segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Subsídios Para Uma História dos Estudos Clássicos

I wouldn't have wanted to spend much time with her. She was far too histrionic, too satisfied with her own cleverness and even more self-obsessed than the average early 20th-century don. But Jane Ellen Harrison changed the way we think about ancient Greek culture – peeling back that calm, white marble exterior to reveal something much more violent, messy and ecstatic underneath ("bloody Jane" they called her, for more reasons than one, I suspect). And she was the first woman in England to become an academic, in the fully professional sense – an ambitious, full-time, salaried, university researcher and lecturer. She made it possible for me to do what I do.

Harrison went up to Cambridge in 1874 to read classics at Newnham College. Though she missed a first (to her life-long annoyance), she was already an academic celebrity – and a trouble-maker. As a student, she even faced down William Gladstone, by claiming that her favourite Greek writer was the sceptical playwright Euripides (not, as the old man hoped, the pious Homer). Taken aback, he stuttered and walked away.

"My Hero: Jane Ellen Harrison", de Mary Beard, no Guardian de sábado — continuar a ler aqui.

imagem: pormenor de um retrato de Jane Ellen Harrison
@ Newnham College, Cambridge

A Lauro

Temes a morte, Lauro? Em vão a morte se teme, Lauro:
ou fala Platão verdade, ou Epicuro.

Jannus Pannonius in Antologia da Poesia Húngara, Ernesto Rodrigues (selecção e tradução), Âncora Editores, 2002.


Memórias do Prado §5

Morte de Lucrécia, de Eduardo Rosales
1871, óleo sobre tela, 257 x 347.

Depois do sucesso obtido com Isabel a Católica Ditando o Seu Testamento, Rosales voltou a abalar o género da pintura histórica em Espanha com esta tela. Tal como a anterior, o pintor relata a agonia de uma mulher virtuosa, cuja morte teria graves consequências históricas: neste caso trata-se do suicídio da patrícia Lucrécia, violada pelo filho do rei, facto que desencadeou o fim da monarquia e a proclamação da república romana no ano 510 a.C. Tendo como fundo a intimidade do quarto conjugal com uma rigorosa economia cenográfica, descreve o momento em que o corpo inerte de Lucrécia é amparado pelo pai, Lucrécio, e pelo marido, Colatino, enquanto Bruto e Valério exibem reacções diferentes perante o acontecimento: o primeiro clama vingança erguendo o punhal e o segundo oculta o rosto destroçado pela dor. Embora tenha obtido a primeira medalha na Exposição Nacional de Belas-Artes de 1871, esta pintura esteve envolvida em grande polémica devido à desconcertante modernidade da sua técnica, de pincelada ampla e diluída.

Alberto Pancordo, "A Colecção de Pintura Espanhola" in AA.VV., O Guia do Prado
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008

Resposta Nihilista ao Post Anterior

Un Antigo dizia que a doutrina de Epicuro tinha a "doçura das sereias". Seria tempo perdido procurar um sistema moderno que merecesse um tal elogio.

Un Ancien disait de la doctrine d’Épicure avait la "douceur des sirènes". Ce serait peine perdue que de chercher le système moderne qui mériterait un tel éloge.

E. M. Cioran. Ébauches de Vertige

domingo, 5 de setembro de 2010

Sobre a Venda de Património

— À noitinha e bastante tarde, porque voltei de Énoe; pois, vê lá bem que o meu escravo, o Sátiro, tinha-me fugido e eu estava mesmo para te avisar que ia procurá-lo, mas esqueci-me, por causa de qualquer outra coisa. Quando voltei, tínhamos acabado de jantar e estávamos para nos deitarmos, quando o meu irmão me disse que Protágoras tinha chegado. Estive para vir logo ter contigo, mas depois pareceu-me que já era demasiado tarde. Mas, assim que o sono em que caíra, por causa da fadiga, me deixou, levantei-me e corri para cá, sem demora.
Eu, que lhe conheço a energia e a paixão, perguntei:
— O que tens tu com isso? Por acaso ofendeu-te, Protágoras?
— Sim, pelos deuses — respondeu ele, com um sorriso —, porque só ele é sábio e não me faz sê-lo a mim.
— Mas, por Zeus — disse-lhe eu —, se lhe deres dinheiro e o persuadires, ele há-de te fazer sábio a ti também.
— Ó Zeus e deuses, se, na verdade, fosse assim! Não pouparia nem o que é meu nem o dos meus amigos.

