quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Lúcio Cornélio Boco, Escritor Lusitano - O Colóquio

(informação retirada do panfleto)
A Academia Portuguesa da História e a Real Academia de la Historia, de Espanha, decidiram organizar um Colóquio Internacional sobre Lúcio Cornélio Boco, escritor lusitano da Idade de Prata da Literatura Latina. O Colóquio pretende valorizar a vida e a obra desse escritor natural da Lusitânia, para actualizar os escassos conhecimentos existentes sobre este autor quase desconhecido.

Lúcio Cornélio Boco era originário de Salacia (Alcácer do Sal) e foi um poderoso personagem da época Júlio-cláudia, como indicam as inscrições achadas em Alcácer do Sal, Lisboa e Mérida. Estas epígrafes indicam que deverá corresponder ao escritor hispano-latino citado por Plínio e Solino, cuja obra terá transmitido ao mundo clássico a cultura literária de Tartessos, a mais antiga da Península Ibérica. A identificação nestes últimos anos de novas e importantes epígrafes sobre os Cornelli Bochi em Portugal e Espanha e a proposta de reconhecer partes da sua obra em diversos autores latinos justifica a realização desta reunião.

Esta terá lugar nos próximos dias 6, 7, 8 e 9 de Outubro de 2010 em Tróia (Setúbal). A ficha de inscrição e o programa podem ser descarregados aqui. As inscrições estão abertas até dia 30 de Setembro.

Leitores Atentos §8

ἐπάμεροι: τί δέ τις; τί δ᾽ οὔ τις; σκιᾶς ὄναρ
ἄνθρωπος.

Efémeros! Que somos nós? Que não somos?
Sombra de um sonho é o Homem!
Píndaro, Píticas 8.95-96
in Sete Odes de Píndaro, Porto Editora, Porto: 2003. (trad.: MHRP).

OU

Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser
Alguém? O que é não ser Ninguém? O Humano é o sonho de
uma sombra.
Píndaro, Píticas 8.95-96
Quetzal, Lisboa: 2010 (trad.: António Caeiro)


FIRST KNIGHT. Grievously are we tantalized, one and all;
Swayed here and there, commanded to and fro,
As though we were the shadows of a dream
And linked to a sleeping fancy. What do we here?

Keats, Otho the Great V.5

imagem: Pindar and Ictinus, de Jean-Auguste-Dominique Ingres
c. 1830-67, @ The National Gallery, Londres

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Memórias do Prado §9

O Parnaso, de Nicolas Poussin
1631-1633, óleo sobre tela, 145 x 197

Para gregos e romanos, o monte Parnaso era o lugar onde vivia Apolo, o deus das artes e das letras. Junto dele viviam as nove musas, as divindades protectoras das ciências, do teatro e da literatura. Poussin imaginou este local idílico no momento em que nove poetas chegam a esta corte ideal. Da fonte Castália, personificada por uma ninfa, brotava a água que proporcionava a inspiração a quem a bebesse. Esta é oferecida por cupidos, que fazem parte do cortejo do deus. Apolo surge a presidir à reunião em que um dos sábios recebe uma coroa de louros. As folhas deste arbusto eram o seu símbolo e colocá-las na cabeça era reservado a artistas excelentes. Tem-se especulado acerca da identidade do premiado, que poderia ser o escritor Torquato Tasso (1544-1595), autor do poema épico Jerusalém Libertada. O pintor não só se serviu da escultura antiga como modelo, como também se inspirou num conhecido fresco de Rafael sobre o mesmo tema. O colorido suave e a composição equilibrada são uma homenagem a este artista do Renascimento.

Ángel Aterrido, "Pintura Francesa" in AA.VV., O Guia do Prado.
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008.

Há pouco isto fez-me rir

O seu tinteiro era um autêntico templo de Jano; quando fechado, a paz reinava no mundo inteiro.

Lichtenberg, Aforismos, João da Fonseca Amaral (trad.), Livro B, Editorial Estampa, 2010 (2ªed.)

Sobre a Transmissão dos Textos na Antiguidade

Por esse tempo, contam alguns, proferiu os seus vaticínios a Sibila de Eritreia. Refere Varrão que não houve uma só, mas várias sibilas. Esta Sibila de Eritreia escreveu acerca de Cristo alguns vaticínios evidentes: o que eu mesmo li em latim, mas em mau latim, em versos coxos, devidos à imperícia não sei de que tradutor, como depois vim a descobrir.

