quinta-feira, 13 de maio de 2010

De novo Prometeu

Acerca de Prometeu contam-se quatro lendas. De acordo com a primeira, depois de ter atraiçoado os deuses em favor dos homens, foi agrilhoado ao Cáucaso, os deuses mandavam águias para lhe devorarem o fígado que sempre novamente voltava a crescer.

De acordo com a segunda, por causa da dor das bicadas Prometeu encostou-se cada vez mais à rocha até se tornar uma só coisa com ela.

De acordo com a terceira, com o correr dos milénios a sua traição foi esquecida, esqueceram-no os deuses, as águias, ele mesmo.

De acordo com a quarta, todos se cansaram daquilo tudo que não tinha mais razão de ser. Cansaram-se os deuses, as águias cansaram-se, a ferida, cansada, fechou.

Restou a inexplicável montanha rochosa. — A lenda tenta explicar o inexplicável. Visto que teve origem num fundo de verdade, teve acabar de novo no inexplicável.

Kafka, Racconti Postumi, tradução minha a partir do italiano

De novo sobre Nortistas e Sulistas

Pegando na citação do João numa das entradas anteriores, a respeito da eternidade dos deuses gregos tenho a relembrar o mister Shelley que, se o respeitamos por ter dito "We are all Greeks." então também teremos de respeitar no que ao que mitologia diz respeito: No seu Prometheus Unbound essa suposta constância divina não existe, Zeus é derrotado, e Demigorgon assume-lhe o trono. A monarquia dos céus é ciclicamente alterada. E, de novo, até que ponto é que a situação é assim tão alien à figuração grega? N'As Nuvens de Aristóteles também Zeus (que está por toda a hierarquia celeste) é substituido pelo "Vortex": é comédia, sim, é alegoria, sim: mas não é impensável.

Quando é que se terão perdido definitivamente as duas outras partes da trilogia de Prometeu, da qual apenas nos resta o Prometeu Agrilhoado (que, como já foi apontado, foi hoje apresentado em Lisboa e sê-lo-á amanhã em Coimbra)? Fantasiemos que terá sido cedo: com que situação bizarra, inconcebível, ímpia se depararia um grego ao ler um dos maiores tragediógrafos a colocar tão possível o destronar de Zeus? E a contingência de toda a ordem olímpia por arrastamento?

Arde o Etna porque Tífon ainda lá se espasma. O destroço duma geração passada, divina, assim na Terra como no Céu, permanece presente como a ruína duma coluna antiga permanece presente: a presença dos deuses não está em causa. A afirmação inicial da entrada do João, "contrast the 'inhumanness' of the Greek gods, however antropomorphic, with the 'humanness' of the Northern, however titanic", faz-me porém lembrar a fase final do Ragnarok, em que após a destruição de gigantes e de bestas, de Valhalla e da própria criação inteira, nasce dessa ambrósia derretida um casal, como se o sacrifício mortal daquilo que há de mais humano-transcendente se justificasse à luz do que está para vir, casal esse que se depara com um mundo que é todo ele possibilidade e limpidez, mas onde não existe mais a segurança do destino apocalíptico por-vir. Alterando Hölderlin, "Allein zu seyn, / und ohne Götter, ist das Leben." (Estar sozinho, e seu deuses, é Vida.) Talvez esses dois sejam (tenham sido? venham a ser?) os verdadeiramente primeiros "condenados a ser livres" sem nada quer de obstáculo quer de Lei que os constrinja, liberdade essa que na teologia cristã virá a ser reservada para Deus, ou, como diria o senhor Ž, "o Filho não estava presente em Deus antes da Encarnação, aí sentado ao seu lado. A Encarnação é o nascimento [ou seja, o tornar-se humano] de Cristo, e depois da sua morte, não há Pai nem Filho, mas  "só" o Espírito Santo, a substância espiritual da comunidade religiosa."

Haja optimistas

There is one quality which unites all great and perdurable writers, you don't NEED schools and colleges to keep 'em alive. Put them out of the curriculum, lay them in the dust of libraries, and once in every so often a chance reader, unsubsidized and unbribed, will dig them up again, put them in the light again, without asking favours.

Virgil was the official literature of the middle ages, but 'everybody' went on reading Ovid. Dante makes all his acknowledgements to Virgil (having appreciated the best of him), but the direct and indirected effect of Ovid in Dante's actual writing is possibly greater than Virgil's.

Ezra Pound, The ABC of Reading, New Directions Paperbooks (1934)

Rorty sobre a incerteza


(Retirado da série de documentários, que eu não vi, intitulada Of Beauty and Consolation)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

'Tragedy, Pure and Simple', de George Steiner


As I listen, endlessly, to debates on the Poetics and the new editions (of these, too, there is no end), I am prepared to wager that the young man who took the notes at Aristotle's lecture was sitting very near the door on a very noisy day.
George Steiner, 'Tragedy, Pure and Simple'
in M. S. Silk (ed.), Tragedy and the Tragic. Oxford, Clarendon: 1996.