[“ἑσπέρας δῆτα, μάλα γε ὀψὲ ἀφικόμενος ἐξ Οἰνόης. ὁ γάρ τοι παῖς με ὁ Σάτυρος ἀπέδρα: καὶ δῆτα μέλλων σοι φράζειν ὅτι διωξοίμην αὐτόν, ὑπό τινος ἄλλου ἐπελαθόμην. ἐπειδὴ δὲ ἦλθον καὶ δεδειπνηκότες ἦμεν καὶ ἐμέλλομεν ἀναπαύεσθαι, τότε μοι ἁδελφὸς λέγει ὅτι ἥκει Πρωταγόρας. καὶ ἔτι μὲν ἐνεχείρησα εὐθὺς παρὰ σὲ ἰέναι, ἔπειτά μοι λίαν πόρρω ἔδοξε τῶν νυκτῶν εἶναι: ἐπειδὴ [310δ] δὲ τάχιστά με ἐκ τοῦ κόπου ὁ ὕπνος ἀνῆκεν, εὐθὺς ἀναστὰς οὕτω δεῦρο ἐπορευόμην.” καὶ ἐγὼ γιγνώσκων αὐτοῦ τὴν ἀνδρείαν καὶ τὴν πτοίησιν, “τί οὖν σοι,” ἦν δ᾽ ἐγώ, “τοῦτο; μῶν τί σε ἀδικεῖ Πρωταγόρας;” καὶ ὃς γελάσας, “νὴ τοὺς θεούς,” ἔφη, “ὦ Σώκρατες, ὅτι γε μόνος ἐστὶ σοφός, ἐμὲ δὲ οὐ ποιεῖ.” “ἀλλὰ ναὶ μὰ Δία,” ἔφην ἐγώ, “ἂν αὐτῷ διδῷς ἀργύριον καὶ πείθῃς ἐκεῖνον, ποιήσει καὶ σὲ σοφόν.” “εἰ γάρ,” ἦ δ᾽ ὅς, “ὦ Ζεῦ καὶ θεοί, ἐν [310ε] τούτῳ εἴη: ὡς οὔτ᾽ ἂν τῶν ἐμῶν ἐπιλίποιμι οὐδὲν οὔτε τῶν φίλων]

Platão, Protágoras 310c-e
Relógio d' Água, Lisboa: 1999. (trad.: Ana Elias Pinheiro)

O Reino do Céu é semelhante a um tesouro escondido no campo, que um homem encontra. Volta a escondê-lo e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que possui e compra o campo. O Reino do Céu é também semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola.

[Ὁμοία ἐστὶν ἡ βασιλεία τῶν οὐρανῶν θησαυρῷ κεκρυμμένῳ ἐν τῷ ἀγρῷ, ὃν εὑρὼν ἄνθρωπος ἔκρυψεν, καὶ ἀπὸ τῆς χαρᾶς αὐτοῦ ὑπάγει καὶ πωλεῖ πάντα ὅσα ἔχει καὶ ἀγοράζει τὸν ἀγρὸν ἐκεῖνον. Πάλιν ὁμοία ἐστὶν ἡ βασιλεία τῶν οὐρανῶν ἀνθρώπῳ ἐμπόρῳ ζητοῦντι καλοὺς μαργαρίτας: εὑρὼν δὲ ἕνα πολύτιμον μαργαρίτην ἀπελθὼν πέπρακεν πάντα ὅσα εἶχεν καὶ ἠγόρασεν αὐτόν.]

