quinta-feira, 11 de julho de 2013

Um Rei no Céu e na Terra

Alexandre mais uma vez caiu no desespero. Não desejava governar a não ser enquanto rei da Europa, da Ália, da Lýbia, e de qualquer ilha outra que pudesse ainda existir no meio do Oceano. Sofria do mal oposto àquele que Homero narra sobre Aquiles nos infernos, que preferia viver enquanto servo
de um homem miserável sem posses
que ser rei de todos os mortos destruídos.
E além disso creio até que Alexandre preferiria até mesmo morrer e ser rei dum terço dos mortos do que  tornar-se num deus e viver para todo o sempre, se não se tornasse também rei de todos os deuses restantes.

Dio Chrysóstomos. Περὶ Βασιλείας δ· (De Regno IV) — 49/50. Tradução minha.

Ὁ οὖν Ἀλέξανδρος πάλιν ἐλυπεῖτο καὶ ἤχθετο. Οὐδὲ γὰρ ζῆν ἐβούλετο, εἰ μὴ βασιλεὺς εἴη τῆς Εὐρώπης καὶ τῆς Ἀσίας καὶ τῆς Λιβύης καὶ εἴ πού τίς ἐστι νῆσος ἐν τῷ Ὠκεανῷ κειμένη. Ἐπεπόνθει γὰρ τοὐναντίον ἤ φησιν Ὅμηρος τὸν Ἀχιλλέα νεκρὸν πεπονθέναι. Ἐκεῖνος μὲν γὰρ ἔλεγεν ὅτι ζῶν βούλοιτο θητεύειν
ἀνδρὶ παρ' ἀκλήρῳ ᾧ μὴ βίοτος πολὺς εἴη,
ἢ πᾶσιν νεκύεσσι καταφθιμένοισιν ἀνάσσειν
ὁ δὲ Ἀλέξανδρος δοκεῖ μοι ἑλέσθαι ἂν καὶ τοῦ τρίτου μέρος τῶν νεκρῶν ἄρχειν ἀποθανὼν ἢ ζῆν τὸν ἅπαντα χρόνον θεὸς γενόμενος μόνον, εἰ μὴ βασιλεὺς γένοιτο τῶν ἄλλων θεῶν.


(A este propósito, lembrar também a passagem do Theages de Platão lembrada por Nietzsche nos fragmentos para a Vontade de Poder,
Εὐξαίμην μὲν ἂν οἶμαι ἔγωγε τύραννος γενέσθαι, μάλιστα μὲν πάντων ἀνθρώπων, εἰ δὲ μή, ὡς πλείστων· καὶ σύ γ' ἂν οἶμαι καὶ οἱ ἄλλοι πάντες ἄνθρωποι – ἔτι δέ γε ἴσως μᾶλλον θεὸς γενέσθαι – ἀλλ' οὐ τούτου ἔλεγον ἐπιθυμεῖν. 
Aquilo que eu mais desejaria era tornar-me rei de toda a raça humana, e se assim não pudesse ser, de tantos quantos possível. E o mesmo desejarias tu, desejariam todos os que vivem — e até mesmo ser deus — mas eu não disse que queria isso. 
 PlatãoTheages 125e8-126a4. Tradução minha.)

sábado, 22 de junho de 2013

Hanc augusta dedit libris Collimbria sedem

Hanc augusta dedit libris Collimbria sedem
Ut caput exornet bibliotheca suum
Coimbra está em alta. Depois de termos tido a oportunidade o passado fim-de-semana para ouvir a Nona do Beethoven para comemorar os 500 anos da Bibliotheca, temos hoje a notícia de que a Universidade, Alta e Sofia foram pronunciadas património da humanidade pela UNESCO. Como um advena que foi pela cidade e universidade humanamente recebido,
Parabéns & obrigado!

A augusta Coimbra concedeu aos livros esta morada
Para que a bibliotheca fosse uma coroa à sua cabeça.


quinta-feira, 20 de junho de 2013

entretanto em Itália

O passo de tradução que calhou no exame de Latim realizado hoje nos liceus italianos.

