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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

não é nada bom, Montag


fotograma de Fahrenheit 452 (1966), de Fraçois Truffaut.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Há um fragmento de um antigo poema grego/ que tem um erro de aritmética.


A Enfermaria, blogue amigo, com gente da casa, que vivamente recomendamos, publicou há dias uma tradução, por João Moita, de um belíssimo poema de Anne Carson, poetisa canadiana, de formação em clássicas, que já aqui, noutras ocasiões, partilhámos. Venham ler:

domingo, 27 de outubro de 2013


25 Não te coíbas de repetir o que já disseste, porque és pequeno e só assim talvez será possível que te ouçam. Os grandes, à sua maneira, também se repetem. E se se não repetem, repetem-no os outros se valer a pena. E assim se repetem nesses outros que o repetirem.  Aliás, quanto maior se é, mais repetido se é. Platão, Aristóteles, Kant, quantos outros. Ainda se não calaram nos que deles falaram. E é possível que só se calem quando a espécie humana se calar.

Vergílio Ferreira, Escrever, Bertrand Editora, Chiado 2001, p.30.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

No Offense Taken






Aristotle's performance is quite different. It is not only that in his works Platonic glamour is conspicuous by its absence, and that instead we find (if such a thing may be said without offense of so great a figure) decorous, pedestrian, slightly mediocre, and more than slightly pompous common sense. Nor is it only that Aristotle much more than Plato — in any case, much more frankly than Plato — co-ordinated and discussed pre-existing opinions that prevailed in what must have been a copious literature. The essential difference is that an analytic intention, which may be said (in a sense) to have been absent from Plato's mind, was the prime mover of Aristotle's.

Joseph Schumpeter, History of Economic Analysis 57
Oxford, OUP: 1994.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Aristotle and Contemporary Argumentation Theory

Organizado pelo Grupo de Investigação “Ensino de lógica & argumentação”, da Unidade de I&D “Linguagem, interpretação e filosofia” (LIF/FCT), realiza-se no dia 17 de Fevereiro de 2012, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Sala Victor de Matos, das 09:00 às 18:00 horas), um colóquio internacional intitulado “Aristotle and contemporary argumentation theory”. São conferencistas alguns dos mais importantes especialistas mundiais sobre a retórica e a argumentação, em Aristóteles, e a teoria da argumentação contemporânea. A entrada é livre, embora sujeita a inscrição prévia.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Aristóteles, A Partir de Proust

Apenas o Homem é, dentre os animais, capaz de deliberar. Muitos partilham [/têm em comum com ele] a memória e [a capacidade de] ensinar, mas nenhum outro, salvo o Homem, é capaz de re-cordar.

Βουλευτικὸν δὲ μόνον ἄνθρωπός ἐστι τῶν ζῴων. Καὶ μνήμης μὲν καὶ διδαχῆς πολλὰ κοινωνεῖ,
ἀναμιμνήσκεσθαι δ' οὐδὲν ἄλλο δύναται πλὴν ἄνθρωπος.