Mt 13, 44-46 retirado da Nova Bíblia dos Capuchinhos.
Difusora Bíblica, Lisboa/Fátima: 1998. (trad.: Arnaldo Pinto Cardoso)

É uma coisa que me impressiona, quando nos debruçamos sobre os antigos: a forma total (wholehearted) como eles procuram a salvação, aqui sem as conotações que o termo possui em contexto religioso (mesmo se isso não seria de todo incorrecto), no sentido mais primeiro da palavra, que tem que ver com a ideia de saúde (salve!, a saudação latina, tinha precisamente esse significado), a saúde, portanto, do Homem, aqui, obviamente, não tanto num sentido físico mas mais "espiritual", se o termo não é anacrónico. A questão primordial da filosofia, e até, em certa medida, já antes de Sócrates — não precisamos de postular nenhuma guinada radical no rumo da filosofia, que inverte o sentido de marcha e toma como objecto principal as questões morais e éticas—, é, no fundo, e não negando a importância das investigações cosmológicas de vários dos pré-socráticos, como viver bem.

Ora a sabedoria era concebida como parte essencial desse caminho para a vida boa. Não é por acaso que surge a ideia socrática que a virtude é sobretudo uma capacidade intelectual (se eu sei, eu sou - daí também a urgência do imperativo do conhece-te a ti mesmo) ou que a felicidade máxima, em Aristóteles, na Ética a Nicómaco, é concebida como a contemplação (theoria), a actividade por excelência dos filósofos (o próprio deus, o mais feliz dos seres, não seria outra coisa senão contemplação da sua própria perfeição). O platonismo, é bom que o admitamos, converte-se, a partir de um dado momento, numa verdadeira religião, especialmente se entendermos o termo na sua etimologia primitiva (re-ligo, voltar a ligar [ao céu/mundo das ideias, subentende-se]). Clemente de Alexandria, nos Stromata, chega a considerar que a filosofia foi o (antigo) testamento que Deus deu aos gregos, como aos judeus deu os profetas e Moisés; a filosofia é a aliança de Deus com os gregos.

O próprio cristianismo conseguiu expandir-se também por este desejo de salvação, no sentido que acima demos ao termo (e não menos o judaísmo: terá sido em princípio pelo seu sucesso em converter os romanos que os judeus foram expulsos da capital em 19 d.C.). Havia uma preocupação muito presente com esse viver bem, que tornava a filosofia uma coisa encarnada, longe da especulação gratuita. E as pessoas sentiam-se perdidas, e procuravam um mestre (Orígenes interpreta precisamente o texto de Mateus nessa linha: «He seeks pearls among all kinds of doctrines which profess to proclaim the truth, and among those who teach such.», Mt Co 10, 8), que as guiasse, que as ajudasse a florescer, ou, nas palavras de Sócrates, a prepararem-se para a morte. O próprio percurso de Sócrates, que ele conta no Fédon, é um bom exemplo, mas mais ainda o de qualquer um dos seus discípulos (quem não lembra as censuras irónicas de Apolodoro aos seus ouvintes no início do Banquete?). Pela sabedoria, pela posse do mistério da vida boa, estes homens estavam prontos a deixar as suas coisas (tenho uma imagem muito nítida do Platão a queimar as suas peças de teatro, na véspera de seguir Sócrates).

E isto, isto é uma coisa que me impressiona, pela sua radicalidade. É certo que ainda hoje há quem ingresse em ordens religiosas, o que é uma escolha total. Mas o comum dos mortais abandonou, porque primeiro a abandonou a filosofia, a pergunta pela vida boa. Quem venderia hoje os seus bens (e os dos seus amigos) por tal coisa? Quando muito damos 20€ por um livro. Somos já incapazes de uma certa naiveté de que os gregos ainda dispunham. Já não acreditamos em mestres e desacreditámos das filosofias, não sem alguma razão e até culpa delas. Mas não é este o espaço para inquirir o porquê disto, e este post já está a descambar para um desabafo de café.

imagem: A Academia de Platão. Mosaico de Pompeia, séc. I d.C.

