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quinta-feira, 3 de abril de 2014

mas claro, o que Creonte faz com o corpo de Polinices é de uma selvajaria odiosa aos deuses

Édipo condenando Polinices
com Ismena e Antígona
, de André Baschet 




Nesse momento, em que a agitação atingia o cume e o povo andava dividido, Sólon, já célebre, avançou por entre as duas facções juntamente com os mais importantes entre os atenienses, e, entre pedidos e conselhos, convenceu os chamados 'sacrílegos' a submeterem-se a julgamento, procedendo-se à escolha de trezentos juízes, entre as famílias nobres. A acusação foi movida por Míron de Flias e os réus foram considerados culpados. Os que ainda viviam foram exilados, os restos do que já haviam morrido foram desenterrados e lançados para lá da fronteira.

ἐν δὲ τῷ τότε χρόνῳ τῆς στάσεως ἀκμὴν λαβού- σης μάλιστα, καὶ τοῦ δήμου διαστάντος, ἤδη δόξαν ἔχων ὁ Σόλων παρῆλθεν εἰς τὸ μέσον ἅμα τοῖς πρώτοις τῶν Ἀθηναίων, καὶ δεόμενος καὶ διδάσκων ἔπεισε τοὺς ἐναγεῖς λεγομένους δίκην ὑποσχεῖν καὶ κριθῆναι τριακοσίων ἀριστίνδην δικαζόντων. Μύρωνος δὲ τοῦ Φλυέως κατη- γοροῦντος ἑάλωσαν οἱ ἄνδρες, καὶ μετέστησαν οἱ ζῶντες, τῶν δ' ἀποθανόντων τοὺς νεκροὺς ἀνορύξαντες ἐξέρριψαν ὑπὲρ τοὺς ὅρους.

Plutarco, Vida de Sólon 12.3-4
Classica Digitalia, Coimbra: 2012 (trad.: Delfim Leão). 

sábado, 24 de novembro de 2012

Clássicos Subversivos


(cruzar com este post, a propósito do qual ler, já agora, este)
Metaxas [o ditador grego do Regime do 4 de Agosto (1936-41)] had been promoting ancient drama in the form of mass open-air spectacles, and he had received the public endorsement of writers such as Yeorgios Theotokas, a politically moderate intellectual, and others with more onservative political agendas who stressed the value of classical literature. Under Metaxas, too, the chauvinist presumption grew that revivals of classical tragedy had to uphold this treasured legacy of Greece's national, 'monumental' poetry. Metaxas further subjected theatre to state censorship and control of thought. He tried to ban, in particular, a National Theatre production of Sophocles' Antigone, because the heroine proclaimed disobedience to the self-serving laws of tyranny. Unable to cancel te scheduled performances, the government had certain 'inappropriate' lines cut from the script (Hamlakis 2007: 178; Van Steen 2001: 141). [n. 14]

[nota 14:] Metaxas also excluded the famous Funeral Oration of Pericles from school readings of Thucydides' History of the Peloponnesian War (2.34-47). The dictator did not want the new Hellenic generation to be brought up with the ideals of freedom and democracy as expounded by the ancient Greeks:
In the teaching of ancient Greek in the 6th High School grade, omit the funeral oration of Pericles, substituting this with some Platonic dialogue, because the funeral oration, truthfully grand of democratic ideas, may be misunderstood by the students as indirect criticism of the vigorous governmental policy and, in general, of the trend of the present State... [T]here exists the probability that these pages will produce the same ruinous and disintegrating results that they did during the period of the Peloponnesian War, when they were recited to the unstable populace of Athens by the great Pericles, who presented so brilliantly the victories of democracy to the intellectually unprepared Athenian rabble... [excerto da directiva estatal da autoria de D. Papoulias mas em nome de Metaxas].  
Gonda Van Steen, Theatre of the Condemned. 
Classical Tragedy on Greek Prison Islands. Oxford 2011: 43-44.

domingo, 6 de maio de 2012

Apontamentos Sobre a Antígona de Sófocles §1

Ἐτεοκλέα μέν, ὡς λέγουσι, σὺν δίκης
χρήσει δικαίᾳ καὶ νόμου κατὰ χθονὸς
ἔκρυψε τοῖς ἔνερθεν ἔντιμον νεκροῖς: [23-5]

Por um lado, a Etéocles, ao que dizem, no justo
uso da justiça e da lei, [Creonte] debaixo da terra
escondeu, para ser honrado pelos mortos inferiores.