Sou hoje capaz de afirmar, sem medo, que Steiner é o maior intelectual europeu vivo. Sinto-me honrado de lhe ter podido dirigir a palavra ainda no final do ano passado (para pedir que assinasse o meu exemplar do After Babel), em Viseu, e de o ter podido ouvir falar sobre a condição humana (o tema da sua intervenção). Este senhor, que andou recentemente a ler o Lessons of the Masters e não deixou de partilhar comigo alguns trechos, voltou a despertar-me o desejo de, mais uma vez, regressar a Steiner. Foi por acaso que, ao pesquisar material para um trabalho sobre a Antígona, encontrei este ensaio, donde foi retirada a nota acima (nota cinco, para os interessados). Trata-se de uma coisa pequena, seis páginas e, todavia, eu, que gastei o dia de ontem e hoje só a ler as dezenas de fotocópias que tirei, dos mais variados livros, não li nada, em todo o molhe de folhas, tão total (puro e simples). A um dado momento, quando Steiner analisa o Tímon de Atenas, de Shakespeare, confesso e deixo-vos rirem-se com o facto, tive de fazer um esforço para conter uma lágrima (eu, que só chorei três vezes na vida com livros — e acreditem que leio muito). Acabei por não conseguir ler nada mais: todos os outros artigos em que pegava me pareciam aborrecidamente baços. Mas, sobretudo, como havia eu de acrescentar o que quer que fosse ao meu espírito depois de o ter preenchido tão plenamente (como diz Milton [12.558-9], também eu tinha já «my fill/ of knowledge, what this vessel can contain»)? Não podia senão esvaziá-lo primeiro e por isso acabei por desistir de tentar ler mais textos e resolvi antes começar a escrever algo para o trabalho, que me libertasse espaço na alma, como numa prateleira já cheia e que temos de rearrumar se queremos arranjar espaço para os novos livros que comprámos na Feira.
Se optei por citar uma nota do artigo de Steiner foi porque, se me atrevesse a bater um qualquer parágrafo do texto, sei que, ao fazê-lo, não conseguiria parar no momento em que devia, e inevitavelmente este post tornar-se-ia numa transcrição integral do texto. Não deixem de o ler: é mais do que uma mera súmula ou introdução à sua tese de doutoramento, The Death of Tragedy (leitura obrigatória para quem ama o teatro), até pelos anos que separam os dois e que abrem espaço à maturação das ideias.

Noite dos Museus

Nos próximos dias 15 e 16 de Maio decorrerá a Noite de Museus, em diversos museus dispersos pela cidade de Lisboa. No dia 15 de Maio, no Museu do Teatro Romano, entre as 21h00 e as 24h00, decorrerá uma leitura de textos de autores clássicos, integrada numa visita ao Museu e estruturas conservadas.
O restante programa está disponível aqui.

Mitologia Comparada


Estas palavras, desconhecidas da maioria dos amantes das coisas clássicas (parecemos perseverar no erro de ignorar o segundo grande filão mitológico da Europa, como os deuses fossem uma criação grega - Ódin nos perdoe a hamartia), quando bem pesadas, não podem senão provocar uma alteração profunda no nosso modo de olhar a mitologia grega.

…we may with some truth contrast the 'inhumanness' of the Greek gods, however antropomorphic, with the 'humanness' of the Northern, however titanic. In the southern myths there is also a rumour of wars with giants and great powers not Olympian [...]. But this war is differently conceived. It lies in a chaotic past. The ruling gods are not besieged, not in ever-present peril or under future doom. Their offspring on earth may be heroes or fair women; it may also be the other creatures hostile to men. The gods are not the allies of men in their war against these or other monsters. The interest of the gods is in this or that man as part of their individual schemes, not as part of a great strategy that includes all good men, as the infantry of the battle. In Norse, at any rate, the gods are within Time, doomed with their allies to death. Their battle is with monsters and the outer darkness. They gather heroes for the last defence. [...] When Baldr is slain and goes to Hel he cannot escape thence any more than mortal man. This may make the southern gods more godlike - more lofty, dread, and inscrutable. They are timeless and do not fear death.

