terça-feira, 8 de março de 2016

progeniem sed enim Turchano a sanguine duci

Many other European nations also had their legends of Trojan origins; more surprisingly, so too did the Turks, helped by the closeness in sound between Turc(h)i and Teucri, one of Virgil’s names for the Trojans, derived from one of their ancestors, Teucrus. After taking Constantinople in 1453, the Ottoman Mahomet II is said to have visited the site of Troy, a short journey down the Hellespont, and announced himself as the avenger of Troy, sacked by the Greeks. An epigram by Julius Caesar Scaliger points up the repetitions of legendary history: ‘Twice ancient Troy was overthrown by Greek arms; twice has new Greece mourned for her victorious ancestors, once when great Rome brought back the descendants of the Trojans, and again now that the Turks hold sway.’ The neo-Latin Amyris (the title derives from the Arabic ‘amir’, meaning ‘prince’, ‘emir’) by Gian Mario Filelfo, written in the 1470s, is a curious example of ‘humanistic Turcophilia’, an epic on the life of Mahomet II. In a replay of the ‘Choice of Hercules’ (choosing Virtue over Pleasure), the young Mahomet rejects Venus in favour of Bellona, goddess of war, who appears in a vision to tell him to avenge Troy. A further mark of Greek perfiy is their transfer of the seat of empire from Trojan Rome to Greek Constantinople. In an example of the diplomatic use of Trojan origins, whose history stretches back to the alliance between Rome and the Sicilian city of Segesta in the First Punic War on the basis of their shared Trojan ancestry, Mahomet II is alleged to have written a letter to Pope Nicholas V, complaining of the preaching of a crusade in Europe, and appealing to the Trojan ancestry shared by the Turks with European nations. Ths is not an argument that has been aired in recent discussions about the enlargement of the European Union.
Philip Hardie. The Last Trojan Hero: A Cultural History of Virgil's Æneid. IB Tauris (2014)


Imagem: Sultão Mahmet II cheirando uma rosa. Albuns Sarayı. Hazine 2153, folio 10a

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Civis Romanus Sum!

It is well known that the people we call Byzantines today called themselves Romans (Romaioi). In the middle period of Byzantium's history [...] this "national" label appears or is pervasive in virtually all texts and documents (excluding the strictly theological) regardless of the geographical and social origins of their authors, which, in Byzantium, were diverse. ("Byzantines" were for them only the residents of Constantinople, archaically styled after the City's classical name.) These Romans called their state Romania (Ῥωμανία) or Romaïs, its capital New Rome (among other names, titles, and epithets), and its rulers the basileis of the Romans, whom we call "emperors." This Roman identity survived the fall of the empire and Ottoman rule, though it was greatly changed by those events. While in Byzantium the Romans were a highly unified nation, under the Porte [= Império Otomano] they were redefined so as to encompass a multi-ethnic and linguistically diverse religious community. Later, with the foundation of the modern Greek state, romiosyne came to represent the orthodox and demotic aspects of the new Hellenic national persona, complementing the classical and idealistic aspect that was projected abroad. Continuity and change are alike illustrated in a story remembered by Peter Charanis, born on the island of Lemnos in 1908 and later a professor of Byzantine history at Rutgers University.
When the island was occupied by the Greek navy [in 1912], Greek soldiers were sent to the villages and stationed themselves in the public squares. Some of us children ran to see what these Greek soldiers, these Hellenes, looked like. "What are you looking at?" one of them asked. "At Hellenes," we replied. "Are you not Hellenes yourselves?" he retorted. "No, we are Romans."
Thus was the most ancient national identity in all of history finally absorbed and ended. Charanis, as we will see, eventually came to regard himself as a Hellene.

