quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A Querela dos Antigos e dos Chineses

Chinese technology, both ancient and medieval, led to empirical discoveries and inventions many of which profoundly affected world history. It is quite clear that the Chinese could plan and carry out useful experiments for the further improvement of techniques, though again always interpreting them by theories of primitive type. It is quite clear that Chinese society, though less favourable to technological advance than post-Renaissance European society, was able to make much greater advances than the slave-owning city-state culture of the ancient Mediterranean region, or the civilisation of feudal Europe. Both these differences call for sociological comment. Who ever may trouble to read this book to the end will, I believe, be astonished at the richness and variety of the techniques which Europe adopted from China, generally with no appreciation of their origin, during the first fourteen centuries of our era. Francis Bacon wrote:
It is well to observe the force and virtue and consequences of discoveries. These are to be seen nowhere more conspicuously than in those three which were unknown to the ancients, and of which the origin, though recent, is obscure and inglorious; namely, printing, gunpowder, and the magnet. For these three have changed the whole face and state of things throughout the world, the first in literature, the second in warfare, the third in navigation; whence have followed innumerable changes ; insomuch that no empire, no sect, no star, seems to have exerted greater power and influence in human affairs than these mechanical discoveries.
During the following centuries, Europeans acquired a much greater knowledge of China than was available when Bacon wrote. But those who should have known better failed to give the acknowledgement that was due. Thus J. B. Bury in our own time, in his history of the Idea of Progress, when describing the Renaissance controversies between the supporters of the ' Ancients ' and those of the 'Moderns', shows that the latter were generally considered to have had the best of it, precisely because of the three great inventions which Bacon described. Yet nowhere in his book is there even a footnote pointing out that none of the three was of European origin.

Joseph Needham. Science and Civilisation in China Vol I. Cambridge at the University Press. (1954)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Filosofia Política Clássica vs Moderna XI


§

Λέγεις σύ, έφη, ῶ πάτερ, εις τὸ πειθομένους έχειν ουδὲν εῖναι ανυτικώτερον τοῦ φρονιμώτερον δοκεῖν εῖναι τῶν αρχομένων. Λέγω γὰρ οῦν, έφη. Καὶ πῶς δή τις άν, ῶ πάτερ, τοιαύτην δόξαν τάχιστα περὶ αὑτοῦ παραχέσθαι δύναιτο; Ουκ έστιν, έφη, ῶ παῖ, συντομωτέρα ὁδὸς περὶ ὧν ὰν βούλῃ δοκεῖν φρόνιμος εῖναι ὴ το γενέσθαι περὶ τούτων φρόνιμον.

Xenofonte. A Educação de Ciro I.6.22. Tradução minha.

«Meu pai, tu dizes que para garantir a obediência não há nada mais proveitoso do que parecer ser mais sensato do que os nossos subordinados.» «É isso mesmo.» «E, meu pai, qual é a maneira mais fácil de fazer com que os outros pensem isso de nós?» «Meu filho, não há maneira mais fácil de parecermos sensatos do que tornarmo-nos sensatos.»


§

A uno principe adunque non è necessario avere in fatto tutte le soprascritte qualità, ma è bene necessario parere di averle; anzi ardirò di dire questo: che, avendole e osservandole sempre, sono dannose, e, parendo di averle, sono utili; come parere piatoso, fedele, umano, intero, religioso, ed essere: ma stare in modo edificato con lo animo che, bisognando non essere, tu possa e sappia diventare il contrario.

Maquiavel. O Príncipe. Capítulo XVIII. Tradução minha.

De forma que um príncipe não tem de efectivamente de possuir todas as qualidades acima nomeadas, mas tem certamente de parecer tê-las; aliás, vou até mesmo dizer que se as possui e age sempre em conformidade com elas, são-lhe nocivas, enquanto que se parecer tê-las são-lhe úteis; tal como parecer piedoso, leal, humano, íntegro, religioso, e sê-lo; mas estar disposto para consigo mesmo a, se for necessário não o ser, seres capaz e saberes tornar-te no contrário.


