quinta-feira, 20 de maio de 2010

'A Fonte Grega', de Simone Weil [Crítica]


Simone Weil, A Fonte Grega.
Cotovia, Lisboa: 2006. (trad.: Filipe Jarro)

Mais do que uma colecção de ensaios sobre o pensamento filosófico-religioso grego ou que uma leitura deste à luz da mística cristã, A Fonte Grega é uma exposição do «weilianismo», acima de tudo. O livro encontra-se divido em duas partes: a primeira contém ensaios acabados, a segunda reúne textos dos seus cadernos, não preparados para publicação e que, por vezes, se resumem a um conjunto de notas. Na primeira metade encontramos, logo a abrir, o famoso ensaio de Weil sobre a Ilíada. Porém, insisto, como toda a obra, trata-se sobretudo de um espaço para a autora expor parte da sua filosofia («força» é um conceito de que Weil se apropria), o que, contudo, em nada prejudica a qualidade do texto, que não desmerece a sua reputação. Será a altura propícia, aliás, para que eu confesse que sou um curioso de Weil, que descobri no final do ano passado, com o Espera de Deus, publicado pela Assírio & Alvim, primeiro volume da série 'Teofanias'.

Notas práticas, então (e repetimo-nos, porque é bom deixar isto claro): não ler este livro se se quer um conjunto de ensaios bonitos sobre cultura grega (a própria Cotovia tem outros livros melhores se é isso que se procura, como os ensaios de Frederico Lourenço ou outros volumes sobre Píndaro, Aristófanes e Eurípides). Também não ler na esperança de encontrar aquilo que, muito possivelmente, a maioria das pessoas, desagradadas, acusa o livro de ser: uma interpretação cristã da filosofia (e literatura) grega, dos pré-socráticos a Platão. Weil é uma mística, é certo, mas o seu cristianismo é muito peculiar (ergo, muito interessante), longe da ortodoxia. O que mais admiro nela é a forma como, no seu pensamento, o cristianismo não surge como uma ruptura com a tradição grega anterior, mas sim como o seu desenvolvimento natural, mas iluminado pela graça (outro conceito fundamental em Weil). Lembremos que Steiner, no seu opúsculo A Ideia de Europa, retomando um confronto que já Tertuliano expusera, considera a Europa como o produto do esforço tenso para conciliar Atenas e Jerusalém. Weil, porém, aproxima as duas cidades, deixando o leitor, por vezes, estupefacto com as suas ousadas leituras dos textos gregos, que, parecendo descabidas, manifestam, afinal, uma estonteante propriedade, quando arriscamos abordar o material a essa luz (veja-se o caso da sua interpretação do diálogo entre Electra e Orestes como uma conversa entre Cristo e a alma ou do mito de Eros no Banquete como uma narrativa da encarnação). Pouco importa que Weil faça violência a alguns textos de Platão, ou veja alusões ao baptismo em fragmentos de Heraclito: analise-se friamente o produto final, e não podemos senão ficar com as mãos e o coração quente (e também o fogo, e de forma especial o raio, o fogo que desce do ceú, é uma metáfora importante em Weil).

Esta edição da Cotovia peca, contudo, por apresentar o texto enxuto. Sendo de Clássicas e tendo já tido um primeiro contacto com o pensamento de Weil, como disse antes, não consegui, ainda assim, seguir sempre o seu raciocínio pelos meandros das suas notas. A segunda parte, em particular, é, de facto, difícil, porque muito telegráfica, a tempos, feita de apontamentos rápidos, pensamentos elididos e remissões não totalmente explicadas. Imagino, pois, que quem conheça pior os textos gregos sobre os quais ela se debruça e mesmo quem, conhecendo-os, nada saiba da sua filosofia, tenha alguma dificuldade, se não em compreender a obra, pelo menos em lhe colher toda a profundidade. Eu próprio, estou ciente, terei de regressar a este livro, depois de ler, pelo menos, A Gravidade e a Graça e o L' Enracinement, e, já agora, também depois de finalmente ler A República, do Platão (shame on me). Em suma, e como já disse: um livro um pouco enganador para o consumidor comum, quer ele queira simplesmente pensar a Grécia, quer ele queira conhecer Weil. Peguem nisto os já interessados. Os outros, fotocopiem o ensaio da Ilíada e aventurem-se, para uma amostra do resto, no primeiro e longo texto do começo da segunda metade, sobre Platão como místico cristão (também vale muito a pena, e é de facto o melhor espelho da tarefa que Weil se propõe). Fica a sugestão: leiam Simone Weil. Outra coisa qualquer, mas leiam-na.