Aristóteles, História dos Animais I.488b24-26

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Mão

El caballero de la mano en el pecho, El Greco (1577-1584) @ Prado
Como, por natureza, o homem se mantém erecto, não tem qualquer necessidade de pernas à frente. Em sua substituição, a natureza dotou-o de braços e mãos. Anaxágoras defende que é por ter mãos que o ser humano é, de todos os animais, o mais inteligente. Mas é mais razoável considerar, pelo contrário, que é por ser o mais inteligente que ele tem mãos. As mãos constituem, de facto, uma ferramenta; e a natureza, como faz um indivíduo inteligente, atribui sempre um órgão a quem melhor o saiba usar. É mais sensato dar flautas a um bom flautista do que ensinar a tocar a quem tem flautas. É sempre aquilo que é mais fraco que a natureza associa ao que é grande e forte, e não o que é superior e maior ao que é mais fraco. Se este é um procedimento preferível, e se a natureza, dentro do possível, privilegia a melhor solução, não é por ter mãos que o homem é a criatura mais inteligente, mas o contrário.
De facto o ser mais inteligente é o que é capaz de utilizar bem o maior número de ferramentas; e a mão corresponde não apenas a uma, mas a várias ferramentas. Pode dizer-se que é uma espécie de instrumento multi-usos 66. É portanto ao ser que é mais capaz de adquirir o maior número de técnicas que a natureza dotou da mais versátil das ferramentas, a mão. Assim aqueles que dizem que o homem tem uma constituição imperfeita e que é o menos bem organizado dos animais (porque — sublinham — anda descalço, nu e não dispõe de armas para o ataque) não têm razão. 
É que os restantes grupos têm um único meio de defesa, que não podem substituir por outro; são forçados, por assim dizer, a dormir e a fazer tudo calçados, não podem nunca pousar as armas que lhes revestem o corpo, nem trocar a arma que lhes coube em sorte. O homem, em compensação, dispõe de l diversos meios de defesa, que pode sempre substituir, e adoptar a arma que quiser e quando quiser. Porque a mão pode tornar-se garra, pinça, corno, lança, espada, ou outra arma ou utensílio qualquer. Pode ser qualquer um destes elementos, capaz de agarrar e segurar seja o que for.

Aristóteles, Partes dos Animais 687a6-687b5
INCM, Lisboa: 2010. (trad.: Maria de Fátima Sousa e Silva)

[Ὀρθῷ δ' ὄντι τὴν φύσιν οὐδεμία χρεία σκελῶν τῶν ἐμπροσθίων, ἀλλ' ἀντὶ τούτων βραχίονας καὶ χεῖρας ἀποδέδωκεν ἡ φύσις. Ἀναξαγόρας μὲν οὖν φησι διὰ τὸ χεῖρας ἔχειν φρονιμώτατον εἶναι τῶν ζῴων ἄνθρωπον· εὔλογον δὲ διὰ τὸ φρονιμώτατον εἶναι χεῖρας λαμβάνειν. Αἱ μὲν γὰρ χεῖρες ὄργανόν εἰσιν, ἡ δὲ φύσις ἀεὶ διανέμει, καθάπερ ἄνθρωπος φρόνιμος, ἕκαστον τῷ δυναμένῳ χρῆσθαι. Προσήκει γὰρ τῷ ὄντι αὐλητῇ δοῦναι μᾶλλον αὐλοὺς ἢ τῷ αὐλοὺς ἔχοντι προσθεῖναι αὐλητικήν· τῷ γὰρ μείζονι καὶ κυριωτέρῳ προσέθηκε τοὔλαττον, ἀλλ' οὐ τῷ ἐλάττονι τὸ τιμιώτερον καὶ μεῖζον. Εἰ οὖν οὕτως βέλτιον, ἡ δὲ φύσις ἐκ τῶν ἐνδεχομένων ποιεῖ τὸ βέλτιστον, οὐ διὰ τὰς χεῖράς ἐστιν ὁ ἄνθρωπος φρονιμώτατος, ἀλλὰ διὰ τὸ φρονιμώτατον εἶναι τῶν ζῴων ἔχει χεῖρας. Ὁ γὰρ φρονιμώτατος πλείστοις ἂν ὀργάνοις ἐχρήσατο καλῶς, ἡ δὲ χεὶρ ἔοικεν εἶναι οὐχ ἓν ὄργανον ἀλλὰ πολλά· ἔστι γὰρ ὡσπερεὶ ὄργανον πρὸ ὀργάνων. Τῷ οὖν πλείστας δυναμένῳ δέξασθαι τέχνας τὸ ἐπὶ πλεῖστον τῶν ὀργάνων χρήσιμον τὴν χεῖρα ἀποδέδωκεν ἡ φύσις. Ἀλλ' οἱ λέγοντες ὡς συνέστηκεν οὐ καλῶς ὁ ἄνθρωπος ἀλλὰ χείριστα τῶν ζῴων (ἀνυπόδητόν τε γὰρ αὐτὸν εἶναί φασι καὶ γυμνὸν καὶ οὐκ ἔχοντα ὅπλον πρὸς τὴν ἀλκήν) οὐκ ὀρθῶς λέγουσιν. Τὰ μὲν γὰρ ἄλλα μίαν ἔχει βοήθειαν, καὶ μεταβάλλεσθαι ἀντὶ ταύτης ἑτέραν οὐκ ἔστιν, ἀλλ' ἀναγκαῖον ὥσπερ ὑποδεδεμένον ἀεὶ καθεύδειν καὶ πάντα πράττειν, καὶ τὴν περὶ τὸ σῶμα ἀλεωρὰν μηδέποτε καταθέσθαι, μηδὲ μεταβάλλεσθαι ὃ δὴ ἐτύγχανεν ὅπλον ἔχων. Τῷ δὲ ἀνθρώπῳ τάς τε βοηθείας πολλὰς ἔχειν, καὶ ταύτας ἀεὶ ἔξεστι μεταβάλλειν, ἔτι δ' ὅπλον οἷον ἂν βούληται καὶ ὅπου ἂν βούληται ἔχειν. Ἡ γὰρ χεὶρ καὶ ὄνυξ καὶ χηλὴ καὶ κέρας γίνεται καὶ δόρυ καὶ ξίφος καὶ ἄλλο ὁποιονοῦν ὅπλον καὶ ὄργανον· πάντα γὰρ ἔσται ταῦτα διὰ τὸ πάντα δύνασθαι λαμβάνειν καὶ ἔχειν.]