Sed nunc genera ipsa lectionum, quae præcipue convenire intendentibus ut oratores fiant existimem, persequor. Igitur, ut Aratus ab Jove incipiendum putat, ita nos rite cœpturi ab Homero videmur. Hic enim, quem ad modum ex Oceano dicit ipse amnium fontiumque cursus initium capere, omnibus eloquentiæ partibus exemplum et ortum dedit. hunc nemo in magnis rebus sublimitate, in parvis proprietate superaverit. Idem lætus ac pressus, jucundus et gravis, tum copia tum brevitate mirabilis, nec poetica modo sed oratoria virtute eminentissimus. Nam ut de laudibus exhortationibus consolationibus taceam, nonne vel nonus liber, quo missa ad Achillem legatio continetur, vel in primo inter duces illa contentio vel dictæ in secundo sententiæ omnis litium atque consiliorum explicant artes? Adfectus quidem vel illos mites vel hos concitatos nemo erit tam indoctus qui non in sua potestate hunc auctorem habuisse fateatur. Age vero, non utriusque operis ingressu in paucissimis versibus legem prohoemiorum non dico servavit, sed constituit? Nam et benivolum auditorem invocatione dearum quas praesidere vatibus creditum est et intentum proposita rerum magnitudine et docilem summa celeriter comprensa facit. Narrare vero quis brevius quam qui mortem nuntiat Patrocli, quis significantius potest quam qui curetum Ætolorumque prœlium exponit?

Quintiliani Istitutio oratoria, X 1, 45-48

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Do Humanismo às Humanidades

As philology became value-free and pedagogy became pragmatic, the larger value of both enterprises was called into question. Why study the ancient world if not to became more virtuous? But a training in virtue now seemed to be one quality that neither scholars nor teachers could offer. Since Montaigne — one of the first to offer these criticisms in a cogent form — the claim that the liberal arts would produce 'new men', men of an enhanced virtuous disposition, has often been repeated; and new generations of believers in the ideals of early humanism have tried to show that some new form of literary education could achieve this goal. For all their brilliance, and for all their formative influence upon practitioners of the liberal arts, neither Wilhelm von Humboldt nor Lionel Trilling, neither F.R. Leavis nor G. Gentile has had an impact on anything but a small segment of élite education in the West, or satisfied more than a handful of critics with the intellectual centrality of their enterprise. Like them, we watch as our most gifted students master the techniques and methods of textual analysis, the command of ancient and modern languages (which they can transpose effectively to new and developing disciplines), but in the main discard that over-arching framework of 'civilised values' by which teachers of the humanities continue to set store. Whether we like it or not, we still live with the dilemma of late humanism: we too can only live in hope, and practise the humanities.

Anthony Grafton & Lisa Jardine. From Humanism to the Humanities. Duckworth (1986).

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Celebração da Primavera — Richard Strauss



Das ist des Frühlings traurige Lust!
Die blühenden Mädchen, die wilde Schar,
Sie stürmen dahin mit flatterndem Haar
Und Jammergeheul und entblößter Brust:
"Adonis! Adonis!"

Es sinkt die Nacht. Bei Fackelschein
Sie suchen hin und her im Wald,
Der angstverwirret widerhallt
Vom Weinen und Lachen und Schluchzen und Schreien:
"Adonis! Adonis!"

Das wunderschöne Jünglingsbild,
Es liegt am Boden blaß und tot,
Das Blut färbt alle Blumen rot,
Und Klagelaut die Luft erfüllt:
"Adonis! Adonis!"

Texto de Heinrich Heine.
É este o triste prazer da Primavera!
As raparigas em flor* em manadas selvagens
Precipitam-se de cabelos desgrenhados
E com o peito exposto lamentam
«Adónis! Adónis

A noite cai. À luz de archotes
Procuram-no em toda a floresta,
O eco pavorosamente repetido
Entre choros e risos e gritos e suspiros
«Adónis! Adónis

A figura magnífica do jovem
Deitada no chão pálida e morta;
O sangue tinge as flores de vermelho,
E inunda o vento o lamento de
«Adónis! Adónis!»