J. R. R. Tolkien, Beowulf: The Monsters and the Critics
(disponível aqui).

imagem: Odin's Last Words To Baldr, de W.G. Collingwood
em The Elder or Poetic Edda. Edited and translated
with introduction and notes by Olive Bray
(1908).

terça-feira, 11 de maio de 2010

Hipólito, amado de Artemisa,
ou Endymion, ou Átis o de Juno,
ou Ganimedes sobre todos eles
a quem nenhuma deusa serviria
modos estéreis da salvação.
Toda a fábula é um encontro, falsa.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987

Acabado de Chegar de Inglaterra, Depois de Escapar à Nuvem do Eyjafjallajökull

No final da introdução, os autores, expondo os critérios para a escolha dos textos, explicam:
Turning to the subject of Christianity, we thought it safe to leave aside, as familiar, matters of its early history and self-definition — likewise, therefore, Eusebius, whose work is readily available in convenient translations. We left out what even small institutional libraries can usually supply — the range of texts of the church fathers, of which several readily accesible series of translations exist.
Ainda a semana passada precisei de consultar as histórias eclesiásticas de alguns autores cristãos do século V e qual não foi o meu espanto ao descobrir que, de acordo com o catálogo online, em toda a universidade não existia senão um exemplar dos ditos cujos livros na Biblioteca Joanina. Valeu-me uma professora, que me deu a conhecer a edição clássica do século XIX dos textos da Patrologia Latina e Grega, escondidos numa obscura sala do Instituto de História Económica e Social (!?), herança dos tempos em que a Faculdade hoje de Letras era a Faculdade de Teologia. Aparentemente, algumas vozes já terão expresso a sua vontade de se livrarem daqueles volumes antigos e poeirentos, que, para mais, ocupam ainda umas quatro estantes inteiras.
Quanto às traduções, escusado será referir que, regra geral, não existem (salvo Santo Agostinho, no INCM). À editora Alcalá devemos o que temos, com a sua colecção Philokalia. Aí, sob a direcção de Isidro Lamelas, começaram a aparecer alguns textos dos primeiros séculos do cristianismo, num projecto, aparentemente abandonado, de que resultaram ainda seis volumes e onde encontramos nomes como Orósio (o Commonitorium e o Livro Apologético), Tertuliano (o Apologeticus) e Clemente Romano (a Carta aos Coríntios), bem como O Pastor, de Hermas, e textos anónimos como o A Diogneto. Infelizmente, é com grande dificuldade que se encontram no mercado, mesmo se existem (não acreditem na Wook). Entretanto, o mesmo Isidro Lamelas lançou na Tenacitas uma tradução dos textos apócrifos de São Paulo em 2009, o que nos obriga a estar atentos à editora de futuro: quiçá teremos mais livros para breve.
Enquanto isso, vamos consumindo as «several readily accesible series of translations» inglesas.

Ainda a Propósito do Post Anterior ou, Como Respeitar Apolo Escrevendo Poemas

Cebas interrompeu-o: — Por Zeus, Sócrates - disse -, ainda bem que me lembras! Trata-se do hino a Apolo e desses poemas que fizeste sobre as fábulas de Esopo: já várias pessoas me perguntaram, entre elas ainda no outro dia Eveno, o que é que se te meteu na cabeça, desde que aqui te encontras, para te dedicares agora à poesia, tu que jamais na vida escreveste um verso! Se, pois, te interessa que eu possa responder a Eveno, da próxima vez que mo perguntar - pois não tenho dúvidas de que o fará - explica-me lá então o que devo dizer-lhe.
— Pois bem, Cebes - redarguiu Sócrates -, diz-lhe a verdade! Que não foi intenção minha competir com ele ou com os seus poemas (nem isso seria fácil, sabia-o bem...), mas tão-só certificar-me do significado de certos sonhos e desquitar-me de um dever religioso, caso fosse esta a espécie de "música" que me mandavam praticar. Eis, em linhas gerais, os factos: frequentes vezes ao longo da minha vida me visitava o mesmo sonho, ora sob uma ora sob outra visão, mas sempre com as mesmas palavras: "Sócrates, compõe, pratica a arte das Musas!". Ora este sonho, tomava-o eu no passado como um advertência, um incitamento em ordem a prosseguir a minha linha de acção: tal como se estimulam os atletas de corrida (pensava), assim também o sonho me estimulava a prosseguir neste mesmo género de actividade que pratico, ou seja, a música, visto que a filosofia é a mais alta forma de música e outra não era, justamente, a minha ocupação. Agora, porém, que o julgamento foi já, e que as festas em honra do deus [Apolo] me impediram de morrer, fiquei a pensar comigo se não seria esse o tipo comum de "música" que o sonho me prescrevia, e achei conveniente voltar-me então para a poesia, para, no caso de assim ser, não cair em desobediência. Era, efectivamente, mais seguro não partir nem me desquitar desse dever de compor poemas, seguindo as prescrições do sonho. Foi assim que comecei por fazer um hino ao deus em honra de quem se realiza a apresente festa: a seguir ao hino, pensei, contudo, que o poeta, para ser verdadeiramente poeta, deve criar ficções e não argumentos; ora eu não era, pessoalmente, um criador de ficções... E eis porque peguei nessas histórias mais acessíveis, que sabia de cor - as fábulas de Esopo - e passei para verso as primeiras que se me depararam. Aí tens pois, Cebes, o que explicarás a Eveno.