A Tese de Doutoramento de Marx

The first volume of the collected works of Karl Marx, which is being issued by the Marx-Engels Institute of Moscow, opens with a dissertation entitled 'Über die Differenz der demokritischen und epikureischen Naturphilosophie' [Da Diferença entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e Epicuro], which he presented for his doctorate at the University of Jena in 1841. It is interesting to find one who was afterwards to win fame in very different fields starting his career with an enthusiastic tract on Greek philosophy, which he evidently intended to make his work for years to come; for not only does he tell us in his introduction that this thesis is a prelude to a comprehensive study of Epicureanism, Stoicism, and Scepticism, 'the philosophical basis of Roman life and character', but appended to the dissertation are some seventy pages of preliminary notes for the larger work, which range over such varied subjects as 'The Immanent Dialectic of the Epicurean Philosophy', 'The Idea of the "Wise Man" in Greek Philosophy', and 'Parallels between the Epicureans, and the Pietists and Supernaturalists'.

Looking back on his work now it is almost astonishing to see how far he got considering the materials then available. He knew, of course, the main ancient authorities for Epicureanism, and the work shows a careful study of Diogenes Laertius, the Epicurean treatises of Plutarch, Cicero's dialogues, and portions of Clement of Alexandria and Sextus Empiricus. He had read Gassendi, but thought that his attempt to reconcile Epicureanism with Church tradition vitiated all his work — Marx's anti-theological bias is prominent throughout the treatise. Hegel had, as he says, published the great work 'from which dates the history of philosophy', and Ritter in 1829, unaccompanied as yet by Preller, had issued the first part of the History of Philosophy in Ancient Times. But there was no Diels, no Usener, and the whole wealth of material collected from casual references was as yet unavailable, except in so far as an individual inquirer might have come across it.

Yet Marx shows a penetrating acquaintance with the two philosophers, and produces in his notes a considerable array of illustrative passages, drawn nearly entirely from the main authorities. Almost as a pioneer he rejects the ancient tradition, repeated glibly in the histories of his time, that Epicurus adopted the Atomism of Democritus wholesale, changing it here and there for the worse. He sees rightly that, although the details of the theory have not undergone a great change, except in certain important points, the real difference between the two thinkers lies in their underlying 'theory of knowledge', and the consequent divergence of attitude in their conception of the relation of phenomena to reality. [...]

Like a true Hegelian, having once got his fundamental principle, he attempts to apply it in its workings throughout the theories of the two philosophers. And here, from a modern point of view, is the weakness of the thesis. An a priori theory, couched in the terms of contemporary philosophy, is forced upon ancient thinkers who really approached their problems in a far simpler frame of mind. We are told that Epicurus was always conscious of the contradiction involved in his theory between the abstract conception of the atom as the ' ultimate thing 'and its concrete workings as the foundation of phenomena [...].

But though to-day Marx's conclusions could hardly be accepted in detail, his thesis is of real interest to a modern student of Epicureanism, firstly because it exhibits the workings of a subtle and ingenious mind in the presence of a very difficult problem, and secondly because it does call attention in a very arresting way to the real difference between Democritus and Epicurus, and to the genuine originality of the later thinker. But perhaps it is most instructive because it shows how difficult it is for a critic to approach the ancient writers except in the atmosphere of his own time, how hard to resist the temptation of reading into them his own thought and that of his contemporaries. The thesis was well worth inclusion in the volume, and any student of Epicureanism who reads it must carry away some illuminating ideas.

Cyril Bailey (1928), "Karl Marx on Greek Athomism", The Classical Quaterly 22, 3/4: 205-206.

sábado, 4 de setembro de 2010

Leitores Atentos §7


O macaco mais belo é feio comparado ao género humano.
πιθήκων ὁ κάλλιστος αἰσχρὸς ἀνθρώπων γένει συμβάλλειν.

O mais sábio dos homens, diante do deus, um macaco revelar-se-á, na sabedoria, na beleza e em tudo o mais.
ἀνθρώπων ὁ σοφώτατος πρὸς θεὸν πίθηκος φανεῖται καὶ σοφίαι καὶ κάλλει καὶ τοῖς ἄλλοις πᾶσιν.

