quinta-feira, 5 de junho de 2014

[LISBOA] Cultura Clássica para Jovens — Officina Romanorum

O Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa liberta informações sobre o seu regular curso de Verão de Cultura Clássica direccionado para os mais jovens, a Officina Romanorum.

Mais informações aqui:

domingo, 1 de junho de 2014

Desci ontem ao Pireu — Aprender Grego e Latim


Um dos membros da Origem da Comédia iniciou recentemente um site dedicado ao ensino do Latim e do Grego e à cultura da Antiguidade Clássica. O propósito é congregar recursos de aprendizagem, e uma plataforma onde será possível, para além de discutir sobre a temática da cultura antiga, colocar dúvidas sobre as duas línguas às quais outros poderão responder. Será então, por um lado, um sítio onde quem deseja aprender estas línguas mas tenha acesso limitado a professores o possa fazer (ou queira simplesmente complementar esse acesso, colocar dúvidas — na secção Aprender Grego e Latim existe um fórum de discussão); e por outro tentar congregar recursos didácticos, culturais, e literários relacionados com a Antiguidade Clássica em geral. Pedimos a todos um momento do vosso tempo, que passem a palavra a quem julguem que possa estar interessado (e, porque não, um like na página), mas acima de tudo que participem e que utilizem o fórum quando necessário. Obrigado!





sábado, 31 de maio de 2014

Coitadas das que não jogam ao amor!


A musicação é do grande Pedro Tritónio (1465-1525),
do qual por outro motivo já noutro sítio escrevi.

Coitadas das que não jogam ao amor,
Nem lavam em vinho doce a sua tristeza, e tremem
Com medo da censura dos seus tios!

Um rapaz com asas roubou-te a agulha, a linha,
E a atenção que prestavas às artes de Minerva,
Neobule: o brilhante Hebro de Lipára,

Ele a lavar os ombros ungidos nas ondas do Tibre...
A andar a cavalo... Nem Belerofonte é melhor!
Não há punho nem pernas que o vençam!

Como é astuto ao caçar na clareira os veados
Que fogem confusos pela manada, como salta
Sobre o javali que se escondia nos arbustos!

Horácio. Odes III.12. Tradução minha.

Miserarum est neque amori dare ludum
Neque dulci mala vino lavere aut exanimari
Metuentes patruæ verbera linguæ

Tibi qualum Cytherea puer ales tibi telas
Operosæque Minervæ studium aufert,
Neobule, Liparæi nitor Hebri.

Simul unctos Tiberinis umeros lavit in undis,
Eques ipso melior Bellerophonte,
Neque pugno neque segni pede victus;

Catus idem per apertum fugientis agitato
Grege cervos jaculari et celer arto
Latitantem fruticeto excipere aprum.

terça-feira, 27 de maio de 2014

[LISBOA] Cursos de Verão do Centro de Estudos Clássicos

O Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa publicita os seus Cursos de Verão 2014, com oferta de iniciações às línguas clássicas e seminários literários.

Iniciação à Língua Latina
Curso livre
Início: 02/06/2014; Fim: 03/07/2014

À Descoberta do Grego Clássico
Curso livre
Início: 02/06/2014; Fim: 17/07/2014

Sófocles
noções de destino nas tragédias tebanas
Curso livre
Início: 02/06/2014; Fim: 25/06/2014

Descrições da Índia na Literatura Grega
Workshop
Início: 16/06/2014; Fim: 19/06/2014


Inscrições abertas
no Secretariado do Centro de Estudos Clássicos


DESCONTO de 15%
para inscrições em simultâneo
em 2 ou mais cursos do CEC

sábado, 24 de maio de 2014

Carmen Sæculare — o Poema dos Séculos


O Poema dos Séculos — o Carmen Sæculare — que nestes últimos dias me calhou recitar juntamente com outros membros do Thíasos (a Amélia, o Ricardo, e a Daniela) em Coimbra e em Conímbriga, foi composto há mais de 2000 anos, para celebrar o advento da nova era, do novo século. Horácio recebeu a ordem de compor um poema em honra de Apollo e Diana que os novos tempos louvasse. É uma obra de propaganda, uma obra com uma potente ideologia política implícita. Mas é também um grande poema, e uma obra santa.