Imagem: Guido Veronese, A Família de Dario diante de Alexandre 1565-1570 @ Londres, National Gallery

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Concurso de Contos de Inspiração Clássica


A Origem da Comédia promove este ano, pela primeira vez, um concurso de contos de inspiração clássica. Poderão participar alunos de secundário e universitários, em categorias distintas. O prémio é no valor de 250€ e o texto vencedor será publicado no renovado Boletim de Estudos Clássicos. O concurso está aberto de 1 de Março a 31 de Maio e os contos deverão ser enviados para oc_concursoconto@gmail.com.  Abaixo segue o Regulamento, com todos os pormenores. Pedimos a ajuda de todos os nossos leitores na divulgação do concurso e esperamos os vossos textos.

REGULAMENTO
CONCURSO DE CONTO DE INSPIRAÇÃO CLÁSSICA

O concurso de Conto de Inspiração Clássica é uma iniciativa desenvolvida pela Origem da Comédia, uma sub-secção afecta à Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, que tem como objectivo fomentar a (re)leitura e a (re)escrita dos fundamentos clássicos da nossa cultura, revelar a presença desses paradigmas na nossa memória e no imaginário contemporâneos, reiterando a actualidade e perenidade deste legado da Antiguidade na Cultura Portuguesa.

1. Âmbito de Aplicação

Artigo 1 Podem concorrer todas as obras inéditas em língua portuguesa e no género literário do conto.
Artigo 2 Numa primeira categoria, poderão participar todos os estudantes universitários até ao 3o ciclo de doutoramento (inclusive), com limite de idade até 35 anos.
Artigo 3 Numa segunda categoria, poderão participar todos os estudantes do ensino secundário. 
Artigo 4 Podem concorrer membros sócios da Origem da Comédia, desde que não sejam elementos pertencentes à Direcção ou ao Secretariado do Concurso. 
Artigo 5 Podem participar estudantes de qualquer nacionalidade, se estiverem inscritos numa instituição portuguesa e desde que escrevam em Língua Portuguesa.

2. Inscrições e entrega dos trabalhos

Artigo 6 A inscrição é gratuita e o período para a submissão do Conto estará aberto de 1 de Março a 31 de Maio de 2014. 
Artigo 7 A inscrição deve ser feita para o Secretariado do Concurso via email (oc_concursoconto@gmail.com), através do envio da proposta juntamente com algumas informações pessoais tais como o nome completo, número de telefone, email pessoal, nome de Escola Secundária ou Universidade com respectivo comprovativo de matrícula e data de nascimento. 
Artigo 8 No caso do Conto vencedor, aquando a inscrição o participante autoriza automaticamente a Organização a publicar e a reproduzir o conteúdo, respeitando-se os direitos de autor.
Artigo 9 Durante o processo de selecção e seriação das propostas, os candidatos poderão solicitar informações junto do secretariado do concurso, não sendo permitido qualquer contacto com os elementos constituintes do júri. O não cumprimento deste critério é factor de desclassificação. 

3. Formato da composição do conto

Artigo 10 Cada participante só pode escrever um conto, que deverá ser inédito, original e em língua portuguesa. Qualquer situação de plágio remeterá à desclassificação.
Artigo 11 A redacção deve ser em Times New Roman, corpo 12, espaçamento 1,5, espaçamento de margens 2,5 em altura e largura, e deve ter até 9 páginas A4. O documento deve ser depois enviado em PDF. 
Artigo 12 O conto deve cumprir, pelo menos, um dos seguintes requisitos: ter como pano de fundo um mito greco-latino, seguir a estética literária de algum autor clássico ou fazer a evocação de alguma personagem ou episódio da Antiguidade.