Tradução minha

*Consta-me que estas blühenden Mädchen foram quem deu o título ao volume II da Recherche.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Bom dia



Classical sculptures hilariously dressed on modern days outfits, pelo fotógrafo Léo Caillard (retocadas digitalmente por Alexis Persani), no seu projecto Street Stone. Embora isto pudesse recair sobre a etiqueta "humor" é interessante que Léo Caillard nos diga que o seu objectivo era criar uma imagem da junção de dois mundos tão diferentes.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

29 de Maio — Queda de Byzantion





When he left the Cathedral [da Santa Sabedoria] the Sultan rode across the square to the old Sacred Palace. As he moved through its half-ruined halls and galleries it was said that he murmured the words of a Persian poet: 'The spider weaves its curtains in the palace of the Caesars; the owl calls the watches in Afrasiab's towers.'

Steven Runciman. The Fall of Constantinople. CUP (1965).

A 29 de Maio de 1453 a cidade de Byzâncio foi tomada no cerco de Mahmet II.

terça-feira, 28 de maio de 2013

[C3|3 #3] Ciclo Clássicos no Cinema II: 'Το βλέμμα του Οδυσσέα/O Olhar de Ulisses', de Theo Angelopoulos (1995)

O ciclo de cinema da Origem fecha-se finalmente com uma última sessão no Porto, em que exibiremos O Olhar de Ulisses, de Theo Angelopoulos, o grande realizador grego que infelizmente nos abandonou há pouco mais de um ano enquanto trabalhava nas filmagens do seu novo filme. Angelopoulos viria a ganhar com a sua obra seguinte, Eternidade e Um Dia (1998), a Palma de Ouro, mas, na altura, desabafou que o palmarés chegava atrasado, com isso reconhecendo O Olhar de Ulisses como a sua grande obra, que foi galardoada em Cannes "apenas" com o Grande Prémio do Júri. 

O Olhar de Ulisses é o filme do meio da trilogia que o realizador dedicou às fronteiras e aos Balcãs (para um resumo do argumento pelo próprio realizador, vide). O personagem principal, um realizador de nome A., percorre a península em busca das bobines do primeiro filme dos irmãos Manakis, os pioneiros do cinema nos Balcãs. A sua viagem replica, de alguma forma, as deambulações de Ulisses e, como o herói clássico, nas suas paragens vai-se cruzando com misteriosas mulheres, que são uma e muitas, a tempos encarnando Circe, Nausícaa, Calipso, Penélope. 

O filme é duplamente pertinente, não só por esta revisitação do motivo homérico (que, de resto, reaparece noutros pontos na obra do realizador) como pela interrogação que constitui sobre a Grécia moderna e, até mais amplamente, sobre os Balcãs (grassava então a guerra em Sarajevo, cujas ruínas são o cenário de fundo de uma das cenas mais belas de toda a filmografia do autor e, quiçá, de todo o cinema). Fica o convite a este desafio de pensar os gregos, velhos e novos, a partir desta meditação filmada de Angelopoulos. Para nos orientar e estimular, teremos connosco Joana Matos Frias, professora da FLUP, que, no início,  nos dará algumas pistas de leitura da obra, em torno da qual conversaremos todos no fim.  


O OLHAR DE ULISSES, de Theo Angelopoulos 
apresentado por Joana Matos Frias
legendas em inglês 

31 de Maio, 18h30 
Sala 201, Faculdade de Letras,
Universidade do Porto, Porto

segunda-feira, 27 de maio de 2013

'Hairdo Archaelogist' solves ancient fashion archaelogist

Para vocês que, tal como eu, sempre se perguntaram como é aquelas romanas faziam os seus penteados, aqui vai.*

*Esperando que o BBC iPlayer funcione desse lado, se não, eis o link no youtube. 


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Ancient Lives Project


Schoolchildren, pensioners and office workers are helping scholars at Oxford University to transcribe 2,000-year-old documents. In the 1890s archaeologists dug up a huge haul of papyri written in ancient Greek in Oxyrhynchus, Egypt. But until last year, scholars had managed to translate just 1% of them. Now the Ancient Lives project has enlisted thousands of internet users, who have already helped to transcribe more texts than diligent scholars had managed in the previous 100 years. Everything from shopping lists to a new gospel has been revealed in this extraordinary example of 'citizen science'.