[Eodem tempore nonnulli Sibyllam Erythraeam uaticinatam ferunt. Sibyllas autem Varro prodit plures fuisse, non unam. Haec sane Erythraea Sibylla quaedam de Christo manifesta conscripsit; quod et.iam nos prius in Latina lingua uersibus male Latinis et non stantibus legimus per nescio cuius interpretis imperitiam, sicut post cognouimus.]
*
Lactâncio apresentou sumária e desordenadamente estes testemunhos da Sibila, como lhe parecia que os devia apresentar para provar o que pretendia. Apresentando-os sem nada intercalar e ordenando-os num texto seguido, apenas procurei distingui-los pelas suas primeiras palavras. Oxalá que, para o futuro, os copistas tenham o cuidado de os conservar.

[Ista Lactantius carptim per interualla disputationis suae, sicut ea poscere uidebantur, quae probare intenderat, adhibuit testimonia Sibyllina, quae nos nihil interponentes, sed in unam seriem conexa ponentes solis capitibus, si tamen scriptores deinceps ea seruare non neglegant, distinguenda curauimus.]
*
Nem os próprios três Profetas Menores, Abdias, Naum e Habacuc, nos dizem, nem se encontram nas Crónicas de Eusébio e Jerónimo, a época em que profetizaram. É certo que Abdias foi por eles colocado junto de Miqueias, mas não na passagem onde são referidos os tempos em que, segundo os seus escritos, ele profetizou — o que aconteceu, julgo eu, por erro dos que transcrevem sem cuidado trabalhos alheios.

[Tres prophetae de minoribus, Abdias, Naum, Ambacum, nec tempora sua dicunt ipsi, nec in chronicis Eusebii et Hieronymi, quando prophetauerint, inuenitur. Abdias enim positus est quidem ab eis cum Michaea, sed non eo loco, ubi notantur tempora, quando Michaeam prophetasse ex eius litteris constat; quod errore neglegenter describentium labores alienos existimo contigisse.]

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro XVIII, Cap. XXIII e XXXI
Gulbenkian, Lisboa: 1995. (trad.: J. Dias Pereira).

imagem: Manuscript Book Mural (1896), de John White Alexander
@ Library of Congress Thomas Jefferson Building, Washington, D.C.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Estudos Clássicos: Entradas na Universidade

Ainda não demos aqui conta dos resultados das candidaturas ao ensino superior, que foram tornados públicos na noite de sábado para domingo. Como é sabido, os Estudos Clássicos são apenas leccionados em Lisboa e Coimbra. Este ano entraram na capital nove alunos em primeira fase e para a impropriamente chamada cidade do conhecimento vieram vinte. Em Lisboa, foram quatro a entrar em primeira opção; em Coimbra, apenas três. Tal, porém, não serve senão de indicador, e falível: muitos acabam por descobrir a sua vocação apenas mais tarde, já integrados no curso. A ver vamos, pois, o que nos reserva esta nova fornada.

imagens: retiradas daqui e daqui.

Invenções

Durante o seu [de Argos] reinado, foi esta honra [a divinização] atribuída a um simples particular fulminado por um raio, um certo Homogiro, o primeiro que atrelou bois ao arado.

[...qui honor eo regnante ante illum delatus est homini priuato et fulminato cuidam Homogyro, eo quod primus ad aratrum boues iunxerit.]

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro XVIII, Cap. VI

Pode ter-se tudo isto como uma ficção poétia e asseverar-se que quem foi o pai de Pico foi Esterces, hábil agricultor que descobriu a maneira de fecundar os campos com o estrume dos animais, que, do seu nome, tomou o de esterco.

[Sed haec poetica opinentur esse figmenta et Pici patrem Stercen potius fuisse adseuerent, a quo peritissimo agricola inuentum ferunt, ut fimo animalium agri fecundarentur, quod ab eius nomine stercus est dictum]

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro XVIII, Cap. XV
Gulbenkian, Lisboa: 1995. (trad.: J. Dias Pereira)

Se há coisa que me agrada nos antigos é o seu cuidado em, para quanto é útil na vida, inventar o seu inventor, por mais simples que seja a coisa, como nos dois exemplos que encimam o post. Sempre me custou — e não exagero no meu sentimento — não sabermos o nome, por exemplo, de quem descobriu a bolacha ou o iogurte, duas das criações gastrónimas que, pelo menos a meu ver, tornam a vida superiormente agradável. Acho também que é de ponderar uma estátua ao inventor das luvas ou do cachecol. Desprezamos em demasia os inventores (poucos saberão que Wittgenstein, por exemplo, desenhou um tipo de puxador de porta ainda hoje fabricado); os gregos, pelo contrário, divinizavam-nos, como Homogiro. Visto que luvas, cachecóis e iogurtes, tudo existia já pelo menos no tempo dos romanos, com um pouco de investigação, quiçá ainda descubro os inventores míticos de cada uma das coisas. Não deixarei, nesse caso, de lhes fazer justiça aqui, com um pequeno, mas sincero, post.