Cursos de Verão

O Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa colocou à disposição dos alunos uma série de cursos para o «terceiro semestre» (a designação faz-me alguma espécie). Existirão cursos livres em que não há obtenção de créditos pela sua frequência e esta é gratuita, bem como cursos com taxas simbólicas caso os alunos desejem adquirir créditos. Mais informações aqui. (Página em actualização.)

Ulisses e a Memória

Qualquer tentativa de compreender, na medida das nossas possibilidade, a natureza da representação e da memória, do facto e da ficção, deve começar no tribunal dos Feaces, no livro VIII da Odisseia. Demódoco, o aedo cego (a vista tornou-se visão) canta para os senhores reunidos e para o seu desconhecido hóspede. Canta as batalhas antes de Tróia, canta Ulisses. Ao ouvir-se cantado, o viajante sucumbe ao pranto. Não apenas, creio, devido ao manifesto pathos da recordação, não apenas porque os sombrios destinos dos seus antigos companheiros de armas lhe são relembrados, mas, de modo mais devastador, porque o recital do aedo obriga Ulisses a confrontar a «dissolução», a disseminação do seu eu vivente. Ele já passou à insubstancial eternidade da ficção. Foi esvaziado numa lenda. Não há poética depois de Homero, não há estudo filosófico sobre o estatuto do imaginário relativamente ao empírico, que seja mais penetrante. Encontram-se, na literatura e nas artes, outros actos priviligeados de reflexividade interior, tais com os fragmentos do Fígaro tocados em casa de D. Juan na sua última ceia, ou com o regresso do narrador a Veneza na obra de Proust. Nenhum deles é mais rico nem mais complexo do que Ulisses ouvindo Demódoco.

George Steiner, Errata: Revisões de uma Vida.
Lisboa, Relógio d'Água: 2009. (trad.: Margarida Vale de Gato)

imagem: ilustração da cena por Flaxman para a tradução
de William Cullen Bryant (Riverside Press, 1905).

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Angelos Sikelianos*

Of particular importance for Sikelianos was the role of poetry and of the poet in the ancient tradition that influenced him most. It was something of the same role that he himself aspired to fill in modern Greece: the poet standing in the center of his world as inspired profet and seer, teacher and mystagogue. Sikelianos considered Pindar and Aeschylus to be two poets of ancient Greece who best fulffiled this definition of the poet's role. And they fulfilled it through their use of myth, myth understood not as rhetorical or metaphorical device but as a spontaneous creation of the human soul directed toward the revelation of hidden spiritual life.

Edmund Keeley e Philip Sherrard em: Angelos Sikelianos, Selected Poems, Edmund Keeley e Philip Sherrard (trad.), Denise Harvey, 1996.

Angelos Sikelianos foi, para mim, o melhor poeta da Grécia entre a morte de Kavafis e o nascimento de Seferis. Conta-se entre aquele tipo de poetas que parecem apenas escrever poemas de uma beleza delicada, mas, quando damos por nós, percebemos que essa beleza atravessa, é por vezes sombria, talvez nunca amarga, e que, sobretudo, toca o coração da vida. Há uma verdade qualquer, ancestral, intacta, que é continuamente buscada nos textos de Sikelianos. Podem ler-se dois poemas dele aqui e aqui em tradução inglesa.