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Backstabber

Porém, se querem um conselho, importem-se pouco com Sócrates, e muito mais com a verdade!
ὑμεῖς μέντοι, ἂν ἐμοὶ πείθησθε, σμικρὸν φροντίσαντες Σωκράτους, τῆς δὲ ἀληθείας πολὺ μᾶλλον.

Platão, Fédon 91c
Lisboa Editora, Lisboa: 2004. (trad.: Teresa Schiappa)

E, contudo, parece ser melhor, até talvez um dever, que pela salvação da verdade se destruam os laços que temos com os que nos estão próximos, sobretudo se formos filósofos. Sendo ambos queridos para nós, é mais de acordo com a lei divina preferir a verdade.
δόξειε δ᾽ ἂν ἴσως βέλτιον εἶναι καὶ δεῖν ἐπὶ σωτηρίᾳ γε τῆς ἀληθείας καὶ τὰ οἰκεῖα ἀναιρεῖν, ἄλλως τε καὶ φιλοσόφους ὄντας: ἀμφοῖν γὰρ ὄντοιν φίλοιν ὅσιον προτιμᾶν τὴν ἀλήθειαν.

Aristóteles, Ética a Nicómaco I.1096a15
Quetzal, Lisboa: 2004. (trad.: António Caeiro)

Platão meu amigo, Aristóteles também;/ mais amiga é a Verdade, porém.
[Amicus Plato amicus Aristoteles magis amica veritas.]
Isaac Newton, Algumas Questões Filosóficas.

imagem: O Tempo Salvando a Verdade da Falsidade e da Inveja,
de François Lemoyne (1737).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Origens do Planeamento Urbano

Foi Hipodamo, cidadão de Mileto, e filho de Eutifonte, quem inventou o traçado das cidades e delineou as ruas do Pireu. Adoptou um estilo de vida deveras original, a ponto de alguns considerarem que vivia de modo afectado, devido à sua farta cabeleira e ricos adornos, além das suas roupas simples mas quentes que usava não só no Inverno como no Verão, querendo ser considerado um especialista em todas as coisas da natureza. Foi o primeiro, entre os que não eram políticos, a tentar dizer algo sobre o melhor regime.