Anthony Kaldellis. Hellenism in Byzantium. CUP



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Colóquio Internacional: Paideia e Humanitas: formar e educar ontem e hoje

Colóquio Internacional
Paideia e Humanitas
formar e educar ontem e hoje


Lisboa, 15-16 Dezembro 2016
​Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa



ORGANIZAÇÃO

Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Instituto de Educação da Universidade de Lisboa
Instituto de Educação da Universidade do Minho
Call for Papers
até 31 de Maio

Comissão Organizadora
Alberto Filipe Araújo
Custódia Martins
Henrique Miguel Carvalho
José Pedro Serra
Justino Magalhães
Teresa Rosa

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

não ter pasmo de cousa nenhuma

"Devo a minha compreensão dos literatos de Orpheu a uma leitura aturada sobretudo dos gregos, que habilitam quem os saiba ler a não ter pasmo de cousa nenhuma. Da Grécia Antiga vê-se o mundo inteiro, o passado como o futuro, a tal altura emerge, dos melhores cumes das outras civilizações, o seu alto píncaro de glória criadora"

António Mora/Fernando Pessoa, "Orpheu", in F. Pessoa O Regresso dos Deuses e outros escritos de António Mora, Assírio&Alvim, Porto, 2013, p.257.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"A mulher é e não é" - em memória de Ana Hatherly

Em honra de Ana Hatherly, que faleceu de velhice a 5 de Agosto de 2015



Poeta, ensaísta, artista plástica, investigadora, professora catedrática, foi a autora do primeiro poema concreto, escrito em Portugal, introduzindo e destacando-se no movimento da Poesia Experimental Portuguesa desde oa anos 60/70 (PO-EX). (biografia e bibliografia aqui e aqui; sobre o livro de poemas A Neo-Penélope, perder-se por aqui).



A Neo-Penélope

Não tece a tela
Não fia o fio
Não espera
Por nenhum Ulisses

Às portas do sangue
O herói adormecido
Agora está deitado
Ao Polifemo abraçado
Seu próprio satélite forçado

Há um intervalo nímio
Nas coisas
Que entre si independem

_______________________


 À tua espera

Estou à tua espera.

Estou sempre à tua espera
De esse outro 
Que me consome
Que me enche de sonho
E controvérsia.

O outro é TU-EU
Paradoxal oxímoro
Impossibilidade ansiosa.

Amar é uma tempestade de areia
Uma bruma vítrea.

Não menos que Penélope
Espero
Vagarosa e muda
Em minhas tarefas.


 
retirados de "Poemas Femininos" in A Neo-Penélope, &etc, Lisboa, 2007, pp.15 e 16.

quarta-feira, 4 de março de 2015


É com muito gosto que anunciamos a abertura oficial do  II Concurso de Conto de Inspiração Clássica. Enviem-nos o produto da vossa inspiração para oc.concursoconto@gmail.com