Traduzir Horácio é, como se diz em Latim, perder tempo e azeite (perdere operam et oleum); a refinada estrutura dos versos está condenada ao fracasso em tradução. Tentei contudo minizar essa perda vertendo a estrofe sáfica (género de métrica greco-latina com 3 hendecassílabos falaicos, X--XX--X-XX*3, fechados por um adoneu, X--XX) o mais próximo possível do português. Um paralelo perfeito é impossível, mas in magnis et voluisse sat est.

(A gravação que se segue é do texto latino, acessível no fim desta página.)





Febo, e Diana senhora dos bosques,
Luz gloriosa dos céus, que adoramos
E adoraremos, ouçam nossa prece
     Neste tempo santo.

Em que ordenam os livros Sibilinos
jovens honradas e rapazes puros
cantar aos deuses destes sete montes
     este poema.

Pai Sol, que em teu carro claro mostras
e escondes o dia, e nasces Outro
mas Mesmo, oxalá jamais vejas nada
     Maior que Roma.

Tu que cuidas dos partos na altura
Correcta, Ilitía, protege as mães,
Quer prefiras que te chamem Lucina
     Quer Genitalis.

Deusa, educa os rebentos, e reforça
Os decretos dos Pais sobre as bodas
Das mulheres e a lei do casamento
     fecundo e fértil

para que o ciclo certo de dez vezes
onze anos repita o canto e os jogos
de dia três vezes, outras tantas na
     noite bem-vinda

E vós, Parcas, que cantastes verdade
Como se disse, e tal como se espera
Que o fim confirme, juntai novas bençãos
     Às que já temos.

Que a Terra, rica em gado e cereal-,
Conceda a coroa de espigas a Ceres;
Que Júpiter sopre e que águas puras
     Velem dos campos.

Sê gentil, Apolo, embainha a espada
e ouve estes rapazes suplicantes;
rainha das estrelas e do crescente, ouve,
     Lua, estas jovens.

Se Roma é obra vossa, se as tropas
De Ílion tomaram a costa Etrusca
com ordem de mudar de cidade e lar
     em rota calma,

a quem o casto e inocente Eneias
ao fugir da ardente Tróia, sua pátria,
conduziu à liberdade, e a quem deu
     mais que deixara:

deuses, aos jovens dêem bons costumes,
deuses, aos gentis idosos repouso,
e ao povo Romano bonança e herdeiros
     e toda a glória.

E que obtenha o que com touros brancos vos
Pede o sangue insigne de Anquises e Vénus
Superior em combate, piedoso
     Com quem se rende.

O Persa já teme na terra e no mar
os machados e as mãos de Alba Longa,
já se submetem os Citas e os Indos
     há pouco soberbos.

Já a Fé, a Paz, a Honra, a Virtude
exposta e o Pudor antigo ousam
voltar, e a abençoada Cornu-
     -cópia aparece.

Se Febo, o augur do arco brilhante,
Que as nove Camenas acolheram,
e cuja sadia arte tranquiliza
     o corpo cansado,

Vir com bons olhos os altares Palatinos,
Prolongará num novo ciclo e numa
Era melhor a bonança feraz de
     Roma e do Lácio.

Diana, que o Álgido e Aventino
possuis, cumpre as preces destes quinze
homens e benfazeja ouve os votos
     destes rapazes.

Eu para a casa levo a certeza
que assim pensa Júpiter e todos
os deuses. Eu, o coro que sei cantar
     Febo e Diana.

Horácio. Carmen Sæculare. Miguel Monteiro (trad).

Phœbe silvārumque potēns Diāna,
lūcidum cælī decus, ō colendī
semper et cultī, date quæ precāmur
     tempore sacrō,

quō Sibyllīnī monuēre versūs
virginēs lectās puerōsque castōs
dīs, quibus septem placuēre collēs,
     dīcere carmen.

alme Sōl, currū nitidō diem quī
promis et cēlās aliusque et īdem
nasceris, possīs nihil urbe Rōmā
     vīsere maius.

Rīte mātūrōs aperīre partūs
lēnis, Īlīthyja, tuēre matrēs,
sīve tū Lūcīna probās vocārī
     seu Genitālis:

dīva, prodūcās subolem patrumque
prosperes dēcreta super jugandīs
fēminīs prolisque novæ ferāci
     lēge marīta,

certus undēnōs deciens per annōs
orbis ut cantus referatque lūdōs
ter diē clārō totiensque grātā
     nocte frequentīs.