Heraclito (DK B 82 e 83), Fragmentos Contextualizados
Lisboa, INCM: 2005. (trad.: Alexandre Costa).

The rational human being, when compared with the dumb animals, will seem eloquent [...]. But if we consider the divine WORD itself and gaze upon the divine wisdom, we will prove to be far more of a dumb animal in relation to God than the animals are in relation to us. This indeed was what the blessed David saw when, weighing himself in comparison with divine wisdom, he said: "I was like a beast toward thee" (Ps 73, 22).

Orígenes* (h. Ex. 3, 1-2, sive 548, na presente antologia),
Spirit & Fire - A Thematic Anthology of His Writings, por Urs Von Balthasar
Catholic University of America, Washigton D.C.: 1984. (trad.: Robert Daly, s.j.)

* Ao professor deste senhor, Clemente de Alexandria, devemos duas dúzias (!) dos fragmentos de Heraclito. Por isso, podemos ter a certeza que Orígenes leu Heraclito (de qualquer forma, os fragmentos acima chegaram-nos via Platão, leitura de cabeceira de Orígenes).

Memórias do Prado §4

A Morte de Viriato, Chefe dos Lusitanos, de José de Madrazo
1807, óleo sobre tela, 307 x 462.

Formado no atelier do pintor neoclássico francês Jacques-Louis David, José de Madrazo assimilou perfeitamente o estilo do seu mestre, que segue nesta ambiciosa obra monumental em que representa um episódio da história antiga da Hispânia. A cena recria o luto pela morte de Viriato, chefe lusitano que se levantou contra o domínio romano e foi assassinado enquanto dormia por traidores pagos por Roma. O grupo central inspira-se num desenho de John Flaxman (1755-1826), que representava um episódio da Ilíada e toda a obra reflecte o estilo linear deste artista inglês. A composição articula-se através dos soldados que choram a morte do chefe ou clamam vingança. De acentuado carácter escultórico, as suas figuras são representadas como que petrificadas no meio das suas acções, traçadas pelo artista com um desenho severo e frio.

Alberto Pancordo, "A Colecção de Pintura Espanhola" in AA.VV., O Guia do Prado
Museu Nacional do Prado, Madrid: 2008

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Apologia de Pródico

Depois de ele ter dito estas palavras, Pródico acrescentou:
— Parece-me bem o que dizes, Crítias. É, de facto, necessário que, aqueles que assistem a discussões destas ouçam ambos os interlocutores, de modo imparcial, mas não passivo — é que são coisas diferentes. É preciso ouvir os dois do mesmo modo, mas não atribuir a cada um o mesmo valor, antes mais ao sábio e menos ao mais ignorante. Pela minha parte, Protágoras e Sócrates, suponho que concordarão em discutir sobre os argumentos mas sem contender — é que os amigos discutem com os amigos, com cordialidade, enquanto que aqueles que contendem são os que estão em desacordo e se odeiam uns aos outros — assim, a nossa conversa será muito melhor.

[εἰπόντος δὲ αὐτοῦ ταῦτα, ὁ Πρόδικος, καλῶς μοι, ἔφη, δοκεῖς λέγειν, ὦ Κριτία: χρὴ γὰρ τοὺς ἐν τοιοῖσδε λόγοις παραγιγνομένους κοινοὺς μὲν εἶναι ἀμφοῖν τοῖν διαλεγομένοιν ἀκροατάς, ἴσους δὲ μή—ἔστιν γὰρ οὐ ταὐτόν: κοινῇ μὲν γὰρ ἀκοῦσαι δεῖ ἀμφοτέρων, μὴ ἴσον δὲ νεῖμαι ἑκατέρῳ, ἀλλὰ τῷ μὲν σοφωτέρῳ πλέον, τῷ δὲ ἀμαθεστέρῳ ἔλαττον. ἐγὼ μὲν καὶ αὐτός, ὦ Πρωταγόρα τε καὶ Σώκρατες, ἀξιῶ ὑμᾶς συγχωρεῖν καὶ ἀλλήλοις περὶ τῶν λόγων ἀμφισβητεῖν μέν, [337β] ἐρίζειν δὲ μή—ἀμφισβητοῦσι μὲν γὰρ καὶ δι᾽ εὔνοιαν οἱ φίλοι τοῖς φίλοις, ἐρίζουσιν δὲ οἱ διάφοροί τε καὶ ἐχθροὶ ἀλλήλοις—καὶ οὕτως ἂν καλλίστη ἡμῖν ἡ συνουσία γίγνοιτο]

