sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Há que vestir a t-shirt

Aqui.

Ifigénia na Táurida

De novo aqui.

Pré-Socráticos #1: A Grécia Arcaica


Primeira sessão do ciclo Tertúlias Pré-Socráticas, promovido pela associação Origem da Comédia. Maria Helena Rocha Pereira fala da Grécia Arcaica, enquanto plano de fundo histórico-cultural da revolução científica e filosófica protagonizada pelos filósofos que serão tratados nas sessões seguintes. Sessão decorrida no dia 5 de Março de 2010, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra.

Tertúlias Pré-Socráticas: Os Vídeos

A 5 de Março deste ano, a Origem apresentava-se ao mundo com a primeira sessão do seu ciclo Tertúlias Pré-Socráticas, um conjunto de encontros no café do Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, dedicados, como o nome deixa adivinhar, aos filósofos pré-socráticos. A iniciativa, que contou com a participação de professores quer de Filosofia quer de Clássicas, e oriundos de várias universidades do país, revelou-se um pequeno sucesso, conseguindo atrair algumas dezenas de pessoas todas as quartas-feiras ao foyer do TAGV. Numa linguagem acessível, sem, porém, abdicar do rigor científico, procurou dar-se a conhecer estas personagens maiores da história cultural do Ocidente. Contámos ainda com a participação de vários grupos artísticos da cidade, que, antes de cada sessão, através do seu trabalho a partir de textos de alguns dos autores mais importantes da tradição literária, relembravam ao público a perenidade das figuras abordadas em cada tertúlia, a que grandes escritores de todas as epócas regressaram uma e outra vez.

Porque sempre foi o nosso objectivo que esta primeira actividade da Origem chegasse ao maior número de pessoas possível, logo na altura cuidámos de, com a autorização dos convidados, filmar as suas intervenções, para as divulgar online, em data posterior. Volvidos seis meses sobre o início do ciclo de tertúlias, é chegado o tempo. Começamos hoje a colocar aqui no blogue todas as sessões que fomos autorizados a registar em formato vídeo. Todas as semanas, se não formos confrontados com problemas informáticos, iremos deixar aqui o vídeo de uma das sessões, sempre à sexta-feira. Esperemos que, desta forma, muitos dos que não puderam assistir às tertúlias, pelas mais variadas razões, possam agora usufruir da sabedoria dos vários professores que tão generosamente aceitaram o nosso desafio para virem falar de alguns dos nomes mais sonantes do génio grego.

Os vídeos nem sempre terão a melhor qualidade de som, também pelo próprio ambiente em que decorreram as tertúlias (um café) e o inevitável barulho de fundo associado. Ainda assim, elevando um pouco o volume do computador é possível seguir bem as várias intervenções. Os vídeos foram todos filmados e editados por Rodolfo Lopes, a quem não podemos deixar de agradecer especialmente, pelo seu trabalho dedicado.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Memórias do Prado §7

Hipomene e Atalanta, de Guido Reni
c. 1612, óleo sobre tela, 206 x 297.

Segundo a mitologia, Atalanta não queria casar porque um oráculo a tinha avisado de que correria perigo se se unisse a um mortal. Forçada pelo seu pai, anunciou que se casaria com quem fosse capaz de vencê-la em corrida, avisando que mataria quem não conseguisse. Depois de se ter livrado de vários pretendentes, deparou-se com Hipomene que, sempre que ia ser alcançado pela jovem, lançava uma das maçãs de ouro que Afrodite lhe tinha oferecido para que Atalanta as recolhesse, o que lhe deu a vitória final. Assim conseguiu o amor da jovem e o seu corpo como troféu. Esta obra é uma das principais do pintor e do classicismo bolonhês, pela sua prudente representação dos nus, pela sobriedade narrativa e pelo requintado sentido de movimento. Em 1796 fazia parte da Sala Reservada da Academia de São Fernando.

José María Riello, "Pintores Bolonheses" in AA.VV., O Guia do Prado
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008

Farmville

Agriculture itself, most useful of all occupations, but just the one in which the spirit of competition is conspicuous by its absence, would make great progress if prizes were offered for the farm or the village that can show the best cultivation, and many good results would follow for those citizens who threw themselves vigorously into this occupation.

[καὶ τὸ πάντων γε χρησιμώτατον, ἥκιστα δὲ εἰθισμένον διὰ φιλονικίας πράττεσθαι, ἡ γεωργία αὐτὴ ἂν πολὺ ἐπιδοίη, εἴ τις ἆθλα προτιθείη κατ᾽ ἀγροὺς ἢ κατὰ κώμας τοῖς κάλλιστα τὴν γῆν ἐξεργαζομένοις, καὶ τοῖς εἰς τοῦτο τῶν πολιτῶν ἐρρωμένως τρεπομένοις πολλὰ ἂν ἀγαθὰ περαίνοιτο.]