Ἐτεοκλέα μέν, ὃς πόλεως ὑπερμαχῶν
ὄλωλε τῆσδε, πάντ᾽ ἀριστεύσας δόρι,
τάφῳ τε κρύψαι καὶ τὰ πάντ᾽ ἐφαγνίσαι
ἃ τοῖς ἀρίστοις ἔρχεται κάτω νεκροῖς. [194-7]

Por um lado, Etéocles, que pela cidade alti-lutando
morreu - por esta cidade -, em tudo o melhor com a lança,
num túmulo esconder e todas as honras lhe prestar,
aquelas que descem para os melhores dos mortos.

A primeira das falas transcritas pertence a Antígona, quando dá conta a sua irmã, Ismena, no prólogo da peça, do decreto do rei, Creonte. O texto dá a entender que Etéocles, o irmão que lutou pela cidade, Tebas, foi já enterrado: ἔκρυψε é um aoristo, o tempo pretérito por excelência na gramática grega. Não pode por isso senão espantar quando, na tradução de Marta Várzeas (feita para a encenação de Nuno Carinhas no TNSJ há dois anos atrás), lemos: «A Etéocles mandou sepultar». Certo que é possível ler a frase com um sentido mais-que-perfeito: Creonte mandou sepultar Etéocles, Etéocles já foi sepultado e agora Antígona conta tudo isto à irmã. Todavia, deverá reconhecer-se que o português é ambíguo o suficiente para acolher um outro sentido: Creonte mandou sepultar Etéocles — isso ainda vai acontecer, então: por hora existe tão somente a ordem, mas não a realidade. A tradução de Marta Várzeas torna-se porém mais inteligível quando a entendemos como um esforço para impor à peça alguma coerência. De facto, mais tarde, no primeiro episódio, quando Creonte entra em cena, ele diz que proclamou um édito no sentido de enterrar Etéocles. Guardamos aqui o infinitivo de propósito: o grego tem κρύψαι, um infinitivo aoristo, sendo que o aoristo tem aqui um valor apenas aspectual, e não temporal, ou seja: simplesmente quer-se dizer que a acção de enterrar Etéocles é uma acção única, não continuada. κρύψαι é vulgarmente entendido num sentido futuro e de facto o contexto convida a, se é que não implica, tal. O uso do infinitivo, em que insistimos, permite salvaguardar fragilmente a unidade do texto: Creonte reproduz aqui o édito como o emitiu originalmente, édito que tem apenas dois comandos temporalmente indeterminados: enterrar [Etéocles] | não honrar [Polinices]. A primeira parte pode já ter sido cumprida: o grego talvez (outros mais sábios me esclarecerão) não obrigue a projectar a acção no futuro (ajuda porventura a esta interpretação subtil se não até manhosa o facto de o «[não] honrar [Polinices]» ser κτερίζειν, um infinitivo presente, que aponta para uma acção continuada, não pontual, ao contrário de κρύψαι — contra, porém, pesa o κωκῦσαί que se lhe segue). Reconheço, todavia, que nem eu mesmo estou muito convencido desta leitura, pelo que estou particularmente receptivo a contributos de quem se queira juntar à discussão: afinal Etéocles já foi enterrado? Ou Sófocles pura e simplesmente contradiz-se?

NOTA: segui, para o grego e traduções, a edição de Griffith, salvo para o problemático σὺν δίκης χρήσει δικαίᾳ καὶ νόμου, no primeiro excerto, em que segui a lição de Müller e Jebb. Haveria muito mais a dizer sobre estes dois passos (há escolhas na colocação das palavras que devem ser tidas em atenção e a métrica, ao que diz o comentário, é de suma importância quando confrontada com os versos seguintes sobre Polinices): impõe-se uma explicação do último verso da segunda citação, que só se compreende tendo em mente os ritos fúnebres gregos. Algumas opções de tradução haveriam ainda que ser justificadas, mostrando a complexidade a que se procuram abrir. 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

«Antígona» no Teatro Municipal de Almada

Pela Companhia do Teatro Nacional São João. A encenação é de Nuno Carinhas e a peça estará em cena nos dias 3 e 4 de Fevereiro. Informações e reservas aqui.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Viva o YouTube


A adaptação de Antígona de 1961, realizada por Yiorgos Yavellas, com Irene Papas no papel principal. Em partes, o que é uma pequena desvantagem, embora legendado, no YouTube.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Dos Corvos (Com Um Excurso Sobre O Multiculturalismo)


É que os nossos altares e braseiros todos estão poluídos pelas aves e cães que comeram do infeliz filho de Édipo, que jaz no sítio onde caiu. E depois os deuses não aceitam da nossa parte as súplicas que acompanham os sacrifícios, nem a chama das oferendas, nem as aves soltam gritos de bom augúrio, pois devoraram a gordura do sangue de um homem morto.