4. Obras a premiar

Artigo 13 Serão seleccionados dois contos, em cada uma das categorias, com a atribuição dos respectivos prémios.
1º prémio: 250 euros, Livros de temas clássicos, Publicação do Conto no Boletim de Estudos Clássicos.
2ºprémio: Livros de temas clássicos, Publicação do Conto no Boletim de Estudos Clássicos,
Artigo 14 A Direcção informará os vencedores por telefone no final do mês de Julho e a premiação terá lugar no mês de Setembro. 
Artigo 15 Está previsto a não atribuição de prémio se o jurí considerar que nenhum proposta cumpre os critérios de qualidade literária. 

5. Composição do Júri

Artigo 16 O Júri do concurso será composto por Frederico Lourenço, por Mário Cláudio, Paula Barata Dias (Presidente da Associação Portuguesa de Estudos Clássicos) e Ana Isabel Martins (membro da Direcção da Origem da Comédia).
Artigo 17 Tudo quanto possa suscitar dúvidas coloca-se ao critério do Júri.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Equipa Espanhola anuncia a descoberta de Sarcófago da 17ª Dinastia, em Luxor


E se todos estávamos já bastante satisfeitos com as descobertas papirológicas deste ano, eis que o Egipto nos volta a presentear. Esta semana uma equipa de arqueólogos espanhola, divulgou a descoberta na necrópole de Dra Abu El Naga, em Luxor, de um sarcófago da 17ª Dinastia (c. 1600 a. C.). Aguarda-se a revelação da identidade da múmia, mas, pelo local onde se encontrava (numa necrópole destinada à sepultura de membros da família real) e pela exuberância do sarcófago, pode avançar-se com alguma segurança que se trata de uma figura maior da família real desta Dinastia.
Este ano, de facto, promete!



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

The Digital Loeb

(agradecemos à Sophia por ter chamado a nossa atenção para esta feliz notícia)


The Loeb Classical Library®, founded by James Loeb in 1911, has from the very beginning fostered its stated mission to make classical Greek and Latin literature accessible to the broadest range of readers. The digital Loeb Classical library extends this mission for readers of the twenty-first century. Harvard University Press is honored to renew James Loeb’s vision of accessibility and with the introduction of the digital Loeb Classical Library presents an interconnected, fully searchable, perpetually growing, virtual library of all that is important in Greek and Latin literature. Epic and lyric poetry; tragedy and comedy; history, philosophy, and oratory; the great medical writers and mathematicians; those Church fathers who made particular use of the Classics—in short, our entire Greek and Latin Classical heritage is represented here with up-to-date texts and accurate and literate English translations. 523 volumes of fully searchable Latin, Greek, and English texts are available in a modern and elegant interface, allowing readers to browse, search, bookmark, annotate, and share content with ease.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Tradução do novo poema de Safo (dito 'dos Irmãos')


Continuando a saga dos novíssimos poemas da Safo (à qual ainda haveremos de voltar), a Origem da Comédia apresenta uma tradução para português do primeiro poema contido no papiro cujos conteúdos foram recentemente divulgados (em rascunho) pelo papirólogo David Orbink. O segundo poema, um hino a Afrodite, está bastante danificado, mas o primeiro, que aqui apresentamos, menciona os irmãos de Safo Cáraxon e Larico, e a opinião da poeta face às aventuras comerciais e eróticas do primeiro, e principalmente a sua angústia pelo seu regresso seguro, assim como a esperança de que o segundo possa assumir um caminho diferente do seu irmão.



Mas repetes que Cáraxon partiu
Com a nau lotada. Julgo que Zeus
Sabe isso e os restantes deuses também. Não
Te preocupes.

Mas ordenas-me também que parta
E suplique à rainha Hera
Que Cáraxon regresse
Na sua nau

E nos encontre de boa saúde. Tudo
O resto aos deuses o confiemos:
Após a tempestade a bonança
De súbito surge.

Aqueles a quem o Rei do Olimpo envia
Um deus padroeiro que os ajude
Nos tempos difíceis são felizes
E abençoados.