Aristóteles, Política II.1267b21-30
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

[Ἱππόδαμος δὲ Εὐρυφῶντος Μιλήσιος (ὃς καὶ τὴν τῶν πόλεων διαίρεσιν εὗρε καὶ τὸν Πειραιᾶ κατέτεμεν, γενόμενος καὶ περὶ τὸν ἄλλον βίον περιττότερος διὰ φιλοτιμίαν οὕτως ὥστε δοκεῖν ἐνίοις ζῆν περιεργότερον τριχῶν τε πλήθει καὶ κόσμῳ πολυτελεῖ, ἔτι δὲ ἐσθῆτος εὐτελοῦς μὲν ἀλεεινῆς δέ, οὐκ ἐν τῷ χειμῶνι μόνον ἀλλὰ καὶ περὶ τοὺς θερινοὺς χρόνους, λόγιος δὲ καὶ περὶ τὴν ὅλην φύσιν εἶναι βουλόμενος)πρῶτος τῶν μὴ πολιτευομένων ἐνεχείρησέ τι περὶ πολιτείας εἰπεῖν τῆς ἀρίστης.]

Além disso, considera-se geralmente mais agradável e conveniente para todo o tipo de actividades a disposição das casas particulares no modo regular e recente por Hipodamo...
ἡ δὲ τῶν ἰδίων οἰκήσεων διάθεσις ἡδίων μὲν νομίζεται καὶ χρησιμωτέρα πρὸς τὰς ἄλλας πράξεις, ἂν εὔτομος ᾖ καὶ κατὰ τὸν νεώτερον καὶ τὸν Ἱπποδάμειον τρόπον...

Aristóteles, Política VII.1330b22-24
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

Segundo os nossos testemunhos, Hipodamo desenhou ainda o traçado da nova cidade de Rodes e da colónia pan-helénica de Túrios.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Obviamente, Aristóteles Não Leu As Eddas

Um navio que fosse do tamanho da cabeça de um dedo, não seria um navio.
...οἷον πλοῖον σπιθαμιαῖον μὲν οὐκ ἔσται πλοῖον ὅλως...

Aristóteles, Política VII.1326a40
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

In Norse mythology, Skíðblaðnir is the ship of Freyr. The ship was made by Dvalin and his brothers, dwarves and sons of Ívaldi. It was made at the request of Loki, and was given to Freyr as part of Loki's reparation for the theft of Sif's golden hair. The ship was big enough to hold the whole of the host of Asgard, and whenever the sails were hoisted, a fair wind followed. It could travel over both land and sea. According to the Ynglinga saga, Skíðblaðnir was made by so many parts and with such ingenuity that it could be folded like a cloth and carried in one's pouch.

retirado daqui.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Higiene Oral Ainda Não Devia Estar Muito Difundida

Decâmnico encabeçou um levantamento contra Arquelau, sendo o primeiro a instigar os conjurados devido a estar encolerizado com o monarca, que o entregara em tempos ao poeta Eurípides para ser açoitado (Eurípides ficara vexado em virtude de uma alusão que Decâmnico fizera ao seu mau hálito). Muitos outros morreram ou foram vítimas de conspirações por motivos do mesmo género.

Aristóteles, Política V.1311b30-35
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

[καὶ τῆς Ἀρχελάου δ᾽ ἐπιθέσεως Δεκάμνιχος ἡγεμὼν ἐγένετο, παροξύνων τοὺς ἐπιθεμένους πρῶτος: αἴτιον δὲ τῆς ὀργῆς ὅτι αὐτὸν ἐξέδωκε μαστιγῶσαι Εὐριπίδῃ τῷ ποιητῇ: ὁ δ᾽ Εὐριπίδης ἐχαλέπαινεν εἰπόντος τι αὐτοῦ εἰς δυσωδίαν τοῦ στόματος. καὶ ἄλλοι δὲ πολλοὶ διὰ τοιαύτας αἰτίας οἱ μὲν ἀνῃρέθησαν οἱ δ᾽ ἐπεβουλεύθησαν.]

