terça-feira, 5 de abril de 2011

Clitemnestra

Em todo o fabuloso Peloponeso, é Micenas um lugar que conserva intacta a sua atmosfera dramática. A traquinice tagarela dos turistas retrai-se um pouco diante daquela porta com a sua tiara de leoas vigilantes. É como se a própria Clitemnestra, com o seu vestido de luto e o seu rosto pintado, estivesse a olhar fixamente os clarões que se acendem sobre o poente e que bem podem traduzir a derrota de Tróia. É uma mulher extraordinária, de rosto oval e pele que reflecte a luz; a sua brancura é azulada, tem a voz rouca e breve das espartanas. Atrás daquela Porta das Leoas, que não pode ser barricada contra o destino, ela se conserva, a rainha ferida de rancores antiquíssimos.

Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

Teatro Neolatino, Nihil Obstat

Gold Treasure, Roman Coins Revealed in U.K.



Notícia para ler aqui!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

E eis a origem da Comédia!

" 'Tendo rido Deus, nasceram os sete deuses que governam o mundo... Quando ele gargalhou, fez-se a luz... Ele gargalhou pela segunda vez: tudo era água. Na terceira gargalhada, apareceu Hermes; na quarta, a geração; na quinta, o destino; na sexta, o tempo.' Depois, pouco antes do sétimo riso, Deus inspira profundamente, mas ele ri tanto que chora, e de suas lágrimas nasce a alma.

Assim se exprime o autor anônimo do papiro alquímico que data do seculo III, o papiro de Leyde. O universo nasceu de uma enorme gargalhada. Deus, o Único, qualquer que seja seu nome, é acometido -não se sabe por que- de uma crise de riso louco, como se, de repente, ele tivesse consciência do absurdo de sua existência. Nessa versão da criação, Deus não cria pela palavra, que já é civilização, mas por esse evocar de vida selvagem, e cada um de seus sete acessos faz surgir do Nada um novo absurdo, tão absurdo quanto o próprio Deus: a luz, a água, a matéria, o espírito. E, no final desse big bang cômico e cósmico, Deus e o universo encontram-se em um face a face eterno, perguntando-se um ao outro o que estão fazendo lá: aquele que ri e sua gargalhada." 

MINOIS, Georges. História do riso e do escárnio. Sao Paulo: Editora UNESP, 2003, p.21,22.

domingo, 3 de abril de 2011

Novidades Editoriais Classica Digitalia

(informação recebida pela Origem da Comédia)
O Conselho Editorial dos Classica Digitalia – braço editorial do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos - tem o gosto de anunciar 4 novos livros, 1 dos quais em parceria com o 1º Jardim Escola João de Deus e a Câmara Municipal de Coimbra, dentro da observância do espírito geral de transferência de saberes. Com estas publicações e antes mesmo de cumprir dois anos de existência, os Classica Digitalia atingem a meta de 50 volumes publicados, ficando assim a um passo de se transformar na maior editora para a área dos Estudos Clássicos, em todo o espaço lusófono.

O Conselho Editorial agradece a confiança e empenho dos autores, dos parceiros de publicação, do painel internacional de referees e de toda a equipa técnica, pois a todas estas instâncias se deve o desenvolvimento deste projecto. Muito em breve, serão dados novos passos no sentido de se aperfeiçoar e ampliar a dimensão internacional dos Classica Digitalia.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço directo é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso para venda.

NOVIDADES EDITORIAIS

I. Colecção “Autores Gregos e Latinos – Série Textos Gregos”

- Rodolfo Lopes: Platão. Timeu – Crítias. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011). 270 p.
PVP: 17 € / Estudantes: 13 €

II. Série “Varia”

- José Geraldes Freire, A Versão Latina por Pascásio de Dume dos Apophthegmata Patrum. Tomo I (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011) 421 p. [reimpressão, com um novo suplemento de Paula Barata Dias]
PVP: 28 € / Estudantes: 22 €

- José Geraldes Freire, A Versão Latina por Pascásio de Dume dos Apophthegmata Patrum. Tomo II (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011) 443 p. [reimpressão]
PVP: 27 € / Estudantes: 21 €

- Ália Rodrigues e Ana C. Martins , 1º Jardim-Escola João de Deus. O Primeiro dos Centenários 1911-2011 (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011) 159 p.

Arte Peripoética

Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de ser
contra a maneira do tempo
esta maneira de ver
o que o tempo tem por dentro.

Aristóteles diria
entre dois goles de chá
que o melhor ainda será
deixar o tempo onde está
pô-lo de perto no tema
e de parte na poesia
para manter o poema
dentro da ordem do dia.

Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só.
Ele sabia que o poeta
depois de tudo inventado
depois de tudo previsto
de tudo vistoriado
teria de fazer isto
para não continuar
com que já estava acabado
teria de ser presente
não futuro antecipado
não profeta não vidente
mas aço bem temperado
cachorro ferrando o dente
na canela do passado
adaga cravando a ponta
no coração do sentido
palavra osso furando
pele de cão perseguido.

Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de riso
que é a mais original
forma de se ter juízo
e ser poeta actual.

Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
também diria antes só
do que mal acompanhado
antes morto emparedado
em muro de pedra e cal
aonde não entre bicho
que não seja essencial
à evasão da palavra
deste silêncio mortal.

Ary dos Santos, Adereços, Endereços. Lisboa, 1965.

sábado, 2 de abril de 2011

Segundo In Memoriam

À Petrónio

Tinha pela humanidade um desprezo quase vernáculo, pio, à Petrónio.

Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Feliz Dia das Mentiras

Aliás, como disse um deles [Epiménides*], que era profeta, «os cretenses são sempre mentirosos, bestas más e ventres preguiçosos» (= DK 3 B1).
εἶπέν τις ἐξ αὐτῶν, ἴδιος αὐτῶν προφήτης, Κρῆτες ἀεὶ ψεῦσται, κακὰ θηρία, γαστέρες ἀργαί.
 * de acordo com Clemente de Alexandria, Str. 1.59.

Tt 1.12, retirado da Nova Bíblia dos Capuchinhos.
Difusora Bíblica, Lisboa/Fátima: 1998. (trad.: José Ornelas Carvalho)