As Lágrimas da Estátua de Apolo Cumano

Não se sabe por que outro motivo esse Apolo de Cumas tivesse chorado durante quatro dias quando decorria a guerra contra os Aqueus e o rei Aristonico. Aterrados com este prodígio os arúspices julgaram que a sua imagem devia ser lançada ao mar. Mas os velhos cumanos opuseram-se e contaram que um prodígio semelhante ocorrera com a mesma imagem quando da guerra contra Antíoco e Perseu e testemunharam que, por essa guerra ter chegado ao fim com felicidade para os Romanos, um senato-consulto ordenou que se mandassem presentes ao mesmo Apolo. Chamaram-se então outros arúspices tidos por mais hábeis. Estes responderam que as lágrimas da imagem de Apolo eram favoráveis aos Romanos, visto Cumas ser uma colónia grega, e que, chorando, Apolo anunciava o luto e a derrota nas terras donde o tinham feito vir, isto é, da própria Grécia. Em breve foi anunciado que o rei Aristonico tinha sido vencido e aprisionado. É evidente que Apolo não queria esta derrota, dela se doía e até o mostrava com as lágrimas da sua imagem de pedra.

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro III, Cap. XI
Gulbenkian, Lisboa: 1991. (trad.: J. Dias Pereira)

[Neque enim aliunde Apollo ille Cumanus, cum aduersus Achiuos regemque Aristonicum bellaretur, quadriduo fleuisse nuntiatus est; quo prodigio haruspices territi cum id simulacrum in mare putauissent esse proiciendum, Cumani senes intercesserunt atque rettulerunt tale prodigium et Antiochi et Persis bello in eodem apparuisse figmento, et quia Romanis feliciter prouenisset, ex senatus consulto eidem Apollini suo dona missa esse testati sunt. Tunc uelut peritiores acciti haruspices responderunt simulacri Apollinis fletum ideo prosperum esse Romanis, quoniam Cumana colonia Graeca esset, suisque terris, unde accitus esset, id est ipsi Graeciae, luctum et cladem Apollinem significasse plorantem. Deinde mox regem Aristnicum uictum et captum esse nuntiatum est, quem uinci utique Apollo nolebat et dolebat et hoc sui lapidis etiam lacrimis indicabat.]

imagem: pormenor da estátua de Apolo, frente ao
templo do deus, em Pompeia (foto retirada daqui).

terça-feira, 18 de maio de 2010

Colóquio: A Guerra na Antiguidade V

Dando sequência às quatro edições anteriores (realizadas em 2005, 2006, 2008 e 2009), o Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa organiza no corrente ano o Colóquio A Guerra na Antiguidade V. O Colóquio, que se tornou já uma referência no panorama historiográfico nacional, ao propor novos horizontes teóricos, novos problemas metodológicos e novas linhas reflexivas para a análise e compreensão do fenómeno militar no Mundo Antigo, visa uma vez mais o estudo da guerra numa larga diacronia, que parte das civilizações pré-clássicas (Assíria, Egipto e Israel) até chegar ao mundo clássico (Grécia e Roma), sem esquecer os seus inimigos, a Ocidente e a Oriente.

O Colóquio terá lugar no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no próximo dia 1 de Junho; a entrada é livre, destinando-se a inscrição, no valor de 5 EUR, à obtenção do certificado de presença. Para qualquer informação, queiram por favor contactar o secretariado do Colóquio (Drs. André Oliveira Leitão, Inês Araújo e Tiago Pinto), através dos emails centro.historia@fl.ul.pt ou centro.historia.ul@gmail.com.

Eis o programa:

10h00: Sessão de abertura com António Ventura (Director do CH)
10h15: A guerra no olhar dos Hebreus: vivências históricas e níveis de sentido, por José Augusto Ramos (FLUL/CH)
10h35: A expansão da Assíria e o equilíbrio de poder no Médio Oriente antigo, por António Ramos dos Santos (FLUL/CH)
11h00: As cenas de massacre dos inimigos no templo funerário de Ramsés III, em Medinet Habu, por José das Candeias Sales (U. Aberta/CH)
11h25: A conquista núbia do Egipto, por Luís Manuel de Araújo (FLUL/CH)

15h00: Lançamento do Livro 'A Guerra na Antiguidade III'
15h10: A nudez do guerreiro grego, por Nuno Simões Rodrigues (FLUL/CH)
15h35: Fazer e desfazer a paz na Guerra do Peloponeso (431 a.C – 401 a.C.), por José Varandas (FLUL/CH)
16h00: Os militares lusitanos pelos caminhos do império, por Amílcar Guerra (FLUL/UNIARQ)
16h25: Influências bárbaras no armamento romano, por Miguel Sanches de Baêna (FLUL/CH)
16h50: A guerra contra Jugurta contada por Salústio, por Pedro Gomes Barbosa (FLUL/CH)

imagem: o chamado Mosaico de Alexandre, da Casa do Fauno, Pompeia (c. 100 a.C),
retratando a Batalha de Isso, em 333 a.C., entre Alexandre e Dário III.