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Acabadinho de Sair

Comentários do Colégio Conimbricense da Companhia de Jesus
Sobre os Três Livros do Tratado 'Da Alma' de Aristóteles Estagirita
P. Manuel de Góis
Mário S. de Carvalho (introdução)
Maria da Conceição Camps (tradução)
P.V.P.: 25,90 euros

No século de Camões, de Gil Vicente e de Pedro Nunes foi publicada em Coimbra e em Lisboa a obra maior e mais internacional da filosofia portuguesa, os Comentários Conimbricenses da Companhia de Jesus, sobretudo da autoria de Manuel de Góis. Descartes, Peirce, entre outros, estudaram por essas páginas, cujo texto sobre o 'De Anima' conhece agora a primeira tradução do latim numa língua viva. O Comentário fez parte do curriculum dos Colégios Jesuítas do Atlântico aos Urais, marcou o ensino no Brasil e na Índia, sendo também, provavelmente, o primeiro texto de filosofia ocidental a conhecer uma adaptação em língua chinesa. Numa época de globalização como é a nossa, bom será que se reconheça a importância que o Curso Conimbricense teve ao contribuir para a criação de uma cultura universal com todas as suas consequências, designadamente a que envolveu a difusão de valores hoje considerados inquestionáveis no domínio dos direitos do homem, no respeito pela natureza e no reconhecimento do valor da ciência e da religião, em todas as suas vertentes. Tanto ou mais do que a explicação da psicologia de Aristóteles, o leitor encontrará a surpresa de uma filosofia renascimental nas suas múltiplas temáticas, desenvolvida de um modo sistemático, mas aberto, cuja actualidade ou perenidade se pode aferir pelo eco que os autores dão à ciência da alma: a mais nobre de entre as demais, já que ninguém se pode conhecer a si mesmo nem ao Universo se não se debruçar sobre os segredos que a alma encerra e que são simultaneamente únicos, porque individuais, e universais. O início da introdução geral (pdf de 12 páginas) pode ser lido aqui.

Relembre-se, para benefício do leitor, que o De Anima acabou de ser publicado em tradução portuguesa no mês passado, na série Obras Completas de Aristóteles, da INCM.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Aristóteles Sobre Portugal 2010 AD

Um ponto de suprema importância em qualquer regime é que a legislação e demais instituições políticas estejam estabelecidas de forma a não constituírem fonte de lucros para os magistrados. Esta circunstância merece especial atenção nos regimes oligárquicos. De facto, nada irrita tanto o povo (que nem se preocupa muito com o afastamento dos cargos governamentais; pelo contrário, até fica satisfeito em ter liberdade para se dedicar aos assuntos particulares) quanto o pressentimento que os magistrados desfalcam o erário público em proveito próprio. Nestas alturas, ressentem-se das duas coisas: de não participar nas honrarias, nem no lucro.

Aristóteles, Política V.1308b31-38
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

[μέγιστον δὲ ἐν πάσῃ πολιτείᾳ τὸ καὶ τοῖς νόμοις καὶ τῇ ἄλλῃ οἰκονομίᾳ οὕτω τετάχθαι ὥστε μὴ εἶναι τὰς ἀρχὰς κερδαίνειν.τοῦτο δὲ μάλιστα ἐν ταῖς ὀλιγαρχικαῖς δεῖ τηρεῖν. οὐ γὰρ οὕτως ἀγανακτοῦσιν εἰργόμενοι τοῦ ἄρχειν οἱ πολλοί, ἀλλὰ καὶ χαίρουσιν ἐάν τις ἐᾷ πρὸς τοῖς ἰδίοις σχολάζειν, ὥστ᾽ ἐὰν οἴωνται τὰ κοινὰ κλέπτειν τοὺς ἄρχοντας, τότε γ᾽ ἀμφότερα λυπεῖ, τό τε τῶν τιμῶν μὴ μετέχειν καὶ τὸ τῶν κερδῶν]

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Profecia de Uma Revolução


Muitos, incluindo até aqueles que pretendem estabelecer regimes aristocráticos, cometem o erro de não só favorecerem os ricos, como de ludibriarem as expectativas do povo. Todavia, o certo é que acaba por chegar a hora em que dos falsos bens nasce inevitavelmente um verdadeiro mal, pois os excessos cometidos pelos ricos constituem um factor mais dissolvente dos regimes do que os cometidos pela massa popular.