REGULAMENTO
CONCURSO DE CONTO DE INSPIRAÇÃO CLÁSSICA
O concurso de Conto de Inspiração Clássica é uma iniciativa desenvolvida pela Origem da Comédia, uma sub-secção afecta à Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, que tem como objectivo fomentar a (re)leitura e a (re)escrita dos fundamentos clássicos da nossa cultura, revelar a presença desses paradigmas na nossa memória e no imaginário contemporâneos, reiterando a actualidade e perenidade deste legado da Antiguidade na Cultura Portuguesa.
1. Âmbito de Aplicação
Artigo 1 Podem concorrer todas as obras inéditas em língua portuguesa e no género literário do conto.
Artigo 2 Numa primeira categoria, poderão participar todos os estudantes universitários até ao 3o ciclo de doutoramento (inclusive), com limite de idade até 35 anos.
Artigo 3 Numa segunda categoria, poderão participar todos os estudantes do ensino secundário.
Artigo 4 Podem concorrer membros sócios da Origem da Comédia, desde que não sejam elementos pertencentes à Direcção ou ao Secretariado do Concurso.
Artigo 5 Podem participar estudantes de qualquer nacionalidade, se estiverem inscritos numa instituição portuguesa e desde que escrevam em Língua Portuguesa.
2. Inscrições e entrega dos trabalhos
Artigo 6 A inscrição é gratuita e o período para a submissão do Conto estará aberto de 1 de Março a 31 de Maio de 2014.
Artigo7 A inscrição deve ser feita para o Secretariado do Concurso via email (oc.concursoconto@gmail.com), através do envio da proposta (o conto deverá chegar em ficheiro PDF, anónimo, as informações pessoais deverão constar apenas do corpo do email) juntamente com algumas informações pessoais tais como o nome completo, número de telefone, email pessoal, nome de Escola Secundária ou Universidade com respectivo comprovativo de matrícula e data de nascimento.
Artigo 8 No caso do Conto vencedor, aquando a inscrição o participante autoriza automaticamente a Organização a publicar e a reproduzir o conteúdo, respeitando-se os direitos de autor.
Artigo 9 Durante o processo de selecção e seriação das propostas, os candidatos poderão solicitar informações junto do secretariado do concurso, não sendo permitido qualquer contacto com os elementos constituintes do júri. O não cumprimento deste critério é factor de desclassificação.
3. Formato da composição do conto
Artigo 10 Cada participante só pode escrever um conto, que deverá ser inédito, original e em língua portuguesa. Qualquer situação de plágio remeterá à desclassificação.
Artigo 11. A redacção deve ser em Times New Roman, corpo 12, espaçamento 1,5, espaçamento de margens 2,5 em altura e largura, e deve ter até 9 páginas A4. O documento deve ser depois enviado em PDF.
Artigo 12. O conto deve cumprir, pelo menos, um dos seguintes requisitos: ter como pano de fundo um mito greco-latino, seguir a estética literária de algum autor clássico ou fazer a evocação de alguma personagem ou episódio da Antiguidade.
4. Obras a premiar
Artigo 13 Serão seleccionados dois contos, em cada uma das categorias, com a atribuição dos respectivos prémios.
1º prémio: 250euros, Livros de temas clássicos, Publicação do Conto no Boletim de Estudos Clássicos.
2ºprémio: Livros de temas clássicos, Publicação do Conto no Boletim de Estudos Clássicos,
Artigo 14 A Direcção informará os vencedores por telefone no final do mês de Julho e a premiação terá lugar no mês de Setembro.
Artigo 15 Está previsto a não atribuição de prémio se o jurí considerar que nenhum proposta cumpre os critérios de qualidade literária.
5. Composição do Júri
Artigo 16 O Júri do concurso será composto por José Ribeiro Ferreira, Cristina Drios, Paula Barata Dias (Membro da Associação Portuguesa de Estudos Clássicos a anunciar) e Joana Bárbara Fonseca (Membro da Origem da Comédia).
Artigo 17 Tudo quanto possa suscitar dúvidas coloca-se ao critério do Júri.

Facebook: https://www.facebook.com/pages/Origem-da-Com%C3%A9dia-Concurso-de-Conto-de-Inspira%C3%A7%C3%A3o-Cl%C3%A1ssica/1392806764312996?fref=nf

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Sobre a glória


Cæsar quum quosdam ornare voluit, non illos honestavit, sed ornamenta ipsa turpavit.


Cícero, De gloria [Sobre a glória] (obra perdida) Fragmento 9. Tradução minha.


César tentou homenagear alguns, mas, longe de os honrar, isso teve antes o efeito de transformar as próprias homenagens numa coisa sórdida.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

As lágrimas do Sol

§1

δάκρυα μὲν σέθεν ἐστὶ πολυτλήτων γένος ἀνδρῶν,
μειδέσας δὲ θεῶν ἱερὸν γένος ἐβλάστησας

fragmento dum Hino Órfico ao Sol. Otto Kern fr nº354. Tradução minha.

as tuas lágrimas são a raça dos mortais sofredores
sorrindo geraste a raça santa dos deuses

§2

Ήλιε, μεγάλε ανατολίτη μου, τα μάτια σου βουρκώσαν,
κι όλος ο κόσμος πια σκοτείνιασε κι όλη η ζωή ζαλίστη,
και κατεβαίνεις στης μανούλας σου το κυματοχαμώι.

Nikos Kazantzakis. Odisseia 24.1397-1400. Athenas. (1957) Tradução minha.

Sol, meu grande Oriental, os teus olhos atolaram-se de água,
todo o mundo escureceu, toda a vida entorpeceu,
e agora desces à tua mãe em suas caves marinhas.


§3



Jean Dodal. O Sol do Tarô de Marselha. (1701).


