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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O Cáucaso é no Egeu

mulheres em Trikeri
Even though the Prometheus production [na ilha de Trikeri, campo prisional a céu aberto para mulheres que haviam apoiado, directa ou indirectamente, os comunistas na Guerra Civil Grega] did not go beyond the dress rehearsal stage, the tragedy itself warrants a closer look in the light of its reception by the Greek Left, or of some of the older uses of the hero as symbol. Hariati-Sismani [uma das prisioneiras que colaborou na peça] left no doubt as to how she and her fellow inmates read Prometheus' character and condition:
For us, Prometheus was he who does not sign a 'declaration' [of repentance], who accepts to stay nailed to his rock and to remain in his martyrdom, just like us, rather than yield to violence... Prometheus was us and all the words of the drama fit us like a glove. We called Hermes 'the errand boy'. Hephaestus was the worker who forges his own bounds. And Oceanus? That was my uncle, who had written to me, a few days earlier, to urge me to repent. (1975: 24).
Hariati-Sismani had intentionally dressed the Prometheus of the play in a deep red chiton (1975: 25). This 'red' Prometheus did not succomb to the pressure to sign a 'declaration of repentance'. [...] Sucessive Greek right-wing governments coaxed or terrorized political prisoners into signing a recantation or renunciation of their ideological beliefs, called a dílosi metanoías [δήλωση μετανοίας]; or, short, a dílosi. [...] Many detainees, especially on Makronisos, caved in under psychic and/or bodily torture to sign such a declaration and became 'dilosíes', which often opened up a whole new set of requirements: from composing hideous confession statements to denouncing their former comrades, to assisting in the process of 'breaking' others (to translate the modern Greek expression for 'torturing').

Gonda Van Steen, Theatre of the Condemned. 
Classical Tragedy on Greek Prison Islands. Oxford 2011: 119-120.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Monte Cáucaso, Um Lugar de Ampla Perspectiva [Símile]

Os dois primeiros motivos dão origem à ansiedade. Pois quando se está certo de que existem causas para todas as coisas que aconteceram até agora, ou no futuro virão a acontecer, é impossível a alguém que constantemente se esforça por se garantir contra os males que receia, e por obter o bem que deseja, não se encontrar em eterna preocupação com os tempos vindouros. De modo que todos os homens, sobretudo os que são extremamente previdentes, se encontram numa situação semelhante à de Prometeu. Porque tal como Prometeu (nome que quer dizer homem prudente) foi acorrentado ao monte Cáucaso, um lugar de ampla perspectiva, onde uma águia se alimentava do seu fígado, devorando de dia o que tinha voltado a crescer durante a noite, assim também o homem que olha demasiado loge, preocupado com os tempos futuros, tem durante todo o dia o seu coração ameaçado pelo medo da morte, da pobreza e de outras calamidades, e não encontra repouso nem paz para a sua ansiedade a não ser no sono.

[The two first make anxiety. For being assured that there be causes of all things that have arrived hitherto, or shall arrive hereafter, it is impossible for a man, who continually endeavoureth to secure himself against the evil he fears, and procure the good he desireth, not to be in a perpetual solicitude of the time to come; so that every man, especially those that are over-provident, are in an estate like to that of Prometheus. For as Prometheus (which, interpreted, is the prudent man) was bound to the hill Caucasus, a place of large prospect, where an eagle, feeding on his liver, devoured in the day as much as was repaired in the night: so that man, which looks too far before him in the care of future time, hath his heart all the day long gnawed on by fear of death, poverty, or other calamity; and has no repose, nor pause of his anxiety, but in sleep.]


Thomas Hobbes, Leviatã XII 
INCM, Lisboa: 1995 (trad.: João Monteiro e Nizza da Silva)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

De novo Prometeu

Acerca de Prometeu contam-se quatro lendas. De acordo com a primeira, depois de ter atraiçoado os deuses em favor dos homens, foi agrilhoado ao Cáucaso, os deuses mandavam águias para lhe devorarem o fígado que sempre novamente voltava a crescer.

De acordo com a segunda, por causa da dor das bicadas Prometeu encostou-se cada vez mais à rocha até se tornar uma só coisa com ela.

De acordo com a terceira, com o correr dos milénios a sua traição foi esquecida, esqueceram-no os deuses, as águias, ele mesmo.

De acordo com a quarta, todos se cansaram daquilo tudo que não tinha mais razão de ser. Cansaram-se os deuses, as águias cansaram-se, a ferida, cansada, fechou.

Restou a inexplicável montanha rochosa. — A lenda tenta explicar o inexplicável. Visto que teve origem num fundo de verdade, teve acabar de novo no inexplicável.

Kafka, Racconti Postumi, tradução minha a partir do italiano

De novo sobre Nortistas e Sulistas

Pegando na citação do João numa das entradas anteriores, a respeito da eternidade dos deuses gregos tenho a relembrar o mister Shelley que, se o respeitamos por ter dito "We are all Greeks." então também teremos de respeitar no que ao que mitologia diz respeito: No seu Prometheus Unbound essa suposta constância divina não existe, Zeus é derrotado, e Demigorgon assume-lhe o trono. A monarquia dos céus é ciclicamente alterada. E, de novo, até que ponto é que a situação é assim tão alien à figuração grega? N'As Nuvens de Aristóteles também Zeus (que está por toda a hierarquia celeste) é substituido pelo "Vortex": é comédia, sim, é alegoria, sim: mas não é impensável.

Quando é que se terão perdido definitivamente as duas outras partes da trilogia de Prometeu, da qual apenas nos resta o Prometeu Agrilhoado (que, como já foi apontado, foi hoje apresentado em Lisboa e sê-lo-á amanhã em Coimbra)? Fantasiemos que terá sido cedo: com que situação bizarra, inconcebível, ímpia se depararia um grego ao ler um dos maiores tragediógrafos a colocar tão possível o destronar de Zeus? E a contingência de toda a ordem olímpia por arrastamento?

Arde o Etna porque Tífon ainda lá se espasma. O destroço duma geração passada, divina, assim na Terra como no Céu, permanece presente como a ruína duma coluna antiga permanece presente: a presença dos deuses não está em causa. A afirmação inicial da entrada do João, "contrast the 'inhumanness' of the Greek gods, however antropomorphic, with the 'humanness' of the Northern, however titanic", faz-me porém lembrar a fase final do Ragnarok, em que após a destruição de gigantes e de bestas, de Valhalla e da própria criação inteira, nasce dessa ambrósia derretida um casal, como se o sacrifício mortal daquilo que há de mais humano-transcendente se justificasse à luz do que está para vir, casal esse que se depara com um mundo que é todo ele possibilidade e limpidez, mas onde não existe mais a segurança do destino apocalíptico por-vir. Alterando Hölderlin, "Allein zu seyn, / und ohne Götter, ist das Leben." (Estar sozinho, e seu deuses, é Vida.) Talvez esses dois sejam (tenham sido? venham a ser?) os verdadeiramente primeiros "condenados a ser livres" sem nada quer de obstáculo quer de Lei que os constrinja, liberdade essa que na teologia cristã virá a ser reservada para Deus, ou, como diria o senhor Ž, "o Filho não estava presente em Deus antes da Encarnação, aí sentado ao seu lado. A Encarnação é o nascimento [ou seja, o tornar-se humano] de Cristo, e depois da sua morte, não há Pai nem Filho, mas  "só" o Espírito Santo, a substância espiritual da comunidade religiosa."