Vōsque verācēs cecinīsse, Parcæ,
quod semel dictum est stabilisque rērum
terminus servet, bona jam peractīs
     jungite fāta.

fertilis frūgum pecorisque Tellus
spīceā dōnet Cererem corōnā;
nutriant fētus et aquæ salūbrēs
     et Jovis auræ.

conditō mītis placidusque telō
supplicēs audī puerōs, Apollo;
sīderum rēgīna bicornis, audī,
     Lūna, puellās.

Rōma sī vestrum est opus Īliæque
lītus Ētruscum tenuēre turmæ,
jussa pars mūtāre larēs et urbem
     sospite cursū,

cui per ardentem sine fraude Troiam
castus Ænēas patriæ superstes
līberum mūnīvit iter, datūrus
     plūra relictīs:

dī, probōs mōrēs docilī juventæ,
dī, senectūtī placidae quiētem,
Rōmulæ gentī date remque prolemque
     et decus omne.

Quæque vōs bōbus venerātur albīs
clārus Anchīsæ Venerisque sanguis,
impetret, bellante prior, jacentem
     lēnis in hostem.

jam marī terrāque manūs potentīs
Mēdus Albānāsque timet secūrīs,
jam Scythæ responsa petunt, superbī
     nūper et Indī.

jam Fidēs et Pax et Honos Pudorque
priscus et neglecta redīre Virtus
audet adparetque beāta plenō
     Cōpia cornū.

Augur et fulgente decōrus arcū
Phœbus acceptusque novem Camēnīs,
quī salutārī levat arte fessōs
     corporis artūs,

sī Palatīnās videt æquos ārās,
remque Rōmānam Latiumque fēlix
alterum in lustrum meliusque semper
     prōrogat aevum,

quæque Aventīnum tenet Algidumque,
quindecim Dīana precēs virōrum
cūrat et vōtīs puerōrum amīcās
     adplicat aurīs.

Hæc Jovem sentīre deōsque cunctōs
spem bonam certamque domum reportō,
doctus et Phœbī chorus et Diānæ
     dīcere laudēs.


Imagem: detalhe do friso do Altar da Paz Augusta, Roma.

domingo, 18 de maio de 2014

A Justiça Cabe a Todos

[PROTÁGORAS] Visto que os seres humanos eram parte do projecto divino (antes de mais devido ao parentesco que tinham com Deus), foram os primeiros a reconhecer os deuses e começaram a erguer-lhes estátuas e altares. De seguida e sem mais demora começaram a associar a sua voz aos nomes com as técnicas que lhes tinham sido confiadas, e inventaram as casas, as roupas, o calçado, os leitos, e a forma de colher sustento a partir da terra. Era essa a sua preparação, de forma que no princípio habitaram dispersos e não havia cidades. Isto porque os animais selvagens matavam-nos: os humanos eram mais fracos que eles em todos os sentidos, e as técnicas de que dispunham, embora pudessem servir para encontrarem sustento, ficavam ainda assim muito àquem das necessidades que se impunham para combater contra as feras — até porque ainda não tinham a arte da política, da qual faz parte a arte da guerra. A maneira que descobriram para se salvarem foi juntarem-se e fundar cidades. Acontece que assim que se juntavam, visto que não tinham ainda a arte da política, cometiam injustiças uns contra os outros, de forma que rapidamente voltavam a dispersar-se e sucumbiam.

Foi então que Zeus, temendo que a raça que ele criara fosse completamente destruída, ordena a Hermes que leve aos humanos o Respeito e a Justiça [aidôs e dikê], para que pudessem haver regras para as cidades e elos que os unissem em amizade. Hermes recebe essa ordem e pergunta a Zeus de que forma é que deveria dispor a Justiça e o Respeito: «Devo dar-lhes o Respeito e a Justiça segunda a mesma lógica que usámos quando lhes entregámos as Técnicas? É que nessas, basta um ter a Arte da Medicina para servir para muitos, e assim por diante com as restantes Artes. Devo alotar-lhes a Justiça e o Respeito na mesma forma, ou entregá-las a todos?» Respondeu Zeus: «A todos. Todos devem receber parte delas. De outra forma não poderia haver cidades, se apenas alguns poucos tivessem parte delas, como acontece com as restantes Artes. E mais, estabelece em meu nome uma lei que condene à morte como se fosse uma doença para a cidade aquele que não for capaz de tomar parte desse Respeito e Justiça.»

