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domingo, 27 de outubro de 2013


25 Não te coíbas de repetir o que já disseste, porque és pequeno e só assim talvez será possível que te ouçam. Os grandes, à sua maneira, também se repetem. E se se não repetem, repetem-no os outros se valer a pena. E assim se repetem nesses outros que o repetirem.  Aliás, quanto maior se é, mais repetido se é. Platão, Aristóteles, Kant, quantos outros. Ainda se não calaram nos que deles falaram. E é possível que só se calem quando a espécie humana se calar.

Vergílio Ferreira, Escrever, Bertrand Editora, Chiado 2001, p.30.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Obra de arte clássica é a que se retalha ao bisturi e já não se queixa.

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 5 (1984-1985), Bertrand Editora 1987, p.269

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

na quadra em que estamos não se rogam pragas

   20 Dezembro (segunda). Chove. Mas não interessa. O Natal vem aí e é preciso cumprir a obrigação de inventar a amizade e a cortesia e a ternura familiar. (...) sento-me aqui à procura não bem do ter que dizer, mas de uma maneira em que esse dizer seja outro no seu modo de ser o mesmo. É um pouco difícil, atravessado como estou de pragas contra o Natal. (...) na quadra em que estamos não se rogam pragas. Mas é só o que me apetece pela chuva e pelos embrulhos. Bom. Mas dizer o quê então? Não sei, coisas várias, restos de uma conversa de ontem com a Regina. Relia eu um pouco de latim, que me tem apetecido como as filhós da infância. E então pensei uma vez mais em como é enorme a distância de uma língua escrita à falada. A escrita é uma invenção da gramática, mais ou menos desvitalizada como uma múmia. A falada é orgânica, feita de sucos e gestos e cuspo e contracções do rosto e esquematismos verbais. Como imaginar numa página em latim a língua falada na rua, em família, na cama, entre vigaristas, entre os trapos da pobreza? Como imaginá-la no correntio da vida, fora da gramática e das regras da recta pronúncia? (...)
   E então pus-me a pensar numa invenção provável para daqui a quinhentos anos e já decerto visionada por um inventor no desemprego e imaginário sem responsabilidades. Aqui há anos os jornais noticiaram que na Itália um sujeito abriu a TV e com enorme surpresa sua captou uma emissão de há quatro anos. Os sinais emissores tiveram tempo de percorrer um largo espaço do cosmos e voltaram do passeio desses quatro anos. Como não conceber que os raios luminosos emitidos há séculos venham a ser captados um dia? Como não imaginar que os sinais sonoros igualmente venham a ser recuperados por uma máquina habilidosa? (...)
   É fácil assim prever que ao serão um maníaco historiográfico carregue num botão do aparelho e reveja a batalha de Aljubarrota ou a pregação de Cristo ou o assassinato de César. Será então possível recuperar uma língua já morta, ouvir de novo um discurso de Péricles ou de Cícero, ouvir as plebes romanas aglomeradas no circo ou no foro ou nas termas, ou na Via Ápia. (...)
   Tenho pena de já cá não estar. Mas é possível que então eu me sentisse privado da ignorância, dentro do saber de então, como hoje me sinto intrigado e fascinado por não ter conhecido o que não conheci, desde a Helena de Tróia à padeira de Aljubarrota.

Vergílio Ferreira, Conta- Corrente IV (1982-1983), Lisboa, Bertrand Editores, 1993, 191-192