Aristóteles, Política IV.1297a7-13
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes)

[διαμαρτάνουσι δὲ πολλοὶ καὶ τῶν τὰς ἀριστοκρατικὰς βουλομένων ποιεῖν πολιτείας, οὐ μόνον ἐν τῷ πλεῖον νέμειν τοῖς εὐπόροις, ἀλλὰ καὶ ἐν τῷ παρακρούεσθαι τὸν δῆμον. ἀνάγκη γὰρ χρόνῳ ποτὲ ἐκ τῶν ψευδῶν ἀγαθῶν ἀληθὲς συμβῆναι κακόν: αἱ γὰρ πλεονεξίαι τῶν πλουσίων ἀπολλύασι μᾶλλον τὴν πολιτείαν ἢ αἱ τοῦ δήμου.]

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Escola É De Todos: Destrói A Tua Parte

Por outro lado, esta fórmula apresenta uma outra dificuldade. Quanto mais uma coisa é comum a um maior número, menos cuidado recebe. Cada um preocupa-se sobretudo com o que é seu; quanto ao que é comum, preocupa-se menos, ou apenas na medida do seu interesse particular. Aliás, desleixa-se ainda mais ao pensar que outros cuidam dessas coisas.

Aristóteles, Política II.1261b32-36
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes).

[πρὸς δὲ τούτοις ἑτέραν ἔχει βλάβην τὸ λεγόμενον. ἥκιστα γὰρ ἐπιμελείας τυγχάνει τὸ πλείστων κοινόν: τῶν γὰρ ἰδίων μάλιστα φροντίζουσιν, τῶν δὲ κοινῶν ἧττον, ἢ ὅσον ἑκάστῳ ἐπιβάλλει: πρὸς γὰρ τοῖς ἄλλοις ὡς ἑτέρου φροντίζοντος ὀλιγωροῦσι μᾶλλον]

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Teógnis Comentado - III, ou Diógenes Contra Mundum

De todas as coisas é a pobreza que mais subjuga o Homem nobre,
mais do que a grisalha velhice, ó Cirno, e a doença.
Para se fugir dela é preciso atirarmo-nos ao mar cheio de monstros,
ó Círno, ou então despenharmo-nos de altos rochedos.
Pois o Homem subjugado pela pobreza não pode nem falar
nem fazer nada; e a sua língua encontra-se atada.
É preciso procurar na terra e no vasto dorso do mar,
ó Círno, a libertação da dolorosa pobreza.
Morrer, querido Cirno, é melhor para o Homem indigente
do que viver esmagado pela dolorosa pobreza.

Teógnis, 173-182 in Poesia Grega de Álcman a Teócrito.
Cotovia, Lisboa: 2006. (trad.: Frederico Lourenço).

The honorable body is not the one that is beautiful, or strong, or swift, or large, or even healthy — though many would believe this, indeed, to be rather honorable — nor, of course, a body that has the opposite characteristics. Instead, those attributes which occupy the middle ground, in between all these, are the most moderate and steady by far. For the former extremes make souls boastful and rash, while the latter make them humble and unfree.

Platão, Leis 728e
University of Chicago Press, Chicago: 1980. (trad: Thomas L. Pangle)

[τίμιον εἶναι σῶμα οὐ τὸ καλὸν οὐδὲ ἰσχυρὸν οὐδὲ τάχος ἔχον οὐδὲ μέγα, οὐδέ γε τὸ ὑγιεινόν—καίτοι πολλοῖς ἂν τοῦτό γε δοκοῖ—καὶ μὴν οὐδὲ τὰ τούτων γ᾽ ἐναντία, τὰ δ᾽ ἐν τῷ μέσῳ ἁπάσης ταύτης τῆς ἕξεως ἐφαπτόμενα σωφρονέστατα ἅμα τε ἀσφαλέστατα εἶναι μακρῷ: τὰ μὲν γὰρ χαύνους τὰς ψυχὰς καὶ θρασείας ποιεῖ, τὰ δὲ ταπεινάς τε καὶ ἀνελευθέρους.]