Sófocles, Antígona (1016-1022)
Festea, Coimbra: 2006 (trad.: Maria Helena Rocha Pereira).

[βωμοὶ γὰρ ἡμῖν ἐσχάραι τε παντελεῖς/ πλήρεις ὑπ᾽ οἰωνῶν τε καὶ κυνῶν βορᾶς/ τοῦ δυσμόρου πεπτῶτος Οἰδίπου γόνου./ κᾆτ᾽ οὐ δέχονται θυστάδας λιτὰς ἔτι/ θεοὶ παρ᾽ ἡμῶν οὐδὲ μηρίων φλόγα,/ οὐδ᾽ ὄρνις εὐσήμους ἀπορροιβδεῖ βοάς/ ἀνδροφθόρου βεβρῶτες αἵματος λίπος.]

A sua consciência impeliu-o [Caim] a matar o irmão, e matou-o; assim, passou a estar entre os perversos. Deus enviou um corvo, que esgravatou na terra para lhe mostrar como devia ocultar o cadáver do seu irmão. Exclamou: «Ai de mim! É impossível que faça à semelhança deste corvo e oculte assim o cadáver de meu irmão». Assim passou a estar entre os que se arrependem.

Alcorão, Sura 5, 30-31.
Europa-América, Mem Martins: 1989 (trad.: Américo de Carvalho).

[فَطَوَّعَتْ لَهُ نَفْسُهُ قَتْلَ أَخِيهِ فَقَتَلَهُ فَأَصْبَحَ مِنَ الْخَاسِرِينَ ﴿٣٠﴾ فَبَعَثَ اللَّـهُ غُرَابًا يَبْحَثُ فِي الْأَرْضِ لِيُرِيَهُ كَيْفَ يُوَارِي سَوْءَةَ أَخِيهِ ۚ قَالَ يَا وَيْلَتَا أَعَجَزْتُ أَنْ أَكُونَ مِثْلَ هَذَا الْغُرَابِ فَأُوَارِيَ سَوْءَةَ أَخِي ۖ فَأَصْبَحَ مِنَ النَّادِمِينَ ]*

O corvo, ave necrófila, é, entre os gregos (e tantos outros povos), animal mal-querido se não mesmo maldito («vai para os corvos» é a versão grega de «vai bugiar»). O grego tinha também grande medo de não receber, após a morte, as honras fúnebres devidas, temor que tem já expressão nos poemas homéricos: Heitor, antes de expirar, pede a Aquiles que restitua o seu cadáver à família e é precisamente a recusa em o fazer e o tratamento humilhante que vai dar ao corpo do príncipe troiano que farão os deuses intervir para pôr cobro à situação. O grande receio de Heitor é que a sua carne venha a ser devorada pelos cães, sem respeito pela santidade (o termo é propositadamente anacrónico, mas captura uma verdade) do corpo. Aquiles nega-lho, prometendo, pelo contrário, que as aves de rapina o comerão inteiro (22.337-354). Também na Odisseia (11.51-78), Elpenor, companheiro de Ulisses que morre ao cair bêbedo do telhado do palácio de Circe, quando encontra o herói no Hades, suplica-lhe que, no regresso, quando voltarem a Eeia, o sepultem. Na Antígona, o texto-mor no que a cadáveres insepultos (e a muitas outras coisas) diz respeito, Tirésias chama a atenção para a profanação da cidade, agora que os pássaros se alimentam do corpo exposto de Polinices. As aves sobre o morto, debicando-o, são, de facto, uma imagem terrível para o grego. Não pude, por isso, deixar de me surpreender quando hoje, folheando o Alcorão, dou com a passagem que acima transcrevi em que quem vai ensinar os homens a enterrar o primeiro morto é, espanto!, um corvo, a ave de rapina por excelência, com o abutre. Definitivamente, tenho de tirar tempo para o ano para ler o Alcorão numa boa edição. É triste que, numa altura em que o multiculturalismo se tornou o credo de uma idade cansada, o usemos, afinal, como uma capa para a nossa ignorância. O verdadeiro respeito envolve o confronto (à letra: o face-a-face) activo com o outro, curiosidade sincera, um desejo de conhecer que envolve a dádiva total, o investimento todo do ser, e não a mera contemplação à distança, da segurança (e altura) do nosso estilete. Steiner, que tive a oportunidade de ouvir em Viseu, no final do ano passado, perguntado sobre o que pensava da ascenção da China, entre outras coisas, sublinhou com preocupação, vendo nisso uma grande vantagem do Império do Meio, o facto de eles lerem os nosso clássicos (cf. os norte coreanos e Esopo), mas nós desconhecermos totalmente a literatura deles. Dos árabes sabemos uma mão cheia de lendas das Mil e Uma Noites e pouco mais. É pena. Eu ficava triste se eles não lessem os gregos (e foi porque leram Aristóteles que muito se salvou). Fica então combinado: para o ano leio o Alcorão (quem se junta?). Entretanto, vou seguindo a poesia árabe publicada aqui.