Xenofonte, Hiero* 9.7, in Xenophon. Scripta Minora.
Harvard University Press, Cambridge MA: 1968. (trad.: G. W. Bowersock).

*Este pequeno e relativamente pouco conhecido livro de Xenofonte foi traduzido e comentado por Leo Strauss, sob o nome alternativo de On Tyranny. Alexandre Kojève, amigo do autor, escreveu um ensaio em que manifestava a sua oposição às teses que Strauss expunha no seu comentrário a Xenofonte, ensaio a que o alemão respondeu com outro paper. Este debate amigável acabaria por dar origem a toda uma troca de cartas entre os dois, em que se discute de forma acessa a relação entre política e filosofia. Para nossa instrução, todo o material desta polémica entre dois dos maiores professores de filosofia do século XX — chamo-lhes professores não depreciativamente, como quem lhes quer roubar o nome de filósofos, mas como reconhecimento pela qualidade do seu magistério: vários nomes importantes do século passado foram seus alunos — foi reunido num só volume, que eu espero ter, em breve, oportunidade de encomendar (e, a seu tempo, logo tratarei de falar aqui dele em maior detalhe).

imagem: Ulisses, que se gabava «também de saber conduzir/ Num campo a direito o sulco do arado», finge-se de louco, para não ir para a Guerra de Tróia, e vai arar os seus campos. Por iniciativa de Palamedes, que desconfiava que tudo não passava de fingimento, os gregos colocaram o recém-nascido Telémaco na leira, por onde o arado deveria passar: se Ulisses se desviasse da criança, para não matar o seu filho, então era sinal que não tinha enlouquecido. Foi, claro, o que aconteceu, e o rei de Ítaca teve de partir para Tróia. Mais tarde, Ulisses matará Palamedes, como vingança, por ter sido devido ao conselho deste que o herói foi desmascarado.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Abertura das Galerias Romanas da Rua da Prata

As galerias romanas da Rua da Prata, em Lisboa, vão abrir ao público nos dias 24, 25 e 26 de Setembro, naquela que será a única vez que estarão acessíveis a todos este ano.

Informação via o blogue Mitologia Clássica (ler aqui).

Memórias do Prado §6

Oferenda a Vénus, de Ticiano
1518-1519, óleo sobre tela, 172 x 175

A Bacanal na Ilha de Andros, de Ticiano
1523-1526, óleo sobre tela, 175 x 193

Oferenda a Vénus e A Bacanal na Ilha de Andros foram pintadas para Afonso I d'Este, terceiro duque de Ferrara, e destinavam-se ao camerino d' alabastro que o nobre tinha na sua residência dessa cidade. Embora o significado daquele camerino não seja claro, a exaltação dos poderes do amor e do vinho através das figuras de Vénus e Baco parecem estar de acordo com a personalidade do duque, que indicou aos artistas encarregados da execução do conjunto não só os temas como também os textos em que deviam basear-se (Filóstrato e Ovídio). Ticiano recebeu a encomenda da Oferenda a Vénus depois da morte do pintor Fra Bartolomeo em 1517, inspirando-se num desenho deste, embora com significativas variações. Na sua pintura aparecem inúmeros cupidos que brincam entre cestos de maçãs num jardim guardado por um estátua de Vénus. Presumivelmente, esta ergue-se no lateral direito pela colocação da pintura no camerino e permite, por sua vez, que a atenção se centre na paisagem e nos cupidos. Se esta obra é um hino à fertilidade da natureza e uma celebração da iniciação ingénua e traquina nos frenesins do amor, na Bacanal a embriaguez provocada pela música e pelo vinho transforma-se numa satisfeita embriaguez erótica, pois, tal como diz a partitura do primeiro plano que reproduz um cânone atribuído ao músico flamengo Adroaen Willaert, «quem bebe e não repete não sabe o que é beber». este alegre frenesim báquico traduz-se no ritmo da composição e no cromatismo medido da tela. Por outro lado, o artista harmoniza um apurado estudo do natural com referências implícitas à estatuária clássica e a certas criações contemporâneas, em particular à Batalha de Cascina de Miguel Ângelo ou ao Festim dos Deuses que Giovanni Bellini pintou para o mesmo local e com o qual se estabeleceria um fecundo diálogo. A Bacanal na Ilha de Andros foi uma das pinturas mais famosas e influentes de Ticiano.

José María Riello, "Ticiano" in AA.VV., O Guia do Prado
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Em Defesa das Traduções Literais, ou Pro Schleiermacher


Mas aquele que tenciona punir racionalmente não castiga por causa das acções passadas — porque não vale a pena chorar pelo leite derramado[47].