domingo, 28 de outubro de 2012


"Coisas belas talvez no seu modo de entender o mundo pela beleza que é talvez bela mas não é esta a minha hora de a aprender. (...)
Agora quero olhar-te no fresco de Pompeia, se não te aborreces. Está aqui numa parede do meu quarto (...) Eles que esperem todos, tenho tanto que estar só contigo. Com a tua imagem fictícia da minha idealidade vã. (...) - olho o fresco de Pompeia. Ou não bem de Pompeia, mas de Estábias que fica logo a seguir e ao Sul. Ou talvez não de Pompeia mas Pompeios que é um nome feio como um tombone (trombone?). Representa a Primavera, o fresco. Ou talvez a deusa Flora para ser mais corpórea contigo. Mas é um corpo transcendente até à sublimidade. Tu tinhas mais peso do que isso, querida. Mas eu preciso agora tanto de seres divina. Transcendente irreal. Dissolúvel e vã - deixa-me ser infantil. Mesmo o amor só começa a existir assim, é dos livros. Metafísico disparatado. Abaixo disso tem já outro nome que vem na fisiologia. Preciso ardentemente de irradiar o teu corpo a tudo quanto baste para ser divino. (...)
É uma deusa linda num instante do seu movimento leve, mas não se lhe vê a face. Porque a beleza não é dela mas da leveza do seu passar. (...)
E o imponderável de todo o seu ser de passagem. Mas era o que sobretudo eu gostaria de te dizer desta deusa grave e aérea. Não bem o seu corpo esbelto como um voo de ave, mas só esse voo. Não bem a sua juventude eterna mas a eternidade. Não o gracioso dela mas a graça. Olho-a infinitamente para tu lá estares e ouço-te rir porque não estarias nunca. Fito-o e filtro-o para ficar comigo o seu impossível até à morte. (...)
Olho-a ainda, olho-a sempre. Passa aérea e de costas. E assim a sua beleza é invisível, no anúncio do que jamais poderemos ver. Assim a sua beleza é a mais bela porque está perto e longe, na realidade tangível e intocável para sempre. Na face oblíqua de que jamais saberemos a face. No olhar que inunda todo o corpo como é próprio de todo o olhar mas de que jamais saberemos os olhos donde vem a torrente. No seu corpo de deusa e no enleio do seu movimento que jamais poderemos ter nas mãos porque a sua realidade é o passar. (...) Tenho de deixar de olhar esta deusa efémera no breve instante de ser deusa (...)
Mas tanto como me custa. Deixo de a olhar e ela passa, quando voltarei a vê-la?"

Vergílio Ferreira, Em nome da terra, Quetzal Editores, 2009, pp.113-114


terça-feira, 7 de agosto de 2012

"Platão, creio, estava doente" [Phd. 59b]

31 Porque é que os Karamazov hão-de ser inconcebíveis no tempo de Péricles? Se uma máquina de regressão levasse Dostoievski a recuar até esse tempo talvez houvesse loucos, invisíveis para esse tempo. E talvez esses loucos passassem a ser visíveis e a existir. Os possíveis do homem quem os conhece? Mas todos eles são reais quando a arte os fixou.

123 Em que circunstâncias foram criadas as grandes ideias da cultura? Raro ou nunca o saberemos. O mito da caverna de Platão quando é que lhe apareceu? Nalguma noite de insónia? no intervalo de uma desinteria? nas dores de um dente cariado? E as outras milhentas criações do espírito humano? Porque tudo tem uma circunstância como quase tudo tem só a circunstância sem nada mais haver nela. Poincaré por exemplo diz-nos o momento fortuito em que lhe surgiu o primeiro trabalho sobre as «funções fucsianas»: quando punha o pé no estribo de um eléctrico. Penso-o por mim, que também pertenço à humanidade e mesmo a um recanto do seu ser em espírito. Neste momento, por exemplo, sou em circunstância uma horrorosa constipação e um tremendo vendaval de chuva. Que é que poderia ser em criação espiritual, depois de expurgado em pragas de alívio? Não sei. Mas o que se me adianta em candidatura entendível é um não sei quê de apaziguado e longínquo e aéreo como a luz que deve estar por sobre as nuvens e não vejo. Que é que iria deduzir da minha criação suave quem a soubesse sem saber-me da horrível constipação? Diria que eu era feliz e harmónico e volátil como a graça e a beatitude. E na realidade sou espesso e grosseiro e bruto. A ponto de não saber o que quero dizer com isto.

Vergílio Ferreira, Pensar
Bertrand, Lisboa: 2004 [7ª ed.].