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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sansão, Escuta!

Iron should spare a wise man's hair, because it is impious to apply it to the place that contains all the sources of his perception, all his utterances, from which all his prayers proceed, as does the discourse that conveys his wisdom. Empedocles actually tied a ribbon of the purest purple around his hair, and strutted around the streets of Greece, composing hymns to the effect that he would pass from mortal to god.

Filóstrato, Apolónio de Tiana 8.7.18
Harvard University Press, Cambridge MA: 2005. (trad.: Christopher Jones).

imagem: Sansão e Dalila, de Matthias Stom
1630s, @ Galeria Nacional de Arte Antiga, Roma.

domingo, 19 de setembro de 2010

Fluir Perene

It was no dream; or say a dream it was,
Real are the dreams of Gods.
Keats, Lamia 1.126-7

Com tanta coisa boa que há para ler, e tão pouco o tempo, é normal que, quando verificamos que o livro a que nos dedicámos nas últimas horas ou dias é, de facto, um produto menor, que não compensou o nosso esforço, fiquemos um tanto ao quanto, se não aborrecidos, pelo menos com pena: afinal, a vida é breve, e nunca se ouviu falar de bibliotecas no paraíso (salvo com Borges). E, todavia, é impressionante a fecundidade, isto é, a capacidade de gerar novas obras, destas obras menores, chamemos-lhes assim, capazes de rivalizarem, nesse aspecto, com alguns dos mais importantes títulos da literatura mundial. Não pude deixar de confirmar quanto os caminhos da inspiração são insondáveis ao ler agora a Lamia de Keats.

Este Verão, nas minhas explorações da história da Igreja dos primeiros séculos, tropecei na Vida de Apolónio, de Filóstrato, sofista que viveu na passagem do segundo para o terceiro século depois de Cristo. Trata-se da biografia de um filósofo do século I, homem muito reputado no seu tempo, com fama de homem santo. Alguns escritores pagãos quiseram equipará-lo a Cristo e daí eu, interessado nas polémicas anti-cristãs e nos escritos apologéticos, me ter atirado aos três volumes da série da Loeb sobre Apolónio. Trata-se de uma narrativa interessante, mas desigual: o segundo volume é bem mais cativante que o primeiro. No cômputo geral, porém, é um livro que só interessará hoje a um público muito específico, apesar de ter algumas passagens que, tivera o texto sempre aquela qualidade, seria, sem dúvida, mais lido, ou do retrato curioso, porque até inesperado, que pinta das relações entre filosofia, religião e política naquele tempo (e para os que se interessam por isto, não direi que é essencial, mas será sem dúvida valioso).

O «milagre» mais conhecido de Apolónio, narrado por Filóstrato, é a salvação de um jovem de Corinto, boa pessoa, de tendências filosóficas (acabará por seguir o mestre), que, enfeitiçado por uma lâmia, uma criatura demoníaca do folclore grego, por vezes associada aos modernos vampiros, se ia casar com ela. Apolónio denunciou em plena boda a verdadeira natureza da bela mulher que o rapaz se preparava para desposar e expulsou-a da casa, salvando-o da morte (as lâmias bebiam o sangue daqueles que escolhiam). Keats não leu a obra de Filóstrato, mas soube da história através daquele que terá dito um dia ser o seu livro favorito: The Anatomy of Melancholy, de Richard Burton. Inspirado pela lenda, compôs um dos poemas mais conhecidos da sua maturidade, entre finais de Junho e inícios de Setembro de 1819: Lamia. E, assim, uma passagem importante, mas nem sequer a melhor, de uma obra pouco lida floresceu num poema em que o génio de um dos nomes maiores do Romantismo inglês se manifesta no alto da sua criatividade e talento. A Musa progride por caminhos esquivos.

imagem: Lamia (1909), de Herbert James Draper

terça-feira, 27 de julho de 2010

Leitores Atentos §5


Depois de Jesus ter atravessado, no barco, para a outra margem, reuniu-se uma grande multidão junto dele, que continuava à beira-mar. Chegou, então, um dos chefes da sinagoga, de nome Jairo, e, ao vê-lo, prostrou-se a seus pés e suplicou instantemente: «A minha filha está a morrer; vem impor-lhe as mãos para que se salve e viva.» Jesus partiu com ele, seguido por numerosa multidão, que o apertava. [...] Ainda Ele estava a falar, quando, da casa do chefe da sinagoga, vieram dizer: «A tua filha morreu; de que serve agora incomodares o Mestre?» Mas Jesus, que surpreendera as palavras proferidas, disse ao chefe da sinagoga: «Não tenhas receio; crê somente.» E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Ao chegar a casa do chefe da sinagoga, encontrou grande alvoroço e gente a chorar e a gritar. Entrando, disse-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu, está a dormir.» Mas faziam troça dele. Jesus pôs fora aquela gente e, levando consigo apenas o pai, a mãe da menina e os que vinham com Ele, entrou onde ela jazia. Tomando-lhe a mão, disse: «Talitha qûm!», isto é, «Menina, sou Eu que te digo: levanta-te!» E logo a menina se ergueu e começou a andar, pois tinha doze anos. Todos ficaram assombrados. Recomendou-lhes vivamente que ninguém soubesse do sucedido e mandou dar de comer à menina.