*Quem souber árabe, por favor, diga-me se aquilo está correcto.

imagem: The Body of Abel Found By Adam and Eve,
de William Blake (c. 1826) @ Tate Gallery, Londres.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sl 8, 4-10/ Soph. Ant. 332-375

Tive oportunidade de falar aqui anteriormente da chamada Ode ao Homem, o Canto Primeiro da Antígona de Sófocles. Ontem, ao ouvir o salmo que abaixo transcrevo, não pude deixar de notar os paralelismos entre os dois textos, que, contudo, quando cotejados, deixam sobretudo perceber a distância entre as duas mundividências, a grega e a hebraica.
Quando contemplo os céus, obra das tuas mãos,
a Lua e as estrelas que Tu criaste:
que é o homem para te lembrares dele,
o filho do homem para com ele te preocupares?
Quase fizeste dele um ser divino;
de glória e de honra o coroaste.
Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos,
tudo submeteste a seus pés:
rebanhos e gado, sem excepção,
e até mesmo os animais bravios;
as aves do céu e os peixes do mar,
tudo o que percorre os caminhos do oceano.
Ó Senhor, nosso Deus,
como é admirável o teu nome em toda a terra!
A tradução é de José Augusto Ramos, para a Nova Bíblia dos Capuchinhos, da Difusora Bíblica, a edição standard. Nenhuma das conquistas do Homem sobre a Natureza a que o salmista alude deixa de encontrar eco no poema de Sófocles (tradução de MHRP):
E das aves as tribos descuidadas,
a raça das feras,
em côncavas redes
a fauna marinha, apanha-as e prende-as
o engenho do Homem.
Dos animais do monte, que no mato
habitam, com arte se apodera;
domina o cavalo
de longas crinas, o jugo lhe põe,
vence o touro indomável das alturas.
O Homem merece a Sófocles o epíteto de δεινότερον, «o mais assombroso», e o salmista dá-lhe um estatuto quase divino. A palavra hebraica vertida como «ser divino» é mesmo «deus». O arrojo do verso nunca foi, porém, totalmente aceite, parece: na Septuaginta, «ser divino» (já por si uma tradução que mitiga a força do original, mesmo se tem o cuidado de o registar em nota) surge traduzido como «anjo» e é assim que Paulo, em Heb 2, 6-8, cita o texto. Apesar de São Jerónimo se ter mantido fiel ao hebraico na Vulgata, a sua lição nem sempre foi seguida: veja-se a King James Bible ou, entre nós, a tradução de João Ferreira d'Almeida (a editada pela Assírio em oito volumes, com ilustrações de Ilda David').

E, todavia, insistimos, mau grado todo este louvor ao Homem, os textos são fundamentalmente diferentes, e não é difícil ver porquê. Se Sófocles sublinha como foi o Homem, por si próprio (lembremo-nos daquele ἐδιδάξατο), que conseguiu dominar a Natureza, o salmista tem o cuidado de deixar claro que se o ser humano é senhor da criação é-o por graça de Deus, que «tudo submet[eu] a seus pés». Achar que o Homem, pelo seu «engenho» (para usar a palavra de Sófocles), poderia chegar sozinho à domesticação e controlo do mundo animal seria uma espécie de pelagianismo. O Homem pode o que Deus lhe concede. Não deixa, por isso, de ser curioso notar que a cidade, que ocupa um lugar charneiro na Ode de Sófocles, está pura e simplesmente ausente desta salmo. Efectivamente, a cidade, na medida em que é uma criação do Homem apenas, e não de Deus, no princípio dos tempos, poderia levantar um problema teológico, ao ser louvada: o seu elogio seria sempre mais um canto ao Homem, seu criador, do que de Deus, como o é o salmo, conhecido, aliás, como 'Hino ao Criador do Homem'. A cidade, aliás, tem muitas vezes uma conotação negativa no mundo hebraico, enquanto espaço da perversão (é, não o esqueçamos, uma criação de Caim, Gen 4,17). Há uma certa desconfiança pela sedentarização, própria de um povo em marcha, como o judeu, oriundo do deserto. Não consigo deixar de suspeitar que o antropocentrismo grego tem muito que ver com o seu πόλις-centrismo e que a ausência desta última dimensão entre os hebreus pode, por sua vez, ter alguma relação (não necessariamente de causalidade) com o seu teocentrismo. O louvor ao Homem, no salmo, nunca atinge, pois, a plenitude que a autonomia grega, pelo contrário, lhe permite. Não há nenhuma contradição, nem talvez coincidência, no facto de o homem que afirmou ser o Humano a medida de todas as coisas ter sido o mesmo que declarou nada podermos saber dos deuses.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Soph. Ant. 354-356 - II