Por conseguinte, posto que concordámos que o moderado e o intermédio é o que há de melhor, torna-se evidente que, em relação à posse dos bens, a riqueza mediana é a melhor de todas porque é a que mais facilmente obedece aos ditames da razão. Pelo contrário, a beleza excessiva, a força extrema, a linhagem inigualável, a riqueza desmedida, ou os respectivos opostos, tais como a pobreza excessiva, a debilidade extrema e a ausência de honrarias, têm dificuldade em seguir a voz da razão. [...] Já aqueles que vivem numa excessiva penúria encontram-se rebaixados. Assim sendo, estes não sabem o que significa propriamente mandar, mas apenas comportar-se como escravos sujeitos à autoridade.

Aristóteles, Política 1295b5-7, 18-20
Vega, Lisboa: 1998. (trad.: António Amaral e Carlos Gomes).

[ἐπεὶ τοίνυν ὁμολογεῖται τὸ μέτριον ἄριστον καὶ τὸ μέσον, φανερὸν ὅτι καὶ τῶν εὐτυχημάτων ἡ κτῆσις ἡ μέση βελτίστη πάντων. ῥᾴστη γὰρ τῷ λόγῳ πειθαρχεῖν, ὑπέρκαλον δὲ ἢ ὑπερίσχυρον ἢ ὑπερευγενῆ ἢ ὑπερπλούσιον <ὄντα>, ἢ τἀναντία τούτοις, ὑπέρπτωχον ἢ ὑπερασθενῆ ἢ σφόδρα ἄτιμον, χαλεπὸν τῷ λόγῳ ἀκολουθεῖν. [...] οἱ δὲ καθ᾽ ὑπερβολὴν ἐν ἐνδείᾳ τούτων ταπεινοὶ λίαν. ὥσθ᾽ οἱ μὲν ἄρχειν οὐκ ἐπίστανται, ἀλλ᾽ ἄρχεσθαι δουλικὴν ἀρχήν,...]

*

Descia Mercator umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, contra a parede, a comer lentilhas. Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava, e pelo estômago farto, disse, para Diógenes:
— Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.
E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico? Diógenes respondeu. À letra:
— E tu - disse o filósofo - se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisava de bajular o rei.

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas
Leya - BIS, Alfragide: 2010.

imagem: Diógenes, de John William Waterhouse
1882, @ Art Gallery of New South Wales

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Para Resolver a Crise Económica

Tomemos como exemplo o que se conta acerca de Tales de Mileto: o estratagema que usou para adquirir riqueza, ainda que atribuído à sua sabedoria, não passa da aplicação de um princípio geral. Consta que o censuravam por ser pobre, atribuindo isso à inutilidade da filosofia. O facto é que, devido aos seus conhecimentos de astronomia, previu a proximidade de uma boa colheita de azeite; quando ainda era Inverno, alugou com o pouco dinheiro que tinha todos os lagares de Mileto e Quios, gastando apenas uma pequena soma, já que não havia outras ofertas mais avultadas. Quando chegou o tempo da colheita, e porque muita gente acudiu ao mesmo tempo e com urgência à busca de lagares, arrendou-os ao preço que bem entendeu, não só obtendo uma soma elevada de dinheiro como provando que era fácil, para os filósofos, tornarem-se ricos se assim o desejassem, embora não fosse essa, de facto, a meta das suas aspirações. Tales terá dado, assim, ao que consta, prova inequívoca da sua sabedoria.

Aristóteles, Política 1259a5-20
Vega, Lisboa: 1998 (trad.: António Amaral e Carlos Gomes).