É assim, Sócrates, e por estes motivos que tanto os Atenienses como os restantes, quando se fala da melhor maneira de pôr em prática uma obra arquitectónica ou de outra técnica qualquer, pedem conselho a um número reduzido, e se alguém fora desse número começar a opinar, não ligam ao que ele diz, como tu dizes — e fazem muito bem, segundo me parece — mas quando deliberam sobre a melhor forma de chegar a uma decisão política, algo que não se consegue realizar sem justiça ou temperança, ouvem e muito bem todos os homens, visto que é próprio de cada um tomar parte da justiça; se assim não fosse não haveria cidades.

Platão. Protágoras 322a-323a. Tradução minha.

Επειδὴ δὲ ὁ άνθρωπος θείας μετέσχε μοίρας, πρῶτον μὲν διὰ τὴν τοῦ θεοῦ συγγένειαν ζῴων μόνον θεοὺς ενόμισεν, καὶ επεχείρει βωμούς τε ἱδρύεσθαι καὶ αγάλματα θεῶν· έπειτα φωνὴν καὶ ονόματα ταχὺ διηρθρώσατο τῇ τέχνῃ, καὶ οικήσεις καὶ εσθῆτας καὶ ὑποδέσεις καὶ στρωμνὰς καὶ τὰς ἐκ γῆς τροφὰς ηὕρετο. οὕτω δὴ παρεσκευασμένοι κατ' αρχὰς άνθρωποι ῴκουν σποράδην, πόλεις δὲ ουκ ῆσαν· απώλλυντο οῦν ὑπὸ τῶν θηρίων διὰ τὸ πανταχῇ αυτῶν ασθενέστεροι εῖναι, καὶ ἡ δημιουργικὴ τέχνη αυτοῖς πρὸς μὲν τροφὴν ἱκανὴ βοηθὸς ἦν, πρὸς δὲ τὸν τῶν θηρίων πόλεμον ενδεής – πολιτικὴν γὰρ τέχνην ούπω εῖχον, ἧς μέρος πολεμική –  εζήτουν δὴ ἁθροίζεσθαι καὶ σῴζεσθαι κτίζοντες πόλεις· ὅτ' οῦν ἁθροισθεῖεν, ηδίκουν αλλήλους ἅτε ουκ έχοντες τὴν πολιτικὴν τέχνην, ὥστε πάλιν σκεδαννύμενοι διεφθείροντο. Ζεὺς οῦν δείσας περὶ τῷ γένει ἡμῶν μὴ απόλοιτο πᾶν, Ἑρμῆν πέμπει άγοντα εις ανθρώπους αιδῶ τε καὶ δίκην, ἵν' εῖεν πόλεων κόσμοι τε καὶ δεσμοὶ φιλίας συναγωγοί. ερωτᾷ οῦν Ἑρμῆς Δία τίνα οὖν τρόπον δοίη δίκην καὶ αιδῶ ανθρώποις· “Πότερον ὡς αἱ τέχναι νενέμηνται, οὕτω καὶ ταύτας νείμω; νενέμηνται δὲ ὧδε· εἷς έχων ἰατρικὴν πολλοῖς ἱκανὸς ιδιώταις, καὶ οἱ άλλοι δημιουργοί· καὶ δίκην δὴ καὶ αιδῶ οὕτω θῶ εν τοῖς ανθρώποις, ὴ επὶ πάντας νείμω;” “Επὶ πάντας,” έφη ὁ Ζεύς, “καὶ πάντες μετεχόντων· ου γὰρ ὰν γένοιντο πόλεις, ει ολίγοι αυτῶν μετέχοιεν ὥσπερ άλλων τεχνῶν· καὶ νόμον γε θὲς παρ' εμοῦ τὸν μὴ δυνάμενον αιδοῦς καὶ δίκης μετέχειν κτείνειν ὡς νόσον πόλεως.” οὕτω δή, ῶ Σώκρατες, καὶ διὰ ταῦτα οἵ τε άλλοι καὶ Αθηναῖοι, ὅταν μὲν περὶ αρετῆς τεκτονικῆς ῇ λόγος ὴ άλλης τινὸς δημιουργικῆς, ολίγοις οίονται μετεῖναι συμβουλῆς, καὶ εάν τις εκτὸς ὼν τῶν ολίγων συμβουλεύῃ, ουκ ανέχονται, ὡς σὺ φῄς – εικότως, ὡς εγώ φημι – ὅταν δὲ εις συμβουλὴν πολιτικῆς αρετῆς ἴωσιν, ἣν δεῖ διὰ δικαιοσύνης πᾶσαν ιέναι καὶ σωφροσύνης, εικότως ἅπαντος ανδρὸς ανέχονται, ὡς παντὶ προσῆκον ταύτης γε μετέχειν τῆς αρετῆς ὴ μὴ εῖναι πόλεις.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Quem sabe é como quem não lê

Trazemos mais uma vez à Origem Salvatore Settis, o grande historiador d'arte italiano. Na opinião deste humilde escriba este pequeno livro que vai aqui ser citado devia ser leitura obrigatória para qualquer pessoa que pretenda fazer uma apologia ou um ataque à cultura greco-latina. Se os deuses o derem ainda um dia o traduzirei integralmente.