[continuação deste post]
Ora o ateniense do século V a.C., olhando em seu redor, não podia senão considerar que, no seu tempo, sob a batuta de Péricles, o Homem, e com ele a πόλις, e a πόλις, e com ela o Homem, haviam atingido um esplendor absolutamente único (o Parténon estava a ser construído então), uma comunhão justa, que atinge a sua expressão máxima na célebre Oração Fúnebre de Péricles. Como podia o Homem não ter orgulho, Stolz, na sua cidade, construção (em todos os sentidos, também no físico) sua? O grande erro de Creonte, do ponto de vista ético, não do ponto de vista da estrutura da tragédia, é não a ofensa aos deuses — porque dessa não está consciente e é basicamente sincero na sua piedade (não temos aqui tempo de explicar a afirmação) — mas a negação da democracia na figura de Hémon, é negar a cidade aos seus, alienar a πόλις, que se torna coisa estranha ao cidadão, divorciá-los. O orgulho grego, face aos persas, era, como se vê na tragédia de Ésquilo, a certeza de não serem escravos de ninguém (e Creonte, de forma sintomática, chama indirectamente δοῦλος, escrava, a Antígona no v.479), mas livres, porque sob a Lei, em cuja feitura, no caso ateniense, todos participavam (a vitória de Salamina, celebrada na peça de Ésquilo, é aliás crucial para a instauração da democracia na cidade). O Humano é comum: a poesia era representada no teatro de Diónisos e nos simpósios cantavam-se os versos dos poetas; os filósofos discutiam na ágora e nas palestras; as leis eram feitas na Ecclesia, a Assembleia, aberta a todos os cidadãos.

E o Homem contemplou tudo isto, e viu como tudo era bom. E sentia orgulho (Stolz), tanto mais que conseguira tudo isto por si mesmo, ἐδιδάξατο, «ensinou-se» (ou, numa leitura bem mais rara, mas que a minha edição do texto grego da Cambridge, por Mark Griffith, regista: «they taught one another» — de novo a ideia da comunidade, da πόλις). Não há aqui um Prometeu que tenha educado o Homem: ele descobriu tudo sozinho. Como o escravo hegeliano de Kojève, a Natureza ofereceu-lhe resistência, ele trabalhou-a, e, nas coisas que produziu que estão fora de si, encontrou, reflectido, o seu eu, e acha por elas a certeza de si mesmo.

Mas a ambiguidade do conhecido δεινότερον (o mais assombroso, nos dois sentidos: de causar espanto/admiração e de inspirar medo) do começo do Canto é transferida também por Hölderlin para Stolz. O orgulho, de facto, tanto pode ser um sentimento profundamente positivo (um reconhecimento do valor de algo em que de certa forma tivemos parte, e cujo sucesso, por isso, nos deixa felizes), como, por exemplo, na tradição cristã, um pecado, ou, transferindo esta carga negativa para o mundo grego, e sem equiparar de forma alguma as duas realidades, uma hybris. Níobe, personagem com que Antígona, a um dado momento e por outras razões, se compara, é castigada precisamente porque se vangloriou, orgulhosa, da sua prole.

Podemo-nos perguntar até que ponto o orgulho de governar cidades («städtebeherrschenden Stolz»), no seu pior sentido, não é precisamente a falha, hamartia, que condena Creonte. Neste contexto, seria bom revertermos à nossa sugestão de traduzir beherrschen não por governar, o seu sentido vulgar, mas literalmente por dominar. A πόλις é confundida com o οἶκος, a casa (o domínio próprio do senhor, que impõe a sua regra), e isto não é apenas uma metáfora: Polinices é simultaneamente inimigo político de Creonte e seu sobrinho; os dois planos misturam-se, e a sensatez aconselharia a que, num caso destes, o rei não se pronunciasse. Creonte, para provar que não confunde as duas esferas, acaba por exagerar numa, a política (com isto não pretendo resumir o conflito em Antígona a este exagero, tal como ele não pode ser reduzido à obstinação de Antígona).