imagem: selo de Ícaro e o seu pai, Dédalo, o inventor-mor grego.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Memórias do Prado §8

Exéquias de um Imperador Romano, de Giovanni Lanfranco
1634-1637, óleo sobre tela, 335 x 488.

Esta tela fazia parte de uma grande encomenda constituída por um total de 34 pinturas inspiradas na história e nos costumes da antiga Roma, seis delas perdidas, que foram colocadas nas paredes do recém-construído Palácio de Buen Retiro. O intermediário do rei foi Manuel de Fonseca y Zúñiga, sexto conde de Monterrey e vice-rei de Nápoles entre 1631 e 1637, que não poupou esforços para contratar os mais afamados pintores italianos da época. Lanfranco deu à sua obra um aspecto esboçado que se deve, sobretudo, ao seu labor principal como pintor de frescos e que lhe valeu críticas acesas durante o século XIX. A intencionalidade simbólica do programa do Buen Retiro não foi ainda satisfatoriamente resolvida.

José María Riello, "A Colecção de Pintura Italiana" in AA.VV., O Guia do Prado
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008

Cuidados A Ter Na Minha Futura Visita À Grécia

Efectivamente, fizeram de Diomedes um deus, de quem se diz que não voltou aos seus por causa de um castigo de ordem divina: afirmam que os seus companheiros foram convertidos em aves e têm isto não como uma poética fábula mentirosa, mas história comprovada. Dizem deles que nem Diomedes, segundo eles tornado deus, pôde fazê-los voltar à sua natureza humana, nem, ainda novato morador do Céu, o conseguiu de Júpiter, seu rei. Dizem mais: que ele tem o seu templo na ilha Diomedeia, não longe do monte Gárgano, na Apúlia, e à volta deste templo voam e habitam essas aves com tão admirável veneração que enchem seus bicos de água e aspergem-no. E por isso se gregos ou descendentes de gregos vierem a este sítio, elas não só se mostram tranquilas mas até os acariciam; mas, se vierem estrangeiros, elas voam sobre as cabeças e ferem-nos com tão duros golpes que chegam a matá-los. Dizem que, efectivamente, estão munidas de enormes e duros bicos, suficientemente armados para estes combates.

Santo Agostinho, Cidade de Deus, Livro XVIII, Cap. XVI
Gulbenkian, Lisboa: 1995. (trad.: J. Dias Pereira)

[Nam et Diomeden fecerunt deum, quem poena diuinitus inrogata perhibent ad suos non reuertisse; eiusque socios in uolucres fuisse conuersos non fabuloso poeticoque mendacio, sed historica adtestatione confirmant; quibus nec deus, ut putant, factus humanam reuocare naturam uel ipse potuit uel certe a Ioue suo rege tamquam caelicola nouicius impetrauit. quin etiam templum eius esse aiunt in insula Diomedea, non longe a monte Gargano, qui est in Apulia, et hoc templum circumuolare atque incolere has alites tam mirabili obsequio, ut aquam impleant et aspergant; et eo si Graeci uenerint uel Graecorum stirpe prognati, non solum quietas esse, uerum et insuper adulare; si autem alienigenas uiderint, subuolare ad capita tamque grauibus ictibus, ut etiam perimant, uulnerare. Nam duris et grandibus rostris satis ad haec proelia perhibentur armatae.]

imagem: fotograma d' Os Pássaros, de Hitchcock (1963)

A troca de uma letra

Quando os Gregos tinham de apelar para uma autoridade última, não citavam textos sagrados, mas Homero. A Grécia baseava-se na Ilíada. E a Ilíada baseava-se num jogo de palavras, na troca de uma letra. Briseida, Criseida. O objecto da disputa que está na origem do poema é Briseida Kallipareos, «das belas faces». Só uma letra separa as duas donzelas. E não é «por causa das donzelas», repete infantilmente Aquiles, que se origina a disputa, mas por causa da substituição, como se o herói pressagiasse que naquele acto se apertava o nó que nenhum herói, nem ninguém das gerações que se seguiram aos heróis, desataria.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.