O tipo de concepção que assume instintivamente o valor sopranacional e fundacional do "clássico" é antes de mais uma herança ofuscada pelo elevado estatuto de que a educação "clássica" gozou até há bem pouco tempo; é no entanto muito característico do nosso tempo que essa mesma noção seja capaz de resistir, e até mesmo de se reforçar, ao mesmo tempo que o lugar da cultura "clássica" nos percurso educativos se vai diminuindo cada vez mais a cada dia. Nestas circunstâncias é de facto bastante fácil usar e perpetuar impunemente o estereótipo da "classicidade" como berço e baluarte do Ocidente, visto que decresce drasticamente o número de cidadãos com a capacidade de duvidar dessas afirmações com conhecimento de causa.

Salvatore Settis. Futuro del "classico". Einaudi (2004) Trad. minha.

Tale concezione, che dà per scontato il valore preternazionale e fondativo del "classico", è prima di tutto un'eredità appannata dello statuto alto dell'educazione "classica" che fu in vigore fin a ieri; ma è assai caratteristico del nostro tempo che essa possa resistere, e anzi consolidarsi, proprio mentre il posto della cultura "classica" nei percorsi educativi e nella cultura generale si restringe ogni giorno di più. In questo quadro è infatti piú facile usare e perpetuare impunemente lo stereotipo della "classicità" come culla e sanzione dell'Ocidente, dato che decresce drasticamente il numero dei cittadini che potrebbero essere in grado di dubitarne con cognizione di causa.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Classica Digitalia - Novidades Editoriais

(informação recebida pela Origem da Comédia)
Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, de parceria com a Imprensa da Universidade de Coimbra (IUC). Damos ainda informação sobre 1 outro livro publicado de parceria com o Instituto de Investigação Interdisciplinar da UC, disponível igualmente em acesso aberto na UC Digitalis.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Autores Gregos e Latinos” [Textos]
- Carlos A. Martins de Jesus: Baquílides. Odes e Fragmentos. Tradução do grego, introdução e comentário (Coimbra e São Paulo, IUC/Annablume, 2014). 241 p.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/169
PVP: 15 € / Estudantes: 12 €

- Maria de Fátima Silva: Aristófanes. Rãs. Tradução do grego, introdução e comentário (Coimbra e São Paulo, IUC/Annablume, 2014). 181 p.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/168
PVP: 12 € / Estudantes: 9 €

Série “Conferências e Debates Interdisciplinares” [Estudos]
- Carmen Soares (coord.), Espaços do pensamento científico da Antiguidade (Coimbra, IUC, 2013). 98 p.
PVP: 12 € / Estudantes: 9 €

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Safo e a vindicação de Heródoto

Safo beijando a sua lira,
de Jules-Elie Delaunay.
















Prometemos antes que regressaríamos aos novos poemas de Safo. Deixamos o link para um artigo no TLS de Dirk Obbink, que os trouxe à luz do dia, onde, contra West («The poem is not one of her most poignant: as I see it, we have a young Sappho, perhaps still a teenager, addressing her mother and worried about their domestic circumstances»), defende a qualidade dos novos achados e mostra a sua importância. No final, encontra-se anexada uma tradução de ambos os fragmentos em inglês. Relembramos que a Origem publicou já uma versão portuguesa, por Sophia Carvalho e Miguel Monteiro, do mais extenso deles, logo aquando da descoberta dos textos.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

mas claro, o que Creonte faz com o corpo de Polinices é de uma selvajaria odiosa aos deuses

Édipo condenando Polinices
com Ismena e Antígona
, de André Baschet 




Nesse momento, em que a agitação atingia o cume e o povo andava dividido, Sólon, já célebre, avançou por entre as duas facções juntamente com os mais importantes entre os atenienses, e, entre pedidos e conselhos, convenceu os chamados 'sacrílegos' a submeterem-se a julgamento, procedendo-se à escolha de trezentos juízes, entre as famílias nobres. A acusação foi movida por Míron de Flias e os réus foram considerados culpados. Os que ainda viviam foram exilados, os restos do que já haviam morrido foram desenterrados e lançados para lá da fronteira.