Mc 5, 21-24, 35-43 retirado da Nova Bíblia dos Capuchinhos.
Difusora Bíblica, Lisboa/Fátima: 1998. (trad.: Américo Henriques)

[Καὶ διαπεράσαντος τοῦ Ἰησοῦ [ἐν τῷ πλοίῳ] πάλιν εἰς τὸ πέραν συνήχθη ὄχλος πολὺς ἐπ' αὐτόν, καὶ ἦν παρὰ τὴν θάλασσαν. καὶ ἔρχεται εἷς τῶν ἀρχισυναγώγων, ὀνόματι Ἰάϊρος, καὶ ἰδὼν αὐτὸν πίπτει πρὸς τοὺς πόδας αὐτοῦ καὶ παρακαλεῖ αὐτὸν πολλὰ λέγων ὅτι Τὸ θυγάτριόν μου ἐσχάτως ἔχει, ἵνα ἐλθὼν ἐπιθῇς τὰς χεῖρας αὐτῇ ἵνα σωθῇ καὶ ζήσῃ. καὶ ἀπῆλθεν μετ' αὐτοῦ. Καὶ ἠκολούθει αὐτῷ ὄχλος πολύς, καὶ συνέθλιβον αὐτόν. [...] Ἔτι αὐτοῦ λαλοῦντος ἔρχονται ἀπὸ τοῦ ἀρχισυναγώγου λέγοντες ὅτι Ἡ θυγάτηρ σου ἀπέθανεν: τί ἔτι σκύλλεις τὸν διδάσκαλον; ὁ δὲ Ἰησοῦς παρακούσας τὸν λόγον λαλούμενον λέγει τῷ ἀρχισυναγώγῳ, Μὴ φοβοῦ, μόνον πίστευε. καὶ οὐκ ἀφῆκεν οὐδένα μετ' αὐτοῦ συνακολουθῆσαι εἰ μὴ τὸν Πέτρον καὶ Ἰάκωβον καὶ Ἰωάννην τὸν ἀδελφὸν Ἰακώβου. καὶ ἔρχονται εἰς τὸν οἶκον τοῦ ἀρχισυναγώγου, καὶ θεωρεῖ θόρυβον καὶ κλαίοντας καὶ ἀλαλάζοντας πολλά, καὶ εἰσελθὼν λέγει αὐτοῖς, Τί θορυβεῖσθε καὶ κλαίετε; τὸ παιδίον οὐκ ἀπέθανεν ἀλλὰ καθεύδει. καὶ κατεγέλων αὐτοῦ. αὐτὸς δὲ ἐκβαλὼν πάντας παραλαμβάνει τὸν πατέρα τοῦ παιδίου καὶ τὴν μητέρα καὶ τοὺς μετ' αὐτοῦ, καὶ εἰσπορεύεται ὅπου ἦν τὸ παιδίον: καὶ κρατήσας τῆς χειρὸς τοῦ παιδίου λέγει αὐτῇ, Ταλιθα κουμ, ὅ ἐστιν μεθερμηνευόμενον Τὸ κοράσιον, σοὶ λέγω, ἔγειρε. καὶ εὐθὺς ἀνέστη τὸ κοράσιον καὶ περιεπάτει, ἦν γὰρ ἐτῶν δώδεκα. καὶ ἐξέστησαν [εὐθὺς] ἐκστάσει μεγάλῃ. καὶ διεστείλατο αὐτοῖς πολλὰ ἵνα μηδεὶς γνοῖ τοῦτο, καὶ εἶπεν δοθῆναι αὐτῇ φαγεῖν.]

Apollonius performed another miracle. There was a girl who appeared to have died just at the time of her wedding. The betrothed followed the bier, with all the lamentations of an unconsummated marriage, and Rome mourned with him, since the girl belonged to a consular family. Meeting this scene of sorrow, Apollonius said, "Put the bier down, for I will end your crying over the girl". At the same time he asked her name, which made most people think he was going to declaim a speech of the kind delivered at funerals to raise lamentation. But Apollonius, after merely touching her and saying something secretly, woke the bride from her apparent death. The girl spoke, and went back to her father's house like Alcestis revived by Heracles. Her kinsmen wanted to give Apollonius a hundred and fifty thousand drachmas, but he said he gave it as an extra dowry for the girl. He may have seen a spark of life in her which the doctors had not noticed, since apparently the sky was drissling and steam was coming form her face, or he may have revived and restored her to life when it was extinguished, but the explanation of this has proved unfathomable, not just to me but to the bystanders.

Filóstrato, Apolónio de Tiana 4.45
Harvard University Press, Cambridge MA: 2005. (trad.: Christopher Jones).

[3'35'' — 3'48'' — 4'10'']