ὁ δὲ μετὰ λόγου ἐπιχειρῶν κολάζειν οὐ τοῦ παρεληλυθότος ἕνεκα ἀδικήματος τιμωρεῖται—οὐ γὰρ ἂν τό γε πραχθὲν ἀγένητον θείη

[47] [...] O provérbio pretende, neste contexto, manter o sentido da expressão do original grego que diz οὐ γὰρ ἂν τό γε πραχθὲν ἀγένητον θείη, à letra, «porque não é possível não fazer o que já se fez».

Platão, Protágoras 324b
Relógio d' Água, Lisboa: 1999. (trad.: Ana Elias Pinheiro)

Frequentei no primeiro semestre do ano passado, por curiosidade, a cadeira de Teoria da Tradução, do mestrado oferecido na área pela Universidade de Coimbra. É uma cadeira francamente interessante e, se é verdade que a tradução é uma actividade fundamentalmente empírica e que, portanto, uma cadeira como teoria da tradução parece simples bizantinice, a verdade é que ajuda o tradutor a ganhar consciência do seu próprio método de trabalho (o erro de muitos que ficam desiludidos com a cadeira é que esperam precisamente o inverso: aprender o "verdadeiro método" de traduzir, mais do que perceber aquele que é já o seu). Acresce a isto o ter-se a oportunidade de ler alguns muito bons textos, como o Sobre os Diferentes Métodos de Traduzir, do Schleiermacher.

Neste pequeno texto, talvez o mais importante de toda a história da teoria da tradução (seguido de perto, no século XX, pelo After Babel, do Steiner), Schleiermacher defende que é necessário enveredar por um género de tradução estranhante (já antes de Brecht os alemães aprovavam a Verfremdung), em que o leitor note que está a ler uma obra traduzida, ou seja, exactamente o oposto daquilo que então se praticava nesse tempo e que, ainda hoje, sob a forma de sabedoria popular, continua a ser pregado. A muitos esta ideia poderá parecer de todo descabida: afinal, continuamos a ler nos jornais e revistas elogios às traduções que se lêem com a mesma fluência que o original (ainda no domingo o Vasco Pulido Valente criticava a nova biografia do Salazar por se notar que foi traduzida do inglês). A esses, convido-os a lerem a conferência de Schleiermacher (que traduziu a obra integral de Platão, portanto sabe do que fala). Não tenho aqui espaço, nem é esse o objectivo deste post, de listar os seus argumentos; apenas posso dizer que, em boa medida porque a Alemanha acolheu o programa que ele delineou naquele dia de 24 de Junho de 1813, é que, durante todo o século XIX, deu tanto ao mundo e emergiu como uma nação cardeal da cultura europeia.

Pela forma como tenho estado a falar de Schleiermacher muitos terão já percebido a minha simpatia pelas suas teses. Um dos problemas com que os tradutores não raro se deparam é com a questão dos provérbios: dificilmente encontrarão quem vos aconselhe a traduzi-los de forma literal, antes vos recomendam que procurem o provérbio com o sentido mais próximo na língua de chegada. Em boa medida, consigo perceber a sensatez desta estratégia, mas, não nego, por vezes pergunto-me se não deveríamos, também nisto, forçar a tradução, fiéis a Schleiermacher. É que, afinal, os provérbios são das melhores expressões da alma de um povo (se ainda me é legítimo usar a expressão) e recusar dar-lhes voz, encobrindo-os sob a capa do local e conhecido do leitor, da expressão equivalente, é amputar a obra de um dos exemplos em que, em pouco espaço, mais se concentra a natureza própria e íntima de uma língua. Só por si isso já me tinha antes dado que pensar.

Ao ler, porém, o passo do Protágoras que encima este post não pude deixar de me aperceber de uma das facetas mais perniciosas, mas sobretudo contraditórias, do pensamento dominante nas escolas de tradução: é que, neste caso (e há outro no mesmo livro, talvez até mais explícito), a tentativa de esconder do leitor a natureza real do texto que lê, ao tentar fazer passá-lo pelo original (por isso se traduziu uma expressão grega por uma "equivalente" em português), apenas acentua precisamente o carácter de tradução do texto: dificilmente o nosso provérbio existiria já entre os gregos — e o leitor minimamente culto não deixará de franzir a sobrancelha, sentindo que algo, ali, não bate bem. Foi porque achei logo a expressão estranha que corri a ver a nota, curioso por saber se, afinal, o nosso «chorar sobre leite derramado» tinha raízes gregas. Pois claro que não. A tradução literal, paradoxalmente (ou não, que cada vez mais me convenço das virtudes desta, a todos os níveis), teria preservado bem melhor a fluência do diálogo, que é o propósito declarado, por sua vez, das traduções não-literais.

imagem: São Jerónimo, de Caravaggio
1605-1606, @ Galleria Borghese

Repete Comigo:

§ 274. It is rare in this life for anything to come easy. The Greek subjunctive is the exception that proves the rule.

do livro de gramática do Reading Greek, o maravilhoso curso de grego da Joint Association of Classical Teachers.