ἐν δὲ τῷ τότε χρόνῳ τῆς στάσεως ἀκμὴν λαβού- σης μάλιστα, καὶ τοῦ δήμου διαστάντος, ἤδη δόξαν ἔχων ὁ Σόλων παρῆλθεν εἰς τὸ μέσον ἅμα τοῖς πρώτοις τῶν Ἀθηναίων, καὶ δεόμενος καὶ διδάσκων ἔπεισε τοὺς ἐναγεῖς λεγομένους δίκην ὑποσχεῖν καὶ κριθῆναι τριακοσίων ἀριστίνδην δικαζόντων. Μύρωνος δὲ τοῦ Φλυέως κατη- γοροῦντος ἑάλωσαν οἱ ἄνδρες, καὶ μετέστησαν οἱ ζῶντες, τῶν δ' ἀποθανόντων τοὺς νεκροὺς ἀνορύξαντες ἐξέρριψαν ὑπὲρ τοὺς ὅρους.

Plutarco, Vida de Sólon 12.3-4
Classica Digitalia, Coimbra: 2012 (trad.: Delfim Leão). 

Classica Digitalia - Novidades Editoriais

(informação recebida pela Origem da Comédia)
Os Classica Digitalia – braço editorial do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC – têm o gosto de anunciar 4 novas publicações, de parceria com a Imprensa da Universidade de Coimbra. Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. OeBook correspondente (cujo endereço direto é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Autores Gregos e Latinos” [Textos]
- Custódio Magueijo: Luciano de Samósata VI. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade, Classica Digitalia, 2013). 232 p.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/164
PVP: 14 € / Estudantes: 11 €

- Custódio Magueijo: Luciano de Samósata VII. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade, Classica Digitalia, 2013). 213 p.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/165
PVP: 14 € / Estudantes: 11 €

- Custódio Magueijo: Luciano de Samósata VIII. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade, Classica Digitalia, 2013). 199 p.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/166
PVP: 14 € / Estudantes: 11 €

- Custódio Magueijo: Luciano de Samósata IX. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade, Classica Digitalia, 2013). 249 p.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/167
PVP: 14 € / Estudantes: 11 €

terça-feira, 1 de abril de 2014

O O O O that Sophoclean Rag

Os amigos da Enfermaria 6 publicaram recentemente belas & inéditas palavras do imprescindível Oliver Taplin sobre Sófocles —

segunda-feira, 24 de março de 2014

Conversas

πὰρ πυρὶ χρὴ τοιαῦτα λέγειν χειμῶνος εν ώρῃ
εν κλίνῃ μαλακῃ κατακείμενον, έμπλεον όντα,
πίνοντα γλυκὺν οῖνον, ὑποτρώγοντ' ερεβίνθους ·
"τίς πόθεν εῖς ανδρῶν, πόσα τοι έτε' εστί, φέριστε;
πηλίκος ῆσθ', όθ' ὁ Μῆδος αφίκετο;"

Xenófanes, Fragmento B22. Tradução minha.

No inverno, reclinados junto ao fogo
num sofá confortável, há muitos temas de conversa
para quando se bebe vinho doce e se petisca uns feijões,
«Quem és tu, meu amigo? De onde vens? Quantos anos tens?
Que idade tinhas quando vieram os Medos?»


Lembrando também,


Gut
Ist ein Gespräch, und zu sagen
Des Herzens Meinung, zu hören viel
Von Tagen der Liebe
Und Thaten, welche geschehen.

Hölderlin, Andenken 32-36. Tradução minha

Bom
É conversar e falar
Do que vai no coração, e ouvir muito
Dos dias de amor
E de coisas que aconteceram.

domingo, 23 de março de 2014

O Criminoso Imortal

[τὴν σωφροσύνην] ὑμεῖς επὶ μὲν τῶν ιδιωτῶν επαινεῖτε, καὶ νομίζετε τοὺς ταύτῃ χρωμένους ασφαλέστατα ζῆν καὶ βελτίστους εῖναι τῶν πολιτῶν, τὸ δὲ κοινὸν ἡμῶν ουκ οίεσθε δεῖν τοιοῦτο παρασκευάζειν, καίτοι προσήκει τὰς ἀρετὰς ασκεῖν καὶ τὰς κακίας φεύγειν πολὺ μᾶλλον ταῖς πόλεσιν ὴ τοῖς ιδιώταις. ανὴρ μὲν γὰρ ασεβὴς καὶ πονηρὸς τυχὸν ὰν φθάσειε τελευτήσας πρὶν δοῦναι δίκην τῶν ἡμαρτημένων: αἱ δὲ πόλεις διὰ τὴν αθανασίαν ὑπομένουσι καὶ τὰς παρὰ τῶν ανθρώπων καὶ τὰς παρὰ τῶν θεῶν τιμωρίας.