Quanto a nós, se o Larico se decidisse a erguer
A cabeça e a fazer-se homem,
Da nossa angústia logo
Nos livraríamos.


Tradução conjunta de Miguel Monteiro & de Sophia Carvalho.
O texto grego utilizado para a tradução foi aquele disponibilizado pelo Obbink como coda a esta conferência.



Imagem:
Francis Coates Jones, Sappho (~1895) @ Colecção privada


ἀλλ’ ἄϊ θρύλησθα Χάραξον ἔλθην
νᾶϊ σὺμ πλέαι· τὰ μέν, οἴομαι, Ζεῦς
οἶδε σύμπαντές τε θέοι· σὲ δ᾽οὐ χρῆ
ταῦτα νόεισθαι,

ἀλλὰ καὶ πέμπην ἔμε καὶ κέλεσθαι
πόλλα λίσσεσθαι βασίληαν Ἤραν
ἐξίκεσθαι τυίδε σάαν ἄγοντα
νᾶα Χάραξον,

κἄμμ’ ἐπεύρην ἀρτέμεας· τὰ δ’ ἄλλα
πάντα δαιμόνεσσιν ἐπιτρόπωμεν·
εὐδίαι γὰρ ἐκ μεγάλαν ἀήταν
αἶψα πέλονται·

τῶν κε βόλληται βασίλευς Ὀλύμπω
δαίμον’ ἐκ πόνων ἐπάρωγον ἤδη
περτρόπην, κῆνοι μάκαρες πέλονται
καὶ πολύολβοι.

κἄμμες, αἴ κε τὰν κεφάλαν ἀέρρῃ
Λάριχος καὶ δήποτ᾽ἄνηρ γένηται,
καὶ μάλ’ἐκ πόλλαν  βαρυθύμιάν κεν
αἶψα λύθειμεν.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

isto é muita emoção!

Há um novo novo fragmento de Safo!: o P. Köln 21351 [tradução e análise aqui: pp. 93-118] foi destronado do seu título, dez anos volvidos sobre a sua descoberta. A obra da poetisa vê-se enriquecida com este acréscimo substancial: falamos de praticamente trinta versos. Circula já na net o rascunho de um paper que Obbink, porventura o maior papirologista na área vivo, lerá em Março, onde o poema é apresentado e discutido. A Origem promete aos seus leitores regressar ao assunto. Dificilmente 2014 nos reserva maior surpresa que esta — mas quem sabe! 








cabeça de Safo, cópia em mármore de um original helenístico
@ Museu Arqueológico de Istambul 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Balanchine: a harmonia e a lógica clássica do movimento

"A significação máxima do homem pode cifrar-se no seu estar de pé", 
Vergílio Ferreira, Invocação ao meu corpo


"A resposta mais clara e mais duradoura, mais eficaz para a afirmação da hegemonia do Bailado, veio já no fim da vida dos Ballet Russes, em 1928, com Apollon Musagète, de Stravinsky-Balanchine. Neste ballet, a tradição clássica, em vez de se renegar ou de se disfarçar, como outras vezes fizera, é assumida completamente, reclamando a sua legitimidade, a sua criatividade. O Bailado proclama a causa da sua autenticidade, a lógica da sua vocação não-narrativa, e apodera-se plenamente da bagagem da técnica clássica para a levar mais longe. (...)
Ao escrever a partitura de Apollo - um ballet que, mais uma vez, parte da doutrina do compositor e não da fé do coreógrafo -, Stravinsky declarava explicitamente as suas intenções:

Podia realizar uma ideia em que pensava havia algum tempo, ou seja, compor um ballet sobre alguns momentos ou episódios da mitologia grega, cuja plasticidade seria dada sob uma forma transfigurada pela dança dita clássica. Decidi-me pelo tema de Apolo Musageta, o chefe das musas inspirando a cada uma a sua arte. Reduzi a três o seu número e escolhi Calíope, Polímnia e Terpsicore como as mais representativas da arte coreográfica. (...)