Note-se como, na tradução do adjectivo por Hölderlin, do ponto de vista etimológico, νόμος, a Lei, é substituído por Herr. O alemão é suficientemente ambíguo para que o possamos ler das duas maneiras, com boa vontade, mas o confronto com o grego deixa a nu os jogos do Poeta, que captura assim toda a ironia que se diz tão própria dos coros sofoclianos. A mesma expressão, na versão mais rica de Hölderlin, tanto pode designar, como vimos, um ímpeto íntrinseco ao Homem, partilhado, como o abuso hybrístico dele por um só. Mas é de fazer a pergunta mais séria, e fundamental para a compreensão da tragédia como um todo: é Creonte que abusa desta ὀργή ou, pelo contrário, ela é, em si mesma, um desafio aos deuses? Em suma: é a πόλις uma hybris?

Os deuses parecem de facto manifestar nalgumas tragédias um salutar desprezo pelas instituições humanas, de que acabam fazendo pouco: caso paradigmático disso serão As Bacantes, de Eurípides. Não deixa de ser estranhamente macabro, aliás, que o coro na Antígona, literalmente do princípio (do párodo) ao fim (ao canto quinto), evoque o der kommende Gott, o deus a caminho, Diónisos, pedindo-lhe que venha até à cidade — e esta acaba, uma vez mais, destruída, mesmo se o deus, aparentemente, nunca chega. Noutras peças, pelo contrário, são os deuses que tomam a iniciativa de fundar instituições para o Homem, como Atena, no final da Oresteia, ela que cria o Areópago, o primeiro tribunal da cidade. Esta não parece ser a perspectiva do coro, que, como vimos, assevera que a organização política é uma coisa aprendida pelo Homem por si próprio, sem ajuda. É uma perspectiva que faz todo o sentido: afinal, que podem os deuses perceber da cidade? O Olimpo não é uma πόλις (não tem gente para isso, diria Aristóteles) e entre os deuses, por antropomórficos que sejam, as questões não se põem nos mesmos termos que entre os homens, que estão abandonados na aprendizagem de como lidarem consigo (recordemos aqui o poema final da Bíblia do Poeta, A Rosa do Mundo, intitulado Testamento, de Ewa Lipska [trad.: Aleksandar Jovanovic]: «Após a morte de Deus/ abriremos o testamento/ para saber/ a quem pertence o mundo/ e aquela grande armadilha/ de homens»). Os deuses são antes uma família (literalmente), o que, dentro da dinâmica de binómios da peça, os opõe directamente à πόλις (e ao lado de Antígona, claro).

E, todavia, sabemos que os deuses protegem a cidade (isso é-nos dito no párodo) e que tem de haver alguma verdade na intuição desse teólogo maior da Grécia, Ésquilo. Qual o interesse dos deuses em zelarem pela πόλις? Corro o risco de, chegado ao final desta especulação, ter percebido que teria sido melhor concordar com Protágoras e dizer que afinal nada posso saber sobre os deuses, pois «muitos são os obstáculos desse saber: a obscuridade e a brevidade da vida humana» [DK B4] (trad.: Ana Alves de Sousa e Maria Vaz Pinto). Parece-me, contudo, que este cuidado da parte dos deuses se deve tão somente ao facto de também o culto depender sempre de uma comunidade (não necessariamente a πόλις, é certo; pode ser a família, como na Antígona — mesmo se a coisa é mais complexa, mas não há aqui espaço para isso). Para os deuses, porém, a hierarquia é clara: a πόλις só pode subsistir enquanto assegurar o culto daqueles que a permitem. É por isso que a cidade, para ser «alta» [ὑψίπολις, v.370] (elevada? honrada?), tem de respeitar as leis dos deuses [368-9]. Isso é condição de possibilidade da sua prosperidade. A cidade não será, per se, hybrística, mas corre o perigo latente de, como no caso de Antígona, assistir à colisão das duas esferas, a dos deuses e a da cidade.

