosto, terá ficado vacinado. E o que são, na prosa ou no verso, a dicção e o gosto, senão a civilidade da literatura, de que a perspicuidade é só as boas-maneiras e a regularidade só a etiqueta?

Tudo isto, é claro, são generalidades. Há quem tenha um natural bom-gosto e um jeito elegante de dicção, sem que tenha tido uma educação clássica. Há, mas são casos raros. Há quem, tendo tido uma educação clássica cometa faltas de gosto ou, mais raramente, de dicção. Há, mas são excepções. Mas do mesmo modo há indivíduos naturalmente civis e cortezes, sem que beneficiassem na infância da chamada boa-educação.


imagem: Horácio e Lídia, de John Collier