[πάντα γὰρ ὠφέλιμα ταῦτ᾽ ἐστὶ τοῖς τιμῶσι τὴν χρηματιστικήν, οἷον καὶ τὸ Θάλεω τοῦ Μιλησίου: τοῦτο γάρ ἐστι κατανόημά τι χρηματιστικόν, ἀλλ᾽ ἐκείνῳ μὲν διὰ τὴν σοφίαν προσάπτουσι, τυγχάνει δὲ καθόλου τι ὄν. ὀνειδιζόντων γὰρ αὐτῷ διὰ τὴν πενίαν ὡς ἀνωφελοῦς [10] τῆς φιλοσοφίας οὔσης, κατανοήσαντά φασιν αὐτὸν ἐλαιῶν φορὰν ἐσομένην ἐκ τῆς ἀστρολογίας, ἔτι χειμῶνος ὄντος εὐπορήσαντα χρημάτων ὀλίγων ἀρραβῶνας διαδοῦναι τῶν ἐλαιουργίων τῶν τ᾽ ἐν Μιλήτῳ καὶ Χίῳ πάντων, ὀλίγου μισθωσάμενον ἅτ᾽ οὐθενὸς ἐπιβάλλοντος: ἐπειδὴ δ᾽ ὁ καιρὸς [15] ἧκε, πολλῶν ζητουμένων ἅμα καὶ ἐξαίφνης, ἐκμισθοῦντα ὃν τρόπον ἠβούλετο, πολλὰ χρήματα συλλέξαντα ἐπιδεῖξαι ὅτι ῥᾴδιόν ἐστι πλουτεῖν τοῖς φιλοσόφοις, ἂν βούλωνται, ἀλλ᾽ οὐ τοῦτ᾽ ἐστὶ περὶ ὃ σπουδάζουσιν. Θαλῆς μὲν οὖν λέγεται τοῦτον τὸν τρόπον ἐπίδειξιν ποιήσασθαι τῆς σοφίας.]

imagem: Tales, da Crónica de Nuremberga

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dominatrix

Aristóteles aconselhava Alexandre a conter-se e a não ir ter tantas vezes com a sua mulher, que era particularmente bonita, para que o seu espírito não descurasse o bem comum. Alexandre aquiesceu, mas a rainha, apercebendo-se disso, desgostosa, começou a seduzir Aristóteles, percorrendo os paços de pés descalços e cabelos soltos, tudo para o aliciar. Conquistado, por fim, o filósofo começou a solicitá-la carnalmente, mas ela disse: «De modo algum o farei, sem ter visto provas do teu amor, não se dê o caso de me estares a tentar. Vem primeiro até ao meu quarto, de gatas, para eu te montar como a um cavalo. Então saberei que não me estás a enganar». Depois de o filósofo concordar com esta condição, a rainha avisou Alexandre do facto. Este, que estava à espereita, apanhou-o a levar a rainha. A Alexandre, que o queria matar, disse então Aristóteles, em jeito de desculpa: «Se uma coisa destas acontece a um velho tão sábio, ao ponto de conseguir ser enganado por uma mulher, podes ver-ificar o quão bem te ensinei, pois pode acontecer-te o mesmo a ti, que és jovem». Ao ouvir isto, o rei perdoou-lhe, e continuou a progredir no seu magistério.

Esta é uma lenda que surgiu na Idade Média, atestada pelo menos desde o século XIII. Foi bem acolhida, pelo seu evidente valor didático, em que os valores da época se encontram plasmados de uma forma engraçada mas clara, tendo-se o tema de Fílis e Aristóteles convertido num motivo artístico algo corrente, até. O texto acima é uma tradução do original latino, de autor anónimo (retirado daqui).

[Aristotles cum doceret Alexandrum ut se contineret ab accessu frequenti uxoris suae, quae erat pulcra valde, ne animum suum a communi providentia impediret, et Alexander ei acquiesceret, hoc advertens regina et dolens, coepit Aristotelem trahere ad amorem suum, quia multociens sola transibat cum pedibus nudis et dissoluto crine, ut eum alliceret. Tandem allectus coepit eam sollicitare carnaliter, quae ait, "Hoc omnino non faciam, nisi videro signa amoris, ne me tentes: ergo veni ad meam cameram, reptando manibus et pedibus, sicut equus me portando, tunc scio quod non illudes mihi." Cui conditioni cum consensisset, illa intimavit hoc Alexandro; qui expectans apprehendit eum reginam portantem. Quem cum vellet occidere, ait Aristotles sic se excusando, "Si sic accidit seni sapientissimo, ut a muliere deciperar, potes videre quod bene docueram te, quid accidere potest tibi juveni." Quod audiens rex, ei perpercit, et in doctrina eius profecit.]

imagem: Aristóteles e Fílis, do Mestre de Housebook
c. 1485, @ Rijksmuseum, Amesterdão.