Poder-me-ão acusar de anacronismo: o grego não conseguia conceber o conflito cidade/deuses. Na Grécia, a religião tinha aliás um carácter cívico e político: a boa cidade respeitava os seus deuses. Mas todo o discurso oficial também não permitiria adivinhar o embate indivíduo/família vs. πόλις e esse dificilmente alguém negará que percorre toda a peça. É importante realçar que é no contexto desta oposição que surge a tensão deuses/cidade. Ela não é colocada isoladamente, sem contexto, género o Homem contra os deuses — o mais perto disso que a mitologia grega conhece é ainda Prometeu (de novo Prometeu). A tensão, porém, está lá. Um dos cinco binómios que conduzem a Antígona, na opinião de Steiner, é precisamente este (deuses/Homem). Ora se Antígona, isso é claro, nesta oposição, representa os deuses, então Creonte, a cabeça da πόλις, não pode senão simbolizar o Homem (por incómodo que isto seja: gostaríamos talvez de um melhor advogado), que, paradigmaticamente, acaba feito nada (v. 1325) pelos deuses. Num golpe de ironia, é a cidade, via Creonte, e não tanto Antígona (v.821), que se revela αὐτόνομος, aquela que dá as leis a si mesma, as leis que aprendeu, sozinha (ἐδιδάξατο) e orgulhosa (stolz). Se Antígona morre em virtude da sua «autonomia», porque ignora a πόλις, também assim a cidade, que ignora os deuses. A cidade é anterior ao Homem, os deuses antecedem a πόλις, e o que nos precede, se é condição de possibilidade de quanto somos, é também limitação (mesmo se não determinação). Mas ficamos por aqui, à soleira dessoutra reflexão que Antígona suscita, sobre a liberdade (ou não) de acção. Fim dos luftigen Gedanken.

imagem: Ismena e Antígona, de Emil Teschendorff

Soph. Ant. 354-356 - I


καὶ φθέγμα καὶ ἀνεμόεν
φρόνημα καὶ ἀστυνόμους
ὀργὰς ἐδιδάξατο

Assim começa a terceira estrofe (segunda, do ponto de vista técnico: a anterior é uma antístrofe) do primeiro canto (gosto muito do nome songs que se encontra em certos textos ingleses para designar os estásimos e creio só haver vantagens em o importar: mais lírico e mais próximo, retira esoterismo às clássicas e lembra a natureza musical do texto, mesmo se, em abono da verdade, tenho de admitir que introduz alguma confusão, pois que o párodo, a bem dizer, não deixa também de ser um canto) da Antígona de Sófocles, a famosa Ode ao Homem (vv.332-375). Na tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, a tradução standard, editada pela Gulbenkian (utilizo, porém, a edição do FESTEA, aqueles livrinhos a5 simpáticos, de capa branca, distribuídos com as representações do Thíasos, o grupo de teatro clássico da FLUC), lê-se:
A fala e o alado pensamento,
as normas que regulam as cidades
sozinho aprendeu
Rocha Pereira ignora por completo ὀργὰς, impulsos, que subsome no adjectivo que, no grego, qualifica o nome: ἀστυνόμους, composto que reúne ἄστυ, cidade, e νόμος, termo problemático, polissémico, que poderíamos arriscar traduzir aqui por lei (donde palavras como autónomo, aquele que se dá as suas leis). Não me recordo já de como, na recentíssima tradução feita por Marta Várzeas para o TNSJ, para a encenação da peça por Nuno Carinhas, este passo era vertido, e, como dizia Wittgenstein, sobre o que não podemos falar, melhor é que guardemos silêncio. Tenho porém comigo a tradução de Fernando Melro, editada na série de clássicos da Inquérito, ainda menos exacta (e em prosa), donde desapareceu também o ὀργὰς:
Ele conhece a palavra, o pensamento alado, os costumes urbanos
(Apenas para que se entenda melhor esta tradução, diga-se que νόμος, um dos significados mais comuns que tem e que há pouco, por conveniência, omiti, é precisamente o de costume). Das que conheço, só a tradução publicada pela Verbo, no âmbito da mítica série dos Livros RTP, da autoria de António Manuel Couto Viana (que nem tenho a certeza que tenha traduzido directamente do original), não escamoteia o termo grego:
o homem que, por si próprio, aprendeu a falar e tem pensamentos rápidos como o vento, e criou em si um carácter que regula a vida em sociedade
ὀργὰς aparece-nos aqui como carácter, o que não é uma tradução totalmente desacertada, mesmo se a carácter corresponde mais o grego ἦθος. Se formos ao dicionário (o Middle Liddell, conhecido dos estudantes de Clássicas), encontramos como significados para ὀργὰς impulso natural, propensão, temperamento, disposição, natureza. Hölderlin, porém, na sua famosa recriação poética (aqui o termo de Frederico Lourenço é apropriado), escreve assim estes versos:
Und die Red' und den luftigen
Gedanken und städtebeherrschenden Stolz
Hat erlernet er
algo como:
E o Discurso e os aéreos
Pensamentos e o Orgulho de governar cidades
Ele aprendeu
(aéreos não deve aqui ser lido no sentido pejorativo que, em combinação com pensamentos, tende a ter na nossa língua; com aéreos quis apenas manter-me o mais próximo possível do étimo do adjectivo alemão, luftigen, que vem de Luft, «ar»). A tradução de ὀργὰς por Stolz, «orgulho», é ilustrativa da peculariedade da versão de Hölderlin, que dialoga reciprocamente com o original de Sófocles, apurando-o e aparando-o (nos dois sentidos deste verbo). Hölderlin não se contenta em traduzir ὀργὰς por Trieb, «impulso», «ímpeto», a tradução costumeira no alemão: ele interroga esse temperamento (Stimmung, para usar o termo heideggeriano) para o definir, aperta-o — espremo-o, poderíamos dizer — até à depuração (como para se fazer um perfume é preciso triturar os botões das flores como uvas no lagar), que é aqui uma concretização. Hölderlin afia a palavra como a faca, ele que apontou o lado mortífero do discurso entre os gregos (Hipólito, lembrava, morre directamente por causa das palavras do pai: a palavra é uma arma, cf. Neil Gaiman, Sandman #4, o duelo entre Dream e Choronzon), quer extrair a sua verdade.