Com um grande obrigado ao Tassos.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Em Honra de Augusto César Octaviano


O declínio do poderio romano para mim tem início com o fim da liberdade que tem origem no momento em que Roma começa a ser serva dos imperadores. É verdade que Augusto e Traiano não foram completamente maus, e que ainda houve outros imperadores meritórios. Ainda assim, se alguém começar a passar em revista os homens excelentes caídos aquando da guerra de Júlio César, e mais tarde aqueles que o próprio Augusto trucidou no seu cruel triunvirato, se se levar em consideração a selvajaria de Tibério, a cólera de Calígula, a loucura de Cláudio, os crimes e a insânia do reinado de Nero, se ainda para mais se puser a contar esses Vitélios, Caracalas, Heliogabalos, Maximinos, e mais todos esses mostros e calamidades da raça humana, jamais poderá negar que o poderio romano começou a ruir a partir do momento em que o nome de César se apossou do estado como uma peste. A Liberdade teve que dar lugar ao Império, e após a Liberdade também a Virtude partiu. 

Isto porque antes o caminho para as honras públicas passava pela virtude, e aqueles conhecidos pela sua magnanimidade, virtude, e responsabilidade tinham o caminho facilitado para acederem aos consulatus às dictaturæ, e aos restantes cargos políticos. Porém, quando o Estado passou a ser pertença de um só, aqueles que detinham o poder começaram a suspeitar da virtude e da magnanimidade. Os imperadores só gostavam daqueles a quem faltava aquela força e aquele engenho que apenas o desejo de liberdade é capaz de estimular. O palácio imperial preferia os preguiçosos aos corajosos, os aduladores aos responsáveis, e assim que a governação do estado foi entregue aos piores, esses trataram de começar a arruinar o império por dentro. Mas encarando a desgraça de frente, porque é que nos deveríamos lamentar só pelo fim da virtude, quando na realidade estava em causa a destruição geral de todo Estado? Quantas luzes da república foram extintas por Júlio César! De quanta nobreza não foi o Estado privado! Sob Augusto, quer tenha sido por necessidade quer por maldade, quantos não foram proscritos e condenados à morte! Quantos não desapareceram, eliminados! De modo que que ao momento em que as mortes e o sangue cessaram não faz sentido que se chame clemência, mas sim crueldade cansada.


Leonardo Bruni. História do Povo Florentino I. Tradução minha.



Declinationem romani imperii ab eo fere tempore ponendam reor quo, amissa libertate, imperatoribus servire Roma incepit. Etsi enim non nihil profuisse Augustus et Trajanus, etsi qui fuerunt alii laude principes digni videantur, tamen, si quis excellentes viros primum a C. Julio Cæsare bello, deinde ab ipso Augusto triumviratu illo nefario crudelissime trucidatos; si postea Tiberii sævitiam, Caligulæ furorem, Claudii dementiam, Neronis scelera et rabiem ferro igneque bacchantem; si postea Vitellios, Caracallas, Heliogabalos, Maximinos et alia hujusmodi monstra et orbis terrarum portenta reputare voluerit, negare non poterit tunc romanum imperium ruere cœpisse, quum primo cæsareum nomen, tamquam clades aliqua, civitati incubuit. Cessit enim libertas imperatorio nomini, et post libertatem virtus abivit. Prius namque per virtutem ad honores via fuit, iisque ad consulatus dictaturas et ceteros amplissimos dignitatis gradus facillime patebat iter, qui magnitudine animi, virtute et industria ceteros anteibant.

Mox vero ut res publica in potestatem unius devenit, virtus et magnitudo animi suspecta dominantibus esse cœpit. Hique solum imperatoribus placebat quibus non ea vis ingenii esset quam libertatis cura stimulare posset. Ita pro fortibus ignavos, pro industriis adulatores imperatoria suscepit aula, et rerum gubernacula ad peiores delata ruinam imperii paulatim dedere. Quamquam quid virtutis repulsam quis deploret ac non potius communem civitatis interitum? Quot enim rei publicæ lumina sub Julio Caesare extincta sunt! Quantis princibus civitas oborta! Sub Augusto inde, sive id necessarium fuerit sive malignum, quanta proscriptio! Quot absumpti cives! Quot deleti! Ut merito, quum tandem a cædibus et cruore cessaret, non clementia illa sed fessa crudelitas putaretur.