Apollon foi muitas vezes acusado de não pertencer ao teatro. É verdade que não há uma acção violenta, embora haja um ligeiro fio de história. (...)

Apollon faz parte do movimento geral du retour à l'ordre, à precisão clássica, como resposta à efusão quase barroca do início do século"

José Sasportes, Pensar a Dança, a reflexão estética de Mallarmé a Cocteau, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2006, p.194-196

Apollon Musagète

O bailado Apollon é dividido em duas partes: numa primeira parte, na versão original (muitas vezes ignorada em reposições), um prólogo em que se relata o nascimento de Apolo e a sua mãe em sofrimento de parto; numa segunda parte, Apolo cresce e aperfeiçoa a sua arte. É então visitado por três musas, Calíope, Polímnia e Terpsicore, as quais inicia também, respectivamente, cada uma, na sua arte: poesia, retórica e dança.

Na visualização do vídeo, podemos observar os seguintes momentos baléticos:
.Nascimento de Apolo
.Variação de Apolo,
.Pas de Quatre: Apolo e as Três Musas
.Variação de Calíope
.Variação de Polímnia
.Variação de Terpsicore
.Segunda Variação de Apolo
.Pas de Deux
.Coda
.Apoteose

 Vídeo: performance mais antiga do New York City Ballet, restaurada da coreografia original, com cenário completo, nascimento de Apolo e a subida final ao Monte Parnaso

Se a informação encontrada estiver correcta, Apollon foi dançado pela última vez no dia 22 de Setembro de 2012, pelo NewYork City Ballet.


sábado, 28 de dezembro de 2013

Civis Romanus Sum


European literature is coextensive in time with European culture, therefore embraces a period of some twenty-six centuries (reckoning from Homer to Goethe). Anyone who knows only six of seven of these from his own observation and has to rely on manuals and reference books for the others is like a traveler who knows Italy only from the Alps to the Arno and gets the rest from Baedeker. Anyone who knows only the Middle Ages and the Modern Period does not even understand those two. For in his small field of observation he encounters phenomena such as "epic", "Classicism," "Baroque" (i.e., Mannerism), and many others, whose history and significance are to be understood only from the earlier periods of European literature. To see European literature as a whole is possible only after one has acquired citizenship in every period from Homer to Goethe. This cannot be got from a textbook, even if such a textbook existed. One acquires the rights of citizenship in the country of European literature only when one has spent many years in each of its provinces and has frequently moved about from one to another. One is a European when one has become a civis Romanus.

Ernst Robert Curtius. European Literature and the Latin Middle Ages. Willard R. Trask (trad). Bollingen (1953).


Se o conseguir acabar a tempo, possivelmente o melhor livro académico que terei lido em 2013 (competindo apenas com o Bild und KultLikeness and Presence do Hans Belting). Também um dos livros que mais me fez doer a minha pequenez: não é de espantar quando lemos livros de áreas do saber distantes da nossa onde a extensão do conhecimento nos espanta. Mas a experiência de ser tão avassaladoramente esmagado por um livro dentro da área a que me devotei — Literatura, Estudos Clássicos — é algo veramente impagável. Pois este parece que leu tudo, e mais que isso, que lembrou tudo com fixação da passagem exacta, do capítulo, do verso: desde os cantos do Homero a obras obscuras da Antiguidade tardia, passando por referências retóricas encatenadas a partir de poemas medievais, todo o Renascimento, até às obras juvenis do Goethe, liga tudo neste grande monumento à filologia e à Humanitas que explica e implica as literaturas europeias nos cânones retóricos e poéticos da herança comum da Antiguidade. Disto não se ensina, e nós que temos acesso digital instantâneo a todas estas obras às quais ele tinha que manter registos escritos deveríamos sentir pudor perante este gigantismo.