Vós elogiais a sensatez de cada pessoa em particular, e julgais que os que a praticam não só vivem em segurança, como ainda por cima se tornam bons cidadãos. Mas ao mesmo tempo nem sequer pensais em fazer com que o Estado [τὸ κοινόν] seja também ele sensato, muito embora faça sentido que sejam as cidades até mais que os indivíduos a praticar as virtudes e a evitar os vícios. Isto porque pode muito bem acontecer que um homem ímpio e corrupto morra antes de pagar a pena dos seus crimes, mas as cidades são imortais, e não têm como evitar submeter-se mais cedo ou mais tarde ao castigo às mãos dos homens e dos deuses.

Isócrates. Sobre a Paz. 119-120. Tradução minha.

sábado, 22 de março de 2014

Mourning Becomes Electra



ουδεὶς τῶν αγαθῶν γὰρ
ζῶν κακῶς εύκλειαν αισχῦναι θέλει
νώνυμος, ω παῖ παῖ ·
ὡς καὶ σὺ πάγκλαυτον αιῶνα κοινὸν εἵλου,
τὸ μὴ καλὸν καθοπλίσασα δύο φέρειν εν ἑνὶ λόγῳ,
σοφά τ'αρίστα τε παῖς κεκλῆσθαι.
(Sophoclis Electra 1082-1087, edidit Jebb (1894)

The question now arises, what has Electra been doing (in the opinion of the Chorus) in choosing a life of mourning in common with Agamemnon?

The MSS all have τὸ μὴ καλὸν καθοπλίσασα κτλ., and this is translated by all editors (those that is who do not emend the words) more or less as follows: 'having warred down dishonour so as to win a twofold guerdon, namely to be called (once and for all) both a wise and a very good daughter.' But this version (which goes back to the Scholiast, who explains τὸ μὴ καλὸν καθοπλίσασα as καταπολεμήσασα τὸ αισχρόν) gives an unexampled meaning to καθοπλίζω, which elsewhere always means 'equip'. Therefore, the text has been widely suspected, and a number of emendations have been proposed, almost all substituting another word for καθοπλίσασα, meaning 'having conquered', 'rejected', or the like.

The great objection to all these conjectures is that, apart from eliminating the 'good' (i.e. picturesque, descriptive) word καθοπλίσασα (cf. Lloyd-Jones, C.Q. n.s. 4 (1954) 95) they all end up by making the Chorus say that Electra has a right to be called wise as well as good (lit. 'best': but αρίστα here simply replaces αγαθή), because of the fact that, not introducing a negative with καθοπλίσασα, they do not cancel out the result-infinitive (φέρειν) and they thus make Electra win (unqualifiedly) the two prizes, 'being called both wise and good'. That the Chorus should agree that Electra is to be called 'good' is natural and certain. What they cannot possibly declare is that she is also to be called wise, having themselves explicitly or implicitly said that she is not wise (in her present conduct - and what else can they be talking about here?) at 990-1 and 1015-16. The same charge of inconsistency naturally applies also to retaining the MS reading and rendering καθοπλίσασα = καταπολεμήσασα or the like.

What is needed is to emend 1087 in such a way as to introduce a negative along with καθοπλίσασα. This I have done, and have thus, I hope, restored the line. The meaning  now is that Electra has chosen her lot of mourning 'not having armed (or equipped) ignobility (so as) to win two prizes at once [ἑνὶ λόγῳ may mean simply 'on one account', i.e. ἅμα - but the phrases may also mean 'by one argument': cf. below], so as to be called once for all (= the force of the perfect κεκλῆσθαι) a daughter both wise and very good'. For the plural τὰ μὴ καλὰ = 'what is not good' (abstract) cf. 972 τὰ χρηστά, Eur. Hipp. 331 εκ τῶν γὰρ αισχρῶν εσθλὰ μηχανώμεθα. In saying this the Chorus of course are not denying that Electra is 'good'. Far from it! They are just about to say that she is supremely 'good' (1097). What they do deny is that she has tried to combine goodness with wisdom; they are saying that she has not tried to get the best of both of two possible worlds, by appearing both good and wise. For their judgement of course remains that she is imprudent. But they admire her for a lonely excellence, an ancient and unwordly adherence to heroic and aristocratic standards: put in modern terms, c'est magnifique, mais ce n'est pas la guerre'.