Platão, Fédon [60d-61b]
Lisboa, Lisboa Editora: 2004. (trad.: Teresa Schiappa)

[ὁ οὖν Κέβης ὑπολαβών, νὴ τὸν Δία, ὦ Σώκρατες, ἔφη, εὖ γ᾽ ἐποίησας ἀναμνήσας με. περὶ γάρ τοι τῶν ποιημάτων ὧν πεποίηκας ἐντείνας τοὺς τοῦ Αἰσώπου λόγους καὶ τὸ εἰς τὸν Ἀπόλλω προοίμιον καὶ ἄλλοι τινές με ἤδη ἤροντο, ἀτὰρ καὶ Εὔηνος πρῴην, ὅτι ποτὲ διανοηθείς, ἐπειδὴ δεῦρο ἦλθες, ἐποίησας αὐτά, πρότερον οὐδὲν πώποτε ποιήσας. εἰ οὖν τί σοι μέλει τοῦ ἔχειν ἐμὲ Εὐήνῳ ἀποκρίνασθαι ὅταν με αὖθις ἐρωτᾷ—εὖ οἶδα γὰρ ὅτι ἐρήσεται—εἰπὲ τί χρὴ λέγειν.
λέγε τοίνυν, ἔφη, αὐτῷ, ὦ Κέβης, τἀληθῆ, ὅτι οὐκ ἐκείνῳ βουλόμενος οὐδὲ τοῖς ποιήμασιν αὐτοῦ ἀντίτεχνος εἶναι ἐποίησα ταῦτα—ᾔδη γὰρ ὡς οὐ ῥᾴδιον εἴη—ἀλλ᾽ ἐνυπνίων τινῶν ἀποπειρώμενος τί λέγοι, καὶ ἀφοσιούμενος εἰ ἄρα πολλάκις ταύτην τὴν μουσικήν μοι ἐπιτάττοι ποιεῖν. ἦν γὰρ δὴ ἄττα τοιάδε: πολλάκις μοι φοιτῶν τὸ αὐτὸ ἐνύπνιον ἐν τῷ παρελθόντι βίῳ, ἄλλοτ᾽ ἐν ἄλλῃ ὄψει φαινόμενον, τὰ αὐτὰ δὲ λέγον, “ὦ Σώκρατες,” ἔφη, “μουσικὴν ποίει καὶ ἐργάζου.” καὶ ἐγὼ ἔν γε τῷ πρόσθεν χρόνῳ ὅπερ ἔπραττον τοῦτο ὑπελάμβανον αὐτό μοι παρακελεύεσθαί τε καὶ ἐπικελεύειν, ὥσπερ οἱ τοῖς θέουσι διακελευόμενοι, καὶ ἐμοὶ οὕτω τὸ ἐνύπνιον ὅπερ ἔπραττον τοῦτο ἐπικελεύειν, μουσικὴν ποιεῖν, ὡς φιλοσοφίας μὲν οὔσης μεγίστης μουσικῆς, ἐμοῦ δὲ τοῦτο πράττοντος. νῦν δ᾽ ἐπειδὴ ἥ τε δίκη ἐγένετο καὶ ἡ τοῦ θεοῦ ἑορτὴ διεκώλυέ με ἀποθνῄσκειν, ἔδοξε χρῆναι, εἰ ἄρα πολλάκις μοι προστάττοι τὸ ἐνύπνιον ταύτην τὴν δημώδη μουσικὴν ποιεῖν, μὴ ἀπειθῆσαι αὐτῷ ἀλλὰ ποιεῖν: ἀσφαλέστερον γὰρ εἶναι μὴ ἀπιέναι πρὶν ἀφοσιώσασθαι ποιήσαντα ποιήματα [καὶ] πιθόμενον τῷ ἐνυπνίῳ. οὕτω δὴ πρῶτον μὲν εἰς τὸν θεὸν ἐποίησα οὗ ἦν ἡ παροῦσα θυσία: μετὰ δὲ τὸν θεόν, ἐννοήσας ὅτι τὸν ποιητὴν δέοι, εἴπερ μέλλοι ποιητὴς εἶναι, ποιεῖν μύθους ἀλλ᾽ οὐ λόγους, καὶ αὐτὸς οὐκ ἦ μυθολογικός, διὰ ταῦτα δὴ οὓς προχείρους εἶχον μύθους καὶ ἠπιστάμην τοὺς Αἰσώπου, τούτων ἐποίησα οἷς πρώτοις ἐνέτυχον. ταῦτα οὖν, ὦ Κέβης, Εὐήνῳ φράζε.]