Platão, Protágoras 337a
Relógio d' Água, Lisboa: 1999. (trad.: Ana Elias Pinheiro)

Este é o início da pequena intervenção de Pródico no Protágoras de Platão. Pródico de Ceos foi um dos mais importantes sofistas do século V a.C., tendo-se distinguido pelo seu cuidado na definição exacta dos conceitos, trabalho que, a seu ver, constituía os prolegómenos de toda a correcta educação. Ao procurar, por exemplo, desmontar a aparente sinonímia entre dois nomes, Pródico acabava também, necessariamente, por, muito socraticamente, se podemos usar aqui o advérbio, inquirir sobre a verdadeira natureza das coisas, única forma legítima de, afinal, conseguir a definição precisa das mesmas. Platão, como o excerto acima transcrito revela, bem como a continuação do mesmo (a ler aqui), não deixa de caricaturar nos seus diálogos, e neste especialmente, em que Pródico intervém, a obsessão do sofista pelo rigor semântico. Pródico podia ser quase um personagem queirosiano, com o seu tique linguístico próprio, a sua fixação com o uso do termo certo e com as distinções entre palavras próximas.

E, todavia, ao ler este passo do Protágoras, não pude deixar de sentir que Platão, ao divertir o leitor à custa do filósofo de Ceos, não lhe estava a fazer justiça. Só aquela diferença entre imparcial e passivo bastaria para o justificar, tal é a penetração (insight) que manifesta (eu mesmo ainda não sei bem como a rentabilizar, mas sinto que me virá a ser muito proveitosa: é como um equivalente linguístico daquelas nuances psicológicas que o Proust desdobra à nossa frente). E se aceitássemos todos o significado que Pródico propõe para discutir (e o seu correlato, contender), deixaríamos de vez de ter de acrescentar sempre, em relatando uma conversa a um amigo, «discutimos, mas amigavelmente, atenção», que é dos apêndices semânticos da língua portuguesa que mais me irrita, mau grado a sua necessidade (um pouco como, em certos contextos, ainda temos de explicar, quando falamos numa crítica, que era uma crítica positiva, e não uma crítica crítica, uma crítica bota-abaixo, como um ouvinte desatento talvez fosse levado a pensar: por isso às vezes me dou à preguiça de importar do inglês o termo, neutro, review).

Pródico, dizia, ficaria justificado só por esta subtileza semântica, própria de um bom escritor e que revela uma profunda sensibilidade à língua. Como se explicou acima, o objectivo último deste procedimento era conduzir a um mais profundo conhecimento das coisas, pelo rigor na sua definição. Parece-me ter sido uma empresa bem sucedida, pelo menos por este fragmento fenomenal que nos chegou, um verdadeiro poema (ou uma tagline publicitária para um perfume), citado por Estobeu, do século V d.C. (Est. 4.20.65 ou Pródico DK B7 - tradução da edição dos fragmentos dos sofistas da INCM, 2005):

o dobro do desejo é o amor, e o amor a dobrar é a loucura.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Quando não se sabe o que escrever no blogue, II

Copia-se um passo dos Hinos Homéricos ao acaso:

We, the poets,
beginning and ending, we sing of you.
Anyone who forgets you
cannot remember sacred song.

I greet you, Dionysos,
god who appears as a bull,
you and your mother Semele,
whom they call Thyone.

in Hymn to Dionysos I, The Homeric Hymns, Penguin Classics, Jules Cashford (trad.), 2003.