J.H. Kells. Electra - Cambridge Greek and Latin Classics. P183-184, comentário a 1077ssq. Cambridge University Press (1973).

ουδεὶς τῶν αγαθῶν ζῶν
κακῶς εύκλειαν αισχῦναι θέλει
νώνυμος, ω παῖ παῖ,
ὡς καὶ σὺ πάγκλαυτον αι-
ῶνα κοινὸν εἵλου,
τὸ μὴ καλ' ου καθοπλίσα-
σα δύο φέρειν εν ἑνὶ λόγῳ,
σοφά τ'αρίστα τε παῖς κεκλῆσθαι.
(Sophoclis Electra 1082-1087, edidit Kells (1973)


Fotograma da gravação da encenação da Elektra de Richard Strauss (1909)
com direcção de Karl Böhm e encenação de Götz Friedrich (1981)
e com Leonie Rysanek no papel de Elektra.
O libretto foi composto por Hoffmannsthal, que se inspirou principalmente em Sófocles.
Foi a primeira ópera que eu vi e ouvi .

segunda-feira, 17 de março de 2014

A repetição da antiguidade no pico da modernidade

The center of Strauss's reflection is the extraordinary nature of philosophical questioning, whose radicality he contrasted with the moderation required by political action. "The virtue of the philosopher's thought is a certain kind of mania, while the virtue of the philosopher's public speech is sophrosune." [...]

Philosophy necessarily begins with reflection on particulars that lead to awareness of the universal but are never wholly derivable from the universal. No instance of the philosophic life is strictly speaking repeatable, given that it is always a particular life, engaged with particular circumstances, in erotic quest for the universal. Löwith's formulation "repetition of antiquity at the peak of modernity"* spoke to Strauss since it brings forward the essential novelty of what seems to be only a recurrence of the same. The boldness of repetition involves the daring of unorthodox readings. "Who can dare to say that Plato's doctrine of ideas as he intimated it, or Aristotle's doctrine of the nous that does nothing but think itself and is essentially related to the eternal visible universe, is the true teaching?"

Richard Velkley. Heidegger, Strauss, and the Premises of Philosophy: On Original Forgetting. Chicago University Press (2011) P11&163


* Frase que Karl Löwith usa para se referir a Nietzsche.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

"Nos seus olhos vazios não se cruzam línguas": a propósito da cabecinha romana das ruínas de Milreu

 
Cabeça de Milreu, peça do mês, em Dezembro de 2013, no Museu Nacional de Arqueologia 




Cabecinha romana de Milreu

Esta cabeça evanescente e aguda,
tão doce no seu ar decapitado,
do Império portentoso nada tem:
Nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
na sua boca as legiões não marcham,
na curva do nariz não há os povos
que foram massacrados e traídos.
É uma doçura que contempla a vida,
sabendo como, se possível, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes só,
a firme frieza da razão tranquila.
É uma virtude sonhadora: o escravo
que a possuía às horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
além de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, não pensou nunca
em desviar sobre si tão longo olhar.
Viveu, morreu, entre as colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
que os deuses todos tornou seus, não tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o próprio rosto que perdiam. Esta
cabeça evanescente resistiu:
nem deusa, nem mulher, apenas ciência
de que nada nos livra de nós mesmos.

Jorge de Sena, Quinze Poetas Portugueses do Século XX, Selecção de Gastão Cruz, Assírio & Alvim, Lisboa 2004

domingo, 23 de fevereiro de 2014

after all

fotograma de Vivre sa vie (1962), de Godard

τῷ μὲν θεῷ καλὰ πάντα καὶ ἀγαθὰ καὶ δίκαια, 
ἄνθρωποι δὲ ἃ μὲν ἄδικα ὑπειλήφασιν, ἃ δὲ δίκαια.

Para o deus, todas as coisas são belas e boas e justas; 
o ser humano é que toma umas por injustas, outras por justas.

Heraclito [B102 DK]