O brother, where art thou?


Em 2000 os irmãos Coen realizaram um filme intitulado O brother, where art thou?
O brother, where art thou? é talvez a melhor transposição para cinema da temática da Odisseia de que tenho notícia. É uma Odisseia passada no Mississipi durante a década de 30. E vale a pena ver.

Consta que é o convidado surpresa da Jornada

The sea, autumn mildness, islands bathed in light, fine rain spreading a diaphanous veil over the immortal nakedness of Greece. Happy is the man, I thought, who, before dying, has the good fortune to sail the Aegean Sea.

Many are the joys of this world —women, fruit, ideas. But to cleave that sea in the gentle autumnal season, murmuring the name of each islet, is to my mind the joy most apt to transport the heart of man into paradise. Nowhere else can one pass so easily and serenely from reality to dream. The frontiers dwindle, and from the masts of the most ancient ships spring branches and fruits. It is as if here in Greece necessity is the mother of miracles.

Nikos Kazantzakis, Zorba the Greek, faber and faber (2008)

Onde quer que vá a Grécia fere-me ("Seferis #2")

In the Manner of G. S.

Wherever I travel Greece wounds me.

On Pelion among the chestnut trees the Centaur's shirt
slipped through the leaves to fold around my body
as I climbed the slope and the sea came after me
climbing too like mercury in a thermometer
till we found the mountain waters.
On Santorini touching islands that were sinking
hearing a pipe play somewhere on the pumice stone
my hand was nailed to the gunwale
by an arrow shot suddenly
from the confines of a vanished youth.
At Mycenae I raised the great stones and the treasures of the house of Atreus
and slept with them at the hotel 'Belle Hélène de Ménélas';
they disappeared only at dawn when Cassandra crowed,
a cock hanging from her black throat.
On Spetses, Poros, and Mykonos
the barcaroles sickened me.

What do they want, all those who believe
they're in Athens or Piraeus?
Someone comes from Salamis and asks someone else whether he 'issues forth from Omonia Square'.
'No, I issue forth from Syntagma, ' replies the other, pleased;
'I met Yianni and he treated me to an ice cream.'
Meanwhile Greece is travelling
and we don't know anything, we don't know we're all sailors out of work,
we don't know how bitter the port becomes when all the ships have gone;
we mock those who do know.

Strange people! they say they're in Attica but they're really nowhere;
they buy sugared almonds to get married
they carry hair tonic, have their photographs taken
the man I saw today sitting against a background of pigeons and flowers
let the hands of the old photographer smoothe away the
wrinkles left on his face by all the birds in the sky.

Meanwhile Greece goes on travelling, always travelling
and if we see 'the Aegean flower with corpses'
it will be with those who tried to catch the big ship by swimming after it
those who got bored waiting for the ships that cannot move
the ELSI, the SAMOTHRAKI, the AMVRAKIKOS.
The ships hoot now that dusk falls on Piraeus,
hoot and hoot, but no capstan moves,
no chain gleams wet in the vanishing light,
the captain stands like a stone in white and gold.

Wherever I travel Greece wounds me,
curtains of mountains, archipelagos, naked granite.
They call the one ship that sails AGONY 937.

M/s Aulis, waiting to sail.
Summer 1936




Yorgos Seferis, Complete Poems, The Anvil Press Poetry (1995)

Seferis #1


O que pode uma chama recordar? Se recordar um pouco menos do que for necessário, apaga-se; se recordar um pouco mais do que for necessário, apaga-se. Se ao menos nos pudesse ensinar, enquanto ainda arde, como recordar correctamente.

Yorgos Seferis, Mr. Stratis Thalassinos #5 Homem. Complete Poems, Anvil Press Poetry (1995)


A propósito da Jornada de Cultura Neo-Helénica. Cuja primeira actividade será precisamente uma conferência sobre Seferis, apresentada por Hélio Silva. E vai ser persuavis.

Imagem retirada daqui, aproveitando para salientar o ensaio.