Ora qual a natureza do impulso, ὀργή, que guia o homem (beherrschenden, em städtebeherrschenden, contém Herr, 'senhor'; uma tradução mais apropriada do verbo seria não tanto 'governar' mas 'dominar', enfatizando o lado masculino do poder) na condução da cidade? Hölderlin responde: o orgulho. O homem tem na cidade, politicamente compreendida, na πόλις, a тιμή (a honra que lhe é devida) máxima de ser Homem. O Homem é ζῷον πολιτικόν (bicho político, na célebre definição de Aristóteles, Pol. 1253a): é na comunidade que se faz humano («A πόλις é a mestra do Homem», Simónides, fr. 90 West). A πόλις suprema é a cidade do último Homem (não confundir com a figura do mesmo nome no Zaratustra de Nietzsche): a perfeição das estruturas políticas (aqui no sentido mais lato do termo, o grego) corresponde ao grau final de humanização do Homem. Num regime injusto, nem todos os homens podem ser bons, e o mal, mesmo se pequeno a princípio, tem a rapidez dos coelhos a reproduzir-se e do bambu a crescer; um regime justo com homens maus, por sua vez, não se aguenta, porque os prejudica.

Se o Homem não pertence fundamentalmente à Natureza (verdade que atinge no mito do Génesis a sua formulação arquetípica máxima) — poder-se-ia dizer da relação Homem-Natura o que dizem os cristãos sobre a sua relação com o mundo: estamos no mundo mas não somos do mundo, adaptando: estamos na Natureza, mas não somos da Natureza, ou se calhar seria mais justo dizer o inverso, mas também mais trágico, porque situação irreversível, ontologicamente mais violenta, presos num sítio não naturalmente (literalmente, aqui, o advérbio) nosso e todavia impedidos de sair — ele tem portanto de arranjar o seu habitat, de o construir: é a πόλις, o espaço que cria para si. A linguagem da πόλις é, de facto, a do fabrico: Creonte, que tudo define em função da cidade («não teria por amigo próprio um varão que quisesse mal à nossa terra» [187-8], trad.: MHRP), fala explicitamente em «fazer amigos» (τοὺς φίλους ποιούμεθα) [190]. Verum quia factum, afirmava Vico, «verdadeiro porque feito». A πόλις é a realidade humana por excelência, a sua maior criação, obra colectiva, no duplo sentido de ser, como dizia Lincoln, for e by (era em Atenas sob Péricles que Sófocles pensava quando escreveu esta Ode) the people.

A πόλις é o espaço que o Homem recortou no real para si, o seu τέμενος (o espaço delimitado e consagrado a um deus, para o seu templo). A Natureza é-lhe contrária, como vimos, mas ele triunfou sobre ela, como canta o coro: navega o mar, esventra a terra pelo seu alimento, captura as aves, doma o cavalo, caça a besta dos bosques e até das doenças vai começando a saber escapar. Afirma-se então como humano, numa tríplice vertente: poeta (φθέγμα, som da voz/Rede, discurso), filósofo (φρόνημα/Gedanken, pensamentos) e, em último lugar, legislador (ἀστυνόμους ὀργὰς/städtebeherrschenden Stolz, orgulho de governar cidades). Faz parte da natureza intrínseca do Homem, do seu «princípio de crescimento» (φύσις), esta sua ὀργή (impulso, ímpeto). Ele cresce precisamente na medida em que cumpre com este princípio, como acima vimos. A legislação é uma maneira de potenciação do humano, de afirmação do que é dele.

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imagem: Antígona e Creonte, desenho de Jean Cocteau.